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Vários (Slua Nua, Joe McKenna, Antoinette McKenna, Yulduz Usmanova, Cecile Kayirebwa) – “Cantigas De Maio, No Seixal – O Pequeno Demónio Yulduz”

cultura >> segunda-feira, 29.05.1995


Cantigas De Maio, No Seixal
O Pequeno Demónio Yulduz


TERMINOU este fim-de-semana no Seixal a sexta edição das Cantigas de Maio. No largo da igreja da vila, à cunha, coube aos irlandeses Slua Nua a abertura do espectáculo de sexta-feira. Desiludiram. Joe McKenna toca bem as “uillean pipes”, a sua mulher, Antoinette McKenna, toca bem harpa, os dois homens das cordas tocam benzinho. Mas que significado tem “tocar bem” entre as centenas de grupos tradicionais irlandeses que fazem da Ilha Esmeralda uma das mais ricas, em termos musicais, do planeta? Falta, faltou no Seixal, aos Slua Nua, um som e uma identidade próprios.
Os “reels” foram tocados a metro. Joe, na tentativa de elevar os ânimos, acelerou num deles a uma velocidade vertiginosa, mas ainda aqui ficou uma impressão de gratuitidade. Muitas vezes uma inflexão subtil a dez à hora vale mais que uma corrida com o freio nos dentes a duzentos. Antoinette também cantou, mas se não o tivesse feito ninguém repararia, tal a vulgaridade e o cinzentismo das suas interpretações. Os Slua Nua, com muito boa vontade, deram para dançar. Já não foi mau.
Do Uzbequistão veio o grupo da cantora Yulduz Usmanova. Inundado por um mar de cores, o grupo ofereceu um espectáculo de música de bailarico onde os sintetizadores e as caixas-de-ritmo tiveram parte de leão. Mas a voz, um vozeirão, e a energia inesgotável da pequena (em tamanho) Yulduz obrigaram a que os ouvidos e os olhos não se descolassem dela. Envergando de início um traje típico daquela região da Ásia Central, verde e com penas, Yulduz parecia um papagaio com um “abat-jour” na cabeça. Mal abriu a boca percebeu-se que algo superior a ilumina e faz arder por dentro. Quanto mais o espectáculo avançava mais Yulduz parecia ter o diabo no corpo (em contraste com a candura de movimentos das duas altas e esbeltas bailarinas), dançando e requebrando-se pelo palco, a voz indomável soltando labaredas. Não tarda nada, Yulduz vai ter o Ocidente à perna.
Domingo ofereceu um espectáculo único, da cantora ruandesa Cecile Kayirebwa. Outra desilusão. Evidenciando alguns ares de vedetismo (ser capa na Folk Roots deve tê-la afectado) Cecile privilegiou as canções lentas, de amor, de casamento, de embalar, sobre uma batida hipnótica criada por três percussionistas e um fundo coral de duas vocalistas de apoio, mais uma teclista branca e loura e um baixista. O pior foi que Cecile desafinou.
Esteve bem a organização conjunta da Associação José Afonso com a Câmara Municipal do Seixal.

Vários – “VI Cantigas Do Maio No Seixal – Pedrinhas Para A Velha Coxa”

cultura >> segunda-feira, 22.05.1995


VI Cantigas Do Maio No Seixal
Pedrinhas Para A Velha Coxa


REALIZARAM-SE neste fim-de-semana as primeiras jornadas das VI Cantigas do Maio que estão a decorrer na vila do Seixal. Na nova sala do Fórum Cultural teve lugar o espectáculo de abertura, com as Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo e a banda de gaitas Xarabal, ambos da Galiza, e o Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches, do Alto Alentejo. Sala cheia, ambiente propício à festa. Houve de tudo.
Oito mulheres, na maioria bastante jovens, vestidas com trajes típicos da Galiza, trouxeram consigo a extroversão solar das “muineiras”. Com uma postura menos radical que a das Leilia, as cantareiras de Arteixo deram um exemplo de dignidade e de respeito pelo património da sua região, pondo em relevo técnicas ancestrais de interpretação como o estilo antigo – e mais difícil – na pandeireta, com os punhos fechados.

“Ti” Maurício

Tocou a seguir o grupo das pedrinhas de Arronches e foi um forrobodó. Além dos tocadores de pedras – dois anciãos, entre os quais “Ti” Maurício, de 72 anos, e dois miúdos de nove anos – vieram um acordeonista, um tocador de castanholas e outro de bombo. As pedras, tocadas com mestria, dispensavam o resto. O acordeão, o temível acordeão português, e o bombo, bastante desengonçado, criaram de imediato um tom de romaria à portuguesa, estilo piquenicão. Mas o bombo da festa foi o apresentador e responsável cultural do grupo.
A cada intervenção sua, o público ria a bandeiras despregadas. Empolgado, convencido do sucesso que estava a fazer, as palavras brotavam-lhe em catadupa. Falou nas maravilhosas pedrinhas, contou histórias de namorados, agradeceu aos presentes estarem ali a “perder a paciência”. Os “pedrinha” vão actuar a todo o lado, com especial preferência pelos lares da terceira idade, onde tocam para animar “os velhinhos já quase coxos”. Nesta altura o apresentador não se conteve e afirmou que nestas ocasiões costuma “saltar para o meio deles” e “dançar com a velhinha mais coxa de todas!”. Palmas para ele.
A contrastar com o arraial dos “pedrinhas”, a banda de gaitas Xarabal devolveu à noite dignidade de um trabalho sério, com raízes profundas na tradição. Saídos da “Obradoiro”, escola de instrumentos musicais populares galegos da Universidade Popular de Vigo, os Xarabal encheram o palco com os seus 16 gaiteiros e quatro percussionistas, sob a direcção de Antón Coral. Alternaram “Muineiras” e “jotas” tradicionais com um “na dro” bretão, não se coibindo de utilizar instrumentos “heréticos” como o sintetizador ou o tamborim, ou importados de tradições vizinhas, como o timbalão escocês. Na memória fica uma 2Marcha processional” solene, de provocar arrepios.
No dia seguinte, sábado, a festa saiu para a rua, largo da Igreja. A abrir, os Realejo. A sanfona de Fernando Meireles, o violino de Manuel Rocha, a gaita-de-foles e flautas de Amadeu Magalhães, a guitarra de Rui Seabra e o violoncelo de Ofélia Ribeiro demonstraram uma nobreza, nas cores heráldicas da música antiga que talvez tivesse recebido um acolhimento mais caloroso num recinto entre-portas.
Da “Canção do gaiteiro”, “Milho verde” ou “Rosinha”, até uma das “Cantigas de Santa Maria” de Afonso, com que fecharam o concerto, passando por temas das tradições galega (2º ceu andante”), irlandesa (“Rambling rake”), e francesa (“Ne pas du loup”) e dois temas dos Blowzabella (“The man in the Brown hat” e “The house of Caty”, do álbum “A …cher Dust”, os Realejo fizeram do largo, palco de uma actuação contida, quais trovadores de um reino esquecido.
Júlio Pereira veio a seguir. Acompanhado pela guitarra de José Carrapa, fundamental no suporte e no jogo de contraponto e cordas – e pelo sintetizador e voz de Minela, que está ao seu melhor nível numa interpretação de antologia “a capella”, de “Senhora do Almortão”. Júlio Pereira não pertence a esta freguesia. A sua música, servida por um virtuosismo estonteante, tornou-se inteiramente pessoal. Para trás ficou o rótulo de intérprete de “música popular portuguesa” e o lastro de “Mike Oldfield português”.
Júlio Pereira é hoje intérprete apenas de si próprio. Na noite de sábado, no Seixal, entregou-se ao bandolim e à braguesa como um argonauta que a cada noite descobre novas rotas e ao próprio se descobre. Pelas cordas passaram a complexidade dos compassos dos Balcãs e a hipnose de uma “raga” indiana. Quem o acompanhou até ao fim, sorriu. O Seixal fora banhado por um rio de águas mais luminosas e profundas.

Vários (Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches, Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo, Júlio Pereira, Yulduz Usmanova, Cécile Kayirebwa, Xarabal, Art’ Imagem, Cantareiras de Xiradela, Tanxarina – “VI Cantigas do Maio Animam O Seixal – Sermão Às Pedras E Aos Peixes”

pop rock >> quarta-feira >> 17.05.1995


VI Cantigas do Maio Animam O Seixal
Sermão Às Pedras E Aos Peixes


Maio volta a recuperar a memória e o mote de José Afonso, no Seixal. Nos próximos dois fins-de-semana vão decorrer nesta vila a sul do Tejo as VI Cantigas do Maio, este ano com um programa de música tradicional mais recheado do que nunca. A cantora ruandesa Cecile Kayirebwa, Yulduz Usmanova, do Usbequistão, e os irlandeses Slua Nua são alguns dos nomes em cartaz. A organização está a cargo da Associação José Afonso e da Câmara Municipal do Seixal.
A abrir está a banda de gaitas galegas, Xarabal, formação saída das falanges da mítica Obradoiro – Escola de Instrumentos Musicais populares galegos da Universidade Popular de Vigo. Sob a direcção de Antón Corral, este agrupamento tem como objectivo o desenvolvimento de novas técnicas de utilização e integração instrumental da gaita-de-foles galega, ensaiando vários tipos de afinação e junções com outros instrumentos, nomeadamente as percussões, que nos Xarabal diferem do que é habitual ouvir na música tradicional da Galiza. Uma forma de preservação e desenvolvimento da música desta região, actualmente a atravessar um período de alguma indefinição, como atesta a própria escolha do nome do grupo que significa “agrupamento de peixes face ao perigo”.
Da Galiza vem também o Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela da Arteixo, associação criada em 1982, composta actualmente por oito “xovens” raparigas que se dedicam à recolha e investigação do património musical da Galiza, numa linha de máxima fidelidade. Folia, cor e movimento andarão à solta nas ruas com o grupo Tanxarina, ainda da Galiza, que apresentará o espectáculo “Ah, ah, ah, estamos monstros de risa”. Muita curiosidade rodeia a apresentação do Grupo de tocadores de pedrinhas de Arronches, uma pequena localidade nos arredores de Portalegre, Joaquim Miranda, de 78 anos, Carlos Maurício, de 72, e Manuel Fonseca, de 51, tocam pedras que apanham no leito do rio Caia, fazendo entrechcar o mar e a terra, num contacto primevo e ritual do homem com a Natureza.
“No Verão, quando o rio está seco, chegamos a andar quilómetros para encontrar uma pedra de jeito”, dizem.
Sabedoria secreta da forma que têm os sons.
Sabedoria tantas vezes aprendida com a dor, no choque da pedra contra a carne. “Eu cá não me dói nada. Sou capaz de tocar um dia inteiro”, diz Joaquim Miranda. O princípio do mundo.
Do lado português, além das “pedras” de Arronches, do grupo de teatro português Art’ Imagem e do grupo de Zés-pereiras Os Completos, vão estar presentes os Realejo, um grupo em ascenção imparável, com as suas “sanfonias”, e um Júlio Pereira “acústico”, que depois da boa companhia dos Chieftains, nas gravações do próximo álbum desta banda irlandesa, terá a não menos boa companhia de José Moz Carrapa e Minela.
Presença forte no festival prevê-se que seja a dos irlandeses Slua Nua (“nova reunião” ou “do velho para o novo”), onde pontifica a dupla Joe McKenna, nas “uillean pipes”, “tin whistle” e acordeão, e Antoinette McKenna, na harpa céltica. Aconselha-se a audição prévia do primeiro álbum (em cuja primeira edição, entretanto alterada, o nome do grupo aparece como Sean Nua), com o selo Shanachie e distribuição MC – Mundo da Canção, de “The Open Door”, ou, com maior veemência, um trabalho anterior, por Joe & Antoinette McKenna, de título “Magenta Music”, gravado para a mesma editora. Surpresa poderá ser a prestação da cantora do Usbequistão (antiga república soviética da Ásia Central), Yulduz Usmanova. O seu álbum mais recente, “Jannona” – uma fusão tecno-orientalista de qualidade duvidos – não dá umaideia fiel das reais capacidades desta senhora cuja apresentação, há dois anos, no Festival World Roots de Amsterdão causou algum furor. Com ela vêm duas dançarinas e um grupo de seis instrumentistas num espectáculo que junta os estilos de música e dança oriental e ocidental.
Cecile Kayirebwa, a cabeça de cartaz, virá acompanhada da sua banda e bailarinas. Capa da “Folk Roots” em Julho do ano passado, Cécile fundou, no início dos anos 60, o Círculo de dança e Música do Ruanda, levando a cabo, de então para cá, uma investigação das culturas das três etnias do páis, “hútu”, “tutsi” e “twa”. Mais tarde, já no final dos anos 70, integrou o grupo cultural Inyange (“ave branca”), iniciando então uma intensa actividade de gravações, concertos e pesquisa etnomusicológica. Nos anos 80, fez parte do grupo Bula Sangoma, radicado na Bélgica, onde vive actualmente. O seu último álbum, “Rwanda” – a merecer distribuição nacional urgente -, situa-se numa área vocal e instrumental pouco explorada, onde vozes de fadas de pele negra pairam sobre o som do “inanga” (cítara ruandesa) e outros instrumentos de sonoridade bizarra.



Grupo de Gaitas Xarabal
Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches
Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo
Fórum Cultural, 19/5, 22h

Realejo
Júlio Pereira
Largo da Igreja, 20/5, 22h

Slua Nua
Yulduz Usmanova
Largo da Igreja, 26/5, 22h
Cécile Kayirebwa
Largo da Igreja, 27/5, 22h; 29/5, Teatro S. Luiz, Lisboa, 22h

Espectáculos de rua, na Praça da República, pelos Xarabal (dia 19, 20h), Art’ Imagem (dia 20, 18h), Cantareiras de Xiradela (dia 20, 20h), e Tanxarina (dia 27, 17h, dia 28, 11h30)

Entradas livres em todos os espectáculos, excepto no dia 29, no S. Luiz.
As entradas pra o espectáculo do dia 19, no Fórum Cultural, embora gratuitas, deverão ser reservadas e levantadas até às 21h do próprio dia.