Arquivo mensal: Julho 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #50 – “Folk, Los Hermanos, Lord of the Rings… (FM)”

#50 – “Folk, Los Hermanos, Lord of the Rings… (FM)”

Fernando Magalhães
11.12.2001 160428

Não tenho aparecido aqui devido ao excesso de trabalho e à irritante lentidão do meu computador – é preciso justificar estas coisas, não vá aparecer logo alguém a falar em “desaparecimento”…

Tenho ouvido algumas novidades folk (no Y de 21/12 deverá sair um artigo com várias críticas).

Kepa Junkera (“Maren”) – Folk bastante comercial, apesar da lista de convidados incluir gente como Hughes de Courson (ex-Malicorne), Ibon Koteron, vozes búlgaras, etc…
A produção normalizou-se, a própria execução instrumental de KJ parece ter estagnado num som mais “liso” e apelativo.

UXIA (“Danza das Areas”) – Apenas consegui ouvir os primeiros três temas, todos execráveis. Música de variedades. Muitos convidados portugueses: Dulce Pontes, João Afonso, Filipa Pais…

KORNOG (“Kornog”) – Este sim, vale a pena. O regresso em força nos anos 90 de uma banda bretã dos 80, pouco conhecida.

TARRAS – álbum novo na Topic. Folk rock leve, bem executado, entre um certo som “americanizado” e referências acústicas aos Magna Carta.

BRASS MONKEY – novo álbum (isto lembrar-me dos títulos, está quieto!) – excelente, como todos os álbuns anteriores deste grupo. Martin Carthy é o músico inglês mais importante das últimas décadas, já o escrevi e repito. O legado das ancestrais danças “morris” adaptadas com brilhantismo aos novos tempos. Os Brass Monkey são uma espécie de Gaiteiros de Lisboa ingleses, passe a heresia (M. carthy começou a gravar no início dos anos 60…).

Também ouvi algumas coisas interessantes da editora Fono, húngara, Voltarei a falar destes discos quando os ouvir com mais profundidade.

Do Brasil:

Los Hermanos lançaram o álbum “Bloco do Eu Sozinho”. Rock (por vezes pós-rock…) brasileiro (Moog + guitarras + secção de metais) que lembra de forma inequívoca o som dos Eels, introduzindo-lhes uma criatividade muito especial, em temas que passam pelo reggae, MPB mais clássica, punk e mesmo rock FM. A diferença está no talento do grupo para escrever boas canções. O tema inicial, então, “Todo carnaval tem seu fim”, é daqueles que se colam ao ouvido e é impossível deixar de cantar!

CINEMA

Já vi o “Lord of the Rings”!!!!!!! Como fanático do livro, devo confessar que a adaptação desta primeira parte da trilogia (“A Irmandade do Anel”) me satisfez. Falta a dimensão “tempo”, da distância, mas os cenários e os personagens estão fabulosos. Falha maior: O desaparecimento do episódio do encontro na floresta com Tom Bombadil, a personagem mais enigmática de toda a obra (O Peter Jackson que, recorde-se, realizou o “Braindead”, é capaz de ter achado esta parte demasiado “metafísica”…mas, tudo bem…).

FM
O desaparecido

Philip Glass, Bob Wilson – “Philip Glass Em Lisboa – Um dia Na Ópera” (ópera | descobrimentos | artigo de opinião)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 >> Cultura


Philip Glass em Lisboa

Um dia na Ópera


Philip Glass e Bob Wilson encontram-se desde há duas semanas no nosso país, a preparar uma ópera dedicada aos Descobrimentos portugueses. Dentro de dois anos será de novo a conquista de mares nunca antes navegados.



“Through the Eye of the Raven” é o título escolhido para a obra composta por Philip Glass, encenada por Bob Wilson e com “libretto” de Luísa Costa Gomes, inspirada nos Descobrimentos portugueses e com estreia mundial marcada para 28 de junho de 1992, no Teatro Nacional de S. Carlos.
Em encontro informal com a imprensa, num dos camarins do teatro e em plena atividade de ensaios, o compositor americano, autor de outras obras importantes no mesmo domínio, como “Einstein on the Beach”, “Satyagraha” e “Akhnaten” e o seu colaborador de longa data Bob Wilson, levantaram algumas pontas do véu. A ópera será inovadora a vários níveis: música (Philip Glass ainda não escreveu uma única nota, mas tudo está previsto até ao décimo de segundo…), coreografia e texto funcionarão como entidades autónomas, cujo sentido global caberá em grande parte à intuição do auditor unificar e apreender. Haverá momentos em que, aparentemente, “a música, o texto e as movimentações sobre o palco não terão nada a ver umas com as outras”. A vanguarda é assim mesmo.
Na prática, a estrutura final vai sendo progressivamente construída, partindo de um trabalho em regime de “Workshop”, por ambos considerado como “ideal”, com o aspeto criativo fruto de uma colaboração constante entre a totalidade das partes envolvidas. Bob Wilson chega ao ponto de afirmar “ser possível compor uma ópera a partir do vestuário ou da iluminação…”. Mas acalmem-se os mais tradicionalistas que, neste caso e ainda segundo Wilson, “a ópera é, do ponto de vista formal, extremamente tradicional, dividida em cinco atos, com uma abertura e um prólogo, para além de várias ‘Knee plays’, espécie de interlúdios musicais fazendo a ligação entre as partes principais”.

Ditosa pátria minha amada…

No capítulo da encenação Bob Wilson promete algumas surpresas espetaculares: Vasco da Gama, o Rei e a Rainha, um escritor, uma freira, três cientistas, Miss Universo e outras personagens saídas da História e da imaginação dos autores, vão fazer mil tropelias, em locais tão diversos como o mar (incluindo uma deslumbrante cidade de cristal oculta nas suas profundezas), o espaço cósmico, “buracos negros” por todo o lado, a selva brasileira, os exotismos do Oriente, na Corte de D. Manuel, e outros, menos facilmente catalogáveis. Haverá terríveis naufrágios, terramotos, monstros de toda a espécie (alguns nascidos de delírios de Jorge Luís Borges), cabeças de cão e patas de elefante, aviões e foguetões, um telescópio gigantesco girando ameaçador sobre a cabeça dos atores, uma “troupe” de dançarinos japoneses, viagens para além da morte, enfim, como diz Glass – “não se pretende dar uma lição de história, trata-se antes de uma abordagem poética, de caráter universalista, em que Passado, Presente e Futuro se confundem numa nova Realidade. Quem quiser receber lições deve procurar nos compêndios…”.
Luísa Costa Gomes, autora do “libretto” (que incluirá excertos de “Os Lusíadas” e da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto) é de opinião que o tom geral dá uma “visão extremamente elogiosa, destacando o seu papel pioneiro, na transição da mentalidade e imaginário medievais para os renascentistas, dos Descobrimentos portugueses”, designação geral para uma gesta que, para si, se reveste inevitavelmente de um caráter simbólico, procurando na parte que lhe compete, evitar o “kitsch” e que os textos (inteiramente falados e cantados em português) reflitam essa mesma preocupação, para tal recorrendo a uma linguagem frequentemente metafórica, a começar pelo corvo mencionado no título, numa alusão às aves que equilibram a nau lisboeta. Viagens pelo mundo e pela alma humana adentro. Terra de Preste João, a Ilha dos Amores… “Gostava que a frase final, entoada pelo coro, fosse muito simples – ‘esta é a ditosa pátria minha amada’ – ‘mais nada”.

… à conquista do mundo

Quanto à partitura de “Through the Eye of the Raven” (encomendada especialmente pela Comissão dos Descobrimentos) será exclusivamente para orquestra e coro, este último aparecendo em cena somente na apoteose final do quinto e derradeiro ato. Nada foi ainda escrito mas ideias parece que não faltam a Philip Glass, um dos “papas” da música minimalista dos anos Sessenta, que hoje recusa a conotação exclusiva com a escola que ajudou a construir e presentemente considerada ultrapassada, chegando ao ponto de afirmar que – “se tivesse hoje 20 anos jamais faria música minimal”.
Para já adiantou que o terceiro ato será uma dança coreografada por um japonês (única sem a responsabilidade direta de Bob Wilson) e a totalidade do trabalho composicional realizada previamente ao piano.
Teoria terminada, foram mostrados e explicados por Bob Wilson, vários esboços referentes aos “décors” de cada um dos cinco atos, uns em branco (para as cenas mais despojadas…) outro com uma mancha negra (o promontório de Sagres…) ou uns rabiscos confusos (a selva amazónica…). Elucidados e siderados pelo aparato visual do futuro evento, passou-se para o grande auditório, para uma demonstração coreográfica provisória do primeiro ato, sem música e com Luísa Costa Gomes soletrando o texto palavra por palavra. Nada a ver com o “Barbeiro de Sevilha”. Quando se ligar o som, que se desiludam os amantes do “Bel Canto”…
A dois anos da sua apresentação oficial, “Through the Eye of the Raven”, provoca desde já interesse por parte dos meios culturais estrangeiros (fala-se inclusive num possível “sponsor” americano, para suportar os elevados custos da produção), na apresentação local da ópera, nomeadamente os japoneses, aos quais a problemática dos Descobrimentos diz obviamente respeito. Para além dos americanos, também os alemães se mostram interessados. Em Espanha, o “Olhar do Corvo” passará na Expo-92. Philip Glass e Bob Wilson não fazem a coisa por menos: “Com este trabalho tencionamos conquistar o mundo da ópera”. Daqui a sensivelmente dois anos se verá… Para já a certeza de que, em termos operáticos, depois destes descobrimentos, nada ficará como dantes.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #49 – “TRANSCHAMPS, SENSER, FENNESZ, FÜXA… (FM)”

#49 – “TRANSCHAMPS, SENSER, FENNESZ, FÜXA… (FM)”

Fernando Magalhães
05.12.2001 160400
Cá estou, para dar uma palavra amiga a todos os forenses. 🙂

Eis as primeiras patacoadas de hoje:

1 – Devo dizer que acho o “Give it to you”, o tal tema de rock FM que abre “Double exposure”, absolutamente irresistível. Versão rock da música dos andróides Tubeway Army…

2 – O disco dos SENSER para a Neo Ouija que alguns forenses têm andado a citar, não é nada de especial. É até um pouco chato. Trata-se de uma daquelas obras que se limitam a “copiar” determinada escola, neste caso dos AROVANE. A mesma electrónica de cristal, bonitinha, ultra-melodiosa, mas sem ponta de criatividade. Da mesma fornada, prefiro, de longe, os PUB.

4 – Confirmaram-se as impressões prévias sobre “Endless Summer”. Tem pormenores geniais (sobretudo nas metamorfores de ruído em melodia), mas também sequências que se arrastam demasiado tempo, sem que se vislumbre qual o sentido que Fennesz lhes quer dar…

5 – Já que os FRIDGE andam a ser muito citados…Que tal descobrir outra das bandas “reveladas” pelo pós-rock, cuja obra se tem vindo a revelar de grande qualidade, de obra para obra – os FÜXA?

Pedrotaos
05.12.2001 170544

tenho um disco dos Fuxa ..o VWO….do qual gosto bastante principalmente devido aos teclados (hammond?) que por vezes se assemelham a certos temas dos Yo La Tengo.

saudações

p.s.o VWO é o melhor deles ou há algo mais importante por descobrir?

Fernando Magalhães
05.12.2001 190716
O “VWO” é o “Very Well Organized”, certo?

O anterior, “3 Field Rotation” (ed. Ché, 1996) é um carrocel de orgãos electrónicos (creio que Farfisa e não Hammond) inpsirado obliquamente nos Cluster. Lo-fi altamente sedutor.

Mas o meu preferido é “Accretion” (ed. Mind Expansion, 1998) muito mais electrónico, experimental e variado.

Creio que os FÜXA já gravaram outro álbum depois deste, mas ainda não o ouvi.

FM