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Balanescu Quartet – “Balanescu Quartet Hoje À Noite Em Belém – Sempre Em Pé”

cultura >> sexta-feira, 05.11.1993


Balanescu Quartet Hoje À Noite Em Belém
Sempre Em Pé



ENTRE as proezas de vulto que se atribuem aos Balanescu Quartet destacam-se duas: terem sido aplaudidos de pé por 10 mil pessoas, em 1990, no estádio de Wembçey, num concerto com os Pet Shop Boys e, em 1992, a reprodução, em instrumentos de corda, da orgia de sons electrónicos dos Kraftwerk, num álbum magnífico chamado “Possessed”. Tocam hoje em Lisboa, pelas 22h00, no auditório principal do Centro Cultural de Belém.
O grupo tornou-se uma lenda viva, um fenómeno que ombreia em popularidade com os rivais Kronos Quartet. Em “Possessed”, custa a acreditar no que se está a ouvir, de tal forma Alexander Balanescu (violino), Clare Connors (violino), Bill Hawkes (viola de arco) e Nick Cooper (violoncelo) transfiguram os seus instrumentos, obrigando-os a suar e a soar como maquinismos de ficção – automáticos, pulsantes, mas com um coração a bater. No que respeita à ovação em pé por 20 mil pessoas, não estivemos lá para as contar, além de que não vemos com bons olhos um agrupamento de gente séria, da “erudita”, ser aplaudido de pé, de mais a mais num estádio.
Mas quem são afinal estes paladinos da corda que, desde 1987, ano da sua formação, têm trazido (ou levado, consoante a posição em que se está) a música de câmara aos auditórios populares, numa operação de miscigenação, na sua área, sem precedentes?
O principal dos quatro é Alexander Balanescu, romeno de nascimento e solista em quase todos os discos de Michael Nyman. Fez parte dos Arditti Quartet, gente fina, que não deixou que a aplaudissem de pé (o entusiasmo é o pai de todos os excessos). Faz o que quer do violino. Em “Possessed”, o álbum dos disfarces (em que, no meio do golpe de génio que foi pegar de caras a cibernética dos Kraftwerk, quase passa despercebido um tema de David Byrne, “Hanging upside down”), obrigou-o a parecer-se com um sintetizador. Clare Connors fez os arranjos de transposição da linguagem “techno” da banda alemã para as cordas. De Andy Parker, o violista, não há nada de particularmente importante a destacar (ou, se há, ninguém nos disse nada). Já em relação a Nick Cooper, é de bom tom fazer-lhe a vénia e acenos de apreciação, pois tocou na London Symphony Orchestra.
Os quatro juntos dedicam-se a reinventar obras de artistas dos mais diversos quadrantes musicais, provando com isso que as cordas são pau para toda a obra. Estratégia que tem a vantagem de empurrar certas camadas específicas de público para incursões no território do “inimigo”.
Em disco, o grupo assinou obras de grande mérito, como são as versões de algumas peças antigas de Michael Nyman, o já citado “Possessed” e o posterior “Music for String Quartet”, com a repescagem de temas de David Byrne, John Lurie, Michael Torke e Michael Moran.
Ao vivo, os Balanescu vão a todas. Aos estádios, onde já foram aplaudidos de pé por mais de 50 mil pessoas, mas também ao Queen Elizabeth Hall, à Knitting Factory – sede das múltiplas vanguardas nova-iorquinas – ou, como esta noite, ao Centro Cultural de Belém.
Actuaram, entre outros, com Keith Tippett, Andy Sheppard, Jack de Johnette e Johyn Surman, mas não se importaram nada de fazer o mesmo com os Pet Shop Bpys (o que lhes mereceu – é espantoso – uma ovação em pé de 100 mil pessoas) e os Miranda Sex Garden (que, por acaso cantam numa das faixas de “Possessed”). Também não se fazem caros quando se trata de aceitar convites para colaborações em discos alheios. Que o digam Sam Brown, no seu segundo álbum, e Kate Bush, em “The Sensual World”, no tema “Reaching Out”.
Assim sendo, vamos hoje à noite todos a Belém, aplaudi-los. De pé, claro. Eles merecem.

Balanescu Quartet – “Possessed”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 23.09.1992


MÁQUINA HUMANAS

BALANESCU QUARTET
Possessed
CD, Mute, Distri. Edisom



Alexander Balanescu é um violinista de formação clássica, conhecido sobretudo pela presença assídua em obras de Michael Nyman, como “The Draughtsman’s Contract”, “A Zed and Two Naughts”, “The Kiss and Other Movements”, “The Cook, the Thief, his Wife and her Lover” ou “Drowning by Numbers”. “Virtuose” do instrumentos (notável a sua prestação a solo no segundo lado de “Zoo Caprice”), Balanescu formou o seu próprio quarteto de cordas, com Claire Connors, no violino, Bill Hawkes, viola, e Caroline Dale, violoncelo. Um projecto que encontra paralelo nos Kronos Quartet e na execução de um reportório baseado em autores contemporâneos já consagrados ou, deste modo, elevados à condição de “clássicos”. Tal prática se, por um lado, não faz mais que prolongar a tradição do quarteto de câmara – mesmo quando, no caso dos Kronos Quartet, essa tradição radica num tipo de sensibilidade, digamos, experimental -, por outro, eleva a música rock (ou será melhor dizer “cultura”?), e alguns dos seus principais autores, à condição de “eruditos”, e reconhece a esta linguagem musical o estatuto, em termos mediáticos, da mais importante da segunda metade do século.
Os Balanescu Quartet foram um pouco mais longe nesse nivelamento, quando em “Possessed” optaram por escolher cinco temas dos Kraftwerk. A tradução da linguagem computorizada dos alemães por um quarteto de cordas “limpo” – não submetido a qualquer tipo de distorção electrónica – poderia, “a priori”, parecer uma tarefa impossível. Ao fazê-lo, ainda por cima, com sucesso, Alexander Balanescu e os seus pares assumiram que toda e qualquer matéria musical contém em si potencialidades infinitas de transformação, independentemente (e aqui radica o fundamental da questão) da forma temporal e, mais importante ainda, do contexto cultural e estético em que se insere. Só assim se pode compreender (e aceitar) o desvio de 180 graus a que foram submetidos a temática e o som futuristas dos Kraftwerk. Há em “Possessed” uma forma de provocação subtil, acentuada pela selecção de temas da banda de Düsseldorf que, de forma mais explícita, abordam a desumanização: “The Robots”, “The Model”, “Autobahn”, “Computer love” e “Pocket Calculator”, qualquer deles alusivo à máquina: o “robot”, o manequim (réplica redutora do humano a um maquinismo), o automóvel, o computador, a calculadora. Música de cãmara, supra-sumo da interiorização humanista, instrumento da ausência de emoções?
A execução instrumental corrobora e desmente, ao mesmo tempo, esta asserção. Joga-se na reprodução quase nota a nota de cada canção e, impressionante, dos efeitos electrónicos (os motores de automóvel em “Autobahn”, os “blips” da calculadora em “Pocket Calculator”) que, afinal, nunca foram secundários na música dos Kraftwerk. Ao decalque da forma junta-se noutras ocasiões o poder da sugestão e da memória: em “Autobahn”, julgamos ouvir na “fala” do violoncelo as vozes computorizadas do original; em todos os temas os sintetizadores “estão” lá. Tal perfeição apenas é possível graças ao excepcional virtuosismo dos músicos que aqui conseguem, ao nível da invenção tímbrica, uma proeza a todos os títulos notável. Sintomaticamente, é ao nível rítmico que os Balanescu Quartet não conseguem (se era essa a intenção) como é óbvio, repetir os padrões e a precisão da tecnologia digital.
Vai mais longe a ironia e o mimetismo, estético e conceptual, de “Possessed”: o “letterinh” da capa reproduz o estilo de Lissitzkyu, como acontecia com “The Man Machine”, dos Kraftwerk. Os Balanescu Quartet “possuídos” pelo espírito do outro quarteto, o alemão? Eles próprios os “robots” de que fala a canção (nas fotos da acpa há estranhos indícios…) funcionando a um nível subliminar – “the mechine men”? Já agora, refira-se que na editora do disco, a Mute, milita um lote numeroso de “industriais” e outros terroristas da electrónica… Depois, golpe final, os Miranda Sex Garden surgem nos apoios vocais de um dos três temas compostos por Balanescu, aos quais se junta uma bateria ao mais puro estilo de Glenn Branca. Andrew Poppy cruza-se com Michael Nyman, em batida marcial. Para finalizar, a última faixa é uma composição de David Byrne, “Hanging Upside Down”, nos antípodas da frieza dos alemães. Um objec to único. (8)

Balanescu Quartet – “Luminitza”

Pop Rock

9 MARÇO 1994
ÁLBUNS POP-ROCK

Balanescu Quartet
Luminitza

Mute, distri. BMG port.


bq

Com “Luminitza”, os Balanescu Quartet deixaram de ser um simples quarteto de cordas (se é que se pode chamar simples a um quarteto de cordas que já tocou a música dos Kraftwerk…) para se transformar em algo mais, por enquanto ainda não muito definido. Para já, parece haver da parte dos seus membros a necessidade de variar a gama sonora disponível, o que na prática se traduziu neste disco na inclusão de teclados e programações electrónicas. O som saiu enriquecido, mas o discurso ainda não possui coerência suficiente que permita definir o quarteto como algo mais do que um colectivo de intérpretes de composições alheias. Em “Luminitza”, as composições assinadas pelos próprios elementos do grupo, deixam perceber até que ponto estes foram influenciados pela música dos germânicos robóticos que lhes serviu de matéria de estudo no álbum “Possessed”. A electrónica não domina por enquanto a música, pertencendo ainda às cordas discorrer sobre teorias sólidas como o minimalismo ou o classicismo de feira de Michael Nyman. Mas os germes de uma nova linguagem estão presentes em “Luminitza”. E sobre o ombro dos Balanescu Quartet sente-se a respiração pesada do clamor industrial. Não admiraria que os Balanescu viessem a engrossar as fileiras da chamada “grey zone” da Mute. (7)

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