JPP – “Devil’s Polska”

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


JPP
Devil’s Polska
GREEN LINNETT, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO



Os Jarvellan Pikkupelimannit, ou JPP, como se autodesignaram a partir de 1988, quando alcançaram a consagração no seu país de origem, a Finlândia, com o duplo álbum “Kaustinen Rhapsody” (considerado o “melhor do ano” pelo diário “Helsingin Sanomat”) e a atribuição do prémio Tonnustus, pela Corporação de Rádio Finlandesa, dedicam-se ao reportório de violino. “Devil’s Polska” (no original “Pirun Polska”) não esconde o currículo clássico e de conservatório dos seus el, mesmo se nos seus primórdios, no início dos anos 80, o grupo se reivindicasse como descendente directo de uma linhagem de músicos populares que elementos populares que já no final do século passado animavam as aldeias de Kaustinen e Jarvela. O seu nome significa, de resto, “os pequenos músicos de folclore de Jarvela”. Por serem na altura ainda muito jovens e, quiçá, de baixa estatura. Os elementos do actual septeto já dispersaram os seus talentos pelos Niekkutallari, Koinurit, Salamakannel ou Maria Kalaniemi, entre outros. Em contrapartida ao seu passado regional, a música deste quarto álbum da banda é de iluminados. O reportório incide sobre polskas, polkas, “schottisches”, quadrilhas, valsas, marchas, um 2Tango bonito” e até um “Irish coffeee”, servido, evidentemente, com natas muito geladas. Das tradições finlandesa, mas também sueca, da região de Carélia, mais uma polka alemã e a tal polska do diabo. Experimentem começar, sem aviso prévio, pelo tema n 4, “Ellun sotiisi”, e deixem-se cair para o lado. É das melodias mais envolventes que tenho escutado nos últimos anos. Ou então, lá mais para a frente, “Kulkan kakkospolska”. E há muitas mais do estilo. Música tradicional com a complexidade, a riqueza harmónica e a sumptuosidade do Barroco. Cinco violinos, um baixo acústico e um órgão de pedais. “New finnish folk fiddling”, apregoa o subtítulo. Parece pouco? É mais do que suficiente para pôr qualquer um em órbita. Obrigatório. (9)

Aimee Man – “I’m With Stupid”

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


Aimee Man
I’m With Stupid
GEFFEN, DISTRI. BMG



“Whatever”, o álbum anterior de Aimee, passou estupidamente despercebido. Um dos discos que tornou mais brilhante o meu Verão de há dois anos. “I’m With Stupid” chega em plena época das chuvas, mas o milagre repete-se. Aimee abre a boca e o sol aparece. A antiga ninfeta dos Til’ Tuesday, admiradora de Liz Phair e admirada por Elvis Costello, está de volta com um som mais agressivo que o de “Whatever” e com ela estão de volta melodias viciantes. Quantas doses de “Long shot”, “Amateur”, “Par for the course” ou “That’s what just you are” serão precisas, antes da cura de desintoxicação? O tema do estúpido deve saborear-se com a memória gustativa nos Devine & Statton. Ou nos genuínos mestres do “cocktail”, Slapp Happy. Glenn Tilbrook e Chris Difford, dos Squeeze, produzem. Julianna Hatfield e Bernard Butler, ex-Suede, colaboram.
Da capa interior de infantário à voz de brinquedo, de entoações a fazer lembrar, por vezes Chrissie Hynde, e às canções com espessura de “chantilly”, tudo aponta no mesmo sentido: gozo. Chamem-lhe fútil ou superficial. Mas agradeçam-lhe. São discos como este, estupidamente saudáveis, que tornam a vida menos cinzenta e nos fazem acreditar que a pop é um remédio santo. Vai um rebuçado? (7)

Vários (Pedro Abrunhosa, As Camponesas de Castro Verde, Os Vindimadores – Vidigueira, Cubenses Amigos do Cante – Cuba, etc. – “‘CANTE’ DE NATAL SEDUZ ABRUNHOSA”

pop rock >> quarta-feira >> 10.01.1996


“CANTE” DE NATAL SEDUZ ABRUNHOSA



O primeiro disco do ano é português, vem do Alentejo e tem já um ilustre admirador, Pedro Abrunhosa. Chama-se “Cantes de Natal e de Ano Novo”, com “modas” alusivas às quadras festivas que nos trazem o “cante” dos grupos corais Os Vindimadores, da Vidigueira, Cubenses Amigos do Cante e Os Ceifeiros, de Cuba, As Camponesas de Castro Verde e Alma Alentejana, de Peroguarda. A edição celebra um ano de publicação da revista “Imenso Sul”.
Ao todo, 60 minutos de “modas” alentejanas, incluindo três versões do “Cante ao Menino” e duas de “Quem são os três cavalheiros”, na maioria inéditas no formato compacto e algumas delas recolhidas por Michel Giacometti. Gravado na Igreja do Museu Distrital de Beja, o disco constitui ainda uma homenagem ao trabalho desenvolvido, ao longo dos últimos anos, pelo jornalista Rafael Correia, com o seu programa Um Lugar ao Sul, na Antena Um. Os apoios vêm da Região de Turismo Planície Dourada, Delegação Regional do Alentejo do Ministério da Cultura e das câmaras municipais de Castro Verde, Cuba, Ferreira do Alentejo e Vidigueira. O compacto não terá distribuição comercial, sendo oferecido gratuitamente a todos os actuais e futuros assinantes da revista “Imenso Sul”. Quem estiver mesmo interessado na sua aquisição, pode escrever para o apartado 400 – 7800, Beja e enviar 4000 escudos, correspondentes à assinatura de quatro números.
Para Maria das Dores Correia, da administração da “Imenso Sul”, o objectivo da presente edição prende-se, em primeiro lugar, com a divulgação das diferentes especificidades do canto polifónico do Alentejo, num esforço para eliminar o preconceito de que “todo o cante é igual”. “Cada grupo e cada terra tem uma genuinidade própria, embora correspondendo sempre a um todo que é a cultura alentejana.” Obedecendo a critérios de escolha “algo aleatórios” – “o reportório de cante é uma coisa tão vasta que não caberia nem em 10 CD…” – “Cantes de Natal e de Ano Novo” não pretende, por isso, ser “nem um trabalho exaustivo nem uma recolha pretensiosa”, mas tão-só, “uma chamada de atenção”.
Não se deverá, portanto, estranhar a ausência dos Ganhões de Castro Verde, primeiro colectivo de “cante” a gravar um compacto. É que se privilegiam as tais “especificidades” e uma “abrangência em termos geográficos”, explica Maria das Dores Correia. De resto, foram os próprios Ganhões que, voluntariamente, decidiram dar lugar a outros grupos, menos conhecidos, embora tenham participado na recolha.
O mais curioso é que a tal “chamada de atenção” atingiu em cheio Pedro Abrunhosa, sim, esse mesmo, o das “Viagens” e dos óculos escuros. O “guru” da “dance music”, na altura de passagem por Beja, foi convidado a assistir às gravações, tendo ficado literalmente siderado com o que ouviu. Tanto que, numa entrevista dada a uma rádio local, declarou publicamente que o “cante” estará com certeza presente, como fonte de inspiração, no seu próximo disco. O corolário desta confluência astral é que os fãs de Abrunhosa, como bons seguidores do seu líder, desataram numa correria à procura destes “Cantes de Natal e de Ano Novo”, o que faz adivinhar o aparecimento de um disco de culto bastante “sui generis”.
Nos horizontes da revista “Imenso Sul” está a continuação deste projecto, para a próxima, subindo um pouco mais, até ao Alto Alentejo, estando já em mira o Grupo de Torre de Coelheiros.