Arquivo da Categoria: Avant-Rock

Brian Eno – “Eno I (temas instrumentais) + Eno II (temas vocalizados)”

pop rock >> quarta-feira, 01.12.1993


HINO A ENO



São no total seis discos compactos, mais dois livretes, divididos por duas caixas cartonadas intituladas simplesmente Eno I (temas instrumentais) e Eno II (temas vocalizados). Uma antologia, portanto, como tantas outras, cujo objectivo principal é facturar À custa da reciclagem de produto antigo? Neste caso, não.
“Eno I” e “Eno II” – vamos considera-los como sendo apenas uma obra – é um objecto fascinante que traz de facto, algo de novo e interessante para a compreensão de um dos maiores artistas vivos deste século. Por várias razões. Em primeiro lugar, como é evidente, pela música. Pelo que ela é mas também pela maneira como é apresentada. Há material original que, ao contrário do que é vulgar acontecer neste tipo de antologias, está longe de ser supérfluo. Depois, é o contexto e a selecção cuidada dos temas, a permitir múltiplas leituras e novas perspectivas de uma estética que se estende não só pela música como pelo vídeo, a escultura, a pintura, a literatura, vértices de uma arte total ainda à procura de definição, sem esquecer o campo da teorização e da conceptualização que Eno (“professor Eno”, como é conhecido no meio musical) manipula como poucos, numa desmultiplicação feérica de novas teorias e conceitos que parecem nunca chegar para conter a sua ânsia de criação. Neste aspecto os dois livretes com texto, um da autoria de Paul Morley, jornalista britânico do “New Musical Express”, membro da editora independente ZTT e Enófilo de longa data, outro assinado pelo músico e teórico David Toop (com um álbum “New And Rediscovered Musical Instruments” editado no selo Obscure, de Eno) são suficientemente esclarecedores e estimulantes para uma abordagem guiada a pontos fundamentais da obra e personalidade do ex-Roxy Music que inventou a música ambiental. Mais subjectivo e expressionista o primeiro, oferecenedo imagens e sugestões de leitura, mais do que informação concreta; privilegiando um certo rigor histórico o segundo, que vem acompanhado de análise e interpretação da discografia de Brian Eno, bem como de um enquadramento e despistagem formal de antecedentes musicais, nomeadamente no Debussy de “Images”, no Schoenberg de “The Changing Chord-Summer Morning by a Lake-Colours”, no Ligeti de “Atmosphères”, no Morton Feldman de “Durations” ou no paradigma de todos os silêncios que é a peça “4m33s” de John Cage. Mencionam-se os minimalistas, de LaMonte Young a Riley, os “progressivos” da década de 70 e continuadores como The Black Dog, B 12 e The Orb.
Paul Morley, por seu lado, diverte-se com jogos, um pouco como as estratégias oblíquas do acaso controlado criadas em conjunto por Eno com o pintor (já falecido) Peter Schmidt, levadas à prática com resultados excepcionais nos álbuns “Another Green World” e “Before and After Science”. Propõe ainda uma lista de referências em que, pelomesmo fenómeno de agregação mágico-intuitiva das associações automáticas realizadas pelso surrealistas ou das próprias “oblique strategies”, os vários nomes encaixam de maneira mais ou menos evidente na obra, ideias e estratégias do visado: Lewis Carroll, Robert Wyatt, Stockhausen, Hendrix, Duchamp, Velvet Underground, Sly and Family Stone, Pollock, Beckett, Breton, Godard, Billy Fury, Syd Barrett…
Há ainda um alfabeto de Eno e uma entrevista (real ou simulada, pouco importa, já que o espírito de Eno está presente do princípio ao fim). Um excerto: “É possível responder a uma pergunta realmente boa em apenas uma palavra?”. Resposta de Eno: “Sim” “O que é uma pergunta estúpida?” Resposta: “Aquela de que já sabemos a resposta.” “Esta pergunta é estúpida?” Resposta: “Acho que não, porque não sei a resposta.”
Como se tudo isto não bastasse para dedicarmos os próximos três meses a repensar e reescutar a obra de Brian Eno, ainda somos confrontados com uma apresentação deslumbrante, em que todas as imagens parecem ter sido pensadas ao pormenor para nos prenderem a atenção e porem a inteligência em estado de alerta.
Por último, somos esmagados sem contemplações pelo som, de longe melhor do que o de qualquer das edições originais já editadas, graças à utilização de uma nova técnica de gravação e mistura que elimina por completo quaisquer ruídos residuais, ao mesmo tempo que valoriza as mínimas “nuances” musicais. Não é banha da cobra, basta fazer a comparação. Um espanto. Eno, entretanto, não pára. Depois do pós-pós-modernismo de “Nerve Net”, o neoclassicismo ambiental de “The Shutov Assembly” e as fragrâncias de silêncio de “Neroli”, prepara já um livro-colectânea de ensaios intitulado “Different Settings of the Zoom Lens” (“diferentes colocações de uma lente de ‘zoom’”) e a produção do próximo álbum de Laurie Anderson.





Eno I, disco 1

“Another Green World”, do álbum do mesmo nome, e 2Energy fools magician”, de “Before and After Science” são os primeiros temas a desaguar num oceano de som sem margens visíveis. As ondas do tempo entrelaçam-se nas várias edições de “Music For Films”: nas onze composições de “Music for Films I”, oito de “Music for Films II” (com Roger Eno e Daniel Lanois), uma de “Music for Films III” e oito de “Music for Films (Directors Edition), este um conjunto de versões prévias datadas de 1975 que viriam a originar o primeiro volume “oficial”. Imagens multidimensionais de um filme interior em projecção perpétua. Ainda “Dover Beach”, tema da banda original de “Jubilee”.

Disco 2

As colaborações com outras galáxias que não dispensam o silêncio. “Warszawa”, da missa negra celebrada com David Bowie no segundo lado de “Low”, “Moss Garden”, ainda com Bowie, do álbum “Heroes”. Dois temas com Jon Hassell, um de “Fourth World, vol. I (Possible Musics)”, outro de “Dream Theory in Malaya (Fourth World, vol. II)” e outros dois com Harold Budd, de “The Plateaux of Mirror” e “The Pearl”, recriam e tornam reais geografias paralelas, manifestações sonoras de arquétipos míticos que Jung e Laing trouxeram para a superfície. Os Cluster, de Moebius e Roedelius, aparecem com “Ho Renomo”, da primeira colaboração conjunta, “Cluster & Eno”. Regressa “Music for Films III” com mais quatro temas. O EP “Rarities”, incluído em “Working Backwards 1983-1973” contribui com outros dois. Final de extremos, entre a imponderabilidade das estrelas e metais em fusão,respectivamente “Stars”, de “Apollo Atmospheres & Soundtracks”, e um excerto de “Na Indexo f Metals”, do demoníaco “Evening Star”, com Robert Fripp

Disco 3

Vagas de ambientalismo de todas as cores e texturas recolhidas de “Music Forirports” (um tema, em quinze minutos sem cortes de “1/1”), 2Duiscreet Music” (excerto), “Thursday Afternoon” (excerto), “On Land” (“The lost day” e “Dunwich beach, Autumn 1960”), “The Shutov Assembly” (excerto de “Ikebukuro”) e “Neroli” (excerto). Estruturas de uma nova música que utiliza o espaço e o tempo como pontes para a sua transcendência. Arquitectura platónica. Formas e sentidos de uma relatividade absoluta.



ENO II, disco 1

Regresso aos primeiros tempos das plumas e maquilhagem, do sintetizador VCS3 e das canções. A continuação a solo de uma operação de travestismo pop encetada por Eno nos Roxy Music de “Roxy Music” e “For Your Pleasure”. Em “Here Come The Warm Jets”, aqui representado por oito temas fundamentais, com o incendiário “Baby’s on fire” à cabeça. A sequência, já com Peter Schmidt a encarregar-se do “design” da capa, “Taking Tiger Mountain (by Strategy)” contribui com mais sete canções que marcam o início da pacificação do artista. Completam a lista destes prévios exerc´cicios de malabarismo os lados A dos singles “Seven deadly finn” e “The lion sleeps tonight (Wimoweh)”.

Disco 2

Aquele que apresenta um conteúdo estruturado de forma mais convencional. Onde se prova a importância que Brian Eno reconhece na sua obra aos álbuns “Another Green World” e “Before and after Science”, no fundo aqueles que conseguem o equilíbrio (ou desequilíbrio, com Eno convém repensar o sentido dos termos…) perfeito entre a canção pop e a vertente extática do ambientalismo que viria a dominar a fase posterior da sua obra. Do primeiro apenas foi deixado de fora um tema. Quanto ao segundo, uma das peças-chave da discografia pop de todos os tempos, cabe na totalidade nesta antologia. Nele cada canção ganha os contornos de um ideal. O som que as serve subiu agora à sua altura.

Disco 3

De novo as colaborações, desta vez com nomes como David Byrne (no seminal álbum de montagem e colagem chamado “My Life In The Bush Of Ghosts”, com três temas escolhidos, entre os quais o perturbante exorcismo gravado em directo em “The Jezebel spirit”), John Cale, com três canções do reencontro “Wrong way up” e a belíssima 2The soul of Carmen Miranda” recortado do álbum do recentemente regressado aos Velvet Underground, “Words for the Dying”. Moebius e Roedelius, os Cluster, contribuem com “The belldog”, uma das faixas vocalizadas da segunda colaboração “After the Heat”. A abertura coincide com a versão em single de “King’s lead hat”, faixa de “Before and after Science” aqui gravada com Snatch e o fecho com um inédito de 1991, “Are they thinking of me?”. Um par de temas do recital de nevrose que é “Nerve Net” serve de preâmbulo para os cinco temas, também inéditos, do álbum nunca editado que lhe viria a dar origem, “My Squelchy Life”. Blocos de pura energia que pegam na rítmica africana dos Talking Heads, nos arabescos dos Dissidenten e em toda a espécie de desperdícios sonoros da civilização tecnológica ocidental, para com estes elementos dar corpo a um discurso sonoro sem paralelo na música deste século.

Producers For Bob – “Bob’s Media Ecology” + Vários – “Bob’s Media Ecology 2”

pop rock >> quarta-feira, 20.10.1993


Producers For Bob
Bob’s Media Ecology (8)
Vários
Bob’s Media Ecology 2 (7)
DOV, import. Contraverso

>br/>


Ecologia mediática, nem mais nem menos, é o tema que ao longo dos últimos anos Bob Dobbs, um discípulo de Marshall McLuhan, vem dissecando, num daqueles estranhos programas radiofónicos independentes que abundam nos Estados Unidos. Mas também pode muito bem ser uma daquelas treats do estilo das que os Negativland gostam de inventar. A nova ecologia, segundo Dobbs, tem por objectivo orientar e alertasr o indivíduo numa relação, já não com a Natureza, mas com o mundo mediático da informação e respectiva manipulação. Os canadianos Producers for Bob pegaram em extractos de emissões, manipulando por sua vez o discurso e acrescentando-lhe toneldas de tecnologia e montagem sonoras, seguindo uma estratégia em tudo idêntica à dos Negativland. Criaram 30 pequenas peças electrónicas e conceptuais e chamaram-lhes “Hand signals for the blind” ou um “souvenir from a ritual-in-progress”.
“Bob’s Media Ecology 2” é um conjunto de remisturas de temas do primeiro volume, bastante mais dançáveis, assinadas pelso Negativland, precisamente, Steinski, Coldcut e os próprios Producers for Bob, intercaladas por excertos de diálogos e monólogos de Bob Dobbs, dos quais se destaca o longo manifesto “Four levels of exegesis”. Irresistíveis são as duas versões de “Discarnate mix”: uma “bass mix” de rebentar as tripas e a versão de 11 minutos “out-of-body” pelos Coldcut, em que, pelo contrário, reinam a fantasmagoria e as truncagens astrais, entre a “techno” e o mundo do eco de Arthur Russell.

Slapp Happy – “Slapp Happy / Desperate Straights”

pop rock >> quarta-feira, 13.10.1993


SLAPP HAPPY
Slapp Happy / Desperate Straights
Virgin, import. Contraverso



Por vezes acontecem coisas como uma reedição histórica que aparece sem fazer ondas, discreta, a chamar baixinho por quem a conseguir distinguir entre a confusão. O objecto em questão é um compacto simples onde couberam dois discos que são outras tantas preciosidades. A primeira, “Slapp Happy”, é o segundo álbum, após “Sort of”, do trio cujos membros viriam mais tarde a dar cartas: Dagmar Krause (a cantora alemã amante, salvo seja, de Brecht e Weill, mais tarde recrutada para as fileiras dos Art Bears), Anthony Moore (nunca me cansdarei de repetir: “Flying doesn’t Help” é uma das obras-primas absolutas do rock com neurónios) e Peter Belgvad (excêntrico que ajudou a dar vida aos Faust e Golden Palominos, tendo gravado por sua vez um álbum de excepção: “The Naked Shakespeare”). Acrescente-se que os Slapp Happy são o grupo ao qual os Young Marble Giants e, posteriormente, os Devine & Statton tudo devem.
“Slapp Happy”, de que existe uma segunda versão, “Acnalbasac Noom” (“Casablanca Moon”, o tema de abertura, ao contrário), com acompanhamento exclusivo dos Faust, é pop em equilíbrio sobre o arame, a grande altitude e sem rede, colhendo lá do alto os frutos maduros das árvores musicais adjacentes. A Lua faz das suas: no “jazz” de cabaré enfeitado com uma “Slow moon’s rose” que se deixa embriagar por um cocktail mambo, em “Casablanca Moon”; a mini-opereta, “Me and Parvati”, invadida pelo psicadelismo de faz-de-conta de “Mr. Rainbow”, entre outros malabarismos. Cada pequena canção é uma curta-metragem surreal, um quadro com vida – por vezes bastante estranha – e cor próprias. E podem trocar-se as referências que continua tudo a bater certo.
Jean-Hervé Peron, dos Faust, Roger Wooton (ex-Comus), Andy Leggett (Whole World, de Kevin Ayers), Keshave Sathe (de uma das formações de John Renbourn) e Geoff Leigh (dos primeiros Henry Cow) associaram-se a este projecto sem paralelo onde de génios e loucos todos t~em um pouco.
Vai mais longe “Desperate Straights”, metade do par de álbuns resultantes da fusão dos Slapp Happy com os Henry Cow, assumindo os primeiros um papel de maior peso, enquanto em “In Prise of Learning” são, pelo contrário, os Henry Cow que tomam o comando das operações.
Incluo “Desperate Straights” na minha lista pessoal dos dez melhores álbuns de sempre. Ressalta da audição uma impressão imediata de um momento irrepetível onde tudo confluiu para a criação artística ao mais alto grau. Depois “Desperate Straights” tem visão, e de longo alcance, conseguindo além disso criar um ambiente de imagens e o espírito únicos de uma Europa crepuscular. Cada “canção” ergue-se como uma catedral gótica a acenar com tradições milenárias. Obra impregnada de um humor trágico, fruto envenenado de uma “Bad Alchemy”, só comparável ao dessa outra, também prima, que é “Rock Bottom”, de Robert Wyatt, “Desperate Straights” não tem explicação. É um arrepio pela espinha. Um conto de Lovecraft na era atómica. Instantâneos de cidades povoadas de torres e castelos em ruínas onde assomam os rostos monstruosos de gárgulas iluminadas por néons mortiços. Bartok, Stravinsky, Mahler e Satie encontram-se nas sombras destas urbes imaginárias, que Schuitten não desde nharia desenhar, ao som do “Messias” de Haendel. “Europa” a dançar a valsa dos danados. Antes que o colapso e a cacofonia, perturbentemente profética, do tema final, “Caucasian lullaby”, provoquem a derrocada final. A guitarra de Fred Frith voa a grande altura, Chris Cutler inventa as batidas de um contingente rítmico inteiro. Tim Hodgkinson (The Work) e John Greaves (National Health, por exemplo, outro dos génios ignorados a quem o tempo há-de fazer justiça) empenham-se por seu lado em deixar marca numa obra que perdurará para a posteridade. E, claro, os tr~es Slapp Happy, com a voz de Dagmar Krause em desempenho de alto nível, menosligeiros, a encabeçarem um cortejo de primeira classe – naquele comboio de cuja linha só muito poucos conhecem as estações… – onde seguem Pierre Moerlen (Gong), Mongezi Feza (já falecido, tocou trompete com Robert Wyatt, precisamente em “Rock Bottom” e “Ruth is Stranger than Richard”), Lindsay Cooper (Henry Cow, Art Bears, tudo o que de mais moderno se vem fazendo em Inglaterra), Mont Campbell (Egg, uma das bandas importantes e menos conhecidas da cena de Canterbury) e Nick Evans (da corrente “free” inglesa dos anos 70, participou em “Lizard” e “Red”, dos King Crimson). Um portento. (10)