Hinten – “Percussões Asiáticas No Chiado – O Rei Vai Nô”

cultura >> sexta-feira, 20.10.1995


Percussões Asiáticas No Chiado
O Rei Vai Nô


MÚSICA do teatro nô, na primeira parte. Percussões, na segunda. No papel, não parecia mal. O que aconteceu na noite de quarta-feira no Teatro da Trindade, com o grupo asiático Hinten, não esteve à altura das expectativas. À música do teatro nô faltou o teatro nô propriamente dito. Na ausência do gesto e das coreografias rituais, essenciais nesta forma de expressão, os olhos e os ouvidos tiveram de contentar-se com sequências impenetráveis de tambores, uma flauta perdida e uns grunhidos zen que perdem todo o seu sentido fora do seu contexto teatral.
Tudo se perdoaria, não fora uma interminável lenga-lenga, a meio de duas peças de música “hayashi”, onde pela enésima vez nos foi explicada a aliança cultural de séculos que une Portugal ao Japão. Também nos forneceram alguns dados técnicos sobre os tais tambores e pistas para a utilização da imaginação criativa, de maneira a preencher os silêncios da música.
Faltou o mais importante neste cerimonial: a comunicação imediata e intuitiva com os sons. E a precisão rigorosa do gesto musical, demasiado folclórico para poder materializar as geometrias espirituais cruzadas dos dois tambores, um tocado na horizontal, outro na vertical. A segunda parte não foi melhor. Os momentos “diferentes”, foram-no pelo seu lado divertido. A improvisação a dois, tambor contra “tablas” indianas, revelou algum (pouco) virtuosismo e a total ausência de ideias. Mais aparato percussivo envolveu a derradeira peça, nova improvisação, desta vez em trio e com recurso a instrumentação percussiva ocidental.
A pseudo-seriedade da pose sofreu logo de início um duro revés, quando um dos músicos deitou acidentalmente ao chão o gongo que instantes antes manuseara. Metal chocalhado, chinfrim de tachos e panelas e lá se foi a solenidade. Ou seria, pelo contrário, o “satori” programado, o instante de lucidez que de súbito irrompe sem se fazer anunciar?
Seria isso, mas é de desconfiar, sobretudo quando se sabe que, nesta música, como nas artes marciais, a concentração e o domínio do corpo são essenciais para esse estar coincidindo com o real a que toda a manifestação zen almeja. A improvisação, em si, foi fracota. Ritmos primários, sintonia entre os três músicos sofrível, a pose e o exotismo uma vez mais a disfarçarem a ausência de um discurso profundo. Ou jovialmente superficial, se quisermos ainda permanecer arreigados aos referenciais zen…
Parte do público aplaudiu de pé e os Hiten ganharam direito a um “encore”, por detrás de um imenso “bouquet” de flores que escudou uma derradeira sessão de tamboriladas e grunhos arrancados do fundo da alma. A Ásia e em particular o Japão, esses, ficaram mais longe.

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