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Vários – “Florilège – La Chanson Française Traditionnelle”

pop rock >> quarta-feira >> 17.05.1995


Vários
Florilège – La Chanson Française Traditionnelle
2XCD EPM, DISTRI. DARGIL



É a parte visível e, para já, a única disponível de um imenso icebergue. Estes dois compactos fazem, com efeito, parte de uma antologia da canção francesa tradicional que inclui um total de 14 compactos, com 321 canções, e um livro de 928 páginas com texto e partituras. Em cada compacto é abordado um aspecto específico – como “Des Trouvères à la Pléiade”, “Ballades, Complaintes & Légendes”, “Chansons de Rites, Magie & Miracles”, “Chansons de Marins”, “Chansons à Mener & à Danser”, “Chansons et Comptines pour Enfants”, “Chansons à Boire & Libertines”, etc. -, um panorama completo que, por sua vez, faz parte de uma antologia mais global sobre o património da canção francesa em geral, que para já se estende até aos anos 70, constituída por outras cinco antologias parciais, de dez compactos cada. Quando o projecto estiver acabado, serão 80 compactos, divididos por oito caixas. Antes de se tomar a decisão de ficar esmagado, pode e deve fazer-se uma preparação espiritual para a qual a audição dete “Florilège” é indicada. Da Bretanha à Provença, a viagem garante delícias continuadas, mesmo para quem se está nas tintas para uma perspectiva histórica e sistemática (que de resto, em termos de documentação escrita, não existe nesta, como dissemos, espécie de amostra) da música tradicional de França. E, já agora, a quem foi entrgue a responsabilidade das canções? Pois é, a gente como Jean Baron, Soig Siberil, Jean Blanchard, Gabriel Yacoub, Gilles Chabenat, Jean-Loup Baly, Marc Robine, Jean-Pierre Rasle, Evelyne Girardon ou os La Chiffonie, entre muitos outros e várias combinações possíveis… De que é que estão à espera? (8)

Vários (Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches, Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo, Júlio Pereira, Yulduz Usmanova, Cécile Kayirebwa, Xarabal, Art’ Imagem, Cantareiras de Xiradela, Tanxarina – “VI Cantigas do Maio Animam O Seixal – Sermão Às Pedras E Aos Peixes”

pop rock >> quarta-feira >> 17.05.1995


VI Cantigas do Maio Animam O Seixal
Sermão Às Pedras E Aos Peixes


Maio volta a recuperar a memória e o mote de José Afonso, no Seixal. Nos próximos dois fins-de-semana vão decorrer nesta vila a sul do Tejo as VI Cantigas do Maio, este ano com um programa de música tradicional mais recheado do que nunca. A cantora ruandesa Cecile Kayirebwa, Yulduz Usmanova, do Usbequistão, e os irlandeses Slua Nua são alguns dos nomes em cartaz. A organização está a cargo da Associação José Afonso e da Câmara Municipal do Seixal.
A abrir está a banda de gaitas galegas, Xarabal, formação saída das falanges da mítica Obradoiro – Escola de Instrumentos Musicais populares galegos da Universidade Popular de Vigo. Sob a direcção de Antón Corral, este agrupamento tem como objectivo o desenvolvimento de novas técnicas de utilização e integração instrumental da gaita-de-foles galega, ensaiando vários tipos de afinação e junções com outros instrumentos, nomeadamente as percussões, que nos Xarabal diferem do que é habitual ouvir na música tradicional da Galiza. Uma forma de preservação e desenvolvimento da música desta região, actualmente a atravessar um período de alguma indefinição, como atesta a própria escolha do nome do grupo que significa “agrupamento de peixes face ao perigo”.
Da Galiza vem também o Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela da Arteixo, associação criada em 1982, composta actualmente por oito “xovens” raparigas que se dedicam à recolha e investigação do património musical da Galiza, numa linha de máxima fidelidade. Folia, cor e movimento andarão à solta nas ruas com o grupo Tanxarina, ainda da Galiza, que apresentará o espectáculo “Ah, ah, ah, estamos monstros de risa”. Muita curiosidade rodeia a apresentação do Grupo de tocadores de pedrinhas de Arronches, uma pequena localidade nos arredores de Portalegre, Joaquim Miranda, de 78 anos, Carlos Maurício, de 72, e Manuel Fonseca, de 51, tocam pedras que apanham no leito do rio Caia, fazendo entrechcar o mar e a terra, num contacto primevo e ritual do homem com a Natureza.
“No Verão, quando o rio está seco, chegamos a andar quilómetros para encontrar uma pedra de jeito”, dizem.
Sabedoria secreta da forma que têm os sons.
Sabedoria tantas vezes aprendida com a dor, no choque da pedra contra a carne. “Eu cá não me dói nada. Sou capaz de tocar um dia inteiro”, diz Joaquim Miranda. O princípio do mundo.
Do lado português, além das “pedras” de Arronches, do grupo de teatro português Art’ Imagem e do grupo de Zés-pereiras Os Completos, vão estar presentes os Realejo, um grupo em ascenção imparável, com as suas “sanfonias”, e um Júlio Pereira “acústico”, que depois da boa companhia dos Chieftains, nas gravações do próximo álbum desta banda irlandesa, terá a não menos boa companhia de José Moz Carrapa e Minela.
Presença forte no festival prevê-se que seja a dos irlandeses Slua Nua (“nova reunião” ou “do velho para o novo”), onde pontifica a dupla Joe McKenna, nas “uillean pipes”, “tin whistle” e acordeão, e Antoinette McKenna, na harpa céltica. Aconselha-se a audição prévia do primeiro álbum (em cuja primeira edição, entretanto alterada, o nome do grupo aparece como Sean Nua), com o selo Shanachie e distribuição MC – Mundo da Canção, de “The Open Door”, ou, com maior veemência, um trabalho anterior, por Joe & Antoinette McKenna, de título “Magenta Music”, gravado para a mesma editora. Surpresa poderá ser a prestação da cantora do Usbequistão (antiga república soviética da Ásia Central), Yulduz Usmanova. O seu álbum mais recente, “Jannona” – uma fusão tecno-orientalista de qualidade duvidos – não dá umaideia fiel das reais capacidades desta senhora cuja apresentação, há dois anos, no Festival World Roots de Amsterdão causou algum furor. Com ela vêm duas dançarinas e um grupo de seis instrumentistas num espectáculo que junta os estilos de música e dança oriental e ocidental.
Cecile Kayirebwa, a cabeça de cartaz, virá acompanhada da sua banda e bailarinas. Capa da “Folk Roots” em Julho do ano passado, Cécile fundou, no início dos anos 60, o Círculo de dança e Música do Ruanda, levando a cabo, de então para cá, uma investigação das culturas das três etnias do páis, “hútu”, “tutsi” e “twa”. Mais tarde, já no final dos anos 70, integrou o grupo cultural Inyange (“ave branca”), iniciando então uma intensa actividade de gravações, concertos e pesquisa etnomusicológica. Nos anos 80, fez parte do grupo Bula Sangoma, radicado na Bélgica, onde vive actualmente. O seu último álbum, “Rwanda” – a merecer distribuição nacional urgente -, situa-se numa área vocal e instrumental pouco explorada, onde vozes de fadas de pele negra pairam sobre o som do “inanga” (cítara ruandesa) e outros instrumentos de sonoridade bizarra.



Grupo de Gaitas Xarabal
Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches
Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo
Fórum Cultural, 19/5, 22h

Realejo
Júlio Pereira
Largo da Igreja, 20/5, 22h

Slua Nua
Yulduz Usmanova
Largo da Igreja, 26/5, 22h
Cécile Kayirebwa
Largo da Igreja, 27/5, 22h; 29/5, Teatro S. Luiz, Lisboa, 22h

Espectáculos de rua, na Praça da República, pelos Xarabal (dia 19, 20h), Art’ Imagem (dia 20, 18h), Cantareiras de Xiradela (dia 20, 20h), e Tanxarina (dia 27, 17h, dia 28, 11h30)

Entradas livres em todos os espectáculos, excepto no dia 29, no S. Luiz.
As entradas pra o espectáculo do dia 19, no Fórum Cultural, embora gratuitas, deverão ser reservadas e levantadas até às 21h do próprio dia.

Vicente Amigo – “Vicente Amigo Voa No CCB – Nas Asas Do Desejo”

cultura >> sábado, 13.05.1995


Vicente Amigo Voa No CCB
Nas Asas Do Desejo


ERA INEVITÁVEL, tão inevitável como uma fogueira que arde ou a água de um rio que corre para o mar. Vicente Amigo é um visitante assíduo do nosso país e de todas as vezes o flamenco na sua guitarra se fez um pouco mais novo. Na primeira das suas duas apresentações no Centro Cultural de Belém (CCB) – a terceira e última terá lugar hoje, no Europarque, em Vila da Feira, pelas 22h -, na noite de quinta-feira, perante uma plateia numerosa, o guitarrista andaluz deu uma vez mais razão a outro visitante ilustre da guitarra que se encontra entre nós, Pat Metheny, quando diz que Amigo é o maior guitarrista do mundo. Não será bem assim, mas é quase.
No CCB voltaram a ficar patentes as qualidades que distinguem um bom executante de um executante de excepção. Vicente Amigo é um “virtuose” mas isso é condição necessária para qualquer músico de flamenco que se preze. Os dois temas iniciais, em solo absoluto, puseram em relevo esta evidência. Mas o músico, mais do que um simples prestidigitador, domina a guitarra como um domador a fera. Arrisca movimentos, notas e cadências no limite do possível, pondo arte e coração nesse jogo contra o tempo e o silêncio. Uma “soleá” arrebatadora deixou ver os contornos do “duende”, esse demónio santo que dita as leis da alma da Andaluzia profunda. Mas – pois há um “mas – Vicente Amigo não tem por enquanto a consciência dos abismos nem a visão da noite que enobrecem e escurecem a música do seu compatriota Paco de Lucia.
Em Vicente Amigo o flamenco voa. A música desce do céu para as cordas da guitarra. Em Paco de Lucia, ou num telúrico mais radical como Paco el Gastor, o “duende” rompe das profundezas da terra, abalando montanhas, rasgando a alma com suspiros de dor e de paixão. Alma-lama, barro primordial do Sul abrasivo da Península. Vicente, como ele próprio afirmou em entrevista ao PÚBLICO, publicada ontem, gosta de rir, de se entregar a um riso forte, solar.
Não peçam a quem ri que suporte uma cruz nem que se enterre ou desterre no abissal.
Com ele voaram no CCB um segundo guitarrista, Javier Munoz, dois percussionistas, Patricio Camara e Tino de Geraldo, uma cantora, Eva Duran, e um jovem bailarino de quinze anos, Eduardo Lozano. Certeiros estiveram os dois homens do ritmo, nas típicas palmas que se completam nos contratempos e no batucar nas caixas. Tino de Geraldo tocou várias vezes umas “tablas” indianas, não sabemos se mal ou bem, porque praticamente não se ouviram. Não que o som não estivesse excelente – só que alguém se esqueceu de levantar o volume às percussões e à voz, enquanto a guitarra de Amigo, se fez ouvir com uma limpidez e equilíbrio tonal absolutos.
Deu, todavia, para perceber que Eva Duran, embora animada e enquadrada na música, tem certa falta de peito, metaforicamente falando. Faltou pujança ao canto, faltou loucura, faltou sangue, faltou lua. Bonita foi, e voou.
Como voou pelo estrado e pelo palco fora o jovem Eduardo Lozano, prodígio de pés. Eduardo acelerou na dança, fez a sua faena imaginária, bateu compassos a primor, troçou da gravidade. Mas de novo sentimos a vontade e o desejo de mais chão, de raça mais sofrida de sentir. Quinze anos dão para voar, não para cravar farpas. Sempre o voo, sempre um som muito alto, sem queimar, a darem a cor e o tom predominantes de um espectáculo que se elevou a grande altitude.
O flamenco é elevação, certo, mas é também paixão insatisfeita, fúria, solidão. Sentiu-se, entendeu-se isto, do alto. A música de Vicente Amigo tem asas.