Eric Montbel – “Chabretas, Les Cornemuses À Miroirs Du Limousin”

pop rock >> quarta-feira >> 25.10.1995


Eric Montbel
Chabretas, Les Cornemuses À Miroirs Du Limousin
AL SUR, DISTRI. MEGAMÚSICA



Um aviso aos mais precipitados: “Cha bretas” destina-se ao uso exclusivo dos fanáticos “hard” da gaita-de-foles. Sem as devidas precauções corre-se o risco de se ficar com os ouvidos em brasa. Eric Montbael faz parte dos fabulosos Lo Jai (antes integrou os lendários Le Grand Rouge, com disco na Hexagone), facto que pode levantar alguns equívocos. A “chabreta” (ou “chabrette”, em francês corrente) é uma variante de gaita utilizada na região do Limousin, no Sul de França, antigamente abrangida pelo país de Oc, ou Lanquedoque. Deve o seu nome ao facto de ser decorada com pequenos espelhos incrustados em estanho, na parte que une o fole à ponteira. A música é constituída na sua totalidade por “borrèias” (ou “bourrées”) de fraseado cerrado, embora a presença de convidados como Guy Bertrand, no sax e na flauta, e Jean-François Vrod, no violino, suavize um pouco o sopro ininterrupto das gaitas. Seja qual for o prisma por que for abordado, “Chabretas” é um trabalho sem concessões, com algum apelo para o ouvinte generalista e de consulta absolutamente obrigatória para o estudante ou estudioso da gaita-de-foles. (7)

Stephen Kent – “Landing” + Land – “Land” + Elliott Sharp – “Tectonics” + Tuu – “All Our Ancestors”

pop rock >> quarta-feira >> 18.10.1995


TERRA FIRMA

Os quatro discos que se seguem têm em comum o facto de procurarem estabelecer o contacto com as forças vitais – ou com o seu inverso, as sombras – do planeta.

Stephen Kent
Landing
CITY OF TRIBES, DISTRI. SYMBIOS



Kent toca didjeridu, espécie de trompa ritual utilizada pelos aborígenes australianos. Elemento de grupos e projectos vários, como os Lights In A Fat City, Trance Mission, Rocking Horse People e Beasts of Paradise, Kent entrega-se aqui à tricotagem de texturas hipnóticas no seu instrumento preferido, com a ajuda subliminar de “drones2 electrónicas, percussões hipnóticas e cânticos arrancados directamente dos primórdios do tempo. Uma “trip” electroacústica para os anos 90 com as raízes mergulhadas nos sonhos de um continente imaginário. (9)

Land
Land
EXTREME, DISTRI. ANANANA



Primeiro projecto colectivo de Jeff Greinke, os Land congregam o ambientalismo pedregoso de obras a solo, como “Places of Motility” ou “Changing Skies”, com uma linha vagamente hasseliana personificada pela trompetista Lesli Dalara e divagações jazzy que não destoariam num catálogo como o da ECM (“Nightnoise”). “Bustle” é etno-industrial, “Jacks” a redenção da “etno seca” e “Ku” um grito primordial que brota das entranhas revolvidas da terra. A música dos Land abre brechas no convencionalismo e desforra-se da beatitude visionada por Eno, o profeta. (8)

Elliott Sharp
Tectonics
ATONAL, DISTRI. SYMBIOSE



“Tectonics parte de onde “Virtual Stance” havia estacionado. Sharp, visionário e anarquista da guitarra, regressa a um tipo de organização mais matemática, com o auxílio de computadores em estado de convulsão que fazem avançar o ritmo a murro e a pontapé. Implacável, gutural, tribal e com o martelo pneumático ligado na máxima força do princípio ao fim, “Tectonics” atinge o caos no cataclismo devastador do tema “Newtage”. Um dos melhores Sharp de sempre. (9)

Tuu
All Our Ancestors
BEYOND, DISTRI. SYMBIOSE



Depois de “One Thousand Years” os Tuu inflectem ainda mais na direcção das origens, na busca desse ponto alephiano onde convergem os antepassados sonoros do universo. Música de transe, constrói-se de fora para dentro, da superfície pintada com imagens de “mantras” psicadélicos para o âmago do psiquismo colectivo. Mas cuidado, porque por vezes leva-nos de vista a lugares em ruínas onde os abutres da mente estão à espera. (7)

Hinten – “Percussões Asiáticas No Chiado – O Rei Vai Nô”

cultura >> sexta-feira, 20.10.1995


Percussões Asiáticas No Chiado
O Rei Vai Nô


MÚSICA do teatro nô, na primeira parte. Percussões, na segunda. No papel, não parecia mal. O que aconteceu na noite de quarta-feira no Teatro da Trindade, com o grupo asiático Hinten, não esteve à altura das expectativas. À música do teatro nô faltou o teatro nô propriamente dito. Na ausência do gesto e das coreografias rituais, essenciais nesta forma de expressão, os olhos e os ouvidos tiveram de contentar-se com sequências impenetráveis de tambores, uma flauta perdida e uns grunhidos zen que perdem todo o seu sentido fora do seu contexto teatral.
Tudo se perdoaria, não fora uma interminável lenga-lenga, a meio de duas peças de música “hayashi”, onde pela enésima vez nos foi explicada a aliança cultural de séculos que une Portugal ao Japão. Também nos forneceram alguns dados técnicos sobre os tais tambores e pistas para a utilização da imaginação criativa, de maneira a preencher os silêncios da música.
Faltou o mais importante neste cerimonial: a comunicação imediata e intuitiva com os sons. E a precisão rigorosa do gesto musical, demasiado folclórico para poder materializar as geometrias espirituais cruzadas dos dois tambores, um tocado na horizontal, outro na vertical. A segunda parte não foi melhor. Os momentos “diferentes”, foram-no pelo seu lado divertido. A improvisação a dois, tambor contra “tablas” indianas, revelou algum (pouco) virtuosismo e a total ausência de ideias. Mais aparato percussivo envolveu a derradeira peça, nova improvisação, desta vez em trio e com recurso a instrumentação percussiva ocidental.
A pseudo-seriedade da pose sofreu logo de início um duro revés, quando um dos músicos deitou acidentalmente ao chão o gongo que instantes antes manuseara. Metal chocalhado, chinfrim de tachos e panelas e lá se foi a solenidade. Ou seria, pelo contrário, o “satori” programado, o instante de lucidez que de súbito irrompe sem se fazer anunciar?
Seria isso, mas é de desconfiar, sobretudo quando se sabe que, nesta música, como nas artes marciais, a concentração e o domínio do corpo são essenciais para esse estar coincidindo com o real a que toda a manifestação zen almeja. A improvisação, em si, foi fracota. Ritmos primários, sintonia entre os três músicos sofrível, a pose e o exotismo uma vez mais a disfarçarem a ausência de um discurso profundo. Ou jovialmente superficial, se quisermos ainda permanecer arreigados aos referenciais zen…
Parte do público aplaudiu de pé e os Hiten ganharam direito a um “encore”, por detrás de um imenso “bouquet” de flores que escudou uma derradeira sessão de tamboriladas e grunhos arrancados do fundo da alma. A Ásia e em particular o Japão, esses, ficaram mais longe.