Arquivo mensal: Fevereiro 2016

“Heréticos Aos Gritos” – Artigo de Opinião sobre concertos de John Zorn em Portugal

Pop Rock

8 de Março de 1995

HERÉTICOS AOS GRITOS


jz

O grande subversor está de regresso. Desta feita, ao contrário do que aconteceu nos quatro anteriores concertos no nosso país, em que tocou acompanhado pelos Naked City, da última vez, pelos Pain Killer, John Zorn terá apenas por companhia e cantor e “performer” japonês Yamatsuka Eye. Uma fórmula inusitada e decerto económica, da qual há a esperar uma sessão, em princípio sem grandes pausas, de contorcionismos vocais e do saxofone exibidos a grande velocidade. No ar está a hipótese, lançada pelo próprio Zorn, da participação de músicos portugueses, com vários nomes aventados a aguardar confirmação.
Saxofonista de grandes recursos, imbuído da ânsia de liberdade do “free” e ao mesmo tempo leitor atento, ainda que pouco convencional, da cultura musical, dos Estados Unidos mas também europeia, nas últimas décadas – “Radio”, um dos seus últimos trabalhos com os Naked City é uma espécie de enciclopédia reciclada das várias influências e épocas que atravessam a obra do saxofonista –, John Zorn fechou-se à chave, nos últimos tempos, nas câmaras de tortura da mente humana. Como ele próprio confessou em entrevista ao PÚBLICO, quando da sua primeira apresentação em Portugal, em 1991, o limite da sua música é a morte. Uma aproximação à fronteira final já detectável na aceleração progressiva que enforma sobretudo a primeira fase dos Naked City – devoradora de todos os géneros musicais mas também com características autofágicas – e que acabou por encontrar filiações nos grupos de “hard core” e “trash metal”, americanos e japoneses, mas também da música industrial dos anos 80 (os SPK são reconhecidos como fonte de inspiração na longa lista de nomes de “Radio”…).
Álbuns como “Heretic” ou “Absinthe” afastam-se de qualquer discurso jazzístico. O primeiro envereda pelos túneis do sado-masoquismo e outros desvios da sexualidade, enquanto “Absinthe” mergulha num ambientalismo sombrio, de alucinações, montado sobre a organização de desperdícios sonoros. A esta imersão na zona escura do inconsciente – “Ao longo da História os artistas sempre estiveram obcecados com os tabus e fobias da humanidade. O nosso fascínio pelo medo, o terror e o diabo, como a própria morte, não conhece fronteiras raciais, culturais ou religiosas. Ele está no nosso inconsciente colectivo, atando-nos com cordas das quais nos tentamos libertar, o que, em última análise, não conseguimos”, diz ele nas notas que acompanham “Grand Guignol” (outro repositório de imagens e sons do horror) – justapôs Zorn, com coerência, as imagens simbólicas de dois surrealistas, Man Ray, em “Heretic”, e Hans Bellmer, em “Absinthe”.
Para trás ficaram as grandes síncreses de “The Big Gundown”, “Spillane” ou do longo tema dedicado a Godard no álbum de homenagem a este cineasta, “Godard, ça vous chante”, a anarquia “free” de “Cobra”, o mimetismo Ornettiano de “Spy vs. Spy” e a obra-prima “Deadly Weapons”, onde o saxofonista surge liberto de quaisquer pressões conceptuais, em sintonia com a memória do “bebop” e cúmplice da excentricidade, esta muito “british”, de Steve Beresford.
Nos últimos meses, a obsessão pela velocidade dá indícios de ter voltado, mas agra orientada para o ritmo de edições. Nada menos do que três álbuns num intervalo de quatro meses, pelo novo projecto Masada, quarteto formado, além de Zorn, pelo trompetista David Douglas, o baixista Greg Cohen e o baterista Joey Baron, único sobrevivente dos Naked City. Dos álbuns “Masada” (Dezembro de 94), “Masada 2” (Janeiro de 95) e “Masada 3” (lançamento para este mês), apenas sabemos que as faixas têm os títulos em hebraico, de acordo com uma temática que Zorn já abordara em “Kristallnacht”, ainda uma visão do horror, aqui centrada no genocídio dos judeus na II Guerra Mundial.

JOHN ZORN
São Luiz (Lisboa) – Março – Quinta – 9 – 22h
C. do Terço (Porto) – Março – Sexta – 10 – 22h



Vários – “Bom Dia Benjamim”

Pop Rock

20 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

BENJAMIM EM MIM

Vários
Bom Dia Benjamim (8)

CD, K7 e livro Movieplay


ben

Não sei se “Bom Dia Benjamim” é ou não o disco ideal para crianças. O que posso dizer é que a minha filha, de seis anos, adorou. “Bom Dia Benjamim” faz a descrição musical de 24 horas na vida de um rapazinho, dos seus cinco ou seis anos de idade. Sem ceder a facilidades, mas com muita simplicidade. Sem fazer figura de parvo nem vozes fininhas, mas com a comunicabilidade que se exige a quem fala com a pequenada. José Peixoto, João Paulo Esteves da Silva, Paulo Curado, José Salgueiro e José Mário Branco – gente crescida que não se esqueceu como era… – escreveram as 11 canções. Das horas do “despertar” às da “Canção de embalar (o sol e a lua)”. No meio, pequenos interlúdios vocais – diálogos de Benjamim com os pais ou com colegas da escola – fazem a ligação entre as canções. Nuno Artur Silva, Sílvia Cunha, Luís Miguel Viterbo, Rui Cardoso Martins, Ana Cristina Silva e José Peixoto escreveram os textos. Cristina Sampaio desenhou as ilustrações, da capa e do livro, e Vasco Colombo responsabilizou-se pela concepção gráfica. Uma aventura que apetece seguir. Nas palavras que dançam na voz de Maria João. Nos sons construídos com imaginação e, sente-se em cada nota, carradas de amor, por executantes como José Salgueiro, José Peixoto, Paulo Curado ou João Paulo Esteves da Silva, não por acaso, todos eles pais. “Bom Dia Benjamim” prova que as tonalidades menores e os caminhos, por vezes escorregadios, pelos meios-tons são tão aptos como os seus irmãos maiores e mais extrovertidos, quando a missão é levar felicidade aos ouvidos e coração da gente pequena. Atreve-se mesmo, mal a manhã nasce, a puxar as mangas ao “free jazz” e a buscar inspiração no 2º andamento do “Quarteto para cordas” de Maurice Ravel. Como já disse, a minha filha adorou e pediu o disco ao Pai Natal. Talvez porque se identificou com ele. Talvez porque “Bom Dia Benjamim” saiba retratar o dia-a-dia – uma eternidade – de uma criança, esse vaivém constante entre a matéria e o sonho, o palpável e o invisível, universo que não pára de crescer. Não deveria ser sempre assim também com os adultos?



Sérgio Godinho – “Noites Passadas”

Pop Rock

29 de Novembro de 1995
Álbuns portugueses

CADA CANÇÃO É OUTRA CANÇÃO

SÉRGIO GODINHO
Noites Passadas (8)

EMI, distri. EMI-VC


sg

“Noites Passadas” começa por ser um divertimento com o título. Noites do passado, noites que passam, talvez até noites loucas. Noites bem passadas, as que Sérgio Godinho passou a tocar e a cantar, a 26 e 27 de Novembro de 1993, no Teatro São Luiz, e a 25 do mesmo mês, mas do ano seguinte, no Coliseu de Lisboa. Espectáculos memoráveis, agora recuperados em compacto. “Noites Passadas”, como já acontecera com “Escritor de Canções”, responde a uma necessidade do compositor de transformar, experimentar os limites de cada canção.
Cada tema é um espelho onde Sérgio Godinho se confronta com o passado e, ao mesmo tempo, um trampolim do tempo, uma garantia de estar a palmilhar o caminho certo. O autor de “Os Sobreviventes” tem conseguido sobreviver a si próprio, à saturação e ao cansaço, graças a esta recusa em parar numa época, por mais dourada que esta se revele. “Misticismos agora à parte/ envelhecer é uma arte/ ‘arte-nova’, ‘arte final’/ numa luta desigual”, canta Sérgio Godinho em “O elixir da eterna juventude”. Acompanhar nota a nota, letra a letra, estas “Noites Passadas” é acompanhar um percurso interior partilhado com o público. É seguir com prazer as metamorfoses de canções antigas, como “A noite passada”, “O primeiro dia”, “Com um brilhozinho nos olhos”, “Lisboa que amanhece”, “Coro das velhas”, “Caramba”, “Sr. marquês”, “É terça-feira”, “Quimera do ouro”, ou mais recentes, como “O primeiro gomo da tangerina”, “Fotos do fogo” e “Enfim S. O. S.”, do último álbum de estúdio, “Tinta Permanente”.
“Noites Passadas” permite, enfim, esse eterno diálogo com a memória, de viver cada história e cada lembrança como se fossem sempre novas. Ouvimos as canções que conhecemos de cor e reconhecemos nas alterações e novas “nuances” que lhes foram introduzidas as nossas próprias transformações. Sérgio Godinho é um autor clássico da canção portuguesa, não por um estatuto ganho à custa da antiguidade, mas, pelo contrário, porque tem sabido conservar, ao longo dos anos, a pureza do ouvido e do olhar. “O passado é um país distante/ que distante é a sombra da voz/ O passado é a verdade contada/ por outro de nós”. “E o futuro diz que está aqui, já”. Sei lá, caramba, este é um dos gozos maiores que a música de Sérgio Godinho proporciona: trocar as voltas aos sentidos, usar e abusar da permissividade da linguagem.