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Vários (Jorge Arduth, Nélida & Jorge) – Fantasista Do Teclado Encerra Ciclo Em Lisboa – “Tango Dito!”

cultura >> segunda-feira >> 04.03.1996


Fantasista Do Teclado Encerra Ciclo Em Lisboa
Tango Dito!


Tango, tango. O verdadeiro. À maneira de Jorge Arduth, o “fantasista do teclado”, da sua orquestra e dos seus bailarinos. Músicos da velha guarda. Músicos sábios. Para quem cada tango “es un recuerdo”. Com eles, testemunho vivo do passado, terminou a 3 edição de tangos no Trindade.



Depois do rei, Carlos Gardel, “De Gardel a Gardel”, pela Companhia Tango Session, e de um salto até Piazzolla, com as suas “As Quatro Estações”, por Nestor Marconi e El Borde, “Tango, tango”, pela Companhia de Jorge Arduth, fechou no sábado o ciclo de tango que o Inatel organizou, pelo terceiro ano consecutivo, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Grande espectáculo. Grande tango. Grandes músicos. Tudo em grande numa noite que terá feito rolar alguma lágrima marota ao canto do olho a um ou outro espectador mais entradote, recordado dos “amores fatais” da sua juventude.
Jorge Arduth, o “fantasista do teclado”, como é conhecido, ama o tango antigo, sem farpas, num formato clássico que vem defendendo com a sua orquestra – a mais antiga em actividade, na Argentina – desde os anos 40, época áurea do tango. Dois homens no bandoneon, um deles, Samuel Lis, figura de Peter Lorre arrancada do museu de cera de Mme. Tussaud, garantiram o soluço amoroso sobre o qual os dois pares de dançarinos, Martha e Manuel e Nélida e Jorge, desenrolaram as suas coreografias de paixão. Um vendaval, sobretudo Nélida e Jorge, mais raçudos e voadores. Dois violinos foram doçura, surdina a ampara a tempestade. As vozes pertenceram a Rodolfo Ferreyra, ao jovem Luis Roman e a uma castiça Elsa Tettamanti. Dos três, Rodolfo, galã esquecido, quase Valentino – referência mítica do tango recém chegado a Hollywood – arrancou dos pulmões todo o fogo e nostalgia que fazem do tango a música mais sensual e trágica do universo. Cantou com gestos e sentimentos largos. Num dos temas, só, no meio da plateia e sem amplificação. Cesar Corrado fez, por sua vez, chorar o violino, entrando também ele pelo meio da assistência. Uma raiva tocada em silêncio e vertigem, a fazer ranger as cordas do violino e a uma plateia espantada. Num dos lados da sala, encostado a uma parede, não do teatro mas de uma viela mal iluminada e pior afamada dos subúrbios de Buenos Aires ou Montevideu, o bandoneon de Heriberto Olguin dava-lhe razão.
Dançou-se sempre pela noite dentro. Na quietude das recordações, como em “Juventude de 40” – “cada tango es un recuerdo” – ou na sedução dos pares em desfio. Símbolos, ele do emigrante chegado no final do século passado; ela, da pátria argentina. Numa luta pela posse. Da alma e do território.
Gardel, Hector Varela, o “nuevo tango” de Piazzolla, várias épocas do tango, correram para aquele ponto onde o céu se confunde com o precipício e o amor necessita de sangue para ser dito. “El corazón emborrachado”, para melhor “brindar a los fracassos del amor”, na letra de um dos tangos cantados por Elsa Tettamanti.
“La Cumparsita”, o “standard” composto pelo uruguaio Gerárdo Mattos Rodriguez e, já em “encore”, a milonga “Azúcar, pimienta e sal”, finalizaram em apoteose, para uma plateia inteira a aplaudir de pé, uma sessão de tangos que a memória há-de guardar.

Vários (Companhia Tango Session + Nestro Marconi + …) – “Tango Regressa À Capital, No Teatro Da Trindade, Ao Som Dos Mestres Gardel E Piazzolla – Arrebatamentos Sob Controlo”

cultura >> quarta-feira >> 21.02.1996


Tango Regressa À Capital, No Teatro Da Trindade, Ao Som Dos Mestres Gardel E Piazzolla
Arrebatamentos Sob Controlo


Tangos no Teatro da Trindade está a tornar-se tradição. Este ano, a sigla TTT (tangos, Trindade, tradição) volta ao ataque. Por assim dizer. Ao engate dos sentidos. Nos repelões da dança, nos bofes do “bandoneon”. Gardel, o sacerdote, encontra Piazzolla, o libertário. Três espectáculos de arreganho. O tango. Em segurança.



Está a tornar-se um hábito. Tango em Lisboa. Os que gostam rejubilam. Quem não sabe, não sabe o que perde. O melhor é mesmo ir ao Teatro da Trindade confirmar se os enlaces dos pares têm menos força ou não num salão sofisticado do que nos recantos secretos de uma viela de Buenos Aires.
Deve começar-se pelo princípio, que é como quem diz, por Gardel. Carlos Gardel, o mestre. “De Gardel a Gardel”, assim se chama a sessão aprazada para hoje e amanhã na anciã sala do Chiado, às 21h45, com a Companhia Tango Session. Sábado e domingo vão receber, à mesma hora, o homem que revolucionou o tango e o vestiu com o manto negro do anarquismo: Astor Piazzolla. Nestor Marconi e El Borde vão apresentar “As Quatro Estações” do autor de “Libertango”. A 2 de Março fecha o baile e arrumam-se os foles. Com “Tango, Tango”, ainda às 21h45, pela Companhia de Jorge Arduth.
Não vãos explicar o tango. Nem como se dança. Nem como se sofre. Pode brincar-se em casa aos tangos, com discos, sem perigos nem grandes arrebatamentos. E pode pegar-se de caras a fera, o tango, tango, cheio de ardis e perigosas seduções. Mas também de recompensas. Há quem diga que nos salões elegantes não é a mesma coisa que no seu “habitat” natural, a rua, o barracão, onde houver espaço e pretextos para a rixa das paixões. Como se orgulhava de ser em Buenos Aires, Argentina, ou Montevideu, Uruguai, berços do tango. Não pode ser, nem ninguém quer que seja, a mesma coisa. É o floreado em vez do esquiço riscado de faca na liga. A elegância dos passos coreografados no lugar da dança bruta dos sentimentos. Mas mesmo assim ficamos presos.
A Companhia Tango Session tem a liderá-la Osvaldo Requena, director, autor dos arranjos e pianista. O grupo surgiu em 1985, estreando-se no “Michelangelo”, famoso café-concerto de Buenos Aires. Depois disso partiram para o mundo. Alemanha, Finlândia, Malásia, Japão, China. O fogo a derreter os “icebergs”. Requeno é filho de Buenos Aires mas neto do flamenco. A avó era “bailaora” e o avô “cantaor”. Aqueceram-lhe o sangue.
Gravou mais de 300 álbuns, 19 com solistas. Trabalhou com Argentino Gálvan, Eduardo Rovira, Alberto Castilho, Alfredo Zitarroza, Virginia Luque, Nestor Fabián e Rubén Juarez.
Como pianista fez parte da orquestra de Waldo de los Rios, mas ninguém é perfeito. Actualmente dirige o espectáculo que veremos no Trindade, bem como o “Ensemble Feminino de Tango” e a Orquestra de Música Argentina “Juan de Dios Filiberto”. Com ele vêm um violinista e um tocador de bandoneon, dois cantores e dois pares de dançarinos, entre os quais Giselle Anne, a mais credenciada da companhia.

O Libertário E O Fantasista

“As Quatro Estações” de Piazzolla têm um formato mais sóbrio. Além da direcção e do bandoneon de Nestor Marconi, apenas um violinista e um contrabaixista. Mais o inevitável par dançante. Nestor Marconi escreveu uma suite para grande orquestra e bandoneon solista, intitulada “Encuentro”, estreada pela Orquestra Sinfónica de Gotemburgo e em 1985 e 1995 obteve o prémio de “melhor instrumentista de tango”. Não sei se repararam, mas actuou em “Sur”, filme de Fernando Solanas, já exibido entre nós, nas cenas onde se tocava bandoneon. Era ele. De Piazzolla, alguém de quem se diz que o que toca e compõe é grande música mas não é tango, já interpretou “Três tangos” e “Adios Nonino”.
A última parte do programa do Teatro da Trindade é mais tradicional. Formada em 1949, a Orquestra de Jorge Arduth vem do interior, sendo uma das mais antigas do país. Constituída, além, de Arduth, director e pianista, por sete elementos (dois bandoneon, dois violinos, um contrabaixo e três vozes) e dois pares de dançarinos, conserva o estilo dos anos 40, época de ouro do tango. Os mais novos aprendem a dançar ao seu compasso. Uma escola. De Jorge Arduth, 67 anos, natural de las junturas, Buenos Aires, diz-se que é o “fantasista do teclado” e da sua orquestra que tem o ritmo mais “brilhante”. Compôs tangos como “Mi negro lindo”, “Planetario” ou “Tus ojos tienen”. Fantasias a que a voragem dos anos empresta ainda mais cor.
O tango assentou praça em Lisboa. Não veremos os mestres em pessoa mas ouviremos pessoas que recuperaram para os dias de hoje o espírito e a lição dos mestres. Os saudosistas lembrarão Gardel, aquele que “cantava o tango como devia ser”, nas palavras de um dos seus discípulos, Daniel Bouchet. Os contestatários acolherão de braços abertos a visão iconoclasta de Piazzolla. Uns e outros sentirão o sangue a ferver nas veias.

Vários – “Eleitos Do Ano 1993 – Nova Fórmula” (internacionais)

pop rock >> quarta-feira, 29.12.1993


ELEITOS DO ANO 1993 – NOVA FÓRMULA

De facto, a eleição dos melhores álbuns do ano 1993 segundo o Piop Rock é a mais científica de sempre. Escolhemos oito áreas: pop-rock português, pop-rock anglo-saxónico, reedições pop-rock, bandas sonoras, vídeos, world music, reggae e blues. Depois, fomos a todos os suplementos que editámos este ano e destacámos os discos com melhores classificações, distribuindo-os por tops segundo as referidas áreas. Uns tops são maiores do que outros, porque as áreas também não têm todas o mesmo valor.
Há conclusões interessantes a tirar, como, por exemplo, de que, enquanto se chegou facilmente a um “top” da “world” só com discos com o máximo de pontuação e não foi preciso descer a menos do que aos nove pontos na área pop-rock internacional, já na música portuguesa se teve de repescar discos com sete pontos, para se reunir uma dezena. Claro que, a seguir, fizemos uma certa batota, porque, se dez discos portugueses com oito pontos não havia, em contrapartida os que tiveram sete pontos seram mais de dez. Excluímos primeiro as compilações, depois os idoscos ao vivo, por fim, usámos critérios menos transparentes. Completas as listagens, concentrámo-nos na votação do disco do ano em cada uma das oito áreas. Após acesas discussões, algumas birras e muitas cedências mútuas – do tipo, eu voto no teu discoportuguês se tu votares no meu de “world” -, elegemos os melhores de 1993. E, por fim, já cansados, recomeçámos a escrever.
Mas era rigor laboratorial a mais, veleidades epistemológicas excessivas, estávamos À beira do colapso. Foi quando surgiram duas ideias para fugir ao trauma da cientificidade e restituir a este suplemento a sua verdadeira alma rock ‘n’ rol. Uma dessas ideias foi votar os artistas do ano, partindo do princípio que nesta área musical não são as boas acções, nem tão pouco os factos, que conferem prestígio, antes a escandaleira e os boatos. O que lerem aqui é assim uma mistura de realidade e fantasia, de genuína admiração e muita má língua. A outra odeia foi recapitular os melhores momentos dos concertos que houve em Portugal em 1993 e, a partir daí, elaborar um questionário, partindo também do princípio de que um espectácuklo rock ‘n’ rol fica na história não tanto pelo virtuosismo dos desempenhos, mas sobretudo pelos acidentes extra musicais.
Bom Ano Novo!
LUÍS MAIO, FERNANDO MAGALHÃES E JORGE DIAS

Troféus Imaginários, Mas Merecidos, Para Artistas De Sonho

AS FIGURAS INTERNACIONAIS DO ANO

Pinóquio 1993



Refutando perentoriamente toda a espécie de vis acusações que recaem sobre o autor de “Dangerous”, a Associação dos Amigos do Pinóquio (anónima, mas aparentemente subsidiada por uma multinacional, de um refrigerante concorrente da Pepsi) decidiu este ano atribuir por unanimidade o seu galardão maior a Michael Jackson. Trata-se, como é óbvio, de um acto simbólico, com que se pretende acentuar que a parte do corpo do artista que cresce quando está na companhia de menores não é a que ele costuma mais afagar durante os concertos (isto é verdade, alega ele). Tendo verificado que o mesmo sucedia com o focinho do Homem Elefante (daí ter licitado os despojos mortais da infeliz criatura) e o do seu chimpanzé (corre o boato, não confirmado, de se passar outro tanto com a sua amiga Liz Taylor), o mais famoso do clã Jackson teria então submetido o seu próprio órgão do olfacto a uma difícil operação de cirurgia estética e, a partir daí, ele passou a crescer ou a diminuir não por dizer verdades ou mentiras (ele pouco mais diz que “obrigado”), mas consoante as tenras companhias.

Batráquio 1993



Uma Liga de Amigos dos Animais, preocupada com a violência protagonizada por humanos praticantes de música eléctrica contra outros seres vivos – praga que cresce desde que o rock sinfónico caiu em desgraça -, acaba de criar o troféu Batráquio da Música. O prémio original destina-se a estimular a pacificação da cena musical pela metamorfoseação em sapos, encenada ou real, de estrelas de rock e amigos, numa inversão alegórica da fábula popular. Este ano, o galardão foi naturalmente arrecadado por Prince, que começou por rubricar uma digressão de Verão perguntando às suas plateias como é que se chamava (isto é verdade). O rumor que corre é de que o famoso génio minorca, depois de passar semanas a fio a imitar James Brown, George Clinton e Jimi Hendrix, acordou um dia sem saber quem era. Quando a sua corte de cinderelas lhe jurou que ele era Prince, não acreditou e pensou que o confundiam com um tal Victor, que também era imitador. Como as plateias não o convenceram do contrário, ele decidiu-se por esta ideia brilhante de publicar anúncios nos principais jornais do mundo à procura da mulher mais bonita do planeta. O raciocínio é o seguinte: quando ela o beijar pela primeira vez, e se ele for mesmo Prince, então ele transforma-se em batráquio.

Rainha GATT 1993




No contexto de uma nova estratégia dos serviços secretos dos Estados Unidos, delineada no tocante às negociações do GATT, superestrelas norte-americanas foram convidadas para executar certos trabalhinhos no estrangeiro. Os artistas mais insuspeitos foram recrutados, tendo Madonna, bem conhecida pela sua paixão pelo mundo latino – desde o hino hispânico “La Isla Bonita” à sedução do actor António Banderas -, sido indigitada para atacar na América do Sul. Muito descarada, mas não menos patriota, Louise Ciccone não se fez rogada e desferiu um rude golpe nas pretensões sul-americanas quando, em Outubro passado, actuou em San Juan, Porto Rico, e usou uma pequena bandeira desse país para, em palco, limpar o suor não apenas nos sovacos, mas também no peito e entre as pernas (isto é verdade). A proeza valeu-lhe instantaneamente o prémio de Rainha GATTT, nos Estados Unidos, mas toda a publicidade que daí resultou comprometeu novas missões similares. No Canadá, ainda conseguiu dizer “Fuck Toronto”, numa estação de rádio local (isto é verdade), mas já na Alemanha teve de anular um concerto, onde era seu propósito vexar os alemães protagonizando um número de lésbica vestida à Marlène Dietrich. Correm agora boatos insistentes de que os serviços secretos norte-americanos pretendem enviar Michael Jackson vestido de panda para rebaixar os chineses; e Garth Brooks disfarçado de Saddam para desmoralizar as tropas iraquianas.

Justine 1993




O prémio Justine distingue fêmeas proeminentes nso “tops” internacionais que tenham dado o passo decisivo e público de se auto-reavaliar numa óptica libidinal, eventualmente operando a transfiguração de sacos de batatas para “pin-ups” radicais. O troféu que em edições precedentes foi conquistado por artistas como Sheena Easton e Kylei Minogue, vai este ano, não sem alguma surpresa, para a última sensação “indie” que responde pelo nome de Polly Harvey. Apesar dos seus dois discos deste ano não evidenciarem melhoras de vulto no plano da moléstic amusical, Polly tomou gosto pela experiência de aparecer ainda pudicamente com as costas nuas, na capa de um New Musical Express do ano passado, e desembaraçou-se do visual da cara deslavada e cabelo oleoso, roupas de mendigo e botas cardadas, para ressurgir toda pintada e de óculos escuros, com nada mais do que um “top” e um calçãozito a tapar-lhe o recheio, qual mulher fatal com alcova por cenário (isto é verdade). Enquanto se espera pelo dueto escaldante desta “Belle de Jour” da distorção com Prince, já se anuncia a transformação de virtuosas em bombas sexuais – de Enya, Elisabeth Frazer e Kate Bush.

Benfeitor 1993




Embora não fosse a escolha mais óbvia, o prémio pela acção benemérita de origem rock ‘n’ rol acabou por ir parar, com toda a justiça, às mãos de Axl Rose. Isto porque o sempre vulnerável e sensível cantor dos Guns N’ Roses processou a sua ex-noiva, a modelo Stephanie Seymour, argumentando que a “fera” o violentou, tanto no foro mental quanto num plano emocional. Trocada por miúdos, na sequência de várias cenas de peixeirada, a reputada donzela pôs a circular uma foto sua com um olho negro, afirmando que a dita mazela resultava de um murro que Axl lhe aplicara no dia de Natal do ano passado, quando, segundo diz o cantor, foi ela que lhe atirou com uma peça de mobília. Pior do que isso, Stephanie recusou-se a devolver-lhe o anel de noivado e toda uma série de pechisbeque que lhe oferecera, conjunto estimado em qualquer coisa como cem mil libras. Tudo isto é, no entanto, irrelevante e o que ressalta deste infeliz melodrama é que Axl quer recuperar a quinquilharia para a vender e doar para fundos que revertem para centros de assistência a crianças violentadas (isto é verdade). Como ele, se calhar, por matulonas demau génio.

Anti-Sexista 1993




Enquanto a crítica britânica de literatura prosseguia um animado debate sobre o significado exacto do refrão “por ti fazia tudo, mas isso é que não”, recorrente no novo álbum “Bat out of Hell II”, o seu autor, Meatloaf, abria um centro de recuperação para marginais. Na foto (isto é verdade, ou seja, não é uma montagem), o benemérito artista exemplifica o suave método de reabilitação para tirar da vida duas jovens caídas em tentação, permitindo que elas mantenham o seu antigo visual e uniformes de trabalho numa casa de passe gótica, mas substituindo as actividades viciosas pelo inofensivo passatempo de montar em duas rodas (há uma certa inversão de posições que também é terapêutica). As chamas ao fundo são, naturalmente, mais uma metáfora requintada para a saída dos infernos em versão motorizada e a sua exegese teológica foi já encetada por um núcleo de estudiosos destas coisas.

Saias 1993




Apesar de estarem fartos de ser “grunge” e de todos os rótulos anexos, tais como “Novos Campeões da Barbárie”, “Sexistas sem Pausa” e “Misógenos de Seattle”, os Nirvana voltaram em 1993, para reciclar as mesmas fórmulas de combinação de punk e heavy metal em “In Utero”. Não conseguiram mudar o som, mas, em compensação, operaram uma subtil reforma do visual, trocando as camisas de flanela aos quadrados e as calças de ganga, rotas nos joelhos, por lindos e vaporosos vestidos folridos. A luminosa iniciativa dos Nirvana produziu instantaneamente uma nova tendência da moda, contagiando bandas tais que Afghan Whigs, Stone Temple Pilots e Smashing Pumpkins, nos Estados Unidos, e James, Maniac Street Preachers e Take That, em Inglaterra (isterdade). Também se diz que a revista feminina “Vogue” vai passar a ser para homem e vice-versa; e a “Elle” só não passa a “Lui”, porque esse é já o nome de uma revista “soft porno”. Entretanto, os fãs, inicialmente apanhados desprevenidos, não demoraram a assaltar os guarda-roupas de mães e irmãs, mas estão agora perante um grande dilema: se os seus heróis vestiram saias compridas no Outono, será que devem já rapar as pernas para usar mini-saia na Primavera?