Arquivo mensal: Fevereiro 2016

Future Sound Of London – Entrevista

Pop Rock

14 de Junho de 1995

Future Sound of London explicam “Lifeforms”

“Não é a tecnologia em si que é importante”


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“Lifeforms” e “ISDN” são dois mosaicos significativos da música electrónica actual por um dos seus criadores mais ambiciosos, os Future Sound of London. Entre as actividades do grupo, contam-se um programa de televisão de genérico Ensinamentos do Cérebro Electrónico, onde valorizam o poder da palavra escrita e falada. Na ligação da electrónica aos meios de informação vêem o expoente máximo do entretenimento para os anos 90. Enquanto chamam uns aos outros “gelatina invertebrada”.

Garry Cobain explicou ao PÚBLICO a biologia das “Lifeforms” que o grupo elabora em estúdio, os processos dessa mesma criação e as implicações, estéticas e morais, que dela resultam. Os Future Sound of London querem ser algo mais que um simples grupo de música e transformar-se num sistema global de informação.
PÚBLICO – As imagens desempenham um papel tão importante como o da música na estética global dos Future Sound of London?
GARRY COBAIN – Sim, vão até um pouco mais longe. Se ouviu o álbum “ISDN”, saberá que a música foi transmitida via rádio para vários pontos de globo. Neste momento estamos a fazer transmissões de televisão e a desenvolver um programa chamado Teachings from the Electronic Brain [Ensinamentos do Cérebro Electrónico].
P. – “Lifeforms” sugere processos biológicos, formas de vida criadas no computador…
R. – O que queríamos dizer com “Lifeforms” tem mais humor do que isso, embora tenha começado como uma coisa séria. Tínhamos deixado para trás o circuito dos clubes e passámos a prestar mais atenção a nós próprios e ao que nos rodeava. Numa perspectiva como que microscópica. Ao ponto de tudo o que observávamos, em nós ou no estúdio onde gravávamos, ganhar características próprias, como em “Spineless jelly”, nome que demos a uma determinada forma de vida. Passámos a chamar-nos uns aos outros “spineless jellies” [geleia ou gelatina sem espinha, invertebrada] sempre que algum de nós dava qualquer sinal de fraqueza. “Hey, you, spineless jelly!” O disco não trata exactamente de formas de vida do exterior, mas mais uma analogia sobre formas de vida sintéticas que criávamos no meio restrito em que nos movimentávamos.
P. – São lícitas as comparações entre a música do grupo e o som das bandas cósmicas alemãs dos anos 70, como os Tangerine Dream?
R. – Quando começámos a “samplar” sons, o que continuamos a fazer, ouvíamos bastante música além da electrónica. O nosso som relaciona-se com toda a história da música. Aproveitamos todos os “momentos de grande som”, seja na televisão ou sons naturais, de rock ou de jazz, ou do psicadelismo dos anos 70. Nesta perspectiva, somos bastante mais livres que um grupo como os Tangerine Dream.
P. – Por falar em psicadelismo, o uso de drogas facilita de alguma maneira a percepção da vossa música?
R. – Digamos que encorajaria qualquer pessoa a experimentar seja o que for desde que isso a ajudasse a diversificar o mais possível as suas opiniões e a sua própria consciência. Mesmo se isso significar algo tão horrivelmente “careta” como levar o pensamento analítico a um extremo. As drogas são apenas um meio para fazer estremecer o sistema de cada um. Acho isso bastante positivo.
P. – Não se dará o caso de estarmos a viver tempos perigosos para as viagens psicadélicas? É que a poluição em redor é muita, mesmo a nível mental…
R. – Sim, demasiado pensamento, demasiadas “head trips” podem ser perigoso. Por exemplo, resultarem em algo como “Lifeforms” [risos]. Mas é uma matéria complexa…
P. – Concorda que a música tecno ou “house” – com a utilização “científica” de determinadas pulsações rítmicas e mensagens subliminares – pode servir de ferramenta para a manipulação dos jovens que se deixam possuir pelo transe da dança nas discotecas?
R. – Nos Future Sound of London chegámos a uma fase em que nos interessamos bastante pela palavra falada, pela palavra com um ritmo. É uma forma determinada que faz parte de uma evolução constante. Agora que estamos a fazer televisão, estamos a aplicar a nossa criatividade em fazer passar mensagens através da palavra. E, na “net web”, através da palavra escrita. Também estamos a escrever um livro. Todas estas coisas tornaram-se muito, muito poderosas. Vivemos numa cultura que cada vez mais aceita e integra a música instrumental. De tal forma que tanto a palavra falada como a palavra escrita estão, de uma forma quase subliminar, a ganhar cada vez mais poder. É neste aspecto que estamos a investir actualmente, na programação de discursos.
P. – Acabou de se referir a uma “evolução”. Qual é o objectivo último dessa evolução?
R. – O objectivo, no nosso caso, é tornarmo-nos um sistema de transmissão global que esteja receptivo e, ao mesmo tempo, exponha as nossas ideias e os nossos modelos. Um sistema que projecte a “sopa electrónica” a uma audiência maciça. Acreditamos que a ligação da música electrónica a outros “media”, como a rádio, a televisão ou as superauto-estradas da informação, é verdadeiramente o meio de entretenimento mais forte dos anos 90. Acreditamos que podemos atingir algo que fique para a História, um momento crucial no campo do entretenimento. Não é a tecnologia em si que é importante. Quando a tecnologia se torna demasiado importante é porque algo correu mal.
P. – Qual é o lugar, nesse sistema, para a alma humana, se é que acredita na sua existência?
R. – Sim… Somos bastante crentes nesse aspecto. Damos a ver as nossas almas de muitas maneiras diferentes. É bastante interessante, como se revelássemos centenas de almas, em vez de uma só. Podemos jogar com centenas de opiniões, centenas de contradições, centenas de vozes e rostos diferentes. Na chamada idade da experiência, é o mais interessante que pode haver.



“A Arte Total De A(rt) a Z(oyd)” – artigo a propósito de Concerto dos Art Zoyd em Portugal (Lisboa)

Pop Rock

4 de Outubro de 1995

A ARTE TOTAL DE A(RT) A Z(OYD)


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“Nosferatu” e “Faust”, as duas obras-primas do cinema expressionista alemão criadas por Friedrich W. Murnau, respectivamente em 1922 e 1926, vão ser acompanhadas pela música ao vivo do agrupamento francês Art Zoyd. Do cinema de Murnau já se escreveu tudo, ou quase. Dos Art Zoyd, não. Injustamente. Digamos que, para nós, fanáticos incondicionais, é uma das bandas mais obscuras e em contracorrente dos anos 70, a melhor banda do planeta dos anos 80, com tendência para melhorar, nos 90.
Sob vários aspectos, os Art Zoyd são uma banda excessiva, desmesurada na estética e nas intenções, versão wagneriana da música popular deste século. É a partir da segunda metade dos anos 70, isto é, na altura em que a música progressiva entra em agonia e o “punk” inicia a sua operação de limpeza com lixa a broca Black & Decker, que os Art Zoyd emergem como um leviatã. Apadrinhado pelos militantes da editora Recommended, o grupo lidera, juntamente com os Univers Zero, um movimento ao qual se convencionou designar por “rock de câmara”. Ou, como lhe chamou um crítico berlinense, “música de câmara para ‘punks’”.
Captain Beefheart e Frank Zappa (nos primeiros discos), Magma, (banda cuja visão – a de Christian Vander – e prática musicais mais se aproximam das do grupo), Van Der Graaf Generator, Bela Bartok, Wagner, a escola minimalista americana, a “folk” da Europa central, Shakespeare, Friedrich Nietzsche, William Blake e o Apocalipse segundo S. João são alguns pontos de referência que permitem situar o universo multifacetado, pluricultural e interactivo dos Art Zoyd.
A obra discográfica do grupo é indispensável na sua totalidade. Claro que nos dirigimos a quem não considera que a música rock tenha começado com os Nirvana nem que os Blur sejam a melhor banda britânica depois dos Beatles. Em 26 anos de existência (nasceram em 1969), os Art Zoyd gravaram apenas nove álbuns, todos disponíveis em compacto no nosso país, os suficientes para ocuparem um lugar de destaque na música contemporânea deste século: “Musique pour l’Odyssée”, “Génération sans Future”, “Symphonie por le Jour ou Brûleront les Cites”, “Les Espaces Inquiets”, “Phase IV”, “Le Marriage du Ciel et de l’Enfer” (para uma coreografia de Roland Petit), a obra-prima absoluta “Berlin”, “Nosferatu” (composição de Thierry Zaboitzeff e Gérard Hourbette que ouviremos no Auditório Caixa Geral de Depósitos) e “Marathonerre”, em dois volumes, resumo das originais 12 horas “non stop” de ópera electroacústica para os tempos modernos. Em preparação estão “Les Envahisseurs”, de novo em dois volumes, e “Häxan”, banda sonora para um filme sobre “a feitiçaria através dos tempos”.
Os Art Zoyd são Thierry Zaboitzeff (violoncelo, baixo, teclados, percussão, electroacústica, misturas, voz), Gérard Hourbette (viola de arco, teclados, percussão, electroacústica, misturas), Daniel Denis (bateria) e Patricia Dallio (teclados).

ART ZOYD
Dias 7 e 8, Grande Auditório do Edifício-Sede da Caixa Geral de Depósitos, 21h30



“Jogo De Nervos” – artigo sobre o concerto de Laurie Anderson em Lisboa

Pop Rock

5 de Julho de 1995

JOGO DE NERVOS


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É fácil perdermo-nos no labirinto de sons, palavras e imagens criados por Laurie Anderson. Difícil fazer “pause” numa obra cuja estrutura global se assemelha a um jogo de computador. Com os seus vários níveis de dificuldade e gráficos de excelente qualidade. O “menu” de referências é imenso, praticamente infinito. O gráfico principal reproduz o mapa dos Estados Unidos da América, ampliados à escala do universo.
Nível 1. Número de jogadores, dois. Com ou sem som? Com, obviamente. “Start”. Uma mulher, já não muito nova, de cabelo curto mal cortado, toca violino com um arco fluorescente. “Big Science”. Caímos em queda livre, num voo indeterminado sobre a América. Sobrevivemos, é claro. No mundo virtual somos todos heróis. “O superman”, o habitante deste admirável mundo novo onde é possível controlar os maquinismos da realidade, sai vencedor. “O superman”, oito minutos de discurso andróide, sobe incompreensivelmente ao top de vendas. A saída do lado direito do ecrã dá acesso a uma ilha do Pacífico em cujo centro se esconde “Mr. Heartbreak”. A resolução da imagem do mar – o Inconsciente Colectivo, seberemos no fim, depois de atingirmos, no final deste dédalo parcial, a ilha do tesouro – é do melhor que se pode esperar. Alta definição. Sem brilho, mas com a qualidade média que nos habituámos a receber da criadora destes jogos.
Tudo se complica no nível seguinte, uma simulação, “ao vivo”, em quatro partes, de “United States of America”. “United States of the Mind”. Quatro gráficos, um de cada cor, dão acesso à proto-música da “clone performer”, a personagem que escolhemos dos ficheiros.
Pelo canto do gráfico onde aparece desenhada a Florida alcançamos o nível seguinte, “Home of the Brave”, casa dos monstros como a de “Jurassic Park”, ou do vídeo realizado pela própria Laurie Anderson, “Monsters in a box”, onde se exige mais empenhamento, se se quiser ultrapassar as armadilhas que Laurie, a navegante virtual, coloca no caminho. A voz do monstro mais temível, William Burroughs, carrega consigo a ameaça de uma lucidez despedaçada. “A linguagem é um vírus do espaço exterior”, diz o monstro. Se um dos sentidos perversos desta frase nos atingir na cabeça, estamos liquidados. Fim das vidas. “Game over”. É preciso alcançar a chave do enigma, sem deixar baixar em excesso os níveis de energia. As imagens e discursos confundem-se. A voz de Laurie torna-se masculina. Um lírio digital oferecido a Fassbinder parece querer sair do monitor, torna-se “real” numa outra dimensão. O medo dá lugar aos anjos. De Los Angeles ao anjo de Wim Wenders, com quem Laurie sobrevoa os céus de Berlim “Até ao Fim do Mundo”, um filme sobre a transformação do mundo em imagens e da viciação do homem nas imagens. O “vídeo game” absoluto. Com banda-sonora de canções pop. Produzidas em directo dos circuitos de um computador de uma máquina de jogos electrónicos.
O ecrã cobre-se de súbito de um vermelho monocromático. “Bright Red”, onde o leque de possibilidades de manipulação das diversas morfologias envolvidas se diversifica ainda mais. O rosto da personagem Laurie Anderson sofre múltiplas mutações, ele próprio tornado num gráfico de onde brota uma voz computadorizada. Ao seu e ao nosso lado encontra-se agora um terceiro jogador, perito em interagir com este tipo de informação-arte-diversão: Brian Eno, também ele autor de uma “Nerve Net” (“Rede de Nervos”). Do altifalante, uma voz desumanizada inicia uma sessão de histórias de viagens virtuais pelos Himalaias ou pela Guerra do Golfo, que invadem o quotidiano. O jogo confunde-se progressivamente com a sala onde nos encontramos agarrados ao “joystick”. Torna-se num jogo de nervos. Percebemos então que o labirinto é o labirinto do cérebro. “The Ugly one with the Jewels”. O problema está em onde encontrar a jóia que permite sair do labirinto. Felizmente há o manual com “dicas”, onde se ensina o modo de obter vidas infinitas e é possível visualizar a planta panorâmica do jogo. A bíblia dos jogadores. A “Nerve Bible”. O jogo dos jogos que vamos poder jogar hoje mesmo na sua versão interactiva com Laurie Anderson em Portugal. “Pause”.

Nota: Quem quiser jogar com Laurie Anderson pode ainda fazê-lo no CD-ROM da Macintosh “Puppet Motel”, comercializado pela Voyager, um edifício com 31 quartos correspondentes a outros tantos recantos do cérebro da artista. 44k de som estereofónico de qualidade extraordinária para canções de “Bright Red” e alguns originais num universo audiovisual de exploração infinita, “onde as sombras passam em corrida, as nebulosas rodopiam, as palavras se transformam em fumo e o tempo se move nas duas direcções”. É ainda possível fazer o ponto da situação da actual “Nerve Bible Tour” no ciberespaço, em “The Green Room”, na rede da World Wide Web.

LAURIE ANDERSON
Coliseu dos Recreios, Lisboa, hoje, 21h30