Arquivo mensal: Outubro 2020

Balanescu Quartet – “Possessed”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 23.09.1992


MÁQUINA HUMANAS

BALANESCU QUARTET
Possessed
CD, Mute, Distri. Edisom



Alexander Balanescu é um violinista de formação clássica, conhecido sobretudo pela presença assídua em obras de Michael Nyman, como “The Draughtsman’s Contract”, “A Zed and Two Naughts”, “The Kiss and Other Movements”, “The Cook, the Thief, his Wife and her Lover” ou “Drowning by Numbers”. “Virtuose” do instrumentos (notável a sua prestação a solo no segundo lado de “Zoo Caprice”), Balanescu formou o seu próprio quarteto de cordas, com Claire Connors, no violino, Bill Hawkes, viola, e Caroline Dale, violoncelo. Um projecto que encontra paralelo nos Kronos Quartet e na execução de um reportório baseado em autores contemporâneos já consagrados ou, deste modo, elevados à condição de “clássicos”. Tal prática se, por um lado, não faz mais que prolongar a tradição do quarteto de câmara – mesmo quando, no caso dos Kronos Quartet, essa tradição radica num tipo de sensibilidade, digamos, experimental -, por outro, eleva a música rock (ou será melhor dizer “cultura”?), e alguns dos seus principais autores, à condição de “eruditos”, e reconhece a esta linguagem musical o estatuto, em termos mediáticos, da mais importante da segunda metade do século.
Os Balanescu Quartet foram um pouco mais longe nesse nivelamento, quando em “Possessed” optaram por escolher cinco temas dos Kraftwerk. A tradução da linguagem computorizada dos alemães por um quarteto de cordas “limpo” – não submetido a qualquer tipo de distorção electrónica – poderia, “a priori”, parecer uma tarefa impossível. Ao fazê-lo, ainda por cima, com sucesso, Alexander Balanescu e os seus pares assumiram que toda e qualquer matéria musical contém em si potencialidades infinitas de transformação, independentemente (e aqui radica o fundamental da questão) da forma temporal e, mais importante ainda, do contexto cultural e estético em que se insere. Só assim se pode compreender (e aceitar) o desvio de 180 graus a que foram submetidos a temática e o som futuristas dos Kraftwerk. Há em “Possessed” uma forma de provocação subtil, acentuada pela selecção de temas da banda de Düsseldorf que, de forma mais explícita, abordam a desumanização: “The Robots”, “The Model”, “Autobahn”, “Computer love” e “Pocket Calculator”, qualquer deles alusivo à máquina: o “robot”, o manequim (réplica redutora do humano a um maquinismo), o automóvel, o computador, a calculadora. Música de cãmara, supra-sumo da interiorização humanista, instrumento da ausência de emoções?
A execução instrumental corrobora e desmente, ao mesmo tempo, esta asserção. Joga-se na reprodução quase nota a nota de cada canção e, impressionante, dos efeitos electrónicos (os motores de automóvel em “Autobahn”, os “blips” da calculadora em “Pocket Calculator”) que, afinal, nunca foram secundários na música dos Kraftwerk. Ao decalque da forma junta-se noutras ocasiões o poder da sugestão e da memória: em “Autobahn”, julgamos ouvir na “fala” do violoncelo as vozes computorizadas do original; em todos os temas os sintetizadores “estão” lá. Tal perfeição apenas é possível graças ao excepcional virtuosismo dos músicos que aqui conseguem, ao nível da invenção tímbrica, uma proeza a todos os títulos notável. Sintomaticamente, é ao nível rítmico que os Balanescu Quartet não conseguem (se era essa a intenção) como é óbvio, repetir os padrões e a precisão da tecnologia digital.
Vai mais longe a ironia e o mimetismo, estético e conceptual, de “Possessed”: o “letterinh” da capa reproduz o estilo de Lissitzkyu, como acontecia com “The Man Machine”, dos Kraftwerk. Os Balanescu Quartet “possuídos” pelo espírito do outro quarteto, o alemão? Eles próprios os “robots” de que fala a canção (nas fotos da acpa há estranhos indícios…) funcionando a um nível subliminar – “the mechine men”? Já agora, refira-se que na editora do disco, a Mute, milita um lote numeroso de “industriais” e outros terroristas da electrónica… Depois, golpe final, os Miranda Sex Garden surgem nos apoios vocais de um dos três temas compostos por Balanescu, aos quais se junta uma bateria ao mais puro estilo de Glenn Branca. Andrew Poppy cruza-se com Michael Nyman, em batida marcial. Para finalizar, a última faixa é uma composição de David Byrne, “Hanging Upside Down”, nos antípodas da frieza dos alemães. Um objec to único. (8)

Meredith Monk – “Meredith Monk Encerrou, Sábado E Domingo, Os Encontros Acarte 92 – O Canto Da Respiração” (concertos / festivais / acarte)

Cultura >> Segunda-Feira, 21.09.1992


Meredith Monk Encerrou, Sábado E Domingo, Os Encontros Acarte 92
O Canto Da Respiração



COMEÇOU por um sopro gelado. Acabou num tango. Em Meredith Monk a voz é acção, dança, vibração primordial. O auditório da Gulbenkian, em Lisboa, transformou-se em palco do mito. No final, a cantora conseguiu a proeza de pôr o público a cantar, a três vozes, um “canon” da Idade Média.
A ideia é simples. Tão simples e luminosa que a razão pode ser surpreendida. Meredith Monk é uma voz. À volta dessa voz existe um corpo e coisas que na origem não têm nome. Se o teatro se constrói de gestos, em Meredith Monk o gesto começa pelo sopro, pela respiração, pelo princípio vital – pneuma. Por isso a nudez exterior da encenação, em “Facing North”, apresentado na primeir aparte da actuação, sábado à noite, da cantora americana com Robert Een.
Não há razões, em “Facing North”. Apenas a recriação de um mito, em que o Norte, o polo Norte, o seu silêncio e a nudez crua da luz branca, funcionam como espaço atemporal, uterino, vazio e, ao mesmo tempo, de fio condutor de uma acção que se desenrola toda ela no interior. Encarar e encontrar o Norte – uma questão de orientação – significa encontrar e viver o sentido da vida e das pequenas coisas que escapam à prisão conceptual. Esse sentido é o amor.
Onde, numa estrutura narrativa convencional, o aspecto dramático se desenrola através do discurso linguístico, em “Facing North” tudo se passa antes do drama, da divisão e da Queda. De “Facing North” apetece dizer que recria a não-história de Adão e Eva no paraíso. Um homem e uma mulher brincam do lado de fora do tempo. Os movimentos das vozes de Meredith Monk e Robert Een acompanham e determinam os movimentos dos corpos. Corpos que jogam e descobrem. Se jogam e se descobrem na relação amorosa. São corpos de crianças. Meredith Monk inflecte amiúde em registos vocais infantis onde se manifestam o espanto e o prazer. Os corpos balançam-se, caminham e gesticulam enquanto as vozes estabelecem a ligação, respirando-se em conjunto, ora simiescas, ora angélicas, patéticas umas vezes, litúrgicas, outras. E entre cada encontro, cada gesto, o grande silêncio, que só os constantes ataques de tosse de uma assistência nervosa ou constipada pelo frio polar conseguiram perturbar.
Na segunda parte foram apresentadas quatro peças para voz, teclado e violoncelo – instrumento pneumático – por ordem diferente da prevista. “Travelling”, do álbum “Dolmen Music”, deu o mote á temática da viagem – viagem extática, astral, da voz que centrada e aparentemente imóvel, percorre os diferentes planos que tecem o mundo. “Madwoman’s voice”, do álbum e do filme “Book of Days”, corporizou, no contraponto vocal entre os dois intérpretes, o diálogo e o cruzamento entre a Idade Média e o mundo moderno, a visão premonitória da pequena Eva e a perspectiva global da “mulher louca”, capaz de dar um sentido ao Apocalipse. De novo a coincidência e a sabotagem das redes do tempo, essa ilusão que o nosso cérebro fabricou. Seguiram-se excertos da ópera recente, “Atlas” – cuja temática gira em torno de uma mulher em demanda do Graal, espécie de Parsifal feminino que finalmente regressa ao ponto de partida para descobrir a importância das pequenas coisas como “beber café”. A importância do “aqui e agora” – frisou a cantora – do eterno presente que é o cerne da realidade.
“The Tale” (também de “Dolmen Music”), cantada em inglês, encerrou a sequência sobre o tema da morte. Onde se conta a história de uma mulher que recusa a morte apresentadando uma lista do que possui, das alergias á filosofia (que Meredith Monk conseguiu pronunciar em português). Repetiu-se o que já fora dito antes, o confronto entre o Ser e o Ter, e a falência do recurso ao racional, coincidente com a separação e amorte.
Meredith Monk foi a celebrante de um ritual que escapa das malhas da intelectualidade. No primeiro “encore” exigido por uma audiência extasiada, conseguiu romper a solenidade e a distância, e pôr toda a gente a cantar, a três vozes, um “canon” medieval, ainda por cima afinada – “o importante é manter “pulse” – “you know – rock ‘n’ roll”. Um declamado “Tango de Meredith”, composto por Robert Een em homenagem à cantora, acabou de forma despropositada o espectáculo a todos os níveis memorável. Apesar doisso portou-se bem, naquele fim-de-tarde, na Gulbenkian.

Jig – “Folk Portuguesa Promove Associativismo” (concerto / rivoli)

Cultura >> Sábado, 19.09.1992


Folk Portuguesa Promove Associativismo



OS JIG, banda portuense especialista no reportório celta, actua hoje, às 19h30, no teatro Rivoli, no Porto, num espectáculo que marca o início da campanha de promoção ao associativismo juvenil, organizada pela Federação de Associações Juvenis do distrito do Porto. A primeira parte é preenchida pelos Frei Fado Del Rey. Integrado na mesma iniciativa, realiza-se no mesmo dia e local, pelas 14h30, um café-concerto no qual será inaugurada uma exposição sobre o tema do associativismo juvenil neste distrito.
Considerados pela crítrica a banda revelação do Festival Intercéltico do Porto de 1990, os Jig dedicam-se à interpretação de temas recolhidos da tradição celta, nomeadamente as danças e baladas típicas irlandesas, contando para tal com a boa voz de Isabel Leal e uma já razoável mestria instrumental dos restantes elementos: Alfredo Teixeira, bandolim, Arlindo silva, violino, Manuel Apolinário, flautas, Manuel Salselas, baixo, Paulo Pires, bateria e Serafim Lopes, guitarra. As suas actuações terminam por norma em dança colectiva, como aconteceu na última Festa do “Avante!”, graças ao entusiasmo que sempre pôem em cada apresentação. O resultado discográfico deste trabalho, iniciado em 1985, pode ser apreciado no CD, intitulado simplesmente “Jig”, que a editora Numérica acaba de lançar no mercado.
Com dois anos de existência e por enquanto pouco conhecidos, os Frei Fado Del Rey partem das raízes populares trovadorescas para a criação de temas originais compostos pelos membros do grupo, onde a ênfase é dada à melodia, servida por uma instrumentação exclusivamente acústica. Foram semifinalistas do 1º concurso de música moderna da Câmara Municipal de Lisboa e conseguiram bons resultados nas eliminatórias do concurso Yamaha-Mit, organizado pela EMI-Valentim de Carvalho. Carla Lopes, voz, Cristina Bacelar, guitarra clássica, José Martins, baixo acústico, Luís Sousa, percussão, e Ricardo Costa, guitarra clássica, têm agora a oportunidade de mostrar aquilo que valem fora de competição. A nova geração de grupos folk portugueses começa a ter pernas para andar.