cultura >> sexta-feira, 12.05.1995
Vicente Amigo Em Mini-Digressão Portuguesa
“Quando O ‘Duende’ Me Toca, Sinto-me Um Rei!”
É o artista estrangeiro que mais vezes tocou em Portugal. Se não estamos em erro, esta é a décima visita de Vicente Amigo ao nosso país. Existem elos de amizade fortes entre nós e este guitarrista de 28 anos que está a revolucionar o flamenco e a dar novas respostas ao sopro do “duende”.

Depois de uma primeira actuação ontem no CCB, o espanhol Vicente Amigo, acompanhado pela sua banda e um bailarino, volta a actuar hoje, pelas 22h, no mesmo local, terminando mais esta mini-digressão portuguesa, amanhã, à mesma hora, no Europarque, em Vila da Feira.
PÚBLICO – O seu primeiro mestre de guitarra foi Juan Munoz. Que tipo de ensinamentos recebeu? Diz-se que no flamenco há segredos que se transmitem de geração em geração…
VICENTE AMIGO – Não sei… não creio… Acredito simplesmente que, quando se chega a um determinado nível, cada um descobre o seu próprio segredo. Ele ensinou-me apenas a técnica básica do flamenco e os seus ritmos.
P. – Quando sentiu pela primeira vez o “duende”?
R. – Senti-o mesmo antes de tocar guitarra, a escutar Paco de Lucia, quando era pequeno.
P. – Consegue definir essa experiência?
R. – O que senti, senti-o porque era algo que me estava a ser enviado, a iniciativa não foi minha. Quando o “duende” me toca, esqueço-me de tudo, das pessoas, sinto-me como um rei. Nesses momentos torna-se muito claro para mim que o que estou a tocar é muito especial.
P. – O “duende” toca-o sempre que actua ao vivo?
R. – Muitas vezes…
P. – E das vezes que não?
R. – Arranjo as coisas de maneira a que ele chegue… Concentro-me até que o contacto se produza.
P. – O seu nome anda geralmente associado ao de Paco de Lucia, devido a alegadas ligações de ambos com o jazz…
R. – Não faço fusões com o jazz. O Paco, sim, a sua música enriqueceu-se com o contacto com os músicos de jazz, assim como eles se enriqueceram ao tocarem com ele. Gostaria um dia de poder fazer o mesmo. Toquei uma vez em França com o Al di Meola e o John McLaughlin, mas não a sua música, apenas uma rumba sobre a qual improvisámos os três. Não se pode considerar uma fusão de músicas, mas apenas de músicos.
P. – Dentro do flamenco, há algum género pelo qual sinta alguma predilecção? A “buleria”, talvez?…
R. – Gosto muito da “buleria”, como gosto dos temas mais livres, em termos de ritmo. Penso que todas as coisas têm o seu ritmo. Até a própria liberdade…
P. – Em Espanha, é mais conhecido nos meios do flamenco ou nas camadas de público mais generalistas?
R. – Os mais novos, que ouvem rock ‘n’ rol ouvem-me também. Não só a mim, mas ao flamenco em geral. Isso agrada-me. É uma prova de que o flamenco está a atrair muita gente, não só os velhos apreciadores. Estão a abrir-se novas portas.
P. – Gostava de ser uma estrela de rock?
R. – Não. Gosto é de viver bem, com aquilo que tenho. Não sei se o estatuto de estrela liga comigo. Ou se liga, é a um nível subconsciente. Tenho muito medo. Como estou agora já tenho imensa responsabilidade. Se fosse uma estrela teria muito mais.
P. – Que opinião têm de si os puristas do flamenco?
R. – Há alguns que me criticam, mas de um modo geral respeitam-me e ajudam-me com as suas críticas. Não se atiram a mim a matar, o que é lógico, porque no fim de contas trata-se de flamenco, digam eles o que disserem. Sei de flamenco tanto como eles.
P. – O que pensa de grupos ligeiros como os Gypsy Kings ou os Jaleo?
R. – Acho bem que existam porque há muita gente que está longe do flamenco e deste modo pode ficar mais perto. A música que esses grupos fazem recorda o flamenco mas não é flamenco puro. Serve igualmente para abrir portas.
P. – E de um “revolucionário”, embora veterano, da guitarra, como Paco el Gastor, acompanhante habitual do cantor El Cabrero?
R. – Paco é um acompanhante do canto… é raro tocar a solo. Tem um estilo muito próprio.
P. – No seu caso, gosta de desempenhar a função de acompanhante?
R. – Já acompanhei Camerón de la Isla que, para mim, era o flamenco em pessoa. Também já toquei com Enrique Morente, Carmen Linares e El Pele, que marcou uma forma de cantar flamenco diferente de tudo o que se fazia até então.
P. – Porque é que aceitou tocar nos discos de artistas portugueses como Paulo de Carvalho e GNR?
R. – Porque não? Paulo de Carvalho, sou amigo dele. Com os GNR limitei-me a tocar um pouco de flamenco. Em Espanha também já trabalhei com gente que não tem a ver com o flamenco, como Miguel Bosé.
P. – Essa disponibilidade não é muito comum nos músicos de flamenco…
R. – Seja qual for, nunca toco rock ou qualquer outro tipo de música. É sempre flamenco. Há quem ache que para soar flamenco basta tocar duas notas numa guitarra espanhola. Por isso tenho algumas dúvidas em relação a estes convites. É sempre uma aventura e por vezes os resultados são frustrantes. Apenas toco flamenco, mais nada. Se alguma vez alguém me ensinar a tocar outra coisa qualquer… Tocar agora rock, por exemplo, seria romper de forma muito brusca. Mas gostava de aprender música brasileira. Ou fado, se me ensinarem… É preciso tempo para nos sentirmos confortáveis a fazer qualquer tipo de música. Há guitarristas de flamenco que dizem que sabem tocar jazz apenas porque um amigo que é músico de jazz lhes ensinou três acordes e umas harmonias de jazz…
P. – O que representa para si o flamenco?
R. – O flamenco é algo que existe em mim, uma forma de expressar os meus sentimentos, a minha maneira de ser. É como um fogo. É uma música profunda, potente, espiritual. Tem tristeza, tem raiva, tem doçura, tem alegria. Gosto de rir. Rir é uma das melhores coisas do mundo. Rir muito, e de uma maneira forte. Não sei se o flamenco representa a forma de ser mais profunda de Espanha, ou a sua dor mais profunda. Quando se tem uma dor de dentes, sente-se igualmente uma dor profunda…














