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Isabel Leal – “EM PÚBLICO”

pop rock >> quarta-feira >> 14.09.1994
EM PÚBLICO


ISABEL LEAL *

Conte-nos o seu percurso musical antes de entrar para os Jig.
Talvez aos 15 anos, não sei bem, comecei a cantar em público, já integrada num grupo. Foi uma época agitada, logo após 74. Juntamente com as chamadas músicas de intervenção, aparecia o interesse pela música tradicional portuguesa. Mais tarde fiz parte do grupo Vai de Roda, até ao aparecimento dos Jig. Nessa altura tive de escolher e escolhi o Jig. Ao mesmo tempo, e sem grandes compromissos, apenas pelo prazer que me dava, tocava guitarra e cantava em cafés-concerto e em bares, percorrendo o mundo das canções.

Qual a sua relação com a música tradicional? É o género no qual se sente mais à vontade a cantar ou apenas o faz por obrigação e imposição do grupo?
Desde pequena que a música tradicional é algo que está presente nas festas, nas viagens… Cantava-se muto em família e com os amigos. A música tradicional tem força e por alguma razão resiste através dos anos. Muda de roupa mas está sempre lá. Nunca a cantei por imposição do grupo. Foi uma escolha e uma inspiração para outros voos mais originais.

Em particular, que laços existem, se é que existem, entre si e a música tradicional irlandesa?
É difícil explicar uma paixão. Foi o que aconteceu quando ouvi pela primeira vez o som da Irlanda. Apaixonei-me. Quando fui com o Vai de Roda numa minidigressão ao Canadá, tocámos com vários grupos de música tradicional celta, nomeadamente os Reel Union, com a Dolores Keane e o marido, John Faulkner, que andaram sempre em digressão connosco, além de um grupo sueco cujo nome não me recordo e grupos canadianos. Fomos bastante influenciados sobretudo pelos Reel Union. Gerou-se um convívio, conhecemo-nos, cantávamos juntos…

Uma imagem da Irlanda mítica dos seus sonhos…
Uma floresta, com fadas ruivas que dançam no ar ao som de uma harpa. À noite, claro, junto de um lago iluminado por pirilampos.

Como explica o entusiasmo que a juventude portuguesa reage à música irlandesa e, em particular, aos espectáculos dos Jig?
A música irlandesa acho que ninguém resiste. Tanto nos faz sonhar como nos desperta para a dança. O público jovem, e não só, adere com entusiasmo aos espectáculos dos Jig porque conseguimos reunir os melhores ingredientes, ou seja, algumas das músicas mais significativas e populares. Pode estar-se apenas confortavelmente a ouvir ou, então, alegremente a dançar.

Que sentido faz uma banda portuguesa (os Jig, ou qualquer outra) dedicar-se à música de uma tradição estrangeira?
Neste momento não faz muito sentido, sobretudo música irlandesa. Há oito anos, quando o Jig apareceu, a palavra “celta” aparecia apenas na História, distante da música. Hoje, temos cá, ao vivo, os melhores grupos de música celta. Os irlandeses sempre compartilharam as suas vivências musicais com outros povos, estou a lembrar-me dos Chieftains, por exemplo, na China e na Galiza. Mas se o Jig quer compartilhar, tem de ter por seu lado algo que lhe pertença. É um dos motivos aliás porque o Jig tem estado mais ou menos parado. Não sei até se está parado ou se acabou (risos), precisamente porque achámos que deixou de fazer sentido tocar só música irlandesa. Temos já alguns temas em português, falta saber se há garra suficiente para pegar neles e andar para a frente.

Nos Jig, procura imitar, na medida do possível, as técnicas tradicionais de canto irlandês, ou, pelo contrário, está-se nas tintas e procura antes adaptar essa música (a irlandesa) a um estilo pessoal de interpretação?
Não me estou nas tintas! Mas é verdade que não penso muito, quando canto, em determinadas formas de cantar para depois escolher uma. É intuitivo. Mas houve pessoas irlandesas que nos ouviram e acharam que havia muito em comum. Às vezes até pensavam que eu era irlandesa. Não era forçado, devia ser por causa do sotaque que eu às vezes exagerava. Era como me soava bem e era assim que saía.

Dos quatro instrumentos paradigmáticos da música tradicional irlandesa, cada um corresponde a um dos quatro elementos, com qual sente maiores afinidades: “Tin whistle” (ar), rabeca / “fiddle” (fogo), “uillean pipes” (terra), harpa (água)? Justifique e divague à vontade.
Harpa, para que a voz possa navegar livremente. No entanto, todos os outros elementos são bem-vindos, desde que não asfixiem, queimem ou enterrem.

Admitindo que passava a cantar só em português, que poetas escolheria para cantar? O que encontra em cada um deles?
Escolhia os poetas músicos, como Zeca Afonso ou Sérgio Godinho. Em cada um deles encontro-me muitas vezes. Quando escrevem é já com a função de musicarem. Ou o contrário, no caso do Sérgio Godinho, que, segundo creio, escreve depois. Esta relação é importante para uma canção. Podes pegar num poema do Fernando Pessoa que seja lindíssimo, mas acaba por ser difícil pegar nele e conseguir uma certa unidade. Os poemas mais bonitos se calhar já estão musicados. Andei uns tempos a ler imensos livros de poesia em casa, até de Camões – Camões já é mais fácil… – e custava-me imenso encontrar poemas que não estivessem já musicados e eu pudesse cantar. Ou seja, que aquilo que os poetas dizem pudesse ser eu a dizer.

Escolha para si um caminho musical fora dos Jig. Como gostaria que fosse? Onde quereria ou gostaria de chegar?
Nunca defini as minhas ambições. Fui-me envolvendo com a música e vou continuando enquanto gostar de ouvir a minha voz. Agora mais do que nunca, depois dos Madredeus, cantar em português não é uma barreira. Gostava de seguir o meu caminho. Sem destino. É verdade que houve alturas em que já estive mais convencida de que a música era mesmo o que eu queria. Faço muitas outras coisas, dar aulas por exemplo, que me tiram tempo e disponibilidade, mesmo mental. Sobretudo em tempo de aulas fico muito absorvida. Falta acrescentar que mesmo nas aulas que dou, no ensino primário, ensino muitas coisas através de canções que gravo e levo para as aulas. Aproveito sempre o facto de cantar.

Além desse aspecto, é-lhe então difícil conciliar a sua actividade enquanto professora com a música?
É um pouco complicado e, por vezes, tenho que optar. Quando isso acontece, a música fica para segundo plano. Preciso urgentemente de tempo.

Vai ou não aparecer um segundo disco dos Jig?
Não sei se vai aparecer, nem sei mesmo, como já disse, se o Jig ainda existe. No entanto, a vontade de criar não se perdeu e, quem sabe, a qualquer momento estamos de novo aí.
* vocalista dos Jig.

Vários (Bagad Kemper, Jig, Na Lua) – “II Festival Intercéltico – Portuenses E Bretões Vencem Rock Galego”

Secção Cultura Domingo, 21.04.1991


II Festival Intercéltico
Portuenses E Bretões Vencem Rock Galego


Bretanha, Porto e Galiza, apresentaram-se no Teatro Rivoli. Se os bretões Bagad Kemper penetraram nas profundezas das “gavottes” e “an dro” bretãs, e os portuenses Jig foram a revelação do Festival, já os galegos Na Lua desiludiram, perdidos entre um som que não ajudou e uma indefinição estética que descambou num “folk ‘n’ rol” de qualidade duvidosa.



Antes da música, novamente a gastronomia bretã, desta vez representada pelos crepes e pela cidra, ajudou a preparar os espíritos para as cerimónias seguintes. Os Bagad Kemper, que durante a manhã transportaram a sua música e alegria até à baixa do Porto, abriram com chave de ouro as festividades nocturnas, no teatro Rivoli. Quinze músicos, divididos por três secções de gaitas-de-foles, bombardas e percussões, interpretaram uma sequência de “suites” da região que fez estremecer os alicerces do recinto e mergulhou o público num estado de transe telúrico. Momento muito especial, aquele em que as percussões se libertaram e, a solo, escavaram fundo nas rochas das costas encantadas da Bretanha.
Mestria técnica, um reportório criteriosamente selecionado do cancioneiro celta e muito entusiasmo, conferiram aos Jig, do Porto, o estatuto de grande revelação do Festival. Da Irlanda das florestas e dos duendes, mas também dos “pubs” eufóricos de Whiskey, fumo e Dubliners, a Trás-os-Montes, do “bluegrass” americano aos confins gelados da Terra-Nova, os Jig confirmaram-se como uma das melhores bandas do género, em Portugal. Congregando músicos provenientes da formação antiga dos Vai de Roda e da banda de “country” King Fisher’s Band, os Jig, em actividade desde 1986, surpreenderam pelas capacidades técnicas evidenciadas e pela completa assimilação da temática e sensibilidade célticas. Alfredo Farinha (bandolim e concertina), Carlos Adolfo (guitarra), Manuel Salselas (baixo), Manuel Apolinário (flautas transversal e de bisel), Isabel Leal (voz), Joaquim Teles (percussão) e Arlindo Silva (violino), fazendo jus ao nome, abriram com o crescendo rítmico de “King of the faeries” (tema que integra a gravação de Alan Stivell no Olympia de Paris) e terminaram com as reverberações etílicas do clássico dos clássicos “Whiskey in the jar”, alternando os instrumentais com baladas excelentemente interpretadas por Isabel Leal, um rosto e presença belíssimos e uma voz que pode ir longe na música portuguesa. Destaque também para as prestações de Arlindo Silva, violinista de formação clássica que alia a velocidade de execução, nas jigas e corridas “bluegrass” instrumentais, a uma sensibilidade contida nas baladas vocais, de Manuel Apolinário, na flauta e de Alfredo Farinha, impecável no dedilhar do bandolim, bem secundados, de resto, pelos restantes músicos dos Jig.
“I’m the man you don’t meet everyday”, “Wild rover” ou “Dancing masters”, todos tradicionais irlandeses, “The tem commandments”, (“tour de force” vocal do Canadá brilhantemente interpretado por Isabel Leal, apoiada na pulsação hipnótica doo tambor percutido por Joaquim Teles) e os portugueses “Agora baixou o sol” e “Mourinheira”, foram alguns dos pontos altos da actuação dos Jig que entusiasmaram a assistência.
Resultado da convergência de diferentes influências – “cada músico tem um percurso diferente, o Arlindo por exemplo, toca numa formação clássica, outros elementos vieram dos Folk Band ou dos King Fisher’s Band” – diz Isabel Leal – Os Jig apostam contudo num reportório português totalmente original, antes da estreia discográfica, prevista em CD, numa editora por enquanto desconhecida.
Os galegos Na Lua entraram a matar, que é como quem diz, fizeram folclore no pior sentido. Agitaram bandeiras, falaram a despropósito e, sobretudo, perderam-se completamente, entre a tentação de um rock saturado de electricidade, pontuado por sugestões tradicionais, e uma miscelânea de influências recolhidas de regiões tão díspares como o Nepal ou o Norte de Portugal, sem que da mistura tivesse resultado algo de minimamente original ou, pelo menos, interessante. Salvou-se do naufrágio a excelência técnica de Antón Rodriguez, na gaita-de-foles, flautas e saxofone soprano e de Francisco Alvarez, no violino e bandolim. De Uxia, a voz de fada presente no álbum “A Estrela de Maio”, sabe-se que abandonou os Na Lua, desagradada com a orientação seguida pelo grupo. A Galiza não espetou a pretendida lança em Portugal. Triunfo para a alegria contagiante dos Jig e para a autenticidade das raízes bretã dos Bagad Kemper.

Jig – “Jig Apresentam Disco De Estreia Em Lisboa – Longe Do Coração, Próximo Do Pé” (concerto)

Cultura >> Domingo, 13.12.1992

Jig Apresentam Disco De Estreia Em Lisboa
Longe Do Coração, Próximo Do Pé

VAMOS PÔR de parte os irlandeses. Os Jig são portuenses e tocam música cujo principal objectivo é fazer dançar. Na noite de sexta-feira, no Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, num concerto de apresentação do seu álbum de estreia, “Jig”, editado na Numérica, a banda revelação do Festival Intercéltico 1991 conseguiu totalmente os seus intentos. No final, foram muitos os jovens que saltaram para o palco de maneira a darem livre curso ao bicho carpinteiro. Um deles, embrulhado numa bandeira da Irlanda, era dos mais entusiasmados, pulando e bailando como um danado. E eis-nos de regresso à Irlanda e a o busílis da questão. A maior parte do reportório dos Jig é composto por temas tradicionais irlandeses. O problemas, ou visto por outro prisma, a virtude, está em que os músicos do grupo portuense tocam esses tradicionais como nenhum irlandês o faz ou faria, ou seja, à portuguesa. Significa isto que “arredondam” o compasso acrescentando-lhe tempos e marcações que têm, para eles, a vantagem de facilitar as interpretações, e para o público de tornar mais cómoda a bailação.
Pormenorizando: a quase totalidade dos temas aproxima-se, em termos rítmicos, da polka ou, o que é curioso e poderia constituir pista interessante de seguir, da dança “morris” inglesa. Por outro lado, os Jig estão bastante mais próximos, em questões de sensibilidade e “approach” instrumental, da música “country” americana do que das típicas “jigs” (paradoxo) e “reels” irlandesas.
Dito isto, o concerto pode considerar-se um êxito. O público aderiu e os músicos revelaram todos eles progressos técnicos de assinalar. O violinista Arlindo Silva mostra-se cada vez mais à vontade no papel de principal solista – competente e com “feeling” foi a sua prestação no “exame” que é “The Orange Blossom Special”. Alfredo Teixeira e Manuel Apolinário foram eficazes, respectivamente, no bandolim e flautas. Manuel Salselas teve rédea firme nas marcações. Paulo Pires, na bateria, e Serafim Lopes na guitarra, os dois delfins da banda, não destoaram. Quanto a Isabel Leal, a sua voz quase em surdina esteve segura embora a música do grupo ganhasse se ela, por vezes, não tivesse tanta pressa e a preocupação de entrar “dentro” dos outros instrumentos, invariavelmente nos tempos fortes. Cantar certinho pode ser inimigo da expressividade e do dramatismo. Os Jig poderiam e deveriam explorar em profundidade as possibilidades do contraponto.
De resto, foi agradável de ouvir e recordar os tradicionais da Irlanda, da Escócia e um da Galiza, longe dos corações originais mas tocados com garra que chegou para provocar a folia do pé. Puristas é que os Jig não são. Fica-se à espera dos temas originais e da música portuguesa prometidos.