Arquivo de etiquetas: Xarabal

Vários – “VI Cantigas Do Maio No Seixal – Pedrinhas Para A Velha Coxa”

cultura >> segunda-feira, 22.05.1995


VI Cantigas Do Maio No Seixal
Pedrinhas Para A Velha Coxa


REALIZARAM-SE neste fim-de-semana as primeiras jornadas das VI Cantigas do Maio que estão a decorrer na vila do Seixal. Na nova sala do Fórum Cultural teve lugar o espectáculo de abertura, com as Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo e a banda de gaitas Xarabal, ambos da Galiza, e o Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches, do Alto Alentejo. Sala cheia, ambiente propício à festa. Houve de tudo.
Oito mulheres, na maioria bastante jovens, vestidas com trajes típicos da Galiza, trouxeram consigo a extroversão solar das “muineiras”. Com uma postura menos radical que a das Leilia, as cantareiras de Arteixo deram um exemplo de dignidade e de respeito pelo património da sua região, pondo em relevo técnicas ancestrais de interpretação como o estilo antigo – e mais difícil – na pandeireta, com os punhos fechados.

“Ti” Maurício

Tocou a seguir o grupo das pedrinhas de Arronches e foi um forrobodó. Além dos tocadores de pedras – dois anciãos, entre os quais “Ti” Maurício, de 72 anos, e dois miúdos de nove anos – vieram um acordeonista, um tocador de castanholas e outro de bombo. As pedras, tocadas com mestria, dispensavam o resto. O acordeão, o temível acordeão português, e o bombo, bastante desengonçado, criaram de imediato um tom de romaria à portuguesa, estilo piquenicão. Mas o bombo da festa foi o apresentador e responsável cultural do grupo.
A cada intervenção sua, o público ria a bandeiras despregadas. Empolgado, convencido do sucesso que estava a fazer, as palavras brotavam-lhe em catadupa. Falou nas maravilhosas pedrinhas, contou histórias de namorados, agradeceu aos presentes estarem ali a “perder a paciência”. Os “pedrinha” vão actuar a todo o lado, com especial preferência pelos lares da terceira idade, onde tocam para animar “os velhinhos já quase coxos”. Nesta altura o apresentador não se conteve e afirmou que nestas ocasiões costuma “saltar para o meio deles” e “dançar com a velhinha mais coxa de todas!”. Palmas para ele.
A contrastar com o arraial dos “pedrinhas”, a banda de gaitas Xarabal devolveu à noite dignidade de um trabalho sério, com raízes profundas na tradição. Saídos da “Obradoiro”, escola de instrumentos musicais populares galegos da Universidade Popular de Vigo, os Xarabal encheram o palco com os seus 16 gaiteiros e quatro percussionistas, sob a direcção de Antón Coral. Alternaram “Muineiras” e “jotas” tradicionais com um “na dro” bretão, não se coibindo de utilizar instrumentos “heréticos” como o sintetizador ou o tamborim, ou importados de tradições vizinhas, como o timbalão escocês. Na memória fica uma 2Marcha processional” solene, de provocar arrepios.
No dia seguinte, sábado, a festa saiu para a rua, largo da Igreja. A abrir, os Realejo. A sanfona de Fernando Meireles, o violino de Manuel Rocha, a gaita-de-foles e flautas de Amadeu Magalhães, a guitarra de Rui Seabra e o violoncelo de Ofélia Ribeiro demonstraram uma nobreza, nas cores heráldicas da música antiga que talvez tivesse recebido um acolhimento mais caloroso num recinto entre-portas.
Da “Canção do gaiteiro”, “Milho verde” ou “Rosinha”, até uma das “Cantigas de Santa Maria” de Afonso, com que fecharam o concerto, passando por temas das tradições galega (2º ceu andante”), irlandesa (“Rambling rake”), e francesa (“Ne pas du loup”) e dois temas dos Blowzabella (“The man in the Brown hat” e “The house of Caty”, do álbum “A …cher Dust”, os Realejo fizeram do largo, palco de uma actuação contida, quais trovadores de um reino esquecido.
Júlio Pereira veio a seguir. Acompanhado pela guitarra de José Carrapa, fundamental no suporte e no jogo de contraponto e cordas – e pelo sintetizador e voz de Minela, que está ao seu melhor nível numa interpretação de antologia “a capella”, de “Senhora do Almortão”. Júlio Pereira não pertence a esta freguesia. A sua música, servida por um virtuosismo estonteante, tornou-se inteiramente pessoal. Para trás ficou o rótulo de intérprete de “música popular portuguesa” e o lastro de “Mike Oldfield português”.
Júlio Pereira é hoje intérprete apenas de si próprio. Na noite de sábado, no Seixal, entregou-se ao bandolim e à braguesa como um argonauta que a cada noite descobre novas rotas e ao próprio se descobre. Pelas cordas passaram a complexidade dos compassos dos Balcãs e a hipnose de uma “raga” indiana. Quem o acompanhou até ao fim, sorriu. O Seixal fora banhado por um rio de águas mais luminosas e profundas.

Vários (Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches, Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo, Júlio Pereira, Yulduz Usmanova, Cécile Kayirebwa, Xarabal, Art’ Imagem, Cantareiras de Xiradela, Tanxarina – “VI Cantigas do Maio Animam O Seixal – Sermão Às Pedras E Aos Peixes”

pop rock >> quarta-feira >> 17.05.1995


VI Cantigas do Maio Animam O Seixal
Sermão Às Pedras E Aos Peixes


Maio volta a recuperar a memória e o mote de José Afonso, no Seixal. Nos próximos dois fins-de-semana vão decorrer nesta vila a sul do Tejo as VI Cantigas do Maio, este ano com um programa de música tradicional mais recheado do que nunca. A cantora ruandesa Cecile Kayirebwa, Yulduz Usmanova, do Usbequistão, e os irlandeses Slua Nua são alguns dos nomes em cartaz. A organização está a cargo da Associação José Afonso e da Câmara Municipal do Seixal.
A abrir está a banda de gaitas galegas, Xarabal, formação saída das falanges da mítica Obradoiro – Escola de Instrumentos Musicais populares galegos da Universidade Popular de Vigo. Sob a direcção de Antón Corral, este agrupamento tem como objectivo o desenvolvimento de novas técnicas de utilização e integração instrumental da gaita-de-foles galega, ensaiando vários tipos de afinação e junções com outros instrumentos, nomeadamente as percussões, que nos Xarabal diferem do que é habitual ouvir na música tradicional da Galiza. Uma forma de preservação e desenvolvimento da música desta região, actualmente a atravessar um período de alguma indefinição, como atesta a própria escolha do nome do grupo que significa “agrupamento de peixes face ao perigo”.
Da Galiza vem também o Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela da Arteixo, associação criada em 1982, composta actualmente por oito “xovens” raparigas que se dedicam à recolha e investigação do património musical da Galiza, numa linha de máxima fidelidade. Folia, cor e movimento andarão à solta nas ruas com o grupo Tanxarina, ainda da Galiza, que apresentará o espectáculo “Ah, ah, ah, estamos monstros de risa”. Muita curiosidade rodeia a apresentação do Grupo de tocadores de pedrinhas de Arronches, uma pequena localidade nos arredores de Portalegre, Joaquim Miranda, de 78 anos, Carlos Maurício, de 72, e Manuel Fonseca, de 51, tocam pedras que apanham no leito do rio Caia, fazendo entrechcar o mar e a terra, num contacto primevo e ritual do homem com a Natureza.
“No Verão, quando o rio está seco, chegamos a andar quilómetros para encontrar uma pedra de jeito”, dizem.
Sabedoria secreta da forma que têm os sons.
Sabedoria tantas vezes aprendida com a dor, no choque da pedra contra a carne. “Eu cá não me dói nada. Sou capaz de tocar um dia inteiro”, diz Joaquim Miranda. O princípio do mundo.
Do lado português, além das “pedras” de Arronches, do grupo de teatro português Art’ Imagem e do grupo de Zés-pereiras Os Completos, vão estar presentes os Realejo, um grupo em ascenção imparável, com as suas “sanfonias”, e um Júlio Pereira “acústico”, que depois da boa companhia dos Chieftains, nas gravações do próximo álbum desta banda irlandesa, terá a não menos boa companhia de José Moz Carrapa e Minela.
Presença forte no festival prevê-se que seja a dos irlandeses Slua Nua (“nova reunião” ou “do velho para o novo”), onde pontifica a dupla Joe McKenna, nas “uillean pipes”, “tin whistle” e acordeão, e Antoinette McKenna, na harpa céltica. Aconselha-se a audição prévia do primeiro álbum (em cuja primeira edição, entretanto alterada, o nome do grupo aparece como Sean Nua), com o selo Shanachie e distribuição MC – Mundo da Canção, de “The Open Door”, ou, com maior veemência, um trabalho anterior, por Joe & Antoinette McKenna, de título “Magenta Music”, gravado para a mesma editora. Surpresa poderá ser a prestação da cantora do Usbequistão (antiga república soviética da Ásia Central), Yulduz Usmanova. O seu álbum mais recente, “Jannona” – uma fusão tecno-orientalista de qualidade duvidos – não dá umaideia fiel das reais capacidades desta senhora cuja apresentação, há dois anos, no Festival World Roots de Amsterdão causou algum furor. Com ela vêm duas dançarinas e um grupo de seis instrumentistas num espectáculo que junta os estilos de música e dança oriental e ocidental.
Cecile Kayirebwa, a cabeça de cartaz, virá acompanhada da sua banda e bailarinas. Capa da “Folk Roots” em Julho do ano passado, Cécile fundou, no início dos anos 60, o Círculo de dança e Música do Ruanda, levando a cabo, de então para cá, uma investigação das culturas das três etnias do páis, “hútu”, “tutsi” e “twa”. Mais tarde, já no final dos anos 70, integrou o grupo cultural Inyange (“ave branca”), iniciando então uma intensa actividade de gravações, concertos e pesquisa etnomusicológica. Nos anos 80, fez parte do grupo Bula Sangoma, radicado na Bélgica, onde vive actualmente. O seu último álbum, “Rwanda” – a merecer distribuição nacional urgente -, situa-se numa área vocal e instrumental pouco explorada, onde vozes de fadas de pele negra pairam sobre o som do “inanga” (cítara ruandesa) e outros instrumentos de sonoridade bizarra.



Grupo de Gaitas Xarabal
Grupo de Tocadores de Pedrinhas de Arronches
Grupo de Cantareiras da A. X. Xiradela de Arteixo
Fórum Cultural, 19/5, 22h

Realejo
Júlio Pereira
Largo da Igreja, 20/5, 22h

Slua Nua
Yulduz Usmanova
Largo da Igreja, 26/5, 22h
Cécile Kayirebwa
Largo da Igreja, 27/5, 22h; 29/5, Teatro S. Luiz, Lisboa, 22h

Espectáculos de rua, na Praça da República, pelos Xarabal (dia 19, 20h), Art’ Imagem (dia 20, 18h), Cantareiras de Xiradela (dia 20, 20h), e Tanxarina (dia 27, 17h, dia 28, 11h30)

Entradas livres em todos os espectáculos, excepto no dia 29, no S. Luiz.
As entradas pra o espectáculo do dia 19, no Fórum Cultural, embora gratuitas, deverão ser reservadas e levantadas até às 21h do próprio dia.