Arquivo mensal: Setembro 2017

Jah Wobble – “Deep Space”

Sons

16 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Jah Wobble
Deep Space (6)
30 Hertz, distri. MVM


jw

O paquiderme está de volta. Thomp, thomp, o baixo do ex-PIL por onde passa reduz a mobília a cacos. Por mais que tente, Wobble é mesmo assim, tem a delicadeza de um elefante simpático que, ao contrário de Dumbo, não sabe voar. Quando tentou fazer música ambiental, com Eno, este torceu o nariz e arrependeu-se da brincadeira. Música de dança, também não consegue sair do rés-do-chão. Curiosamente, a sua melhor obra recente acaba por ser um “Requiem” de ressonâncias clássicas que não deve nada a Michael Nyman. Em “Deep Space” a aposta parece ser o pós-rock. Não faltam os sintetizadores analógicos, a fazer borbulhas por todo o lado, nem a presença do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Depois, um título como “The competition of supermassive black holes and galactic spheroids in the destruction of globular clusters” parece ter sido pedido emprestado aos Tangerine Dream. “The immanent” e “The transcendent” arrastam-se em cadências monolíticas onde, apesar de tudo, existe alguma matéria de entretenimento nos sons electrónicos que vão aparecendo e desaparecendo sem que se vislumbre qualquer lógica aparente. “Disks, winds and veiling curtains” conta com a produção e o baixo de Bill Laswell, outro peso-pesado, que confere a este tema o psicadelismo com cheiro a enxofre tão da sua preferência. O lado étnico é garantido por uma vocalização, ultra filtrada, da cantora bósnia Amila Sulejmanovic, e pelas gaitas-de-foles e outras palhetas duplas plastificadas de Jean-Pierre Rasle, outrora digno elemento da banda de folk céltico de fusão, Cock & Bull. No fim de contas, um álbum engraçado.



Olivia Tremor Control – “Black Foliage – Animation Music, Volume One”

Sons

23 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Olivia Tremor Control
Black Foliage – Animation Music, Volume One (9)
Flydaddy Inc./V2, distri. MVM


otc

“Dusk at Cubist Castle”, o anterior album dos OTC, era sobretudo uma curiosidade onde canções pop de cuidada feitura alternavam, sem que se percebesse muito bem porquê, com obscuros momentos de um experimentalismo sombrio. Em “Black Foliage” os OTC controlaram todos os seus tremores, oferecendo-nos uma ópera de desenhos animados construída, ao longo do tempo e de múltiplos processos de gravação e edição, a partir de um tema inicial, precisamente aquele que dá título ao álbum. A música de “Black Foliage” continua a ser pop e continua a ser estranha, uma mistura de efeitos electrónicos de circo com um sentido apurado da melodia que junta as contorções lisérgicas dos Pink Floyd iniciais num caleidoscópio de geometrias que não deixam de fazer lembrar os primeiros trabalhos dos Gorky’s Zygotic Mynci. Fitas de gravação parecem subitamente descontrolar-se e rolar numa alucinação de frequências perdidas, xilofones são apanhados nas malhas de sintetizadores roufenhos, um órgão de feira dança num círculo de fadas ao som de marimbas minimalistas, a meio de uma apetitosa linha melódica tudo parece de repente desorganizar-se para no momento seguinte a canção seguir numa direcção diferente. E há pássaros de corda e comboios-fantasmas e distorções esculpidas como se fossem sinfonias. E, acima de tudo, grandes e bizarras canções, como “Paranormal echoes”, um título que explica muita coisa. “Deixem entrar os sons do ambiente”, avisam os OTC numa alusão a esta espécie mutante de ambientalismo no qual o silêncio é substituído por um “poltergeist” sonoro que, desde já, se afigura como um clássico do psicadelismo dos anos 90.



Shakti – “Remember Shakti”

Sons

23 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Shakti
Remember Shakti (7)
2xCD Verve, distri. BMG


sh

Lembram-se dos Shakti? Nós lembramo-nos. Extintas as fusões de jazz-rock pioneiras dos Mahavishnu Orchestra (nas quais era já visível uma orientação em direcção ao misticismo das doutrinas indianas), John McLaughlin, um dos guitarristas mais rápidos e intensos do universo, criou, em meados dos anos 70, os Shakti, com Zakir Hussain (tabla, outras percussões e voz), Kakshminarayana Shankar (violino, viola de arco e voz) e V. H. “Vikku” Vinayakram (ghatam, um tambor bojudo em barro). Em três álbuns, “Shakti with John McLaughlin” (ao vivo, 1976), “A Handful of Beauty” (1976) e “Natural Elements” (1977), o grupo fundiu de forma natural elementos ocidentais e orientais, criando uma espécie de “raga rock” acústico onde o virtuosismo instrumental de todos os elementos era uma constante. Após um breve ressurgimento em 1985 para uma digressão ao vivo, o grupo voltou a extinguir-se para há dois anos regressar para nova digressão, desta feita pelo Reino Unido, por ocasião do 50º aniversário da independência da Índia e do Paquistão, com uma formação idêntica à original, sem o violinista, mas com a presença do convidado, mestre do bansuri (flauta), Hariprasad Chaurasia. Ideal para meditação ou, simplesmente, para acompanhar todas as subtilezas de execução dos quatro instrumentistas (a que se junta ocasionalmente Uma Metha, na tampura), as cinco longas composições de “Remember Shakti” (os 33 minutos de “Chandrakauns” só são batidos pelos 63mn de “Mukli”) dispõem da eternidade para se fazerem ouvir, de preferência em posição de ioga. Música fora do tempo e do espaço (ou criadora de um outro tempo e de um outro espaço), a música dos Shakti é um rio. Neste caso apenas perturbado pela interrupção, demasiado frequente, das palmas do público.