Arquivo mensal: Junho 2022

Klaus Shulze – “Sinfonias Electrónicas” (artigo de opinião | a discoteca | dossier)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A DISCOTECA


SINFONIAS ELETRÓNICAS

Chamam-lhe o papa da música eletrónica. Começou por tocar bateria num grupo de rock. Depois descobriu umas máquinas em que bastava ligar o interruptor para sair música. Acabara de inventar a “Kosmische Musik”. Ainda hoje não desistiu de ser o novo Wagner.



Em finais da década de 60, decorria do escaldo do “fogo” ateado pela geração da paz e do amor. Na Europa e nos Estados Unidos, os “hippies” principiavam a tirar os enfeites e a meter as violas no saco. A ingenuidade era substituída pelas grandes conceptualizações intelectuais. Era a época da música progressiva que desprezava as singelas canções pop do passado para só se satisfazer com longas “suítes” instrumentais de pelo menos vinte minutos de duração. A ambição era fazer frente aos compositores clássicos, compondo obras de grande envergadura, cheias de pompa e circunstância.
Na Alemanha, sociedade altamente industrializada e, além disso, cujos membros são totalmente destituídos de sentido de humor, a ideia ganhou raízes, deslocando-se, contudo, a ênfase temática para um contexto mais desumanizado e recorrendo-se a meios exclusivamente eletrónicos na tentativa de criar uma música grandiosa e de ressonâncias cósmicas.

Berlim Planante

O mote fora dado pelos Pink Floyd do período compreendido entre “Ummagumma” e “Meddle”. Tratava-se de isolar a componente abstrata e eletrónica, acentuando a sua dimensão intemporal. A nova tecnologia eletrónica dos sintetizadores Moog, ARP e VCS3 permitia materializar as fantasias emergentes, avançando com novas sonoridades que, como resposta, exigiam do músico e do auditor um novo tipo de sensibilidade.
Em Berlim, o núcleo determinante da eclosão do movimento gravava os primeiros discos nas editoras pioneiras Ohm e Cosmic Music, logo seguidas pela Brain. Os seus heróis eram Nietzsche e os poetas e compositores do Romantismo: Holderlin, Novalis, Rilke, Schubert e principalmente Wagner. Nova oportunidade para relançar a cultura germânica, desta vez em direção ao infinito. Os seus seguidores davam pelos nomes de Popol Vuh, Cluster, Wallenstein, Ashra, Guru Guru, Grobschnitt e Neu.
Klaus Schulze, depois de uma breve passagem pelo rock, passou a integrar duas das bandas míticas do “boom” berlinense: os Tangerine Dream, ao lado de Edgar Froese e Chris Franke, e os Ash Ra Tempel, de Manuel Gottsching. O primeiro álbum dos T. Dream chamava-se “Electronic Meditation”, título emblemático do mundo em que se movimentava a nova geração. As vibrações eletrónicas juntavam-se às mentais, ecoando em concertos realizados no interior de igrejas, numa comunhão extasiada com o universo.
Novo Wagner

Em 1972 grava para a Brain o seu primeiro álbum a solo, “Irrlicht”, com um tema de cada lado, como de resto viria a acontecer ao longo de quase toda a sua discografia. Disco planante, naipes sintetizados preenchendo totalmente o palco sonoro. Homenagem a Franz Schubert em “Exil Sils Maria”. “Cyborg”, duplo de 1973, enuncia os métodos e obsessões que nunca mais o abandonariam: o primado da harmonia sobre o ritmo e a melodia, esta reduzida ao desenhar de arabescos modais, quase sempre improvisados e delineados pela mão direita do intérprete. Vêm estes preciosismos técnicos a propósito das manifestas limitações de Schulze enquanto teclista convencional. A sua arte revela-se principalmente no gosto pelas combinações tímbricas e na utilização dos sintetizadores como intermediários de conceções formais essencialmente sinfónicas.
Os álbuns a partir de “Picture Music” viriam a ser distribuídos no resto da Europa pela Virgin, na altura apostada da divulgação das novas propostas afastadas das correntes pop e rock. “Picture Music” e “Black Dance” dão a conhecer o músico num dos seus momentos menos inspirados. Com “Timewind” (1975) assina a primeira obra-prima. Álbum wagneriano, na grandiosidade e profundidade dos arranjos, no dramatismo, na abordagem totalitária da massa sonora e até nos títulos, “Bayreuth Return” e “Wahnfried 1883”, referências diretas ao grande mestre alemão. Richard Wahnfried, pseudónimo sob o qual grava esporadicamente, revela até que ponto Schulze se considera o continuador e herdeiro espiritual do autor do “Anel dos Nibelungos”.

O Crepúsculo dos Deuses

“Moondawn” (1976) repete a fórmula do disco anterior, revelando, todavia, um maior apuro técnico na utilização do sequenciador. Como convidado especial na percussão, Harald Großkopf, dos Wallenstein, chamado sempre que eram necessários os tambores “reais”. “Mirage” é outro dos pontos altos da carreira discográfica de Schulze, o segundo lado, “Crystal Lake”, cintilação hipnótica indutora de sonhos e viagens interiores.
Colabora no projeto “Go”, ao lado de Stomu Yamashta e Steve Winwood, iniciando-se como compositor de bandas sonoras em “Body Love”. “X”, décimo da discografia, é a sua obra-chave, cujos títulos são dedicatórias a alguns dos seus heróis: Friedrich Nietzsche, Georg Tackl, Frank Herbert, Friedmann Bach, Ludwig II da Baviera e Heinrich von Kleist. A música de Klaus Schulze eleva-se aqui ao máximo expoente, numa sinfonia a quatro movimentos, digna de ombrear com as dos seus heróis. “Dune” (1979) sonoriza os mundos irreais de Frank Herbert e “Dig it” marca a entrada no universo dos dígitos. Preocupa-se com os labirintos da personalidade e da psicanálise em “Trancefer” (1981) e no duplo “Audentity” (1983), este manifesto derradeiro de uma música entretanto esgotada na repetição de fórmulas que não souberam evoluir. “Dziekuje Poland” (gravado ao vivo na Polónia), “Angst”, “Inter-Face”, “Dreams” e os recentes “En=Trance” e, já deste ano, “Mediterranean Pads” giram em círculos avançando para lado nenhum. Interessante a sua “Babel”, composta e tocada a meias com Andreas Gosser.
Klaus Schulze suscita grandes ódios e incondicionais amores. Construiu uma obra única e original no campo, hoje inflacionado, da música eletrónica. Influenciou um número incontável de outros praticantes. A História decidirá qual o lugar a que tem direito no panteão dos heróis.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #27 – “Einstürzende Neubauten”

#27 – “Einstürzende Neubauten”

Fernando Magalhães
18.10.2001 150300

Fantástico, o “Strategies Against Architecture III – A Comedy of Errors”, dos EN. Crítica amanhã no SONS (8/10), juntamente com o novo TARWATER (7/10) e a estreia de KUBIQUE – “Oblik Musik”, de Victorik Afonsik.

Ainda os EN: Violência e canções. Ruído e melodia. Música concreta e electrónica doente. Rituais percussivos e hinos apocalípticos. Dos 4 temas ao vivo incluídos neste duplo CD, destaque para o espantoso e esquizofrénico (ouça-se a vocalização de Blixa Bargeld!) “Redukt”.
Um dos álbuns do ano.

FM

Mário Z.
18.10.2001 150307

Já vi o disco dos EN por aí à venda, mas ainda não comprei… Uma dúvida se coloca: sendo o álbum uma compilação, deverá direito a ser incluído numa hipotética lista de melhores do ano?

Saudações em tom sério

Mário

Fernando Magalhães
18.10.2001 150312

Não se trata bem de uma compilação, uma vez que a totalidade do duplo é constituída por versões alternativas, inéditos, temas ao vivo e temas “obscuros” (a indicação é do próprio grupo) que incluem, por ex., composições para a companhia de bailado La La La Human Steps.
Logo, não choca incluí-lo nos melhores do ano.

FM

Roy Harper – “Once”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A SOMBRA DO GUERREIRO


ROY HARPER
ONCE
LP e CD, Awareness


A época da canção de intervenção atingiu o auge na década de 60. Bob Dylan foi o seu profeta e teve seguidores. Em Inglaterra, Billy Bragg não se cala e espeta o dedo em todas as feridas. Roy Harper é um senhor já de certa idade, mas nem por isso deixa de incomodar o “establishment”. “Once” é daqueles discos em que as palavras valem mais do que a música. Há uma mensagem a propagar, valores a defender, podres a denunciar.
Segue um esquema simples, mas eficaz. O habitual neste campo de guerrilha musical: voz, guitarra a acompanhar, e os arranjos para lembrar que o artista também não descura o aspeto formal da embalagem. Roy Harper não é um cantor qualquer. O seu nome é respeitado, tem currículo. Apesar disso, e de ter já gravado qualquer coisa como vinte álbuns (entre os quais os clássicos “Folkjokeopus”, “Flat, Baroque and Bersek” e “Stormcock”, ou o mais tardio “Bullinamingvase”), afirma que se lhe torna “cada vez mais difícil reconciliar-se com o negócio”. Insistiu em que este disco não fosse gravado nem distribuído por qualquer das grandes companhias.
Das dez canções que o integram, só três não criticam qualquer coisa. A questão que à partida se levanta é a mesma de sempre: até que ponto funciona e vale a pena uma atitude deste tipo, em que a música popular se arvora como arma, quando as pessoas o que procuram cada vez mais é a evasão. Roy Harper, idealista, acha que sim e que “por vezes é importante ser guerreiro”. Está farto de “assistir ao espetáculo da megalomania fascista” e de “respirar o mesmo ar que o dos políticos, que condenam os desprotegidos, exploram os necessitados e poluem tudo aquilo em que tocam”. Há uma fúria sincera neste disparar de acusações. Vê-se pela cara de mau que ostenta na capa.
Coloca-se o problema de que, concorde-se ou não com as posições assumidas, se é confrontado com a evidência de que, para além das palavras, o álbum não é particularmente exaltante. Limita-se, na maioria dos temas, ao acompanhamento da guitarra e, nalguns deles, os nomes de David Gilmour e Kate Bush funcionam como chamariz.
Os poemas são duros, claro, as palavras incisivas e agrestes. Referem-se explicitamente os nomes de Dung, Margaret, Helmut e Mikhail. Em “The Black Cloud of Islam”, o mais violento de todos, que o próprio Harper hesitou em gravar, temendo ser acusado de racista e anti-islâmico, a metáfora em que se tornou hoje a condenação de Salman Rushdie serve como ponto de partida para a denúncia radical das atrocidades cometidas no seio da sociedade dirigida pelo Ayatollah, em nome de uma divindade sanguinária.
A acusação contra o fanatismo e a intolerância religiosa constitui, de resto, a pedra de toque do disco. Encontra o seu contraponto na homenagem, em “Berliners”, a todos aqueles que, nos últimos 50 anos, combateram em prol da construção da paz e do definitivo irradiar das guerras civis no Velho Continente. E aproveita, como já era de esperar, a deixa que agora a queda do Muro sempre proporciona, para celebrar “a demolição de todas as barreiras e a passagem pacífica dos tempos escuros para um futuro brilhante”. Não há dúvida de que o homem, além de idealista, é ingénuo. Aplauda-se, no entanto, o otimismo e o empenhamento que denota em ajudar a construir um mundo melhor. Se não fossem os discos, o que seria de nós?