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Rão Kyao – “EM PÚBLICO” (artigo de fundo)

pop rock >> quarta-feira >> 30.11.1994


Em Público
Rão Kyao *




“Águas-Livres” é um disco bastante ligeiro e voltado para as sonoridades “new age”. É esta a sua verdadeira música?
O disco anterior, “Delírios Ibéricos”, apanhava uma sonoridade ibérica, com ritmos fortes. Este novo disco “new age”?… Não sei. O peso da música, cabe a cada um apreciar. Não sei se é ligeira. O disco tem, de facto, um determinado ambiente, que muitas pessoas que o ouviram descrevem como paisagístico. O próprio título é sugestivo, aquilo que anda à volta das águas livres, águas vivas, o canto dos rios, não só do rio, mas também de quem está nas suas margens. É ao mesmo tempo um álbum em que é possível a um tipo estar em casa, concentrado a ouvi-lo, sem ter que se levantar da cadeira de repente. Há discos que provocam essa cena, de certa maneira uma agressão. Em resumo, as pessoas é que me vieram dizer várias vezes que certas coisas que faço têm a ver com a “new age”. Para mim o conceito original deste termo era uma música, geralmente tocada em sintetizador, para ser ouvida em fundo.
Precisamente, os sintetizadores, em “Águas-Livres” apontam nesse sentido…
Uma das funções da música, e das mais importantes, é a terapêutica. Uma música que provoca aclmaria é uma música superútil. Mas acho que não faço essa música, a “new age”, porque não sou capaz de tocar música sem estar a contar uma história. Cada som tem que fazer um sentido. Quanto aos sintetizadores, admito que me venham dizer que não devia fazer nada com eles, que devia ser tudo acústico. Mas, lá está, já fiz discos emq eu tudo o que utilizei eram instrumentos de corda. Neste utilizei o sintetizador, porque acho que a sua linguagem, utilizada de uma determinada maneira, pode funcionar. Eu, como é óbvio, como é que posso ser fã de música electrónica, tocando um instrumento como a flauta de bambu? Até porque utilizar os sintetizadores para atrair é algo que não está a dar. Já foi feita tanta cena dessas que, inclusivamente, na “new age”, os tipos estão a ir para o acústico.
Mas há uma certa preocupação em fazer um som acessível, comercial?
Eu não gosto de ser completamente hermético. Sou um tipo que basicamente sempre esteve muito ligado à melodia, uma melodia cantável. Nunca fui de fazer coisas muito sinuosas. Porque não as ouço. Tudo o que eu toco eu canto e tudo o que canto eu toco. É como quando se ouve um temam folclórico, simples, mas em que se sente que é uma coisa profunda, embora tenha uma melodia que toda a gente canta.
A influência do Oriente continua a estar presente em força.
Eles têm uma tradição exactamente ao nível da terapia da música. Que tanto pode aclamar como pôr um tipo aos tiros. Têm consciência desse poder desde sempre. Através de uma coisa a que chamam “raga”, que é uma emoção que, sem palavras, determina, pela conjugação das notas, uma certa e determinada emoção. Que pode ser agressiva ou pacifista. Sobretudo pacifista, porque a música, em princípio, é mais a linguagem do amor do que do ódio. Este tipo de ligação do Oriente ao Ocidente, comigo, passou-se de uma maneira muito espontânea. A primeira vez que ouvi um certo tipo de música, nomeadamente a indiana, fiquei apaixonado. E tive a sensação de que já tinha ouvido aquilo. Discos do Ravi Shankar e de outros músicos que ouvi depois e até me influenciaram mais.
De que maneira se processou a sua passagem pelo saxofone, um instrumento que pode ser muito agressivo, para a flauta de bambú?
Foi uma opção. Eu toco aquilo que ouço na minha cabeça. E tenho uma coisa muito ligada com a voz. Tento aplicar a minha composição pessoal a uma certa sonoridade que não é especificamente indiana. Às vezes, em casa, sozinho ou com outras pessoas, com um tocador de “tablas”, faço coisas abertamente indianas. Mas é mais uma homenagem, um estudo. Mas, naquele sentido de tocar o que me está na cabeça, vejo a música com uma flexibilidade muito grande. Há música que é feita para ser ouvida em alto volume. A música indiana ouvida em alto volume não funciona, porque se está alevar com um volume de som que supera a tal felexibilidade.
A música indiana, para ser apreciada, exige em primeiro lugar que nos instalemos dentro dela, não é verdade?
Exacto. Tem que se fazer um esforço. Mas não é só a música indiana. Toda a boa música. A flauta de bambú, por exemplo, beneficia em ser ouvida de perto, pela flexibilidade que tem. É um instrumento muito ligado com a voz.
Ao contrário da flauta de concerto, com chaves?
O bambú tem uma leveza e ao mesmo tempo um peso, uma flexibilidade que o metal não possui. Houve fases por que passei, em que devido a um estudo profundo, cheguei à conclusão de que andava a tocar saxofone como se fosse uma flauta de abmbú. A flauta de bambú tinha tomado conta da minha linguagem.
É verdade que costuma ir tocar flauta sozinho para as montanhas? Toca para quem?
Tem a ver com a respiração. Gosto de respirar bom ar, de estar num bom ambiente. Depois, gosto de ouvir os pássaros. Por exemplo, tenho um tema chamado “Evocação”, em que a música aparece sob formas completamente primitivas, como se fossem os primeiros sons que entrassem na cabeça. O solo que faço neste tema não é bem um solo, estou constantemente a pensar como se fosse um pássaro, a maneira como ele coloca as notas.
Tocar, dizer sem intermediários. É isso?
Exactamente. Um tipo de canto, a voz dos animais… Quando vou para um sítio desses, que tanto pode ser nos arredores de Lisboa como na região de Viseu, onde há uma pedra com uma alcatifa de musgo.
Sintra diz-lhe alguma coisa?
Então não diz? Sintra é para mim um lugar alucinante. O único problema que tem Sintra é aquela humidade toda, um tipo tem de estar ali com um chapéu na cabeça…
É verdade que houve uma altura da sua vida em que levava um estilo de vida um bocado boémio? Em caso afirmativo de que modo conciliava o excesso com a tal simplicidade quase ascética que professa?
Sou um tipo que gosta de sair, de beber o seu copo, de contactar com as pessoas, da paródia. Sou um gajo de Lisboa. É uma parte de mim. Passo quase todo o dia a tocar, a concentrar-me, a procurar melhorar, como qualquer músico. Quando chega a noite, a hora de jantar, sou um gajo que gosta de vinho – tinto – depois as coisas relacionam-se com este facto. Por exemplo, é como um tipo ser músico da clássica. Como é que se pode determinar a vida que faz pelas peças que interpreta?
Esse é o caso do intérprete. No seu caso, disse há pouco que tinha uma relação diferente com a música…
Certo. Mas, de qualquer maneira, um tipo também precisa de se meter em peças que eventualmente são de grande concentração. Como um actor. Não se percebe se um actor está a fazer comédia ou não, não se percebe como é que ele funciona na realidade.
A música significa para si, além de profissão, uma iniciação, uma forma de aperfeiçoamento pessoal?
Acho que a última frase é a mais adequada de todas. É difícil, por vezes, por palavras, determinar como serão as coisas. A música tem efeitos, lá está, terapêuticos, mesmo a nível espiritual. Algo que vai e puxa para cima. Um tipo que me diz, por exemplo, o que lhe apetece fazer musicalmente é reproduzir o barulho do pessoal a buzinar no meio da rua… Tudo be. Vamos ver um concerto, que maravilha, uma série de gajos sentados a ouvir buzinas no meio da rua (risos). Podem vir ter comigo e dizer-me: “Mas eu tenho direito a fazer isto!” Logicamente que têm direito a usar uma serra mecânica – já houve quem o fizesse -, só que para mim isso não faz sentido nenhum. Para quê, para sair chateado com uma coisa que é antiterapêutica. Todos aqueles que eu gosto de ouvir tocar música fazem-me sentir leve. Os grandes cantores, música clássica, os mestres indianos, com quem aprendi a importância da boa e profunda afinação do instrumento. No sentido de uma afinação que se torna cada vez mais interior.
* Compositor, ex-saxofonista, executante de flauta de bambú, de quem acabou de ser editado o álbum “Águas-Livres”.

Laurie Anderson – “Bright Red” + Madonna – “” + Joni Mitchell – “Turbulent Indigo” + Liz Phair – “Whip-Smart” (artigo de opinião | crítica conjunta de discos) – “A Margem De Certa Maneira”

pop rock >> quarta-feira >> 26.10.1994


A Margem De Certa Maneira

Cada uma à sua maneira desafia as convenções. Numa América do Norte puritana, onde cada vez mais os valores que se impõem correspondem ao gosto massificador do mercado e dos tops, quatro mulheres prosseguem sem desvios pelo seu próprio caminho. Duas veteranas, Joni Mitchell e Laurie Anderson, uma jovem, Liz Phair, e outra com aquela idade que não tem idade, Madonna, atraem a atenção, provocam controvérsia e põem o dedo nas feridas. De certa forma, poderíamos considera-las as ovelhas negras do rebanho, não fora o caso delas nem sequer fazerem parte do rebanho.
As armas que usam são diferentes. Laurie Anderson utiliza o intelecto. Madonna, o sexo. Liz Phair, o coração. Joni Mitchell, a intimidade com a “vida real”. Contudo, outras combinações são permitidas. Muita coisa as separa, mas uma coisa as une: a crítica À sociedade em que vivem. Mordaz, no caso de Mitchell. Elíptica, no caso de Anderson. Cínica, no caso de Madonna. Com a emoção à flor da pele, no caso de Liz Phair.
Duas cores e duas tonalidades, em dois pares de opostos, podem servir para caracterizar os seus novos trabalhos, editados quase em simultâneo no nosso país. Vermelho néon da distanciação para Laurie Anderson, em oposição ao vermelho sangue da violência epidérmica demonstrada por Liz Phair. Azul nocturno de um olhar atento e cruel, para Joni Mitchell, em oposição ao azul bebé do romantismo reencontrado por Madonna. Joni Mitchell, Laurie Anderson, Liz Phair e Madonna são “marginais” de um modo pessoal e intransmissível. Incomodam, é certo, mas também seduzem.



Laurie Anderson
Bright Red (7)
Warner Bros., distri Warner Music

Como refere a articulista Fietta Jarque no “El Pais”, “Laurie Anderson despojou a voz da sua aura romântica para a converter na nua corda sonora da inteligência”. Como um sensor, uma célula fotoeléctrica, a voz da autora de “O superman” observa e decompõe a realidade sem nela intervir de forma directa. Laurie Anderson é, na essência, uma contadora de histórias. “A forma de arte mais antiga”, como ela própria refere. Histórias parte das quais (bíblicas, como a da arca de Noé, que Laurie Anderson desmonta) são contadas no livro “Stories from the Nerbe Bible”, lançado em simultâneo com o álbum.
Mas Laurie Anderson é uma contadora de histórias diferente. A voz é, no seu caso, o meio e, em última análise, o fim. “A linguagem é um vírus”, não o esqueçamos. Laurie Anderson compara “Bright Red” com o “O Último Ano em Marienbad”, enigmático filme de Alain Resnais, pela idêntica estrutura em forma de diálogo: “ele diz”, “ela responde”. A artista dialoga com o seu duplo masculino, com a sua própria voz descida alguns tons até se transformar na voz de um homem, a “voz da autoridade”. “Bright Red” é um discurso electrónico sobre os temas do amor e da destruição. Ao contrário do anterior “Strange Angels”, que tinha um formato mais clássico, de “álbum pop”, o novo “Bright Red” regressa às premissas minimalistas de “Big Science”, “Mr. Heartbreak” e “Home of the Brave”. Vozes, palavras, ideias recortadas dos sonhos ou do quotidiano (no fundo, apenas outro sonho, ou pesadelo) sobre múltiplas manipulações electrónicas.
Ultrapassado porém o impacte sonoro inicial, “Bright Red” pouco ou nada adianta em relação aos anteriores trabalhos da compositora. Mudou, é certo, o produtor, e neste particular a escolha de Brian Eno, igualmente responsável pelos arranjos e misturas, revelou-se acertada. Mas Eno transformou o invólucro, não a identidade da música. As percussões subiram de tom, o acordeão de Guy Klucevsek, as presenças “duras” de Arto Lindsay, Marc Ribot e Peter Scherer ou a participação vocal de Lou Reed em “In our sleep” trouxeram uma nota de diferença, mas no essencial tudo permanece na mesma, o que acaba de certa forma por desiludir, em comparação com a ousadia do golpe de rins de “Strange Angels”.
Em suma, se na generalidade a produção consegue suscitar interesse, do tipo “deixa adivinhar que som vem a seguir”, isso não chega para disfarçar a monotonia que em certos momentos acompanha a audição de “Bright Red”.



(escrito por Jorge Dias)



Joni Mitchell
Turbulent Indigo (8)

Arista, distri. Warner Music
A violência e os maus tratos físicos nas relações conjugais, a reclusão e os trabalhos forçados impostos às mulheres irlandesas pela igreja católica, no final dos anos 80 (em “The Magdalene laundries”, um tema que parece ter incomodado os Chieftains ao ponto de terem posto a hipótese de recusar tocá-lo num espectáculo com a cantora), o caos, a solidão, o consumismo e a loucura – uma loucura “fria”, em tons do tal azul indigo, ilustrada em paralelo pela série de pinturas da autoria da cantora (entre as quais, o auto-retrato aqui reproduzido, “pastiches” estilo Van Gogh) – da sociedade norte-americana actual são alguns dos temas abordados em “Turbulent Indigo”.
A esta fixação na “vida real” (conceito cada vez mais fluido nas suas significações e implicações) responde a música com a complexidade, ultrapassada que parece estar a fase recente voltada para a pop mais acessível dos álbuns “Wild Things Run Fast”, “Dog Eat Dog” e “Chalk Mark in a Storm” (os dois últimos talvez os seus discos mais fracos de sempre), processo, de resto, encetado no anterior “Night Ride Home”. Complexidade que se manifesta, sobretudo, ao nível das vocalizações, com as suas intricadas progressões harmónicas, numa exigência de diversidade e exploração que, inclusive, se traduziu no número de afinações que a cantora até agora já experimentou na guitarra, nada mais nada menos que cerca de cinquenta.
Não espanta, por isso, que Joni Mitchell tenha, a partir de certa altura, procurado prioritariamente em músicos de jazz acompanhantes à altura. Eis o que de novo acontece em “Turbulent Indigo”, com as presenças dos já habituais Wayne Shorter, saxofonista dos Weather Report, Larry Klein no baixo e Jim Altner na bateria. Mitchell encontrou a liberdade total. Livre de constrangimentos ou do arbítrio de tonalidade e compassos fixos, a voz libertou-se em definitivo deste tipo de espartilhos, parecendo cada vez mais coincidir com os ritmos e entoações próprios da oralidade.
As canções ganharam, assim, uma naturalidade e uma respiração com maior amplitude, a par da sensualidade e do requinte que sempre caracterizaram esta voz que a passagem do tempo agarrou com um manto de seda dourada. Apenas alguns reparos, subjectivos, para “How do you stop”, popularizada por James Brown – a canção mais comercial de “Turbulent Indigo”, que, nesta versão, provavelmente destinada a ser editada em “single”, conta com o apoio vocal de Seal, a ir um pouco contra a corrente do resto do álbum. Porto de Abrigo entre uma turbulência que se pode sentir no azul mais profundo da alma.



Liz Phair
Whip-Smart (9)
Matador, distri. Warner Music

O novo álbum de Liz Phair, depois da estreia “Exile in Guyville”, faz acreditar que a música rock está longe de se poder considerar um filão esgotado e que as mulheres conduzem, de facto, o processo da sua renovação. O que sobressai logo após a primeira audição é que a voz de Liz nem sequer é aquilo que se pode considerar uma grande voz. São, antes, a maneira como canta, a visceralidade e a emoção vulcânica que se desprendem das canções que fazem de “Whip-Smart” um dos grandes discos deste ano. Liz Phair conversa, sussurra, revela-se, num contraste por vezes violento entre a aparente serenidade da voz e a violência magmática do acompanhamento instrumental.
A produção e os arranjos reforçam esta característica, ao valorizarem um som frontal e rude mas atento aos pormenores, de maneira a colocar em evidência a coesão do som do grupo, o mesmo de “Exile in Guyland”, constituído por Brad Wood, Casey Rice e Leroy Bach. É o deitar fora das máscaras e da maquilhagem, com o acento na sofisticação na própria essência da música e não, como tantas vezes acontece, no espalhafato permitido pelo estúdio. A esta notável economia de meios, onde a voz e cada instrumento (as guitarras ora ternas, ora sulfúricas, um sintetizador, um piano coloquial, uma bateria com tanto de poderoso como de transparente) têm a precisão de uma arma que dispara ou de um beijo abrasivo, correspondem a uma riqueza harmónica e uma originalidade que, neste ano, em trabalhos vindos de outras “novas” compositoras-intérpretes, apenas encontram paralelo em “Martinis & Bikinis”, de Sam Phillips, e “Happiness”, de Lisa Germano. Canções como “X-rated man”, “Shane”, “Dogs of LA”, “Jealousy” e “Crater lake” transbordam de ideias e são do topo de onde parece ser possível extrair melodias diferentes de cada acorde.
“Whip-Smart” é ainda um álbum que não esconde o seu amor pelo passado do rock, dos Velvets à “surf-music” (submetida a um trabalho de virulência e corrosão, no título-tema) o que lhe confere uma aura de solidez e classicismo.
Liz Phair limita-se, no fundo, a fazer o mesmo que muitos outros artistas: falar de si própria e da sociedade que a rodeia. A diferença está em que o faz de tal forma e com uma força, intensidade e personalização tais que desde logo colocam “Whip-Smart” no grupo dos álbuns de excepção. Um disco para escutar vezes sem conta. Daqueles que nunca mais se esquecem.

Sandra Baptista – “EM PÚBLICO”

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994
EM PÚBLICO


Sandra Baptista *


Não é vulgar uma rapariga tocar acordeão, ainda por cima numa banda pop. Por que escolheu este instrumentos?
Desde miúda que toco órgão e piano até ao dia em que assisti a uma audição de acordeões numa escola, a única onde ensinam este instrumento, situada na Praça do Chile. Fiquei surpreendida com o instrumento, com a sonoridade. Disse para comigo: “OK, vou aprender acordeão.” Na altura andava a tocar um daqueles órgãos enormes, um Farfisa, com pedaleira… Entrei na escola e comecei a aprender tangos, corridinhos… Tinha nessa altura menos de 15 anos e todos os amigos me influenciavam pela negativa, fazendo-me notar que o acordeão era um instrumento “extremamente piroso, foleiro, ridículo, só para ranchos folclóricos”. Desmotivaram-me bastante. Aos 15 anos parei. Andei na escola, tirei um curso de vídeo. Na escola António Arroio conheci o Jorge Buco, o presente bandolinista dos Sitiados. Falou-me na banda, do Manuel Machado, também acordeonista, que saíra dos Sitiados para entrar nos Essa Entente, e convidou-me para o substituir. Ouvi as maquetas e gostei…
Quais são as suas referências neste instrumento?
Ouço corridinhos do Algarve – que é um grande exercício, obriga a mexer muito os dedos -, o Astor Piazolla, a Eugénia Lima, Edith Piaf, tudo o que tenha acordeão me interessa. O Quim Barreiros já não me interessa tanto. É uma pessoa festiva, só que vai para o lado do javardo. Não é subtil. Tem uma linguagem muito directa, grosseira, que as pessoas quando estão numa de curtir, de festejar, gostam de ouvir e ver. Comparo os Sitiados mais com o conjunto de António Mafra. Mais salão, um bocadinho mais sofisticados. Os Sitiados, se existissem há vinte anos, teriam sido o conjunto de António Mafra. E o conjunto de António Mafra, se tivesse nascido hoje, seria provavelmente os Sitiados… O Quim Barreiros equiparo-o mais aos Ena Pá 2000.
A energia que evidencia em palco é espontânea ou envolve algum grau de teatralização?
Um espectáculo mexe com a adrenalina, com os tiques nervosos. O meu é aquele de andar de um lado para o outro. Mas não sou nada exibicionista. Este meu tique nervoso em cima do palco é porque não consigo fazer as coisas de outra maneira. Não consigo tocar acordeão quieta, sentada, estou a tocar para uma massa de pessoas que estão a mexer comigo, gosto que haja uma cumplicidade. Mas nunca consegui olhar, em nenhum espectáculo – e já vamos com uns duzentos e tal em cima -, para alguém em particular. Agora, é verdade que tenho a noção da postura que fui desenvolvendo. Sei que, se houver um espectáculo em que esteja quieta, poderão eventualmente acontecer problemas. Em palco tenho que me meter com os outros músicos, com todos. Não consigo sentir-me sozinha. Tenho que sentir as energias dos outros. Por exemplo, a pulsação da bateria. Sinto as energias das pessoas. Há espectáculos em que, sem razão aparente, nos sentimos um bocado mais moles ou cansados, sem sabermos porquê. Olhamos uns para os outros e tentamos dar-nos forças. Por vezes há algo estranho.

O acordeão é um instrumento um bocado pesado. Com tanta movimentação, nunca se cansa?
Pesa deze quilos. Mas num espectáculo não sinto o peso do acordeão. Tenho uma técnica diferente dos outros acordeonistas e utilizo uma fita atrás, nas costas, para equilibrar melhor o peso. Isso já ajuda. Depois, quando subo as escadas para o palco, a adrenalina é tanta, o sangue que me corre no corpo vai a uma velocidade tão grande que não consigo sentir nada. Aliás, em palco não consigo pensar, não consigo estar consciente. É um impulso de uma hora, uma hora e meia, como um “flash”. Sinto-me completamente um animal de palco. Um animal irracional. Depois de um espectáculo, no camarim, não consigo falar com ninguém. As pessoas falam comigo e não as ouço. Até a adrenalina baixar, demora pelo menos uma, duas horas. Na Festa das Marés estive quase a noite toda sem ouvir nem falar com ninguém.

Consegue transpor essa energia para o estúdio?
No estúdio é diferente, não sinto nervoso. Não tenho tiques. É um trabalho consciente, enquanto no palco é inconsciente. No estúdio, normalmente quando estou a gravar uma música, gravo-a logo à segunda ou à terceira porque vou bem preparada de casa e dos ensaios. Quanto mais vezes repetir, mais nervosa e chateada com o meu trabalho fico. Nessas alturas paro e passo para outra. Por exemplo “O circo”, do último álbum, foi gravado à primeira. Quanto mais “takes” conseguimos apanhar todos à primeira, melhor. Fica mais aquele “feeling”. E lá fora somos como uma família. Quando vamos beber um copo, somos nós connosco próprios. Eu, por sinal, não gosto de “whisky”, nem vinho, nem cerveja… Estou sempre tramada [risos]. Tenho que inventar uma bebida.

Há outras situações, fora da música, que lhe provoquem as mesmas descargas de adrenalina?
Há. Neste momento, por exemplo [risos], estou a sentir uma certa adrenalina, uma certa excitação. Isto acontece-me quando estamos numa conversa… No próprio diálogo, sinto fases de adrenalina. Sou assim desde miúda. Mas sou muito consciente, atenção!

A imagem que projecta nos outros é importante para si?
Até me convencer que a Sandra que estava com o acordeão numa foto de um jornal era eu, demorou algum tempo. Não conseguia habituar-me à ideia de me ver num jornal. Custava-me ver a fotografia. Nunca me considerei vedeta. Faz parte do meu ser não fazer alarido. Aquilo que faço é estar em cima de um palco. Acho que o público podia estar também em cima de um palco. Posso ser eu e os Sitiados como poderiam ser outras pessoas quaisquer a fazer aquela festa. Não sinto que sou a maior, que toco muito bem, nada disso. Gosto que gostem de mim, mas não pelo facto de ser a Sandra Baptista dos Sitiados.

O que tem a ganhar e a perder na vida na estrada?
O primeiro ano que fizemos ao vivo foi um absurdo. Oitenta e cinco espectáculos. Cheguei ao final completamente estoirada, estive perto de um esgotamento. Não conseguia nem dar mais um passo. A partir daí, no segundo ano, decidimos não passar dos 50. É uma questão de calo. Neste segundo ano de concertos já conseguia controlar-me mais nas viagens, e num espírito de brincadeira. Mas o entusiasmo de actuar ao vivo, esse, nunca se esgota. Se isso acontecer alguma vez, os Sitiados acabam. Porque os Sitiados são uma banda para espectáculos, é esse o nosso cartão de visita. O disco é mais aquele postal com que as pessoas ficam em casa.

Como passa o tempo nos períodos em que está afastada da banda?
Nada. Rigorosamente nada. É estar em casa e nem sequer tirar o pijama. Meter-me dentro da porcaria da televisão. Meter-me dentro da dispensa. Meter-me dentro do frigorífico e comer, comer…

Isso é espantoso, atendendo à figura que tem…
Isso é agora, que me está a ver na fase dos espectáculos. Depois, na fase do Natal, passa à fase da engorda. Não tenho problemas nenhuns de dietas. De ser gorda ou de ser magra. Se engordasse, punha umas roupas mais largas, assim uns lençóis. Modificava um bocado a imagem. Desde que possa comer tudo o que me passa pela frente, não tenho problema nenhum.

Nunca pensou em ser outra coisa além de acordeonista dos Sitiados?
Nunca pensei que uma acordeonista pudesse ter um futuro destes. Normalmente, um acordeonista não pode sair do rancho folclórico ou de ter um projecto a solo como o Quim Barreiros. Mais delirante do que o que eu faço é impossível. Se por acaso um dia os Sitiados acabarem, deixo de tocar acordeão. Nesse dia acho que começava a cantar, com a péssima voz que tenho [risos]. A minha filosofia é viver e deixar viver.

* acordeonista dos Sitiados