VINCENT CLARKE & MARTYN WARE
Spectrum Pursuit Vehicle
Mute, distri. Zona Música
7|10
Estão mal dispostinhos? Sentem-se cansados? O stress aperta? Não se preocupem, Vincent Clarke e Martyn Ware, dois homens com passado feito nos anos 80 na área da electropop – o primeiro nos Depeche Mode e Yazoo, o segundo nos Human League e Heaven 17 – têm a cura ideal para o vosso mal-estar. “Spectrum Pursuit Vehicle” é chill-out, quase new age, que recupera o som de passarinhos, ondas do mar e frequências eletrónicas terapêuticas, tiradas da farmácia de Brian Eno, Laraaji e KLF. Mas não se pense que é só tomar o comprimido. Não. “Spectrum Pursuit Vehicle” foi construído sobre sólidas teorias científicas e é o segundo disco a ser gravado com as novas tecnologias “Platina Logic Audio”, sendo o som “espacializado” com software de visualização Animix 3D no Institute of Sonology. Assim, sim. Tudo em 3D e com a chancela de um instituto. Diz a promoção que o disco se destina a “criar no ouvinte um estado de profunda relaxação” e que deve ser ouvido num estado “ensonado” e com os altifalantes nos ouvidos, de maneira a tirar o máximo partido do software utilizado, capaz de criar som surround a três dimensões. Feita a audição de acordo com estas recomendações, “Spectrum Pursuit Vehicle” se não abriu as portas a uma nova dimensão, criou pelo menos um estado de apaziguamento agradável. Depois, cada uma das seis faixas corresponde a uma cor e ambiente específicos. Há um tema para nos transportar até ao céu, outra até à praia, outro até ao interior de um útero, outra para debaixo de água, outra ainda para uma floresta. Em suma: umas férias virtuais baratas.
Não me importo de ser exposta numa canção porque endureci. Passei grande parte da minha vida sem companheiro ou a ser rejeitada. Tenho que ter desejo, sentir o cheiro de um homem… sou uma grande romântica, mas o meu coração e as minhas entranhas sobrepõem-se ao meu senso comum. P.J.Harvey
Desejo. Rock. Desejo. Sombras. Desejo. E agora o oceano. Imenso. “Is This Desire?” perguntava Polly Jean Harvey no seu álbum de 1998. A resposta era uma estranha combinação de romance e desespero. “O meu coração e as minhas entranhas sobrepõem-se sempre ao meu senso comum”. Restava uma única saída deste vórtice: a viagem pelas águas.
“Stories from the City, Stories from the Sea” materializa essa nova etapa de um percurso que em disco se iniciara em 1992, com “Dry”, e prosseguira no ano seguinte com “Rid of Me” e em 1995 com “To bring you my love”, antes de se atolar nos pântanos do desejo e, finalmente, desaguar no oceano. “Eu”, “secura”, “amor”, “desejo”, “mar”. Símbolos de uma ascese feita de ternura e raiva, sol e trovoada.
“Li algures que o dever de qualquer artista é o de reescrever incessantemente a fronteira que separa a terra do mar”, “vivo num pequeno apartamento junto à costa e tudo o que consigo ver das minhas janelas é o mar”, diz Polly Jean Harvey a propósito do novo álbum. O mar no horizonte, o mar como horizonte. Exterior e interior. As águas, símbolo do Inconsciente coletivo que urge atravessar para atingir o lado de lá, a outra margem, o lugar onde o indivíduo se integra numa entidade cósmica mais vasta e a personalidade finalmente se dissolve. Onde, como dizem os budistas, as águas do rio se confundem com as do mar.
“Hoje sei que não passo de uma pequena porção de um todo gigantesco que me ultrapassa e que já não tenho de passar tanto tempo a confrontar-me com o meu interior sem ser capaz de olhar cá para fora”. De “Rid of Me” (“desembaraça-me de mim”) até “Stories from the City, Stories from the Sea”, Polly Jean Harvey cumpriu essa viagem
P.J.Harvey foi nome de grupo – um power-trio de guitarra, baixo e bateria formado em 1991, Somerset, Inglaterra, responsável pelos primeiros singles – antes de ser Polly Jean, como Norma Jean, nome de mito. A estreia a solo, a seco, com “Dry”, valeu a esta mulher de 31 anos, natural da zona rural do Sudoeste inglês, adjetivos como “engraçado”, “cáustico”, “sedutor”, “selvagem”, “disforme”, “magoado”, “irónico” e “cru”. E nomeações para melhor álbum, melhor compositora e melhor cantora. Como se isso lhe importasse.
“Rid of Me” foi acolhido pelo LA Times como “um trabalho espantosamente arrojado” e o Newsweek acentuou a “brutalidade” das canções, elevando-as à categoria de grande arte. É difícil o rock elevar-se a esta condição. Polly Jean Harvey é dos poucos artistas contemporâneos a consegui-lo. “To bring you my love” recebeu mais um punhado de nomeações da Rolling Stone e da Spin, com a cantora a reforçar a componente teatral das suas apresentações ao vivo, além de tocar guitarra, vibrafone, percussão e teclados. Em “Is This Desire?” teve a seu lado John Parish, Eric Drew Feldman (ex-Pixies e Captain Beefheart), Joe Gore (da banda de Tom Waits), Mick Harvey (Bad Seeds) e Rob Ellis.
Polly Jean Harvey contribuiu com a sua voz e composições em álbuns de Pascal Comelade (“L’Argot du Bruit”), Nick Cave (“Murder Ballads”) e Tricky (“Angels with Dirty Faces”). A par da sua transformação psicológica, o gosto pela representação sofreu igualmente uma mudança de escala. Do palco dos concertos ao vivo para o palco maior, por vezes maior do que a vida, do cinema, com a inclusão no elenco de “The Book of Life”, média-metragem de Hal Hartley (1998), onde desempenha o papel de Maria Madalena. Lágrimas bíblicas. Lágrimas de mar. Lágrimas de sal.
P.J. HARVEY
+ GIANT SAND
Lisboa Coliseu dos Recreios, 4ª, 14, às 21h
Bilhetes: 4000 escudos
A solo, com None of the Above, ou em retrospetiva com os Van Der Graaf Generator, em The Box, Peter Hammill é o ator, o profeta e o visionário da pop, venerado por um séquito de fãs. Canções onde o amor balança no baloiço do cosmos.
Mais de 30 anos de carreira, dezenas de álbuns e três livros de poesia editados é o saldo quantitativo de uma obra cujo alcance está por historiar na restrita Enciclopédia dos Génios da Música Popular do Seculo XX. Peter Hammill, fundador dos Van Der Graaf Generator (VDGG), compositor, poeta, guitarrista, teclista e cantor, tem sido ao longo das últimas três décadas um segredo bem guardado. Um artista de culto. Na altura em que acaba de ser lançada a antologia dos VDGG, “The Box” e depois da edição do seu enésimo álbum a solo, “None of the Above” – álbum de “fábulas terra a terra” e de canções quase todas de amor –, o Y trocou ideias com o último dos românticos – para utilizar um “cliché” que aqui faz todo o sentido.
A capa de “None of the Above” está cheia de escadas. Todas apontam para cima. Vão dar aonde?
É um trocadilho com o título do álbum, [“Nada do que está no cimo”], que acaba por ser mais um conjunto de fábulas terra a terra do que sobre assuntos das esferas celestiais. Também se pode pensar no rótulo “file under” [outro trocadilho: “File under”, de “arrumar em…” usado nas lojas de discos com “under”, “debaixo de”].
Incluímos “None of the Above” na lista dos melhores álbuns de 2000, ao lado de Fátima Miranda (“ArteSonado”), Raymond Scott (“Manhattan Research Inc.”) e Amon Tobin (“Supermodified”). Mais uma vez fez o disco certo, na altura ideal…
Obrigado. Dos discos que refere, o de Fátima Miranda parece-me o mais interessante. Tento sempre fazer álbuns que estejam de acordo com os meus sentimentos num dado momento, em lugar de me preocupar em apanhar uma qualquer onda.
Os arranjos de algumas canções lembram o álbum “Over”. Em que fase se encontrava quando fez o novo disco?
Como sempre, estava envolvido, ocupado e… desligado. O universo da música – da composição à gravação, passando pelos arranjos e pela interpretação – tornou-se-me familiar, fazendo com que me sinta confortável, por paradoxal que possa parecer. Algum do material do novo disco é bastante técnico embora tenha de reconhecer a necessidade de esperar pelos momentos de inspiração. Ao nível dos arranjos, é óbvio que fiquei “preso” a certos traços característicos…
É interessante a sua recusa em explicar o sentido das suas canções mas, em contrapartida, num álbum ao vivo como “Typical” analisa em detalhe os processos interiores por que vai passando ao longo de um concerto…
Essa análise que fiz em “Typical é a de um ator. Quando estou em palco habito cada canção da mesma forma que um ator encarna uma personagem. Mas ao mesmo tempo ponho em prática algumas noções e uma auto-análise que envolvem, sem dúvida, quer a consciência de mim mesmo quer uma “possessão”. Existe uma outra parte de mim, ligada à cabeça, ao corpo e à alma, que, sem ter o controle, é aquela que entra, que encarna determinada história.
É EVIDENTE QUE AQUILO QUE ESCREVO PARTE DAS MINHAS EXPERIÊNCIAS. EM QUALQUER CASO, GOSTARIA QUE, MAIS DO QUE OLHAREM PARA MIM, AS PESSOAS RECONHECESSEM ALGO NELAS PRÓPRIAS, AS SUAS EXPERIÊNCIAS
A verdade é que a maior parte das pessoas que o ouvem acreditam que as suas canções correspondem a experiências pessoais. Talvez porque a sua escrita toque naquele inconsciente coletivo de que Jung e Laing falavam…
Bem… não se trata, em absoluto, de uma autobiografia porque, a dada altura, tornei-me um compositor profissional. É, todavia, evidente que aquilo que escrevo parte das minhas experiências. Em qualquer caso, gostaria que, mais do que olharem para mim, as pessoas reconhecessem algo nelas próprias, as suas experiências. Não sinto que esteja a escrever “O Livro”! A personagem da canção “Somebody bad enough”, por exemplo, é um tipo arrepiante, dos genuínos!…
Depois de uma canção estar escrita, ou um álbum terminado, tem que ter vida própria, defender-se sem qualquer caução. Se continuam a pertencer-me é porque ainda não atingiram a forma definitiva. Quando algo está acabado, devo deixá-lo partir.
Porque é que hoje praticamente só escreve canções de amor?
Os assuntos vão e vêm por fases. É verdade que tenho escrito sobretudo canções de amor, talvez por ser o género fundamental da canção e aquele através do qual tenho mais coisas a dizer e posso explorar uma diversidade de formas. Mas não abandonei outras vias de exploração…
No passado quase todas as suas canções começavam por “I”. Agora é frequente haver um “you”. Mudou de perspetiva?
Sempre que uso o “I” estou a desempenhar uma personagem enquanto o “you” surge quando estou a interpelar-me a mim próprio… Será?
O Tempo foi sempre uma das suas preocupações?
Uma equação irresolúvel. Um dos mistérios da condição humana é a incapacidade de ver o tempo fora de uma perspetiva linear. O processo de escrita é uma tentativa de compreensão de algo que, em última análise, não tem conclusão.
Tem medo de morrer?
Quem é que não tem? Mas será que algum de nós acredita, de facto, que vai morrer?
Uma quantidade de canções do novo álbum fala de um estado intermediário, entre a “antecipação” e a “consequência”, o “Passado e o Presente”, a “luz” e as “trevas”. Nesta dialética, qual o terceiro elemento?
A maior parte das canções desenrolam-se, de facto, nesse “in between” que é, no fundo, a sua essência, a própria essência do instante. A canção em si é esse terceiro elemento, mudando a cada interpretação ao vivo e a cada audição.
“In a bottle” é um dos grandes temas do disco. Como é que fez os arranjos?
Pode parecer ridículo, mas a verdade é que nunca me consigo lembrar da maneira exata como fiz as coisas. Apenas me recordo de que a inserção de guitarras foi uma ideia de última hora.
A única canção mais “fraca” será “Astart”. Peter Hammill “middle of the road”?
Pense o que quiser (risos). Mas continuo a acreditar na simplicidade de uma boa canção pop, da mesma maneira que acredito em material mais complexo.
Por que razão decidiu regravar recentemente a ópera “The Fall of the House of Usher”?
Readquiri a licença e não me senti inclinado a uma reedição exatamente igual. Comecei a remexer na música, acabando por refazer o disco. Em particular para pôr guitarras elétricas, de maneira a criar um ambiente mais sombrio, e para tirar as percussões, que me soavam espalhafatosas.
Custou, mas finalmente foi editada a caixa “The Box”, dos Van Der Graaf Generator. Há alguma razão para serem incluídas tantas versões ao vivo, todas retiradas de um espetáculo dos anos 70 em Itália? Já existia o duplo ao vivo, “Vital”… agora só falta a remasterização, álbum a álbum…
Mas “Vital” era um álbum dos últimos dias do grupo. Os shows de Rimini correspondem a um dos períodos mais criativos dos VDGG que não constavam da discografia original. Quanto à remasterização, quem sabe? Isso está nas mãos da Virgin. Penso que não será possível comprar-lhes os direitos dos álbuns antigos. Mas, pelo menos, estamos a receber “royalties” e há que reconhecer que fizeram um bom trabalho com a caixa, depois de alguma persuasão… (risos). Acaba por ser um testamento!
Qual vai ser o seu próximo passo?
Num sentido literal: espetáculos no México, Japão, Londres, Israel e Itália. Além disso, estou a ultimar os pormenores do meu próximo CD.
Que música tem andado a ouvir?
Não tenho muito tempo, passo oito, dez horas por dia a trabalhar no estúdio. Mas os CDs que levei comigo para a última digressão foram o “Quarteto para o Fim dos Tempos”, de Olivier Messiaen, “Porgy and Bess” de Miles Davis, “Lontano”, de György Ligeti, algum Benjamin Britten, William Byrd, Piazzolla, John Lee Hooker… Uma mala sortida.