Arquivo mensal: Setembro 2017

Jim O’Rourke – “Eureka”

Sons

26 de Março 1999
DISCOS – POP ROCK


Ideia luminosa

Jim O’Rourke
Eureka (8)
Domino, distri. Música Alternativa


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Em Chicago recicla-se até ao infinito a espiral das últimas quatro décadas de música pop. Nos comandos desta linha de montagem encontra-se Jim O’Rourke, patriarca do pós-rock, erudito de reconhecidos méritos (acertou em todos os nomes com que a revista “The Wire” o desafiou numa das suas últimas Invisible Jukebox), divulgador de novos talentos (entre os quais Nuno Canavarro, que Jim descobriu através de “Plux Quba”, gravada pelo músico português em 1988, editando o disco na sua própria editora Moikai) e amigo (por vezes até demais) dos seus amigos.
Depois da reconversão dos Gastr del Sol de discípulos heterodoxos dos Faust (com um álbum novo disponível em Portugal em finais do próximo mês) em neuróticos da pop, no álbum do ano passado, “Camoufleur”, também na sua obra a solo o conceptualista de Chicago se vem emaranhando cada vez mais nas malhas de um passado tão diversificado quanto sedutor nas margens do mainstream. E se, neste particular, o seu anterior trabalho, “Bad Timing”, cultivava ainda o gosto por um certo desequilíbrio estrutural e por heranças estéticas politicamente incorrectas – como as dos Faust ou de um dos seus heróis, John Fahey –, neste novo “Eureka” a ideia luminosa passa pela rendição à luxúria dos meios técnicos facultados pelo estúdio e às doçuras da pop encarada como arquitectura orquestral, numa profusão de sopros, cordas, piano classicizante, subtilezas pontilhísticas e toda a espécie de ornamentações electrónicas que não deixam de evocar a obra de Van Dyke Parks.
“Eureka” flutua num limbo de lembranças e sonoridades embelezadas pela “patine” do anacronismo, remetendo canções como “Prelude to 110 ou 120/Women of the world” e “Movie on the way down” para o trabalho de trovadores dos anos 70 como Roy Harper e Neil Young (o mais doce, de “After the Gold Rush”, “Harvest” ou da recente revisitação a este último disco, “Harvest Moon”), respectivamente, enquanto “Through the night slowly” transporta reminiscências de Robert Wyatt em “Ruth is Stranger than Richard” somadas ao easy listening de luxo dos High Llamas e Stereolab. “Eureka”, o título-tema, desliza, por sua vez, pelas alamedas povoadas de répteis sombrios que Brian Eno destapou em “Another Green World” (aparentemente uma das redescobertas mais recentes dos pós-rockers). O easy listening (e as referências, tornadas já um pouco fastidiosas à bossa-nova) instala-se, de resto, na versão de um tema de Burt Bacharach, “Something big”, ao mesmo tempo uma demonstração da fixação do músico de Chicago no legado deixado pelos grupos ingleses de Canterbury, também eles fascinados pelas melodias e nostalgia da bossa-nova.
“Eureka”, pese embora a diversidade de influências em jogo, inevitáveis em alguém com a cultura musical de Jim O’Rourke, consegue, todavia, provocar o efeito de verosimilhança, indispensável em qualquer boa obra de ficção. Porque, se, para o compositor, a causa se encontra nos livros de História, o objectivo, esse aponta para o futuro. Mesmo quando o futuro passa por adquirir a forma, ou a quintessência, de uma visão perdida algures nas catacumbas da alma, como um anjo decaído que procurasse acima das nuvens o elo perdido da sua identidade celeste.



Jessica Lauren – “Film”

Sons

2 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Jessica Lauren
Film (7)
M.E.L.T. 2000, distri. MVM


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Com um passado construído com base no jazz, em particular através do seu envolvimento, no final dos anos 80, na cena de “acid jazz” londrina, Jessica Lauren só agora se estreia a solo em álbum, depois de lançar um par de singles com o selo Soul Jazz e três doze polegadas com temas seus remisturados pelos Red Snapper e Herbaliser. “Film”, para além da curiosidade de ser o primeiro álbum a ostentar como data (falsa) de edição o ano 2000, é uma interessantíssima experiência de fusão que remete a linguagem jazzística para os compartimentos da electrónica ambiental, dos ritmos latino-americanos e do easy listening. “Uptown” faz lembrar a cadência tropical de “Magician’s Hat”, álbum dos anos 70 de Bo Hansson, enquanto “Alefela” junta elementos recolhidos do estilo pianístico de McCoy Tyner e concepções rítmicas africanas inspiradas no trabalho do sul-africano Pops Mohamed, com quem, aliás, a teclista já trabalhou. Ao longo de todo o álbum é visível a preocupação de Lauren com a construção de atmosferas caracterizadas pelo exotismo e por um permanente tom “cool” (um dos temas é inspirado pela geometria de um jardim japonês) que tanto se deixam atravessar por lâminas de electrónica, como em “Ajua”, com as suas pulsações subsónicas a sustentarem uma arquitectura cósmica de pós-krautrock, como quase desfalecem nos braços do puro easy-listening e da “new age” (“A pearl for ions”) e se entrelaçam nas cordas da música de câmara (“Coming home”). Entre o jazz digital e o zen, “Film” cultiva a sedução, a elegância e a frieza como imagens de estilo.



Robert Wyatt – “Eps”

Sons

2 de Abril 1999
REEDIÇÕES


Robert Wyatt
Eps (8)
5 x CD Hannibal, distri. MVM


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Cada novo trabalho de Robert Wyatt é um acontecimento. Mesmo quando não se trata, como é o caso, de material inédito, mas de uma colectânea em forma de caixa com cinco mini-álbuns. Apesar de não haver inéditos, as diversas composições aqui reunidas foram organizadas de forma temática, o que não acontecia numa compilação como “Going back a Bit: A Little History of Robert Wyatt”, um duplo CD editado em 1994 pela Virgin. O primeiro disco, de genérico “Bits”, incide sobre a fase mais dramática da vida do antigo baterista e vocalista dos Soft Machine e Matching Mole, a seguir ao acidente que o tornou paraplégico, com cinco composições todas datadas de 1974 (o mesmo ano da obra-prima “Rock Bottom”): três “singles”, “I’m a believer” (um original dos Monkees), “Memories” e “Yesterday man” completam-se com “Sonia”, numa versão alternativa da que está incluída em “Ruth is Stanger than Richard” e um “take” ao vivo de “Calyx”, exercício de “scat” cuja versão original, de estúdio, se encontra no álbum de estreia dos Hatfield and The North. Nas notas explicativas Wyatt relembra uma participação sua, nessa época, no programa de televisão “Top of the Pops”, interpretando “I’m a believer”, na qual a imagem do músico sentado numa cadeira de rodas foi considerado pelos responsáveis do programa como demasiado chocante para ser vista pela família típica inglesa. Fred Frith, Nick Mason (baterista dos Pink Floyd), Richard Sinclair (dos Caravan), Dave McRae (teclista dos Nucleus e dos Matching Mole), John Greaves (Slapp Happy), Hugh Hopper e Gary Windo são alguns dos músicos participantes nesta série de composições marcadas por uma fusão nostálgica de jazz e pop coalhadas pela dor.
“Pieces”, que constitui o segundo CD, reúne cinco temas dos anos 80, incluindo uma versão remasterizada de “Shipbuilding”, o lado B deste single, “Memories of you”, mais “Round midnight”, de Thelonius Monk (ídolo e influência determinante na abordagem pianística de Wyatt), “Pigs… (in there)”, extraído do álbum de beneficência “Artists for Animals – The Liberator”, e “Chairman Mao”, presente numa colectânea de 1987 da editora Recommended.
“Work in Progress”, EP editado em 1984, preenche a totalidade do terceiro CD, correspondendo à fase mais esquerdista e terceiro-mundista de Wyatt, com quatro temas – “Yolanda”, “Te recuerdo Amanda”, “Biko” e “Amber and the amberines” – que formam o complemento ideal do álbum “Nothing Can Stop us”.
“The Animals Film”, correspondente ao CD número quatro, é a banda-sonora composta por Wyatt em 1982 para o documentário com o mesmo nome, realizado por Victor Schonfield, sobre as atrocidades cometidas sobre os animais em nome da experimentação científica. À semelhança do que acontece na anterior versão em CD, esta longa peça instrumental, e uma das mais experimentais e electrónicas do músico, aparece com uma duração inferior à do álbum em vinilo editado pela Rough Trade.
Finalmente, o quinto e último CD, apresenta remisturas, da autoria de Nigel Butler, de quatro temas de “Shleep” – “Was a friend”, “Maryan”, co-composta com o guitarrista Philip Catherine, “A Sunday in Madrid” e “Free will and testament”, com a participação de Paul Weller -, o último álbum de estúdio de Wyatt, numa operação idêntica à realizada em “Dondestan Revisited”, versão completa e remisturada de “Dondestan”. É a parte verdadeiramente surpreendente de “Eps” na qual a música de Robert Wyatt se transforma em hip-hop e “drum ’n’ bass”, nos três primeiros temas, com uma pincelada de “chill-out”, no último. Robert Wyatt para dançar, porque não?