Arquivo mensal: Julho 2022

Tina Turner – “Uma Mulher Dos Diabos” (concerto | antevisão | na capa)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 >> A Semana >> Na Capa


UMA MULHER DOS DIABOS

Depois dos Stones e de Bowie – com quem já atuou em diversas ocasiões – é a vez de Tina Turner: uma voz rouca e sensual, capaz de provocar os sentidos como poucas. A primeira parte do concerto será assegurada pelos Delfins.



Ancas longas e esguias, lábios carnudos, “Soul Music”, a alma voltada do avesso, deixando ver tudo (como os vestidos que usa durante as atuações), as lágrimas e os sonhos, o fogo interior inextinguível, “rhythm’n’blues”, os maus velhos tempos em que era dominada e espancada por Ike, “manager” e marido que não queria saber da emancipação feminina, Phil Spector e o clamoroso falhanço de “River deep, Mountain high”, a voz rouca e sensual, “Acid Queen” no “Tommy” de Ken Russell e amazona em “Mad Max beyond Thunderdrome” de George Miller – outras tantas imagens e sons que invadem a memória, presentes decerto no olhar e nos ouvidos de todos aqueles que se deslocarem ao encontro marcado para amanhã.
Turner provoca os sentidos como poucas. Há quem lhe atribua responsabilidades no sair da casca de Mick Jagger. Os seus gostos não enganam, a energia transborda em cada instante, nas canções, na dança, no constante apelo erótico do corpo e da voz, na opulência radiante das formas.
Mas Tina não é só suor, é também classe – a prová-lo, o convite que lhe foi endereçado pelos “dandies”, ex-Human League, Ian Marsh e Martyn Ware, convidam-na para interpretar “Ball of Confusion”, em “Music of Quality and Distinction”. Tina Turner no papel de grande senhora, diva de ébano reinando entre “babies” oxigenadas de 15 minutos de Top. São 34 anos de carreira recheados de êxitos, culminando no sucesso mundial de “Private dancer” e do “hit” “What’s love got to do with it”. Será que o amor tem alguma coisa a ver com os galardões que então lhe foram atribuídos – Grammies pelo melhor disco do ano (1984), melhor canção, melhor “performance” e melhor vocalista rock feminina? Questão à qual só a própria Tina poderá responder…
Quem não se preocupou muito com isso foi Mick Jagger que, logo no ano seguinte, a convidou para dançar (ou foi ao contrário?) em pleno Live Aid. Tina Turner a todos seduz, de uma maneira ou de outra. Mark Knopfler (produtor de algumas transgressões em “Break Every Rule”) e Eric Clapton não resistiram aos seus encantos. Amanhã à noite vai ser a mesma coisa: poder ver, ao vivo, a energia em carne viva – no corpo e na alma de uma mulher endiabrada que persiste em querer vencer o tempo. E tem-no conseguido.
LISBOA Estádio José de Alvalade, Sáb, 29, às 21h00

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #48 – “Fennesz, Biosphere… (FM)”

#48 – “Fennesz, Biosphere… (FM)”

Fernando Magalhães
03.12.2001 160415

Olá a todos

Comecemos pelo “concerto” dos BIOSPHERE. Que concerto? Em casa ouve-se melhor a música dos excelentes “Substrata” e “Cirque”. Faço minas as palavras de outros forenses que estiveram presentes em Serralves. Que diabo, não teria ficado assim tão caro arranjar um suporte visual qualquer para acompanhar a belíssima música de Geir Jenssen (embora, ao vive, fique sempre a suspeita de estarmos a ouvir, na maioria, sons pré-gravados…).
O anti-acontecimento do ano. Foi pena…

Bastante melhor foi, com efeito, o encontro dos forenses no Labirinto. Imagino que o Mário tenha pago para aí uns 20 contos nos Vodkas .
Também apreciei a celeridade da empregada que servia às mesas no jardim. Super rápida, a miúda! 😀

O Luis M, profundo conhecedor da cidade, confirmou ser um habitué das noites do Porto. 😀

Uma noite bem passada, em suma.

À saída do “concerto”, o Paulo Vinhas, da Matéria Prima, arranjou-me, finalmente, um exemplar do esgotadíssimo “Endless Summer”, do Christian FENNESZ (bem como o “Substrata 2”, de Biosphere e o disco do Rafael Toral, também para a Touch).

Apesar de ainda só ter ouvido o CD (do Fennesz) uma vez, confesso que senti alguma desilusão. Parece-me ser um bom disco, mas não um grande disco. O Fennesz revela-se aqui sobretudo como um “bricoleur” do som e do ruído “harmonizado”, mas os resultados parecem-me não estar à altura do álbum anterior (o do título com as coordenadas geográficas).
Há achados sonoros engraçados, como os do tema de abertura, em que o ruído sugere harmonias quase subliminares, vibrafones cristalinos e sugestões melódicas em temas como “Caecilia” mas sobram sequências demasiado longas daquilo a que chamo “chill out” com rugas…área na qual existe um álbum que reputo de excelente, verdadeiramente hipnótico, na forma como consegue induzir no auditor estados de consciência alternativa, chamemos-lhes assim…: “Pop”, do projecto GAS.
“Endless Summer” pode ser sonicamente mais variado mas não vai tão fundo na investigação psico/musical, como os GAS.

Para já um 7/10, 7,5/10 com alguma boa vontade. Mas é evidente que vou ter que o ouvir mais vezes.

Quanto ao “Substrata”, remasterizado, é uma verdadeira “trip”… já não na biosfera mas na estratosfera 

FM

César Laia
03.12.2001 160421

Tenho esse álbum dos GAS em mp3 há mais de um ano e nunca o ouvi! Se calhar está na altura ouvir 😀

Confesso que gosto muito mais do “Endless Summer” que do álbum das coordenadas. Mas gostos são gostos 

Ah, e a tua sugestão para ouvir Fridge foi preciosa, o “Happyness” é muito bom!  😀
O Número também foi uma semi-desilusão…

César

np: Safety Scissors “parts water”

Fernando Magalhães
03.12.2001 160445

Atenção, que o CD dos GAS não é de audição fácil. É uma espécie de “ambient” intoxicante, repetitiva, que funciona na forma como põe o cérebro a construir arquitecturas virtuais. Somos nós que acabamos por criar, a partir dos timbres “saturados” que o ouvido recebe, uma sinfonia irreal de sons.

Quanto aos FRIDGE…ehehe…eu recomendo a audição do grupo, sem dúvida, mas não através de “Happiness” (qu quase toda a gente neste forum venerou … ), que considero um álbum de certa forma “falhado”, em comparação com os anteriores e, estes sim, altamente recomendáveis, “Semaphore” e “Eph”.

FM

Mário Z.
03.12.2001 160452

Há um pormenor que “facilita” a audição do álbum dos GAS. É que há por lá temas praticamente iguaizinhos uns aos outros… À “segunda” e à “terceira” já não se estranha tanto. 😉

Mais a sério: apesar de gostar bastante do tipo de som dos GAS (ou não fosse eu fã dos Biosphere), considero que o álbum é um disco em parte falhado, precisamente por causa das desnecessárias “repetições”…

Saudações

Mário

PS: Espero que com novas audições as qualidades do “Endless Summer” possam superar os eventuais defeitos… 

Fernando Magalhães
03.12.2001 170511

Se ouvires bem, não são bem “repetições”. Há diferenças subtis de tema para tema.
Também não creio que a música de “Pop” tenha muito a ver com a dos Biosphere. “Pop” terá muito mais a ver com (apesar de na aparência, o som remeter para uma certa ambient tecno…) as estruturas de composição de um Steve Reich ou do próprio Philip Glass da fase inicial. Música mântrica, enfim.

Assim: Espero que com novas audições as qualidades do “Pop” possam superar os eventuais defeitos… 

FM

aavv
03.12.2001 170539

Vocês podiam aconselhar-me um disco do Philip Glass para primeira audição? (nunca ouvi nadsa dele) Já há uns tempos que gostava de saber ao que soa, mas não sei por onde é qie hei-de começar.

aavv

Fernando Magalhães
04.12.2001 150353

Bom, há várias vertentes musicais no interior da obra do Philip Glass. Os discos mais recentes (anos 80) são para esquecer. PG a imitar PG, segundo uma fórmula que se institucionalizou por completo.

Para mim, o melhor dele é mesmo o 1º período, das peças monocromáticas, repetitivas e hipnóticas (um efeito semelhante ao dos Gas, embora com texturas sonoras diferentes) até à exaustão, mas ainda sem os tiques que viriam a marcar grande parte da sua discografia posterior. Refiro-me a “Music with Changing Parts” (71) e “Two Pages/Contrary Motion” (73/75), ambos editados pela Elektra Noinsesuch em versões remasterizadas.

Claro, há a ópera “Einstein on the Beach”, de 1978, considerado o seu magnum opus. Recomendo a versão aumentada, melhorada e remasterizada, de 1993.

Também acho muito curioso um disco pouco conhecido dele, o “North Star”, igualmente dos anos 70, em que o minimalismo se aproxima de um certo rock progressivo a la Magma, sob a influência de Carl Orff.

Claro que depois tens as BSO todas, as óperas grandiosas, enfim o PG average que ajudou a destruir o que de fascinante existia na 1ª geração do minimalismo norte-americano.

FM

Paco De Lucía & Carlos Paredes – “Lucía & Paredes – O Dueto Das Cordas” (antevisão concerto)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 >> A Semana >> Na Capa


LUCÍA & PAREDES

O DUETO DAS CORDAS


Hoje à noite, na Póvoa do Varzim, as guitarras de Portugal e Espanha vão tocar ao desafio: Paco de Lucía e Carlos Paredes, mestres incontestados dos respetivos instrumentos, num “mano a mano” que se prevê exaltante.



Fala-se de flamenco e vem-nos à memória a figura aprumada de Obélix, em volta da fogueira, batendo palmas e soltando uns “hayhayhayhay” compenetrados.
Paco de Lucía não é Obélix, mas nem por isso deixa de ser um dos mais dignos representantes da guitarra flamenca. Guitarra que exige muita garra e fogo nos dedos. Vem dos ciganos o seu segredo, a maneira de traduzir a vida na vibração das cordas. A perfeição guitarrística não se esgota na velocidade nem no virtuosismo da execução. Os mestres sabem que a técnica está sempre ao serviço da emoção e que esta só então se cumpre no movimento corporal. Aprendizagem que exige iniciação. Paco de Lucía inclui-se no grupo restrito dos mestres, ao lado de Manitas de Plata, na arte de rasgar a alma.
Hoje à noite, no Salão Nobre do Casino da Póvoa, tecerá armas, que é como quem diz, guitarras, com um artista à sua altura – o português Carlos Paredes – em duetos que vão pôr à prova a tradicional rivalidade entre os vizinhos ibéricos. De um lado a fogosidade picante, a típica extroversão andaluza, do outro, o intimismo e saudade lusitanas, através de dois dos mais conceituados intérpretes da atualidade.
Paco de Lucía, de seu verdadeiro nome Francisco Sánchez Gomez, nasceu e foi criado numa família de músicos. Aprendeu com o pai os mistérios da guitarra espanhola, e, mais tarde, com os ensinamentos dos lendários Sabicas e Mario Escudero. Aos 13 anos já fazia parte, como terceiro guitarrista, da Companhia Espanhola de Ballet Clássico. Nos primeiros álbuns, o flamenco, sempre, e a música popular da Andaluzia.
Junta-se a outros guitarristas – Paco Cepero, El Farruco, Juan Maya – e parte à descoberta da Europa, tornando-se durante sete anos o principal divulgador do flamenco, além fronteiras. Nunca mais parou de gravar discos: “Fantasia Flamenca”, “Fuente y Caudal”, “Almoraima”, “Castro Marín”, “Solo Quiero Caminar”. Este último granjeou-lhe enorme popularidade no nosso país através, sobretudo, da canção do mesmo nome. Ultimamente voltou-se para o campo mais vasto da música de fusão, tocando e gravando com outros “monstros” da guitarra, como Carlos Santana, Al Di Meola, John McLaughlin e Larry Coryell.
Hoje à noite vai ser um negócio só a dois: guitarras à descarada, portuguesa e espanhola, num duelo de resultado incerto mas certamente mágico.

PÓVOA DO VARZIM Monumental Casino da Póvoa, 6ª, 28, às 22h00