Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

Rolling Stones – “A Década Ao Contrário” (artigo de opinião | história do rock)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 8 JUNHO 1990 >> Cultura


A década ao contrário

NO INÍCIO eram apenas uma entre muitas bandas brancas a brincar ao “rhythm‘n’blues”. Depois foram crescendo até se tornarem na maior banda de “rock and roll” do mundo. Hoje são um fantasma sorvedor de divisas e recordações de rebeldia.
Mick Jagger e Keith Richards andaram juntos na mesma escola primária. Perderam-se de vista. Anos mais tarde encontraram-se num comboio. Dois rapazinhos ansiosos por dar nas vistas, ambos apreciadores do “rhythm‘n’blues”. Corria o ano de 1960, primeiro de uma década que viria a dar que falar. Brian Jones conhece Jagger numa das suas visitas a Londres. No “Korner’s Club”, onde este atuava com Long John Baldry. O destino juntava o trio mágico Jagger/Richards/Jones, mal sabendo a confusão que iria causar. Em 63, Charlie Watts e Bill Wyman completam a lendária formação. Escolhido o nome (baseado na canção “Rollin’ Stones”, de Muddy Waters) só faltava dar o sinal de partida.

Os blues

As primeiras gravações de estúdio são “Soon Forgotten”, “Close Together” e “You Can’t Judge A Book (By Looking At The Cover)”. Nenhuma editora lhes pega. Tornava-se necessário criar urgentemente uma imagem. Sobretudo que vendesse. Andrew Oldham (que já trabalhara com os Beatles), na altura com apenas 19 anos, encontrou-a. Se os “fabulous four” eram os meninos bonitos da pop, havia que lhes arranjar adversário à altura. Os Stones eram o ideal para representar o papel de maus.
Finalmente, em junho de 63 a Decca edita o single “Come On”, versão do tema original de Chuck Berry, com um dos versos alterado não fosse ferir a sensibilidade dos homens da rádio. Perversão ou não, os Stones agarram num original dos rivais Lennon/McCartney e editam-no sob a forma de um “R&B”. É o clássico “I Wanna Be Your Man” e torna-se o primeiro hit da banda. Graças aos Beatles…

A imagem

Enquanto os de Liverpool provocam gritinhos histéricos e desmaios, Jagger e os outros desencadeiam súbitas e assustadoras descargas de adrenalina e agressividade. Fans para o hospital, destruições várias e um cheirinho a droga, faziam então parte da imagem de marca do grupo. Pior ainda, usavam cabelos ainda mais compridos do que os Beatles. Às vezes chegavam mesmo ao ponto de não usar gravata. Eram provocações a mais. Brian Jones, esse então, abusava, sobretudo da droga. Mas perdoavam-lhe facilmente – era fino, engraçado e além do mais inofensivo – Jones era um dandy, um aristocrata mais preocupado em destruir-se do modo mais elegante possível. Conseguiu-o, sem muito esforço, em apenas cinco anos. Com Brian Jones os Stones gravaram sete álbuns. Após a sua morte, Mick Jagger tinha o caminho livre à sua frente.
“The Rolling Stones” (64) e “The Rolling Stones no.2” (65, o mesmo de “Satisfaction”) são inspiradas rendições do som negro dos blues, acrescentado do frenesim típico do “rock‘n’roll”. O som vai progressivamente endurecendo à mesma velocidade que a violência suscitada nos fans. Aumentam as histórias e os escândalos. Os adultos tremem enquanto os jovens deliram. “(I Can’t Get No) Satisfaction” é número um em ambos os lados do Atlântico e torna-se hino de uma geração frustrada e à beira da grande explosão. “Out Of Our Hands” (65, com temas “soul”) e “Aftermath” (66, o 1º álbum exclusivamente assinado pela dupla Jagger/Richards) fecham a fase inicial da banda.
A explosão eclode afinal pacificamente. Com flores no cabelo, flores na camisa, flores no cérebro acionado a LSD. Os Stones são apanhados de surpresa mas recompõem-se depressa. Ao mesmo tempo que hippies anestesiados atingem o nirvana lisérgico e a contemplação das grandes verdades cósmicas, o quinteto terrível lança “19th Nervous Breakdown” e “Paint It Black”. A compilação “Flowers” e o single “We Love You” são, pelo menos no título, cedências provisórias ao “Flower Power”. O golpe de misericórdia (depois do álbum pop “Between The Buttons”, de 67) dá-se com “Their Satanic Majesties Request”.
Em plena época de propagação de valores positivos, como a paz e o amor, os Stones invertem o processo, utilizando as mesmas armas. Por detrás das imagens coloridas e em 3D da capa e de canções psicadélicas como “She’s A Rainbow” ou “2000 Light Years From Home”, revela-se o lado negro e diabólico oculto na sombra das alucinações. “Their Satanic Majesties Request” é a genial inversão, o negativo de “Sgt. Peppers” e do espírito da época. Símbolo da raiz demoníaca subjacente a toda a música rock, por mais que a queiram disfarçar com os trajos grotescos da boa consciência e das boas intenções.
Anos mais tarde, dezembro de 69, último de uma era, em Altamont, durante a atuação dos Stones, uma jovem negra, Meredith Hunter, é assassinada pelos Hell’s Angels. A década dos sonhos terminava, com os Rolling Stones em pesadelo.

Lou Reed E John Cale – “Songs For Drella – A Fiction”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop

FICÇÕES


LOU REED E JOHN CALE
Songs For Drella – A Fiction
LP, Warner Bros, import. WEA



Andy Warhol, a quem este disco é dedicado, é Drella, junção de Drácula e Cinderella, na mesma pessoa. Warhol, já se sabe, é um mito, referência obrigatória de uma certa cultura, outrora “underground”, americana, e, mais especificamente, nova-iorquina. Personagem vampírica de modas, estilos e escândalos de uma cidade fotografada em rápidos “polaroids”, no seu aspeto mais artificial e decadente. Isto, claro, se não quisermos considerar Nova Iorque como o símbolo máximo do artificialismo e da decadência, a realidade feita imagem.
Warhol compreendeu isto mesmo, ao transformar uma lata de sopa ou a estrela Monroe em simples imagens, repetidas “ad infinitum”, em múltiplas variantes, a aparência sempre se sobrepondo ao sentido essencial – ou, dito de outro modo, reduzindo a essência à imagem exterior e fotográfica que adquire, por este processo, um sentido autónomo do ente que lhe deu origem. Simples objeto de consumo doméstico (a lata de sopa) ou gente de carne e osso (Marilyn), são, afinal, exemplos paradigmáticos de uma mesma atitude redutora do real a imagens de marca, réplicas que, paradoxalmente, se elevam, por força da repetição e ampliação sucessivas, à superior condição de mitos.
Warhol executou a sua obra de arte suprema ao aplicar a si mesmo o método, à custa de uma constante e criteriosamente controlada sobrexposição, diante dos mecanismos transformadores dos “media”. Se foi “Cinderella”, como personagem emblemática da passividade, foi-o, decerto conscientemente e de forma calculista. Warhol vampirizou-se a si próprio, através dos outros, sabendo como se constrói o mito a partir do vazio. “My life is disappearing from View”? – tanto melhor, diria Drella.
Sedimentada a ilusão, o processo inverteu-se. John Cale e Lou Reed, partindo da imagem mítica do artista, procuram, neste disco biográfico, atingir através de uma simplicidade de meios idêntica à dos Velvet numa primeira fase, o âmago, a pessoa real “escondida” atrás da personagem. Para descobrirem, por fim, que, por baixo da máscara, existe sempre outra máscara, num infinito jogo de espelhos.
Cale e Reed, desde o início de carreira, com os Velvet Underground, procuraram sempre as vias opostas às do sonho, tentando permanecer apegados a uma certa materialidade do real, avançando contra todos os pressupostos estéticos da época. Nos anos em que se cantava ainda as alucinações coloridas do LSD, Lou Reed esperava à esquina pelo seu “dealer” e erigia a heroína como verdadeira “esposa”, única capaz de facultar a visão autêntica, brutal e a negro e branco, da realidade concreta da rua e, por extensão, da América destituída da ilusão de todos os sonhos.
Talvez não se tenha compreendido ainda a importância crucial, na obra de Lou Reed, do duplo “Metal Machine Music”, das poucas tentativas, na arte do nosso século, de ultrapassar a forma estética, para chegar à nudez absoluta da abolição de todos os sentidos. A realidade é, deste ponto de vista, o que está para além da arte. Se há uma lição a tirar de “Songs For Drella”, é o fracasso a que estão condenadas tais tentativas. Os dois expoentes dos Velvet são (ou têm sido) então, precisamente o oposto de Warhol, procurando, no cerne da ilusão, a impossível saída para o que julgam existir para além dela. Reconheceram finalmente, após largos anos apostados em permanecer “gente real” que – pelo simples facto de terem escolhido a música e a fábrica de sonhos que é a pop – todos os esforços nesse sentido resultaram afinal nos mitos em que também eles se transformaram.
Visto desta maneira, “Songs For Drella” é uma homenagem, na aceção mais profunda do termo, rendição incondicional à visão warholiana, compreendendo-se agora melhor o verdadeiro significado do “A Fiction” (Warhol, a ficção em pessoa) aposto no título. Passados 24 anos, os Velvet Underground regressam, com a mesma força e invertendo o sentido inicial. Suprema ironia, desistência apoteótica ou manifesto definitivo da arte como suprema forma de ilusão, cabe a cada um decidir, consoante a perspetiva.

Vários – “Bandes Originales du Journal ‘Spirou'”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 25 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


VÁRIOS ARTISTAS
Bandes Originales du Journal “Spirou”
CD duplo Nato, distri. VGM


Jean Rochard, patrão da editora francesa Nato, é um fanático da banda desenhada, como o demonstram, aliás, a quase totalidade das capas dos discos editados neste selo. “Spirou” constitui o remate lógico desta paixão. Para o efeito Rochard reuniu o grosso dos “seus” artistas, convidando-os para compor música para diversos álbuns daquela revista. O resultado dos trabalhos é esplendoroso. De resto, não espanta que assim seja, se perspetivarmos corretamente a linha estética predominante na casa. Tony Hymas, Steve Beresford, Mike Cooper, Lol Coxhill ou Clive Bell não escondem a sua admiração pelo universo das imagens, sejam elas cinematográficas ou, como neste caso, da banda desenhada. Recordem-se aqui os estranhos objetos musicais da Chabada Records, subsidiária da Nato, dedicados a Brigitte Bardot ou aos irmãos Marx. Em “Spirou” foi-lhes dada rédea solta, e quem ganha é a música, aqui estruturada numa longa “fita” de múltiplos argumentos e inspirados narradores. Mais descritivas e menos abstratas do que certas obras mais radicais da editora, das “bandas sonoras” de “Spirou” entrecruzam feericamente os “clichés” mais evidentes (como os do “Film Noir” ou do “Western”) com incursões por um experimentalismo bem-humorado. Para além dos já citados, participam nesta aventura, entre outros, nomes como John Zorn e os seus amigos Blind Idiot God, Max Eastley, Tony Coe e David Weinstein, entretidos e divertidos com os seus heróis Spirou & Fantásio, Attila, Chaminou ou Natasha. As manobras da NATO voltam a dar que falar.