Arquivo mensal: Junho 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #29 – “Moulin Rouge (Outsider)”

#29 – “Moulin Rouge (Outsider)”

Fernando Magalhães
22.10.2001 140201

Tem piada, fui ver esse filme no sábado, sem sequer me lembrar do que já tinha lido sobre ele na Imprensa.

Resultado: Choque inicial, a seguir a uma primeira sequência (a câmara que invade Paris) que achei fenomenal.

Depois, o espanto e o cansaço visual (estava na 2ª fila no cinema do Colombo, ecrã monstruoso. LOOL). “O que é que se passa?”. Aquela mistura de ritmo (e ruídos..) de desenhos animados alucinante, kitsch e canções pop inglesas dos anos 70 parecia não fazer grande sentido.

Mas já a verificação: Tecnicamente o filme é um portento!

Mas depois, à medida que o lado melodramático se vai impondo tudo parece lentamente ir fazendo sentido. The show must go on. O humor, a tragédia, o ridículo e a música (até o “Heroes” do Bowie lá aparece e, já agora, de quem é a canção épica – não cheguei a ver a ficha técnica final – em que se canta, precisamente, “the show must go on”? O estilo é muito Peter Hammill, no seu registo mais operático) enredam-se numa fantasia de ilusão e lantejoulas. É o teatro, o entertainment plenamente assumido como cenário do vazio e da morte mas também do amor.

Toda a sequência final, da estreia da peça, com a sobreposição entre o drama teatral e o drama real, é brilhante.

Gostei.

FM

Lestat
22.10.2001 121249

Que bosta!
Bem, eu só tenho a dizer que achei esse filme dos piores que já vi na vida.
Pela primeira vez saí da sala a meio do filme. Nunca tinha feito isto, nem com o “Fantasma”, filme Português que deve vir em segundo na lista dos piores. Logo depois do (*yack!*) Moulin Rouge (*yack!*) …

Mas pronto, vejo que causa amores e ódios… 😉

Lestat.

Fernando Magalhães
22.10.2001 140201

Re: Que bosta!

Cerca dos 15, 20 minutos do filme também pus seriamente a hipótese de sair. Mas resisti estoicamente e a verdade é que o filme vai adquirindo aos poucos uma dimensão de tragédia e de desmesura dramática que acaba por prender a atenção.
De resto, parece que este tipo de reacção foi comum a várias pessoas que viram o filme, inclusive alguns dos críticos do PÚBLICO…

FM

David Bowie – “Música Para Camaleões” (televisão)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 3 AGOSTO 1990 >> Local

RTP


Música para camaleões



DAVID ROBERT JONES, aliás, David Bowie, muda de personalidade como quem muda de roupa. Ziggy Stardust é a máscara mais conhecida mas devemos procurar na própria música os genes das constantes metamorfoses. Salta com a agilidade que só a distanciação permite do “glam” para a “soul”, do “rock” para as experimentações eletrónicas mais radicais. É alienígena, o homem que veio do espaço. Só “major Tom” lhe faz frente quando, indefeso, retira a maquilhagem, frente ao espelho. Adolescente, vindo das estrelas armado de guitarra elétrica, toca num bar em Marte. Inquilino da loucura. Palhaço a chorar na praia, na noite americana. Os astros são assim, mudam constantemente, não sofrem, do alto do Olimpo. De vez em quando, raramente, vem a notícia nos jornais: “Rock ‘n’ roll Suicide”. São loucos, os artistas – comentam aliviados os medianos – e correm a comprar o disco póstumo acabado de editar.
Com David Bowie é assim, tudo a fingir – camuflagem. A visão do conjunto é possível somente através da fotografia aérea.
A atração pela loucura ganhou-a do irmão Terry, a quem dedicou “All the Madmen”. “Bewlay Brothers”, ele o são, “Alladin Sane”, budista, de rosto raiado e corpo sem sexo. Ao outro deixem-lhe os Valium e o recetor de TV. Mas podem trocar-se os papéis, como ele gosta, e partir para o azul escuro, depois negro, das profundezas do céu. Contagem decrescente e lá vai o major para nunca mais voltar. “Space Oddity”, dele e de Kubrick.
O duplo da carne e osso das imagens vendeu o mundo, disfarçado de mulher, vestida de noite, recostada no sofá, dama proibida na capa que teve de mudar. “Hunky Dory”, andrógino ainda, em dedicatórias surreais a Dylan, Warhol, Velvets, “Oh you Pretty Thing”, estavas demasiado à frente para te conseguirem ver de frente, apenas seguiam o teu rasto. De poeira de estrelas, “stardust”, “Starman”, sempre as estrelas e tu Ziggy sempre a olhares para o seu brilho refletido nas latejoulas do fato com que iludes as multidões. Enganaste-os a todos, até D. A. Pennebaker que pensou que era tudo a sério e fez um filme do espetáculo onde já não participavas. “Ziggy Stardust – The Motion Picture” soa a Hollywood, parece condizer, mas em ti nada condiz com o que parece. Deixemo-lo cantar “Jean (Genet) Genie” e imitar os seus iguais nas versões de “Pin Ups”: Who, Yardbirds, Pink Floyd, com Angie imitando o anjo, na pose da capa.
O cinema sim, sempre, mas também a literatura. “1984”, de Orwell. Bowie antiutópico, violento, “Rebel Rebel”, corpo de cão maldito, “Diamond Dogs” raivosos, exigindo carne fresca e eles, os fãs, obedecem e dão-se em sacrifício, em troca do prazer. Fingiu tornar-se jovem e humano, com a alma que os americanos gostam, em plástico. “Young Americans”, “Plastic Soul”, finalmente a “Fame”, com ajuda de John Lennon. “Golden Years”, tempo para regressar à terra pela mão de Nicolas Roeg.
Diz-se que quando chegou a Londres, à estação Vitória, saudou como os nazis. Ele negou e partiu para outras estações, “Station to Station” até Berlim. Esperavam-no Robert Fripp e Brian Eno. Mutante cibernético, converteu-se à fidelidade matemática da máquina, tornando-se ele próprio mecanismo na trilogia do demonismo sintético: “Low”, “Heroes” e “Lodger”, tratado na arte da despersonalização. Assassino da alma, “yassassin” da emoção piegas do mundo pequeno, super-homem de olhar azul gelado de vidro que ganhou o brilho da pantera em “Cat People” de Paul Schrader. Fera devoradora, Bowie trabalha, toca e canta com Pat Metheny, Giorgio Moroder, Lou Reed, Tina Turner, Bing Crosby. Torna-se “gigolo”, soldado inglês de quem o oficial japonês gosta e homem-elefante, como os monstros de “Scary Monsters, Super Creeps”, o mais terrível de todos é “Baal” de Bertolt Brecht. Mas também figura real entre os bonecos de “Labyrinth”. Dança na rua com Mick Jagger como um “Absolute Beginner”. E quando o rodopio acaba, pega no braço da rapariga e diz-lhe simplesmente: “Let’s Dance”, de preferência “Tonight”.
Canal 1, às 14h50

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #28 – “Einstürzende, pt.2, TEST DEPT., SPK…”

#28 – “Einstürzende, pt.2, TEST DEPT., SPK…”

Fernando Magalhães
18.10.2001 180607

Então ninguém fala de um dos melhores CDs dos EN. o “Haus der Lüge”, o da capa nojenta com o cavalo a…?
Da fase mais recente, é o melhor disco deles.

Dos clássicos, quando os EN andavam a dar porrda em pontes de metal, prefiro o “Zeischnungen des Patienten O.T.”.

O “Funf, etc” e o da capa com os dentes a servir de cercadura em volta de toda a capa (qual é o título, mesmo?) são igualmente excelentes.

Lembro-me da altura em que o chamado rock industrial surgiu e o impacto que essa música teve em Inglaterra, com um espectáculo dos EN no ICA, em Londres, em que o grupo destruiu por completo o palco e pôs a direcção desse clube em pânico.

Foi na mesma época em que surgiram os TEST DEPT. (então TEST DEPARTMENT, por extenso), os australianos SPK (do Graeme Revell) talvez a banda industrial mais estranha de todas, que depois evoluiu para uma música electrónica/ritualística, culminando no perturbante e belíssimo “Zamia Lehmani – Songs for Byzantine Flowers””.

Hoje o Graeme Revell – autor a solo do ultra bizarro “The Insect Musicians”, inteiramente elaborado a partir de sons samplados e “ampliados” de insectos (!), faz bandas-sonoras para filmes de Hollywood…

FM

aavv
18.10.2001 190712

SPK
Ia mesmo daqui a pouco fazer download de um álbum (colectânea?) de SPK, o “Myths Collection, Vol. 1” (95), por causa da “In The Dying Moments”, faixa que me passaram há uns tempos. A tua mensagem caiu do céu. :> Que álbum deles aconselharias a um principiante?

Zé Pedro

Fernando Magalhães
19.10.2001 180616

A questão está em que os SPK do início eram uma banda industrial super pesada (O Graeme Revell trabalhara antes como enfermeiro num hospital psiquiátrico…) ou seja: maquinaria de pesadelo, noise e distorção…

O “Zami Lehmani” é uma espécie de sublimação do horror num ritual – missa negra, de sonoridades góticas e electrónica classizante, que não anda longe do espírito do 2º lado de “Low”, do Bowie… Também os LUSTMORD andam lá perto…

FM