Arquivo mensal: Dezembro 2017

Traffic – “Mr. Fantasy” + Taste – “On The Boards” + Manfred Mann – “The Very Best Of the Fontana Years” + Jane – “Between Heaven and Hell” + Edgar Broughton Band – “Oora”

20 Outubro 2000
REEDIÇÕES


Traficantes de sonhos



Como Van Morrison, Steve Winwood é um daqueles cantores brancos que nasceu com a alma dos cantores negros de “soul”. Tendo-se notabilizado nos Spencer Davis Group, seria, contudo, nos Traffic que a sua voz ganharia maior projeção. Os Traffic foram uma das bandas ilustres dos anos 70 e a sua mistura de “rhythm ‘n’ blues”, “soul”, jazz e progressivo rivalizava na época – início dos anos 70 – com a invasão proveniente do outro lado do Atlântico protagonizada pelos Chicago Transit Authority e Blood, Sweat & Tears. Sem o poderio das secções de sopros destas duas bandas, os Traffic primavam antes pela subtileza, pondo em destaque as capacidades vocais e os teclados de Winwood e com Chris Wood, nos saxofones e flautas, a assumir-se como o principal solista do grupo, cuja formação clássica era completada pelo percussionista Jim Capaldi e o multinstrumentista Dave Mason (guitarra, mellotron, sitar, baixo, tamboura). “Mr. Fantasy”, de 1967, quanto a nós o melhor álbum de toda a discografia dos Traffic, surge agora remasterizada de maneira a proporcionar uma imagem fidedigna daquela que foi uma das bandas precursoras da estética de fusão. Baladas psicadélicas, como “Heaven is in your mind” e “Dear Mr. Fantasy” e explorações sónicas onde cada instrumento era pensado como uma extensão não só do músico como do estúdio – em forma de fanfarras surrealistas, canções-labirinto, excentricidade teatral, becos melódicos que encontram inesperadas maneiras de fazer sentido, secções instrumentais bizarras a fazer lembrar os Van Der Graaf Generator (que, na altura, nem sequer tinham ainda gravado…) – juntam-se numa obra única que permanece como um clássico da época. Também disponível em versão remasterizada está outro álbum importante dos Traffic, “John Barleycorn must Die”. (Island, distri. Universal, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9/10)

Rory Gallagher, nome inesquecível para os amantes da guitarra rock, faleceu há cinco anos, na sequência de uma transplantação do fígado mal sucedida, deixando uma vasta obra que, se não primava pela originalidade, mostrava um executante de extraordinárias capacidades. A par de toda a sua discografia a solo, entretanto disponível em versões remasterizada, pode igualmente apreciar-se a sua música através do grupo a que pertenceu antes de enveredar por uma carreira solitária, os Taste. Em “On the Boards”, de 1970, os riffs de guitarra evidenciam todo o respeito que Gallagher tinha pelos “blues”. Mas Rory Gallagher, além de tocar guitarra como ninguém, fazia questão de mostrar que também sabia compor uma canção e, até, tocar saxofone… Para quem ainda regressa com prazer à música dos Cream, por exemplo, a descoberta dos Taste poderá ser gratificante. (Polydor, distri. Universal, 7/10)

Para se compreender até que ponto a pop inglesa dos anos 60 legou um manancial fantástico de canções pop estado de perfeição, não chega referir o nome dos Beatles e dos Kinks, apesar de estas duas bandas serem as que tinham nas suas fileiras dois dos génios da música popular, respetivamente Paul McCartney e Ray Davies. Mas se bandas houve que apenas deixaram a sua marca na Historia através de uma única canção, impressa nos “charts” com o brilho de um cometa, outras houve detentoras de uma obra sólida que com regularidade foram capazes de sobreviver ao monopólio dos “fab four”. Bandas como os Hollies ou os Manfred Mann, estes últimos agora disponíveis com a coletânea “The Very Best of the Fontana Years”. Eram os anos dourados da pop para a qual os Manfred Mann contribuíram como canções inesquecíveis como “Mighty quinn”, “Ha! Ha! Said the clown”, “Semi-detached suburban Mr. James”, “My name is Jack”, “Fox on the run”, “Ragamuffin man” ou “Up the junction”, todas elas incluídas na presente compilação e dignas da remasterização que não chegou a ser feita. Manfred Mann (nome do líder e teclista de origem sul-africana) formaria a seguir os jazz-progressivos Manfred Mann Chapter Three (dois álbuns raros na Vertigo a descobrir) para finalmente se estabelecer com o progressivo mais prosaico da Manfred Mann Earthband. (Spectrum, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)

Na Alemanha, para quem não cavalgava na crista da onda do que de mais original e alucinado dava pelo nome de “krautrock”, era difícil escapar à influência anglo-saxónica. Pertenciam a esta categoria os Jane, uma honesta banda de hard-rock sinfónico apesar de tudo com uma costela cósmica, cuja discografia (13 albuns, entre 1972 e 1989) não suscita grandes elogios. “Between Heaven and Hell” (1977), porém, distingue-se dos restantes, sobretudo graças à longa suite conceptual que dá titulo ao álbum, nitidamente influenciada por “Ummagumma” e “Atom Heart Mother”, dos Pink Floyd, mas suficientemente carregada de ideias interessantes para não passar despercebida. “Space rock”, secções clássicas, efeitos vocais a cargo de um empertigado émulo de Roger Water dão a ouvir a banda sonora, entre o kitsch e a majestosidade, do paraíso e da danação. No tema final, talvez chamuscados pelas labaredas, os Jane enlouqueceram e entregaram-se nas mãos dos Velvet Underground. (Repertoire, import. FNAC, 7/10)

Feios, porcos e maus. Mas um “must” no circuito de espetáculos rock dos anos 70. Eram assim os Edgar Broughton Band, um gang de hard rock composto por músicos hirsutos, adeptos dos “blues” e do “speed”. As duas coisas juntas resultaram em “hits” da estudantada como “Out demons out” e em riffs de blues psicadélico primário. Com boa vontade, os EDB podiam passar por uma versão camionista de Captain Beefheart, embora também haja quem (decerto com a cabeça já não em muito bom estado) os compare aos Grateful Dead. “Oora”, de 1973, é o seu álbum mais sofisticado, se sofisticação representa a concessão a harmonias pop, guitarras acústicas e uma simbologia imagética que remete para os Hawkwind e os Motorhead. A verdade é que a inclusão de um naipe de metais, violino, efeitos eletrónicos (também do tipo osciladores apontados ao infinito dos Hawkwind, de “X In Search of Space”) e – pasme-se – harmonias vocais from “outer space”, tornam “Oora” num disco suficientemente freak e variado (além de Beefheart, lembra, a espaços, Eric Burdon & the Animals) para justificar uma chamada de atenção. Era uma das características mais interessantes dos anos 70: poder gravar-se todos os tipos de loucura. Como esta. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10)



Mikron 64 – “Sys 49152” + Sator Rotas – “Sator Rotas”

25 de Fevereiro 2000
POP ROCK


Mikron 64
Sys 49152 (7/10)
Storage Secret Sounds, distri. Matéria Prima

Sator Rotas
Sator Rotas (8/10)
a-musik, distri. Matéria Prima



“Sys 49152” dura 22 minutos, tempo suficiente para nos deliciarmos com seis temas de pop electrónica programada por bonecos num velho microcomputador Commodore 64. O tema inicial, vocalizado, como os restantes, com Vocoder, mete os Air num chinelo, lembrando ainda que nesta matéria a papinha já tinha toda sido feita pelos belgas Telex (por sua vez uma variante bonacheirona dos Kraftwerk…) nos álbuns “Looking for Saint-Tropez” e “Neurovision”. Mas os alemães Mikron 64 refazem o género com uma dose renovada de prazer, trazendo para o ano 2000 o lado lúdico-sintético que nos Trans AM adquire tonalidades escuras. Depois de Oleg Kostrow e dos Nova Huta, este terceiro volume da Secret Storage Sounds confirma a editora como uma caixa de surpresas da qual estão a sair os mais divertidos artefactos de “música electrónica para brincar”. No pólo oposto estão os Sator Rotas, isto é, Markus Schmickler dos Microstoria, encapotado numa simbologia alquímica, levando a simetria ao ponto de o disco demorar exactamente 44.44. “Sator Rotas” é uma lagoa de águas turvas onde, por baixo da superfície líquida, estão depositados estranhos e incompreensíveis objectos sonoros, como nas águas inquinadas que Andrei Tarkovski filmou em “Stalker”. “Sator Rotas” lembra ainda as “fugas de gás” dos PGR, em emanações sulfúricas asfixiantes ou em buracos negros que desembocam em escuridões tenebrosas onde, apesar de tudo, há mais vida e organismos que se mexem do que nos escritórios doentes dos Oval e Microstoria. Em todo o caso convirá tomar o remédio antes.



Tracy Chapman – “Telling Stories”

25 de Fevereiro 2000
POP ROCK


Tracy Chapman
Telling Stories (6/10)
Elektra, distri. Warner Music



É engraçado como sempre que ouço a veterana Tracy Chapman cantar me lembro de algumas vozes masculinas dos anos 70, algumas engraçadas, como a de Cat Stevens, outras simplesmente “obscenas” como a de Chris de Burgh, que não consigo deixar de recordar ao ouvir um tema deste álbum como “Less than strangers”. Aliás, tudo na música de Tracy Chapman faz lembrar os “singer songwriters” dos anos 70 – as mesmas inflexões dramáticas, o mesmo idealismo, até o mesmo tipo de arranjos. Claire Hamill, por exemplo, fez coisas muito parecidas, há muitos anos, com este “Telling Stories”, como “One House Left Standing” e “October” (desta vez é “Speak the word” a conduzir-me aos arquivos da memória). Mas “Telling Stories” não é um álbum para deitar fora, antes pelo contrário: numa linha de música-comercia-feita-com-dignidade, Tracy Chapman é uma grande senhora, incapaz de descer abaixo da mediania. Mesmo quando grande parte dos seus álbuns conquistou discos de platina. Mesmo quando já guarda em casa quatro prémios Grammy. Tradicional no capítulo dos arranjos, sempre elegante no que toca ás interpretações, “Telling Stories” não deslustra a sua autora, que afirma: “Quando gravo um disco, o meu objectivo é sempre ter alguma coisa para oferecer e que essa coisa seja a melhor possível no momento.” Em “Telling Stories” oferece belíssimas canções, com “Wedding song” à cabeça, desviando-se mais para o final do disco para uma vertente country que culmina em “The only one” com a participação, nos apoios vocais, de Emmylou Harris. Álbuns destes podem ser uma boa companhia.