Arquivo mensal: Fevereiro 2024

Chieftains (The) – “The Celtic Harp” + Boys Of The Lough – “The Fair Hills Of Ireland”

pop rock >> quarta-feira >> 12.05.1993
WORLD


A HARPA NO ALTO DO MONTE

THE CHIEFTAINS
The Celtic Harp (8)
CD RCA Victor, import. Bimotor e VGM
BOYS OF THE LOUGH
The Fair Hills Of Ireland (7)
CD Lough, import. Etnia



Na Irlanda é altura de aniversários. Chieftains e Boys of the Lough, dois dos mais prestigiados grupos de música tradicional deste país, abrem garrafas de champanhe – melhor dizendo, de um Jameson velhinho – e brindam à saúde. “Here’s to the company!”
A banda de Paddy Moloney, que há pouco mais de um mês deu “show” no Festival Intercéltico do Porto, faz a festa por interposta pessoa, na homenagem a Edward Bunting, que, em 1972, convocou durante um festival organizado pela Berlfast Harpers Society, os dez melhores harpistas da Irlanda e compilou posteriormente sucessivos manuscritos com partituras de harpa.
A 12 de Maio do ano passado, faz hoje precisamente um ano, os Chieftains tocaram num espectáculo de gala realizado no Ulster Hall, na companhia da Belfast Harper Orchestra e, mais tarde, no Barbican Hall, em Londres.
Desses dois concertos, foram gravados quatro temas ao vivo para inclusão neste 2The Celtic Harp”, com as restantes faixas registadas no lendário Threadmill Lane Studio, em Dublin, e nos estúdios de Frank Zappa (amigo dos Chieftains), em Los Angeles.
Quanto aos Boys of the Lough limitaram-se (!) a festejar 25 anos de carreira, com a modéstica dos grandes, através de “mais uma colecção de música tradicional”, como eles próprios dizem.
Dos Chieftains já tudo ou quase tudo se disse. Actualmente, passeiam a sua classe pelo mundo, contactando com as suas diversas culturas, que trazem para o convívio da Irlanda. Desta feita, contudo, aproveitaram a homenagem a Bunting para põr em destaque a harpa, o antigo instrumento tocado pelos bardos guerreiros da Irlanda antiga. Álbum sereno, de respiração ampla, navegando nas tonalidades aquáticas da harpa, guardou espaço para os traços mais nostálgicos da tradição irlandesa. Quatro temas constituem outros tantos solos de Matt Molloy, em flauta, Derek Bell, na harpa, Paddt Moloney, nas “uillean pipes”, e Kevin Conneff, numa vocalização “a capella”.
Quanto aos “rapazes do lago”, cumprem com merecimento a modéstia da sua proposta, em “The Fair Hills of Ireland”, enésima revisitação dos “reels”, “jigs”, “airs”, polcas e outros modos tradicionais que já entraram na rotina dos nossos hábitos de audição. Com inevitável competência e alguns momentos de maior brilhantismo – aqui a belíssima balada “Ban chnoic Erin O”, num diálogo de excepção entre a voz, o violino (Aly Bain é o elemento dos Boys com maior índice de virtuosismo) e o piano -, ou de exotismo, como é o caso da tradução ao vivo, em “The hunt”, de uma caçada à raposa, na qual o violino de Aly Bain perde completamente as estribeiras. Registe-se ainda a voz “a capella” de Cathal McConnell (excelente flautista, exemplar a sua execução em “The midsummer’s night”), em “The wind that shakes the barley”, modalidade pouco habitual na música deste grupo. E chega de Irlanda, durante uns tempos. Um último brinde, vindo da Escandináveia: chegou finalmente aos escaparates o álbum “Kaksi!” dos Hedningarna.
Hip, hip, hurra!

Vários – “Ambiances – Musiques D’Un Nouvel Âge”

pop rock >> quarta-feira >> 12.05.1993


Vários
Ambiances – Musiques D’Un Nouvel Âge
CD The Label, import. Lojas Valentim de Carvalho



Que há de comum entre os Madredeus, Evan Lurie, Abed Azrié, Miles Davis, Brian Eno e Philip Glass? Resposta: rigorosamente nada. Não é essa, contudo, a opinião da editora “editora”, para quem os nomes citados encaixam na grande prateleira das “músicas de uma nova cidade”. “Ambiances” recupera o conceito dos “superêxitos” para contexto da “new age”, neste caso sinónimo de tudo o que não é pop, nem rock, nem facilmente catalogável. Bem entendido, os nomes recrutados para este exercício de vender “o novo” sob as roupagens comercialmente apelativas não têm culpa. Partindo do pressuposto de que a música foi usada à revelia dos seus autores. E é claro que a especificidade de cada uma destas estéticas, tão afastadas na forma e no conteúdo, perde-se por completo nesta operação de tudo querer reduzir a músicas “de ambiente”, o que, de resto, com uma ou outra excepção, elas não são. Depois, o risco que poderia envolver uma compilação de artistas conotados com a “vanguarda” acaba por ser reduzido, já que a maioria deles tem uma aceitação razoável em França, país onde foi posta em prática esta ideia luminosa. Assim, “Ambiances” acaba por ser um desfolhar de catálogo, onde os portugueses Madredeus, de “O pastor”, cedem o lugar a Brian Eno e a um tema retirado de “Before and After Science”, e este ao sírio Abed Azrié que, por sua vez, antecede o execrável Andreas Vollenweider com a sua música vómito-cósmica de supermercado. Igualmente de um mau gosto a toda a prova é a pavana de plástico de Philippe Eidel, um músico que fez parte dos Taxi-Girl e dos Indochine e que participou na gravação de “The Mahabharata”.
Os minimalistas fazem-se representar por Michael Nyman, com um extracto de “A Zed and Two Naughts”, Philip Glass com um velhinho pedaço de “North Star”, infinitamentre melhor que as mega-óperas da actualidade, e Wim Mertens com um belo exercício dos Soft Veredict, “Struggle for pleasure”. Evan Lurie interpreta um dos habituais tangos e Miles Davis cinco minutos de génio, em “Miles”. Especiosas são as contribuições de Gabriel Yared e o “bibelot” da praxe de Pascal Comelade, aqui numa “Promenade des schizophrènes”. Mais pop, Durutti Column e o frncês Jean-Louis Murat não detoam. Goran Bregovic, autor da banda sonora de “O Tempo dos Ciganos” , de Emir Kusturica, utiliza samplers de vozes étnicas, e as “Voix Bulgares” em carne e osso apresentam a música étnica genuína. No final, entre tanto ambiente, tanto futurismo, apetece escolher o que não consta na lista. (6)

Vários – “Festival WOMAD Anima Cidade de Cáceres – A Arquitectura Dos Sons Do Mundo” (festival)

pop rock >> quarta-feira >> 12.05.1993


Festival WOMAD Anima Cidade De Cáceres
A ARQUITECTURA DOS SONS DO MUNDO


Durante três dias, a cidade espanhola de Cáceres transformou-se na aldeia global de que falava McLuhan. A “world music”, com todo o seu cortejo de exotismos, invadiu a zona antiga da cidade. Sons, pessoas e arquitectura uniram-se num mosaico pintado de todas as cores. Em Lisboa, como será?



Lisboa vai receber, já no final de Agosto ou princípio de Setembro, o Festival WOMAD, especializado nas áreas de “world music” e considerado um dos mais prestigiados do género. Falta escolher o local exacto e a duração. Para Juan Arzubialde, organizador da edição espanhola, este ano de novo levada a cabo na cidade de Cáceres, “tudo depende do género de apoios que houver da parte da Câmara Municipal. Tanto poderá ser num local público como num estádio”. Sobre os artistas que estarão presentes em Lisboa, Juan Arzubialde não adianta por enquanto quaisquer nomes. De certeza apenas está garantida a presença de Peter Gabriel, o ex-Genesis que em 1982 contribuiu para lançar o conceito WOMAD – World Music, Arts and Dance. Os outros poderão ser alguns dos presentes em Cáceres, ou não. Quanto a Peter Gabriel, o reportório que apresentará em Portugal está igualmente dependente do local: “No caso de ser um recinto fechado”, diz Juan Arzubialde, “o espectáculo será idêntico ao que o artista tem apresentado na sua digressão actual pela Europa. Caso se trate de um recinto aberto, haverá um tipo de produção diferente, com um naipe de canções de álbuns antigos de Gabriel, como “Sledgehammer”, “Games Without Frontiers” ou “Biko”, a par de temas do mais recente, “Us”. Sem querer adiantar outros nomes à lista de músicos participantes, ficou contudo a promessa de que esta será escolhida “em função das preferências do público português”. Resta saber como serão avaliadas estas preferências, mas, levando em conta a ligação da WOMAD à Real World, não é difícil prever que o catálogo desta editora venha a contribuir com a maior parte dos artistas. O ideal seria mesmo que Lisboa soubesse acolher o festival num local de acordo com as suas tradições. Como aconteceu em Cáceres, escolhida, segundo o promotor espanhol, por ter “uma parte antiga maravilhosa que constitui um cenário natural adequado para o tipo de situação que se pretende criar com o WOMAD – um local histórico que mantém intactas as suas características, onde as pessoas podem circular”.



Cáceres é um encanto. Pequena cidade da região espanhola da Estremadura, situada a pouco mais de cem quilómetros da fronteira com Portugal, a leste do Alto Alentejo, Cáceres voltou a ser, à semelhança do ano transacto, palco de uma das extensões do festival WOMAD (World of Music, Arts and Dance), espécie de catálogo actualizado das várias “músicas do mundo” em exposição pelos países da Europa.
O Festival decorreu entre sexta-feira e domingo, na zona antiga da cidade, entre igrejas e outras construções de traça medieval reconstruída, considerados património mundial. Dois palcos foram montados em zonas desniveladas, um na Plaza San Jorge, escavada entre a pedra histórica, tendo uma das igrejas como pano de fundo, o outro num patamar acima, na Plaza Veletas, em descampado aberto para as colinas verdes da Estremadura.
O programa, como é costume, privilegiou os artistas ligados à editora Real World, o que não admira pois Peter Gabriel, “patrão” deste selo, foi o principal mentor e impulsionador do projecto WOMAD, nas suas primeiras edições.
Depois do espectáculo de sexta-feira realizado no estádio da cidade, o único com entrada paga de todo o festival, que contou com o próprio Peter Gabriel, Oyster Band, Grupo Yanko e Kiko Veneno, Sábado arrancou para uma série de músicas de sabores e proveniências diversas. O labirinto de ruelas, arcos, escadarias e praças medievais de Cáceres encheu-se de uma multidão colorida que constantemente girava entre os dois palcos ou, quando a música não era da sua predilecção, se embrenhava na exploração dos recantos e pormenortes arquitectónicos do espaço circundante.

Homilia Em Rhythm ‘N’ Blues

Acedia-se aos recintos musicais através de outras duas praças onde se albergava a fauna humana mais exótica que se possa imaginar. Turistas de máquina fotográfica à tiracolo chocavam com hippies envergando vestes estrambólicas; peles tatuadas cruzavam-se com “tailleurs” de fim-de-semana, mini-saias praticamente inexustentes contrastavam com túnicas que rojavam pelo chão. O som de congas em convívio harmónico com o choro de bébés e risos suspensos entre os paredões e muralhas do local. Dos lados, o comércio obrigatório e habitual nestes acontecimentos: uma tenda de comida japonesa confeccionada na ocasião confortava os estômagos no intervalo das músicas, “recuerdos” exóticos chamavam a atenção em barracas cobertas de artefactos bizarros, panos e fumos de todas as cores e fragrâncias. Uma delas, de arte australiana, exibia t-shirts estampadas com motivos tribais. Quem quisesse podia até adquirir um didjeridu, instrumento musical típico dos aborígenes que alguém exemplificava no local, em concerto improvisado. E as inevitáveis bancas de discos, bem fornecidas de doscos “Real World”, claro, entre outras miscelâneas de “world music” escolhidas mais ou menos ao acaso.
O ambiente geral recordava os bons anos 60, muito “cool” e “loose”, diriam os ingleses, e evocava as imagens de uma feira da Idade Média, onde nem sequer faltavam os habituais comedores de fogo, malabaristas e uma comunidade hippie, carregada de crianças e de cães, tocando congas e fazendo habilidades a troco de algumas moedas. A barafunda de pessoas e culturas atingiu o auge quando, no meio deste cenário de filme fantástico, surgiu um cortejo de casamento burguês a caminho da igreja criando uma mistura inaudita de “kitsch” burguês e folclore planetário. A confusão atingiu o ponto máximo quando numa outra igreja, de portas escanacaradas, situada em frente da Plaza Veletas, era possível assistir a uma missa em que as palavars da homilia sacerdotal se casavam com os rhythm ‘n’ blues dos Holmes Brothers que, na ocasião, tocavam a poucos metros de distância. Nunca o termo “world music” atingira antes um significado tão lato…

Aldeia Global

Os nomes em cartaz foram tocando pela tarde e noite dentro fazendo tábua rasa do alinhamento previamente estabelecido, o que obrigava a que toda a gente andasse numa roda viva, escadarias acima, escadarias abaixo, em busca de música, fosse ela qual fosse. Voltas trocadas, mas ninguém se importou. A arquitectura do local tudo dominava, tornando a música numa espécie de bónus, um fundo sonoro que harmonizava as gentes e o espaço, o calor que se fez sentir ao longo de todo o fim de semana com as cervejas, os sumos, o incenso e a “ambiente music” criada pelas vozes da multidão. A “aldeia global” reunida em torno de um conceito que com o correr do tempo ganha cada vez mais sentido: de miscigenação de culturas, de encontro e diálogo entre vozes plurais.
Os sul americanos Yanko puseram toda a gente a dançar, cumprindo o ritual da “siesta” que “nuestros hermanos” não dispensam. Mas a primeira grande celebração de Sábado aconteceu com a prestação dos malianos Bajourou. Duas guitarras, magistralmente dedilhadas apoiaram as deambulações do vocalista que não resistiu à euforia e se perdeu, cantando e dançando, no meio da audiência.

Depois, foi subir as escadarias de pedra que levavam ao palco superior para nos enfardarmos com a pop enfadonha dos Los Coquillos, originário das Canárias. Convém explicar que a sequência dos artistas, desprezando o programa inicialmente traçado, decorreu de modo a alternar as actuações num e noutro palco, o que obrigava as pessoas a circular, se quisessem assistior a todas elas, mal um grupo acabava de tocar na plaza San Jorge e logo o seguinte iniciava a sua prestação na plaza Veletas. Circular é viver.
Momento alto do festival aconteceu com o espectáculo do grupo vocal feminino Donnisulana. Cinco mulheres vestidas de negro trouxeram consigo o canto e a elevação “a capella” da Córsega, em registo de religiosidade que contrastou com a celebração festiva dos africanos. Africanos que no interior da Igreja/local de exposições, no “garden workshop space”, por iniciativa dos músicos dos Kanyinda Mujala, colocaram os instrumentos de percussão nas mãos da assistência para uma desbunda rítmica colectiva. Os indiferentes ao batuque tinham à sua disposição uma exposição de arte artesanal e de fotografia alusivas à temática do festival, que se pretendeu contra a xenofobia e o racismo.
Pouco dada a exotismos, a música dos Holmes Brothers invadiu o fim de tarde de Cáceres os “Rhythm ‘n’ Blues” tocados à boa maneira antiga, servida pela guitarra incandescente de Wendell Holmes. Em baixo, na plaza San Jorge, os russos Terem Quartet proporcionaram uma das melhores “performances” do festival, tocando o que se poderá definir como “rock ‘n’ roll” cossaco, em pura aceleração das balalaicas (uma delas gigantesca, desempenhando as funções de contrabaixo) e do acordeão. A noite desceu ao som do “celtic rock” dos Oyster Band que, à medida que se vão tornando mais conhecidos e comercialmente viáveis, vão perdendo algumas das características que faziam o seu apelo inicial: a espontaneidade, as conotações etílicas, o imprevisto. Hoje a banda britância está cada vez mais profissionalizada, vivendo das acrobacias do violinista e das sugestões “pub” do acordeão, sobre uma batida quadrada digan de “disco sound” mais primário. Ninguém pareceu importar-se muito e a actuação dos Oyster Band saldou-se por uma das mais bem recebidas pelo público de Cáceres.
Domingo, em início de tarde estival, viveu em exclusivo das proezas vocais do Grupo Sampling, seis cubanos acrobatas das vozes “a capella”, que utilizam para imitar o som de diversos instrumentos musicais. Um dos elementos executou mesmo, para gáudio dos presentes, um solo da bateria, reproduzindo na perfeição os timbres e o “ataque” dos vários tambores e pratos, enquanto simulava com as mãos e com os braços os gestos respectivos de um verdadeiro baterista.
Depois, e ao contrário do previsto, foi arrumar as malas e zarpar para outras bandas. S. E. Rogie, o “blues man” da Serra Leoa, transferiu a sua actuação para Badajoz. O concerto de música “new age” de Roger Eno com Kate St. – John, por seu lado, realizou-se em Mérida. Correntes alternas de música – cujo programa contou ainda com as presenças do indiano Shankar, Mustapha Tetty Addy, do Ghana, e o rei do acordeão “tex mex”, Flaco Jimenez – que durante três dias transformaram uma pequena cidade de Espanha na capital da “world music”. Lisboa vai ter em breve oportunidade de ver e ouvir como é.