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Paulo Bragança – “Paulo Bragança Subverte as Convenções Em ‘Amai’ – ‘O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado'” (entrevista) + Paulo Bragança – “Amai” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994

Paulo Bragança Subverte as Convenções Em “Amai”
“O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado”



Fado é Portugal. Fado é para Paulo Bragança isto, mas também um pretexto para afirmar o gosto por muitas outras músicas. Portuguesas, mas com os olhos postos além. Em “Amai”, segundo álbum deste fadista “sui generis” que tem o condão de provocar as mentalidades mais conservadoras, as palavras e os sons são colocados ao serviço de uma portucalidade que o cantor afirma pelo lado mais trágico. Tão trágico que por vezes roça o “kitsch”. É também a conquista progressiva de uma liberdade de meios de expressão paralelos a um ideal estético e vivencial. Uma ideia que neste disco passa pelo fado, o folclore ibérico e uma modernidade transvertida em vermelhos de paixão fatal. Exagero? “O exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”, diz Paulo Bragança.

PÚBLICO – “Amai”, em comparação com o anterior “Notas sobre a Alma”, aponta para múltiplas direcções. Há algum elemento aglutinador?
Paulo Bragança – Mais que o fado, o ponto de partida deste disco é a voz. E uma atitude fadista. Uma atitude que procuro misturar com outras formas musicais. No fundo, tentar transmitir o estado de espírito fadista liberto da guitarra, da viola e do baixo.
P. – Considera-se um verdadeiro fadista?
R. – Considero. Um fadista, quando nasce no século XIX é um anarca, quase um fora-da-lei. Dentro desse espírito, sou. Embora não possa ser radical a esse ponto. Sou fadista mais como porta-voz. Ser fadista é, sem cair no nacionalismo exacerbado, ter um sentimento, uma consciência colectiva. Procuro ser porta-voz dessa alma. A alma de uma nação da qual canto em “Fado herói”: “nação vaga, branca e brava, espectro azul, a fé não voa, astro sorte aziaga, olha o grito, sobe à proa”. Tudo isto para dizer que o português está com os olhos não sei onde… Não sei se para a Europa se para o mar… Ou se para o infinito que também nos contempla de alguma forma…
P. – Em “Interlúdio” diz que “português sou eu, o mar e uma grande rocha”…
R. – Não é a minha voz. É a tal voz colectiva. Portugal a falar. É o português todo, o mar que nos dimensiona no mundo inteiro, e uma “grande rocha” porque quando olho no mapa vejo neste cantinho da Península Ibérica sempre a ponta de Sagres. Vejo Portugal a partir do cabo de Sagres. De resto, essa frase não é minha mas de um amigo meu, o Paulo Pinho.
P. – Como reage às críticas de alguns sectores fadistas mais tradicionalistas?
R. – Aceito as críticas todas desde que sejam sólidas. Mas tenho um relacionamento bom com a escola tradicional. Sempre que entro numa sala de fado eles imediatamente pedem-me para cantar. Tratam-me bem e não acho que haja nisso algum cinismo. Agora, há pessoas que podem ter uma discussão mais ou menos acesa, mas isso é normal, porque de alguma forma eu provoco um bocadinho. Eu quero estimulá-los.

“A Ordem É Amar!”
P. – “Vox Populis” é um apanhado de temas tradicionais. Como chegou a esta música?
R. – Tomei contacto com as raízes étnicas, não me considero um desenraizado. Esse tema é cantado num português arcaico, não se trata de dialecto nenhum, mas um raiano, forma de falar própria da zona fronteiriça. Ritmicamente faz lembrar a monofonia dos cantos de Trás-os-Montes. E tentei jogar com a ambiência, com os guizinhos das cabras do pastor e as velhotas a cantar em casa. Debrucei-me sobre alguma música transmontana e a parte ibérica que nos diz respeito. O tema poderá ser uma viagem com começo em Trás-os-Montes – uma zona de fluxo migratório bastante forte, nomeadamente para Espanha – de gente que parte para a Andaluzia.
P. – Afinal, é um revolucionário ou um tradicionalista?
R. – Sou a favor da tradição verdadeira, não da que existe hoje em Portugal. O importante é voltar às nossas raízes e descobrir o verdadeiro posicionamento de Portugal no mundo, o estado da nação. Sou revolucionário na medida em que busco a tradição na sua fonte e a procuro redimensionar.
P. – Que razão o levou a incluir os três excertos instrumentais, funcionando quase como separadores?
R. – São muito clássicos. Foram escritos por Rui Vaz, um novo compositor. Quanto à sua função, prende-se com a intenção de este disco ter um princípio, um meio – uma pausa para se poder reflectir – e um fim. Com cabeça, tronco e membros definidos, embora não seja um “concept album”.
P. – “O espírito da carne” é descaradamente comercial, com piscadelas de olho a um certo som na moda, uma mistura dos Madredeus e dos Enigma, com um toque de vozes búlgaras. Uma coisa “modernaça” que contradiz um pouco o resto do álbum…
R. – Vai ser o “single”. É o tema que se calhar pode espantar mais. É uma salsada que poderá ser como que uma síntese dos outros temas todos.
P. – A versão de “Sorrow’s child”, de Nick Cave, parece-me bastante pouco conseguida. Não estará deslocada num álbum que, como diz, pretende reflectir uma certa portucalidade?
R. – Foi um compromisso que assumi para comigo próprio e para com algumas pessoas. Costumávamos ouvir o Nick Cave… Não acho que esteja deslocada. A letra tem uma relação, “O filho da tristeza, da amargura”. Poderá ser um epílogo que se relaciona bem com o tema seguinte, “Cansaço”, um fado “a capella”.
P. – É uma pessoa amargurada?
R. – Não sou pessimista. Nem triste. Gosto de acção.
P. – Mas o álbum é triste.
R. – É triste. Um reflexo do estado de espírito do que me rodeia. Do mundo à minha volta. É um estado real daquilo que se passa., que não está realmente para grandes festas. Não se pensa nas coisas como se deve pensar. Este disco vai ser um alerta. Por isso a ordem é: amar!
P. – Portanto a salvação está no amor. Não receia que dito desta maneira corre o risco de cair no lugar-comum?
R. – Amar na globalidade. Numa perspectiva universal. Em “Pecado I” falo de uma mulher, Claudine, francesa, mecenas da arte, que conheci em Paris. É uma mulher que luta por uma forma de amar universal. Neste tema digo “com certeza que é pecado, dizem eles, eu amar desta maneira singular”. Sem especificar mais nada. Eu amo as coisas no seu todo. Acho que uma cebola é importante, por exemplo. O meu CD, a cassete-master, dormia sempre com ela. É uma forma de amar estranha…

“Morro E Nasço Todos Os Dias”

P. – Em “Baloiço”, toda a construção rítmica e melódica e uma frase em particular, “estou farto, o que eu preciso não sei, eu sei lá, é do que há-de vir ao Deus dará”, lembra de imediato António Variações. Uma identificação consciente?
R. – A música é do Carlos Maria Trindade e a letra minha. Letra cuja relação com António Variações é de certa forma consciente. Escutei e acompanhei a sua obra. O Carlos Maria Trindade também produziu um disco do Variações. Penso que a cumplicidade será mais dele.
P. – “Pecado II” e “Cansaço” são os dois únicos temas que não se afastam em demasia do fado tradicional. Teve receio de uma ruptura definitiva?
R. – Gosto muito de cantar os fados antigos. À minha maneira. No caso de “Pecado II”, tem um certo espírito coimbrão, no arrastar das guitarras, nas pausas, na utilização do baixo. De certa forma é um fado de Coimbra estilizado. “Cansaço” é um fado tradicional cantado, entre outros, pela Amália. O fado deve ter rasgos, deve ser batido, saltado, rasgado, esquartejado. E ter uma ambiência polivalente.
P. – Cansaço de quê?
R. – As palavras de Luís Macedo, que eu gostaria de ter escrito, dizem: “daí que tudo quanto faço não é feito só por mim”. A pessoa está cansada se calhar porque tudo não é feito só por ela. Não sei.
P. – A generalidade dos arranjos não é inocente. “Amai” aposta no mercado internacional?
R. – Totalmente. Apresentei esta música em Paris, num “café théâtre” “underground” por onde já passou por exemplo a Nina Hagen, e a aceitação foi boa. Com este disco quis mostrar que podia conjugar o fado em diversas perspectiva. Mas não foi nenhum laboratório químico de experiências. No terceiro pode ser que vá a “Amai” e selecione alguns caminhos. Com menos diversidade e uma postura mais linear.
P. – Quer dizer, com menos exagero? Não vai prosseguir o enunciado feito no “Epílogo”: “o exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”?
R. – Tinha algumas frases que podiam encerrar o disco, passíveis de várias interpretações. Quando escrevi isso não tive a pretensão de ser poeta, de transmitir algo de novo. A intenção é pôr as pessoas a pensar. A perdição é o destino. Já estou a aceitar de antemão que devo amar. Nasce-se para isso. Quanto ao disco é de facto exagerado. Não um exagero barroco mas da alma. Morro e nasço todos os dias e acordo sempre com esse espírito. Uma vez escrevi “ai se enquanto ao menos eu pudesse de mim sair”. Gosto de sair de mim. Não podemos ser livres de nós. Não quero estar preso a nada.
P. – Não pensou em cantar as palavras de poetas portugueses conhecidos?
R. – Escrevo desde sempre. Em “Pecado II” escrevi “o pecado reina em mim, fugaz me trespassa a alma, não tenham pena de mim, nela só reina a calma”, tinha 17 anos. Não foi posto no primeiro álbum porque acharam que eu não podia escrever coisas assim com aquela idade. Gosto de escrever para mim mesmo. Sou um homem de acção. Gostava de poder realizar um filme. Preciso é de estar a fazer coisas e escrever é uma delas. Mas o que eu gostaria mesmo de fazer, se pudesse, era ter um grande estúdio em casa e ficar lá sempre a escrever.


AMAR EM FRENTE AO ESPELHO

PAULO BRAGANÇA
Amai
Ed. Polygram


Inútil falar de fado, pelo menos se não deitarmos para trás das costas as ideias feitas, a propósito do segundo álbum do cantor descalço. “Amai” é um conjunto de experiências cujo eixo passa pela voz de Paulo Bragança e em redor da qual se aglutinam ideias e sons, alguns deles originais, outros a roçarem o lugar-comum.
Goste-se ou não da sua atitude “provocatória”, o que não se pode negar é a apetência do cantor pelo risco, pelo teste constante das suas possibilidades, tacteando os limites da voz e o significado que tem, ou não tem, estender uma atitude, por ele ainda definida como “de fadista”, a áreas aparentemente incompatíveis com o fado. Há em “Amai” pretensões que poderão ser tomadas por pretensiosismo.
É um álbum barroco, florido, que vive dos sentidos que se lhe quiser emprestar. Clássico a rondar o “kitsch”, como nos três excertos instrumentais “Prelúdio”, “Interlúdio” e “Epílogo”, ou investigando a capacidade de resistência da música tradicional, como em “Vox Populis” – tema digno de um Marc Almond, que vai da inocência do pastor À sanguinolência do matador -, “Amai”, a cada momento, se por um lado desafia o convencionalismo, por outro não consegue evitar recorrer a certas fórmulas de produção que não escondem o desejo de um som politicamente correcto e exportável.
Temas como “O espírito da carne” ou as duas variantes de “Fado herói” vão por onde é mais fácil, por caminhos abertos por outros, de Rodrigo Leão aos Madredeus, isto para fazermos de conta que ninguém andou a ouvir Michael Nyman. Tomemos por brincadeira a versão de “Sorrow’s Child” de Nick Cave, cantada em inglês. Ou como mais uma provocação, neste caso não muito bem sucedida. Tais pecados são porém compensados pelo modo como Paulo Bragança dá um rosto novo a canções como “Adeus”, dos Heróis do Mar, ou ilumina o espaço deixado vago por António Variações em “O baloiço”.
“O farol”, outro dos momentos altos de “Amai”, confirma a importância de Carlos Maria Trindade como produtor e compositor, enquanto em “Pecado I” é o próprio Paulo Bragança a revelar as suas capacidades de composição. É preciso esperar até “Pecado II” e pela interpretação “a capella” de “Cansaço” – escurecido pela sombra de Amália – para o fado se libertar do luxo de roupagens que por vezes lhe ficam demasiado pesadas e transformam a riqueza em ostentação.
Talvez seja esta, de resto, a perdição maior de “Amai”: um gosto pelo excesso que se torna numa faca de dois gumes. Evidentemente, Paulo Bragança, na assunção desse exagero, tem consciência do perigo que corre. Nem todos conseguirão engolir a espampanância nem levar a sério a portugalidade afirmada de forma ambígua, por vezes perversa, ao longo desta conjugação muito pessoal do verbo amar. A Paulo Bragança falta derrotar o mais temível Adamastor – o narcisismo – para conquistar o mar. (7)

Amélia Muge – “Todos Os Dias Nasce Uma Pessoa (Com Chapéu)” (entrevista) + “Todos Os Dias… ” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 07.09.1994


Todos Os Dias Nasce Uma Pessoa (Com Chapéu)

“Todos os Dias”, segundo trabalho discográfico de Amélia Muge, rompe com algumas premissas estéticas do álbum estreia, “Múgica” – que revelava já uma voz no pleno domínio das suas potencialidades -, ao mesmo tempo que assinala a passagem da artista de uma independente para uma multinacional. Viagem à volta dos dias, do tempo e da eternidade que vive em cada instante, “Todos os Dias” permite percursos e aproximações várias, formas diferentes de lhe encontrar outros sentidos nos sons e nas palavras. Convidámos a cantora a escolher um. Amélia escolheu os véus e os chapéus, pelos quais nutre uma paixão secreta, para ilustrar cada canção. Chapéus há muitos, é verdade. A arte está na cabeça e na maneira de os usar.

1 – Nevoeiro
“Chapéu branco. O primeiro a ser fotografado (com a rede, enevoando um rosto ainda só promessa). O ‘Nevoeiro’ também é o primeiro momento do álbum. É a urgência da hora. O que há a cumprir (como este encontro). É o aqui e agora. É, claro está, o chapéu do público. É a Hora!”

2 – Ser Pessoa (prólogo)
“’Todos os dias nasce uma pessoa’ – um mote que atravessa todo o segundo momento do álbum e se vai desdobrando em posturas. Um lenço colorido que, no prólogo, começa a ser armado… uma lengalenga que, pulsando, vai revelando um alguém.”

3 – Quinto Império
“’Grécia, Roma, Cristandade, Europa / os quatro se vão / para onde vai toda a idade…’ Um passado pesando no momento em que se nasce… como um tecido que se vai enrolando, à volta, à volta… Um levante ‘perturbante’ com toda a sua carga histórica, cultural, musical… e técnica, pois claro. Um Próximo Oriente num eterno retorno ao Re-Nascimento?”

4 – O Cego Pedinte
2Nas histórias antigas, as meninas estão sempre em anáguas e toucados. Agora improvisa-se, dá-se o ar (até porque os toucados não se encontram por aí aos pontapés). O iniciar da caminhada no mundo fantasioso das relações amorosas. ‘Abre a porta, Ana’ – diz o afinal falso cego. “Tradição? Já não é o que era’?… Pois!”

5 – O Mal-Lavado
“Chapéu de palha. Pois então? Que outro chapéu nos sairia ao caminho ao ‘sair das terras do milho’, ao ‘entrar nas terras da urze’? Uma toada de gaitas-de-foles desenha os contornos da estrada nos territórios das nossas descobertas. ‘Estar de amores não é maleita’ (uma paisagem mais bucólica que rural… a pedal).”

6 – Eu Hei-d’ir
“Aceitar o não como um desafio e um ‘charme’ discreto… ‘ se me mandares embora, muito eu hei-de aporfiar’. Uma boina que não se enterra na cabeça e que quase levanta voo p’ró ‘circo que leva a Lua’. Uma tomada de posição quase a sério. Um ‘hei-de m’ir assentar’ quase tradicional, prolongando cumplicidades e improvisos (é assim que se começa?).”

7 – Leões E Mais
“Ele há tecido que melhor evoque as selvas africanas que a capulana? Feita lenço à volta da cabeça evoca que selvas? E que cabeças? Um mundo de fábulas reforçando as duplicidades de qualquer moral… Ai os Lafontaines africanos que nem de capulana disfarçam as desconfianças… O Zé Martins a reinar nos simuladores, sintetizadores e outras bichezas… Servir reis? Muito chorareis! (ora tomem).”

8 – Estar Vivo É Estar À Morte
“Não tem um chapéu ou véu particular… na impossibilidade de os ter todos, cruza dois véus: o do Ser pessoa e a mantilha preta da Viúva do enforcado que vai chegar lá mais para a frente. Um refrão obsessivo… um Plim! Colorido onde um negro véu vai aprisionando tudo o que já não vamos poder ser. ‘Estar vivo é estar à morte / cativo de um Plim! Da sorte… no baralho da ideia / entre achado e perdido’… Todos os dias.”

9 – Vagarinho
“A boina preta ao lado evocando o método das almas – em que combate combater? Já fez uma caminhada reveladora no caminho das ideias. ‘Neste muro há duas pedras / sse se partirem ao meio / uma foi de dizer basta / outra foi de mal alheio’ – morrer pelas ideias? Sim… de morte lenta?”

10 – Terreiro Dos Passos
“Um chapelinho antiquíssimo… uma r… preta, sombra vinda da vida que encerra a da que passa… ‘e nessa sombra, outra sombra / mais escura que nenhuma / sonhando a.. que esvoaça’… O mim mais migo dos no… eus… o terreiro que os nossos passos criam cá dentro de nós…”

11 – Passarinho Da Charneca
“’Lindo vai o chapéu preto / e a azeitona também / já se pode armar aos tordos / e eles caem… (como tordos, como tordos)’ Mas o Dono não é Cantor!”

12 – Os Novos Anjos
“O único chapéu que não funciona na cabeça. Só imagem. Novos anjos? Estão cansados de voar! Só querem agenciar! ‘The show must go on’ (no meio do mar, o coração do sr. Arcanjo bóia – não é, Zézes?). Mas viva a alegria da nossa terra… ninguém é triste… passam-se os dias sem se dar por isso… uns vão para casa dormir…”

13 – Ser Pessoa (“Intermezzo”)
“As pontas do lenço divertem-se. Este ‘intermezzo’ fugiu a sete pés dos concursos e telenovelas (não se deve ter percebido muito bem, claro – mas até o sentido dos sentidos tem o seu ‘intermezzo’; não é Pavarotti?). Tirubi titirubi… ôdos us ias… hã hã hã hã…”

14 – Cantigas A Rosália
“Este chapéu veio lá das Galizas da Rosália. Acho que lhe teria ficado bem. À Uxia também. A pandeireta que se ouve, desdobrada pelo Zé Martins, chegou até nós por ela. Ai os veludos vermelhos que nos amaciam as memórias quentes do Intercéltico… ‘Por vales e por montanhas / pela água larga e fria / no berço do vento embalam’… as cantigas.”

15 – A Senhora Está Sentada
“Não sei lá porquê, mas os véus da santa e demais damas da corte celestial são quase sempre azuis. Nossa minha Senhora… que dizer-te nos dias de hoje? ‘A Senhora está sentada / sobre as suas próprias mãos / e baloiça no vazio / no céu de todos os chãos’.”

16 – A Viúva Do Enforcado
“Um véu negro cobrindo o fogo apagado, o cão aluado, o lamento de uma viúva nova. Adufes ressoam… guimbardas soluçam.. ai! É com a morte dos outros que rondamos a nossa.”

17 – O Pastorinho
“O boné também nasceu para vivermos a preguiça como uns príncipes… abaixamos a pala e prontos… descansamos o espanto todos arrumadinhos e tudo. Ai o descanso… a antecâmara do último sono? Será que por lá continuará a haver vozes às riscas como a da Teresa-mana que comigo canta este tema? Que há nuvens-abelhas, não duvido… e bonés com palas, também!!!”

18 – Ser Pessoa (Fuga)
“Vai-se-nos o rosto, ficam-nos os véus e os chapéus. E o riso mais lúcido da criança que nos habitou (a Voz?).”

Amélia Muge
Todos Os Dias… (8)
Columbia, distri. Sony Music
A Invenção Dos Dias



Houvesse discos com a qualidade deste todos os dias e a música popular feita em Portugal seria sem sombra de dúvida a melhor do mundo. Com o segundo trabalho de Amélia Muge não estamos, é evidente, perante um fenómeno semelhante ao de Pedro Abrunhosa, construído sobre uma moda e o aproveitamento de um momento, ou dos Madredeus e o seu “Espírito da Paz”, que navega noutro tipo de momento, na aparência mais vasto e bastante mais tranquilo. Amélia Muge está longe deste e doutros “momentos” que duram enquanto a direcção do vento não muda. “Todos os Dias…”, como as pilhas Duracel, dura e dura e dura e vai tão fundo quanto pode nos caminhos abertos pelo anterior “Múgica”. Uma voz, de Amélia, rompe as amarras do tempo e procura, por vezes bem próxima, sem dúvida bem dentro, nascer e viver a cada instante. “Todos os Dias” é cada dia e a totalidade dos dias. Uma vida.
José Mário Branco investiu e investiu-se neste disco, assegurando a direcção artística, ficando a produção, como em “Múgica”, entregue a António José Martins. As diferenças são perceptíveis na maneira como a música soube libertar-se dos simples efeitos que, no passado, nada lhes acrescentavam. O “ouvido clínico” da velha raposa da MPP a fazer das suas, José Martins, por seu lado, ficou com tempo livre para explorar outro tipo de horizontes com o seu arsenal de sintetizadores, “samplers” (ou “simuladores”, como ele próprio diz, em bom português, no livrete ilustrado que acompanha o CD), guitarras e percussões.
“Todos os Dias…” é uma viagem circular. Para sermos mais precisos, em espiral. Ciclo da voz que nasce, cresce e não morre. A imagem do berço com um bebé está presente em ada etapa da viagem, em cada história, nos silêncio que intercalam essas histórias. O canto surge das brumas do “Nevoeiro”, de Pessoa, para de imediato se jogar o primeiro jogo, na passagem para “Ser pessoa”, prelúdio e movimento da onomatopeia e do sussurro para a fala. “Ser pessoa” que volta no meio do disco, num “intermezzo” em forma de polifonia brincalhona onde as vozes dos homens provocam e convidam ao riso de Amélia e, no final, numa “fuga” em que as palavras regressam ao berço a à matriz da vibração primordial.
Há grandes canções em “Todos os Dias…”: “O cego pedinte”, em que a poesia do romanceiro algarvio se teatraliza na plasticidade da voz de Amélia Muge, “O mal-lavado”, atravessado por sobressaltos contraditórios de uma gaita-de-foles (Paulo Marinho) e um bendir (Rui Júnior). “Terreiro dos passos”, dedicada a José Mário Branco, revela o lugar central da música de Amélia Muge, igreja e camarim, onde a cantora veste “o espaço do centro” de “uma casa onde nunca entra”. O violoncelo de Luís Sá Pessoa traz negrume e dramatismo à música (“A senhora está sentada”, imagem do feminino velado, que chora e cura, “matéria sem nome transformada numa estátua que não tem sono nem fome”). Amélia Muge guarda espaço para mais. Para o sorriso e o escárnio subtil. Em “Os novos anjos”, onde José Afonso desce à terra para se confrontar sabe-se lá com que filhos da madrugada que “chegam aos magotes”, ou em “Leões e mais”, selva onde os reis são animais de brinquedo e a voz da cantora parece mimar os trejeitos infantis de Lena d’Água. E há outros portos de abrigo e cais de partida: na Galiza, nas “Cantigas a Rosália” escritas por Emílio Pita em homenagem a Rosália de Castro. Ou nas vozes das duas irmãs, Amélia e Teresa, unidas numa mulher só, em “O pastorinho”.
Um dos álbuns portugueses do ano. Para ouvir e desfrutar “todos os dias”. De todas as vidas. “É a hora!”

Tunas Académicas | Tuna da Universidade Internacional | Estudantina Universitária de Lisboa | Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico | TunaMaria – “Tuna Fixe!” (dossier)

pop rock >> quarta-feira >> 27.07.1994
DOSSIER


Tuna Fixe!

Serenatas ao luar. Farra até às tantas. A camaradagem e o espírito de grupo. A música. A borga. O reatar de tradições. Quim Barreiros, o herói. Pela alegria e pela irreverência. São as tunas académicas, um fenómeno emergente entre a juventude universitária portuguesa.



Um pouco por todas as universidades do país os estudantes envergam de novo a capa e a batina, erguem o estandarte e tentam recuperar o verdadeiro espírito académico. Algo que se perdeu na vertigem da competição e do individualismo que grassam na sociedade portuguesa actual. As tunas servem, entre outras coisas, para fortalecer o espírito de grupo. Os tunos nascem para se divertirem mas também para conquistarem uma unidade perdida. Os estudos, nalguns casos, quando a paixão é maior, ressentem-se. É preciso sacrificar num lado para celebrar no outro.
Tudo está ainda no princípio. Ensaiam-se fórmulas e discutem-se modelos. O exemplo vem de Espanha, onde a tradição das tunas é mais antiga. Os tunantes, ou tunos, ou seja, os amigos da boémia, fortalecem laços, juntam as guitarras, bandolins, cavaquinhos, contrabaixos, acordeões e pandeiretas e cantam temas populares, melodias fortes, algumas brincalhonas, outras mesmo picantes. Estão unidos. Nalguns casos nem tanto. Há dissidências, elementos que saem de uma tuna para entrar noutra. Mas a regra não é essa. É-se tunante, de uma tuna que não pode ser nenhuma outra, até ao fim da vida. Com orgulho. Há quem fale na formação de uma quadratuna, tuna de veteranos.
Entra-se para uma tuna por uma porta estreita. O candidato a tuno submete-se a praxes. A rituais de iniciação. Pelo menos deveria ser assim. O mais importante é saber se tem ou não o espírito. Quem der provas entra, quem não se achar capaz sai. Cada tuna tem cerca de trinta elementos. Muita gente. Mas o corpo colectivo é só um. As serenatas podem ser um problema. Antigamente era fácil, no tempo dos orfeãos, considerados por alguns antepassados das tunas. Os rapazes saíam para a rua e cantavam à janela para as donzelas. Hoje já há tunas femininas e o caso mudou de figura. Elas perderam a timidez e cantam aos rapazes. É a mudança dos tempos e de mentalidades. A renovação da tradição. É normal, dizem alguns. Não pode ser, a tuna é coisa de homens, dizem outros, tradicionalistas ferrenhos. Mas o pior é quando as tunas são mistas. Aí fia mais fino. Como é? Raparigas fazendo serenatas a raparigas? Rapazes guitarrando outros rapazes? Não pode ser. Não fica bem. É um problema que é preciso resolver. Há vários problemas a resolver.
E os trajes? Há que ter cuidado. Sobretudo no caso das raparigas. Nem saias muito curtas, para não distrair demasiado as atenções e evitar os piropos dos mais atrevidos, mas muito compridas também não. Porque isto de cantar, vivar parte da vida numa tuna, não é só brincadeira, pode ser uma coisa muito séria. Por isso é preciso separar as águas e distinguir entre os verdadeiros tunos e aqueles que se fazem passar por tal como justificação para a bandalheira. É preciso trabalho, ensaios, fortalecer o tal espírito de grupo. Existe ordem na aparente desordem de uma tuna. Tem que ser assim. As tunas viajam por Portugal e pelo estrangeiro, participam em festivais, representam uma instituição.
Tornou-se moda convidar tunas para os programas de televisão. Têm pinta, fazem número, são folclore, pensam os responsáveis. Metem-nos nas primeiras filas, trajados a preceito e pedem-lhes palmas e alegria. As tunas, algumas, vão. Em geral arrependem-se. Dizem-lhes que vão tocar, mas mal os tunos pegam nos instrumentos e se preparam para atacar a primeira canção, logo surgem os irritantes genéricos, com a ficha técnica a passar depressa e as tunas a ficarem a ver navios. Também é costume convidar tunas para colorirem homenagens a fadistas conhecidos. No último aniversário de Amália, não podiam faltar. Lá estava uma tuna. É bom, é mau? As pessoas falam deles e delas, vestidos de negro, a cantarem coisas que toda a gente pode cantar. São contagiadas pela alegria dos tunos. Voltam talvez a ter saudades do tempo em que eram estudantes. É mesmo assim, eles e elas juram que sim: tuno até ao fim.
O PÚBLICO entrou no universo das tunas. Falou com elementos de algumas delas. Com os magísteres, por exemplo, que são uma espécie de chefes, organizadores, catalisadores do espírito de cada tuna. Desfizeram-se ideias feitas. Tunos da Estudantina Universitária de Lisboa, da Tuna da Universidade Internacional, da Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico, e da Tuna-Maria, uma das poucas tunas femininas existentes, contaram histórias e segredos. As duas primeiras já gravaram compactos. Ficaram de fora muitas outras, de Lisboa, Porto e Coimbra. Todas elas com as suas próprias histórias para contar. É um mundo mais complexo do que parece, o das tunas universitárias. Eferreá!!

(2)
De Pára-Quedista A Pranchado

O fenómeno das tunas explode nos meios académicos de Lisboa em 1988, com o aparecimento da Tuna da Universidade Internacional, formada por um grupo de amigos que “gostava de tocar e beber uns copos”. Tem 30 elementos. “Com uns a sair e outros a entrar.” Foi a primeira tuna mista e a primeira a fazer o ressurgimento da capa e batina em Lisboa. Mas a história vem de trás. “As tunas são originárias de Espanha”, explica Rogério. O fenómeno chegou cá “com a vinda da tuna de Santiago de Compostela a Coimbra. Surgem nessa altura, por volta de 1912, a Estudantina de Coimbra e a Tuna do Orfeão do Porto, as duas tunas portuguesas mais antigas”.
Rogério diz que a Tuna da Universidade Internacional (TUI) surgiu para ressuscitar em Lisboa o espírito das tunas. A primeira das praxes de uma tuna diz respeito ao seu nascimento. Para nascer, uma tuna tem que ser apadrinhada por outra, já existente. No caso da TUI o padrinho foi o Orfeão do Porto. Ramón – um espanhol que se transferiu de uma tuna castelhana para a TUI, ficando os dois agrupamentos geminados – critica as tunas que não cumprem esta praxe: “É preciso que haja uma tuna com experiência que ensine aos candidatos o que é ser tuno. Ninguém nasce tuno. Aprende-se com a prática.”
Na TUI para se chegar a tuno tem de se passar por três fases distintas. “Na primeira, vemos se o candidato tem aptidões para ser tuno”, explica Ramón. É a fase do “pára-quedista”, em que “uma pessoa ainda não está integrada na tuna, nem sobe ao palco com os outros para cantar. Vem aos ensaios para aprender. Ninguém lhe pode tocar. É como se fosse imaculado”. Esta fase dura em geral três, quatro meses. “Quando vemos que ele já está a tocar e a cantar bem, fazemos-lhe uma prova escrita em que terá de mostrar perante um júri se aprendeu ou não as músicas.” Se passar, torna-se caloiro e já poderá subir com os outros para o palco. “Já tem mais responsabilidade”. Esta segunda fase, em que o caloiro é denominado “pranchado”, costuma durar cerca de dois anos.
O “pranchado” deverá desempenhar tarefas, como “transportar os instrumentos, comprar bebidas, fazer a limpeza depois de um ensaio, etc.”. “São os burros de carga!”, diz a rir o Rogério. “É nessa altura que vemos se ele tem ou não o espírito de camaradagem e se quer cumprir as regras do jogo.” Finalmente, a última iniciação, a entrada definitiva na tuna, ou seja, o “baptismo”, acontece “de surpresa”. “Vamos um dia para uma fonte e é aí que se processa o baptismo. Com o caloiro em cuequinhas…” Chegado a este ponto convém precisar que a TUI é uma tuna mista… “É igual, elas em cuequinhas e ‘soutien’.”
A TUI foi a primeira a organizar em Lisboa um festival de tunas, com “tunas de todo o país e de Espanha”. Em Dezembro deste ano vai realizar-se a sexta edição. Mandam as regras que a tuna receba “cachet” pelas suas actuações apenas nas participações em festivais nos vários pontos do país ou do estrangeiro. No âmbito das actividades académicas não se cobra.
É o lado mais formal das actividades musicais. Além dele, a tuna “toca nas ruas e nos bares”, diz Rogério. “É mais boémio, vamos para o Bairro Alto ou Mouraria, fazer serenatas.” As canções do nosso disco [“Encantos de Lisboa”, editora Ovação] falam da vida da boémia, das serenatas ao luar.” E as raparigas? “Há um preconceito quando se diz que as tunas têm que ser só masculinas ou femininas. Ninguém tem problemas em fazer serenatas juntos.” (Ver foto.)
Um aspecto curioso na vida das tunas é a rivalidade existente entre elas: “uma rivalidade saudável”, garante Rogério. “Podemos sair nós e outra tuna qualquer e irmos para os copos juntos.” A quem a TUI não perdoa é à Estudantina Universitária de Lisboa. “Fizeram uma coisa muito mal feita”, comenta Ramón. “Numa altura em que já havia algumas tunas em Lisboa, eles, em vez de arranjarem caloiros, foram buscar elementos a outras tunas, incluindo a nossa. Aconteceu que as outras tunas que estavam a começar ficaram fracas. Não é por acaso que a Estudantina nunca foi convidada para nenhum festival de tuna em Portugal.”
Rogério e Ramón apreciam ambos Quim Barreiros, embora sejam de opinião de que ele “não tem nada a ver com as tunas”. Para Rogério, “o fenómeno Quim Barreiros surgiu a nível universitário porque em Lisboa ou em qualquer outro lado onde há queima das fitas o Quim Barreiros está lá. Pode dizer-se que nas universidades toda a gente gosta muito dele.



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A Tuna Institucional

A Estudantina Universitária de Lisboa (EUL) foi formada em 1992. É uma espécie de supertuna, ou tuna das tunas, integrando elementos de várias faculdades da capital. “Das universidades públicas e privadas e privadas, da medicina à informática, há praticamente elementos de todos os cursos”, diz Luís Jerónimo, “magíster” da EUL, que tem cerca de 30 elementos. A tuna já apareceu na televisão ao lado de Herman José e colaborou recentemente no aniversário público de Amália. Nela, ao contrário de outras tunas, não há praxes de entrada. Para Luís Jerónimo, “é um processo natural”: “As pessoas vão aparecendo, é óbvio que têm que ter determinados requisitos – ser estudante universitário, saber tocar um instrumento e cantar. Depois vão andando connosco, vão aos ensaios. Se virmos que eles entraram bem no estilo das músicas e que tocam razoavelmente, começam a acompanhar-nos como caloiros.”
Alvo de várias críticas, nomeadamente por ter “roubado” elementos a outras tunas, Luís Jerónimo, que foi um dos fundadores da Tuna da Universidade Internacional, uma das que se sentem mais lesadas, defende-se: “Quando há críticas, das duas uma, ou há alguma coisa muito má e muito grave ou há alguma coisa muito boa. Não fomos buscar ninguém à Tuna da Universidade Internacional. Eles vieram de livre vontade. Foi aí que surgiu a ideia da Estudantina. Depois, como este era um projecto que agradava a muitas pessoas, pessoas que já pertenciam a outras tunas, estas juntaram-se por sua vez à Estudantina. Não havia qualquer pretensão de ‘roubar’ seja quem fosse.”
Outra das críticas relaciona-se com a falta do chamado “espírito de tuna” na EUL, encarada como um grupo onde, de facto, em termos artísticos, os seus elementos são excelentes, mas onde a camaradagem é menor e a vida de boémia mais controlada. Em suma, uma tuna mais bem-comportada. “Não aceitamos que digam isso. Até porque, para contradizer essa opinião, posso dizer que estivemos na Páscoa em Paris, durante 15 dias e, além dos espectáculos marcados, aproveitámos para conviver uns com os outros, acertar ideias, discutir projectos, fazer músicas, enfim, mas também um bocado de boémia, de copos, etc.”, replica Luís Jerónimo.
Já com um compacto no mercado, editado pela Vidisco, “Estudantina Universitária de Lisboa” e um segundo em preparação. A EUL é, a par da Tuna da Universidade Internacional e, anteriormente, das tunas de Coimbra e do Orfeão da Universidade do Porto, uma das poucas que tem a sua música gravada. Sem a preocupação de seguir modelos ou a tradição: “Não existe uma verdadeira tradição, porque a tradição implica muitos anos passados sobre uma mesma realidade. A tradição das tunas em Portugal não existe, está a fazer-se agora. Existiram a Estudantina de Coimbra e a Tuna do Orfeão Universitário do Porto, no início do século, mas depois essa tradição apagou-se.”
Uma das ideias avançadas por Luís Jerónimo é a criação de “uma instituição nacional que regulamentasse um bocadinho a realidade das tunas”, no sentido de definir normas e defender a qualidade artística delas.: “Uma tuna não é só juntar 20 ou 30 indivíduos em cima de um palco. O espírito académico, toda a gente fala nele mas pouca cumpre. Há uma rivalidade estúpida entre as várias tunas, não há uma amizade, uma coesão, uma força. A rivalidade tem que pressupor o respeito entre uns e outros e isso não se verifica. Aquilo que cada tuna quer dar a entender é uma coisa, o espírito é a capacidade de ser tuno, de se dar bem, de ir para os copos, sem se embebedar.”
E o “magister” da EUL explica: “Quando as pessoas ouvem falar em tuno, boémia, copos, tudo isto lhes faz confusão e, devido à má imagem criada pelos estudantes nestes últimos anos, nomeadamente nas manifestações ou nas semanas académicas, em que passam nos carros completamente bêbedos, vão para o hospital em estado de coma alcoólico, tudo junto cria na consciência das pessoas que boémia é sinónimo de bebedeira. Não é. A magia dos copos não quer dizer estar ali numa mesa a beber até cair para o lado. Os copos encerram em si toda uma mística muito importante que é o convívio e a amizade.”
Sobre as tunas mistas, Luís Jerónimo tem ideias formadas: “Não faz sentido raparigas estarem a cantar para raparigas ou rapazes para rapazes. É problemático. Uma pessoa quer usar palavrões próprios, às vezes, entre os homens. Com meninas… se bem que as mulheres que fazem parte das tunas tenham, digamos assim, uma personalidade diferente da das outras raparigas estudantes, mais para a frente, também gostam de beber o seu copo. Agora, concordo e acho que é de incrementar a existência de tunas femininas.



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Dez Horas A Jogar Matraquilhos

Vinte e oito elementos formam a Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico. Manuel Correia toca pandeireta e é “o principal”, já que na TUIST não se emprega o termo “magister”, de origem espanhola. “Tentamos puxar às tradições portuguesas o mais possível e não imitar os espanhóis. Procuramos investigar o que havia há 50 anos atrás, o que faziam as estudantinas e orfeões da altura.” A data oficial de formação da tuna é 20 de Março de 1993, embora alguns dos seus elementos se tenham reunido há mais tempo. Actuaram na primeira parte do espectáculo recente de Quim Barreiros na Aula Magna de Lisboa. Foram apadrinhados pela Tuna do Liceu de Évora, a única liceal do páis e uma das mais antigas, formada em 1902. “Mantiveram-se até hoje e usam capa e batina.”
Nas intenções do grupo esteve desde o início a vontade de serem diferentes, “não em ser uma bandalheira mas sim uma tuna no verdadeiro sentido”. “Fizemos recolha sobre as características das tunas. Tentamos, além disso, adaptar o nosso reportório aos dias de hoje, embora procurando manter particularidades como as praxes, o traje, etc.” o mais difícil, na formação de uma tuna, diz Mário Fernandes, guitarrista da TUIST, “não é arranjar cem pessoas que toquem bem viola, é arranjar vinte pessoas com uma boa atitude”.
Manuel Correia não concorda com a existência de festivais que, segundo ele, seguem o modelo espanhol, com atribuição, por exemplo, de prémios aos melhores solistas. “Nas nossas tunas não há solistas. Só nas espanholas, que têm uma tradição muito mais forte. As tunas portuguesas copiam-nas. Na TUIST não há solistas.” O “principal” acha igualmente que “é grave haver tunas em que metade do seu reportório é composto por músicas espanholas”. A tuna do Técnico toca apenas temas próprios, embora “com raízes na música popular portuguesa”.
Manuel Correia critica também o facto de algumas tunas se estarem a virar “para o lado comercial, em vez de o fazerem para o mais importante, que é o espírito. O disco, por exemplo, deverá ser uma consequência de vários anos de existência”. “De todos os discos gravados por tunas portuguesas – garante Manuel Correia -, só conheço um em que realmente transparece o espírito académico e a raiz portuguesa, o primeiro da Estudantina de Coimbra. O segundo já é mais comercial, vê-se que foi feito por contrato.”
Torna-se evidente que a TUIST não quer ser, de facto, uma tuna igual às outras. “Ser tuno não é só vestir a capa e a batina. É uma maneira de estar”, diz Mário Fernandes. “O mais importante é, pr exemplo – embora tenhamos todos namoradas -, podermos estar juntos num jantar ou ir para a feira jogar matraquilhos. Chega estarmos lá, sem ser preciso apanhar bebedeiras.”
É fácil entrar para a TUIST? “Não pomos barreiras à entrada de algumas pessoas. Só que, pela especificidade do grupo, só gente com este espírito é que se adapta. Quem não gostar de estar dez horas a jogar matraquilhos… Uma vez no dia 31 de Julho do ano passado, estávamos reunidos e resolvemos que tínhamos que ir passar férias a qualquer lado. Juntámo-nos no dia seguinte em Santa Polónia e apanhámos o primeiro comboio!…
A quem quiser entrar, levamo-lo a um jantar e vemos se alinha nas brincadeiras, para estudarmos a personalidade da pessoa. O ano passado tivemos o caso de alguém que nem sequer sabia tocar. Levámo-lo a jantar, passámos uma noite divertida com ele e pronto entrou logo na tuna. Demos mais importância a esta maneira de estar… É muito mais fácil entrar um rapaz que saiba tocar só o dó e sol mas que tenha o espírito do que um gajo que seja um maestro mas não tenha esse espírito.”
Fazem a apologia de Quim Barreiros: “Pode lá ter todos os defeitos mas ele é de facto um êxito, porque é bem português. Aquilo é Portugal. Damo-nos muito bem com ele.” Mas advertem: “O perigo está em que as pessoas associem as tunas ao Quim Barreiros. Há muitas tunas que entram na onda. Não sabem ter o seu espaço e vão atrás do Quim Barreiros. Entram na fase da brejeirice mas não sabem fazê-lo bem. O Quim Barreiros sabe ser brejeiro. É diferente de ser ordinário e mal-criado.”
A TUIST orgulha-se de ter contribuído para o ressurgimento do espírito académico no Técnico: “Havia uma grande sede. As festas no Técnico, há dez anos, eram no estilo dos marinheiros do Cais do Sodré. Só iam homens e acabava sempre me naifas e facada. Agora têm mil pessoas, o ambiente é outro, e as pessoas vêm de todo o lado para nos ver. Mas ainda há quem nos ache exibicionistas. Por andarmos de capa e batina. A capa e batina são o traje autorizado para os estudantes universitários de Portugal e não são só para o Porto ou Coimbra. Só falta arranjar um concurso público, como aconteceu na Universidade Nova, e escolher um estilista para fazer os fatos, com apresentação na Gare Tejo…”



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Até Ao Outro Dia De Manhã

Da cisão na tuna mista da Faculdade de Ciências e Tecnologia nasceu, em Novembro do ano passado, a TunaMaria, uma das raras tunas femininas existentes em Portugal. Em finais de Abril deram o primeiro espectáculo, num festival de tunas. São 30 e tocam os instrumentos habituais numa tuna: acordeão, bandolins, cavaquinhos, guitarras, pandeiretas, flautas. Sandra Isabel toca acordeão. Ana Teresa, pandeireta.
Começaram por ser recebidas pelas pessoas e pelas tunas masculinas, como elas próprias dizem, “com um pé atrás”. “Até porque as duas tunas femininas mais antigas são pouco conhecidas – diz a Sandra, que desempenha no grupo a função de magister -, a tuna feminina do Orfeão do Porto e outra, da Covilhã.”
Sandra e Ana são ainda muito novas, 21 e 20 anos, respectivamente. Para elas, como para outros elementos da TunaMaria, nem sempre é fácil sair para as noites de boémia. “É difícil, aqui em Lisboa. Normalmente só a seguir a um espectáculo”, observa Sandra. “Há pessoas que moram com os pais, outras na outra banda.” Mas quando se juntam não brincam em serviço: “Somos capazes de estar até ao outro dia de manhã.” O espírito de tuna “foi crescendo”. No que diz respeito a serenatas, a TunaMaria anda a preparar aquilo que é a sua obrigação: “Ainda não fizemos. Mas os rapazes também hão-de gostar. Mas primeiro que tudo é preciso arranjar um reportório para isso.” Um reportório que, nas actuações normais, inclui canções “mexidas”, temas populares, por enquanto sem composições originais.
Praxes vão “passar a ter”. Por serem uma tuna muito recente, não têm ainda caloiras. O traje adoptado é o clássico saia-casaco, com um pormenor extra, o chapéu alentejano, de aba larga. “É o nosso símbolo, o que nos distingue. As pessoas acham piada.” Preferem seguir o modelo português, embora não se importem de tocar músicas espanholas, “até italianas, que são mais difíceis”. De resto, tunas femininas em Espanha, são coisa recente e as que existem “não gozam de muito boa fama”. “É a tal coisa de raparigas bonitas e mal-comportadas” (risos). Na TunaMaria, passa-se por cima dos preconceitos: “Apanhamos bebedeiras se for preciso, como os rapazes.” Mas há um conservadorismo na atitude que nem Sandra nem Ana negam. “Dentro da nossa tuna estabelecemos uma certa altura para a saia. No Porto elas usam abaixo do joelho. Em Coimbra, mais ou menos a meio do joelho. Nós escolhemos acima do joelho.” “Logo acima do joelho”, apressam-se a acrescentar. Mesmo assim “ouvem-se comentários”. Mesmo da parte de outras tunas, “se alguém aparece com uma mini-saia”. “Temos muito cuidado com o comportamento que temos”, diz a magister da TunaMaria, “até mesmo em palco”. É que “enquanto os rapazes podem mandar piadas às raparigas”, às raparigas “não convém” fazê-lo, “por causa da imagem que se dá para fora e porque as pessoas à vezes interpretam isso de maneira errada”. Os copos, esses, não constituem problema, “até dão uma certa alegria quando uma pessoa sobe para o palco. Não ir bêbedo, claro, mas alegre. Uma alegria que pode ser contagiante”.
Problema real são os estudos, que amiúde passam para segundo plano. Há quem “deixe de estudar um bocadinho”, para se entregar às actividades da tuna, como há quem faça o contrário e não esteja disposta a sacrificar os estudos. Quando há um teste, por exemplo. A Ana Teresa, a partir de certa altura, “só via a tuna à frente”. A Sandra afirma que já sacrificou bastante o curso. Os professores não dão qualquer apoio. “Alguns acham giro mas não dão qualquer ajuda. Mesmo da parte da faculdade, que nós representamos, ninguém facilita, por exemplo, no aspecto das faltas. Simplesmente não ligam nenhuma.”
Apesar de tantas dificuldades, a TunaMaria ensaia duas vezes por semana, na Faculdade de Ciências e Tecnologia. Três, quando há espectáculo. Todos os dias, antes do primeiro espectáculo.
Numa coisa a TunaMaria não difere das tunas masculinas. Na admiração por Quim Barreiros. Ao ponto de incluírem no seu reportório “Bacalhau à Portuguesa”. “Por brincadeira. Os espanhóis adoram esta música.” ” A tuna chegou mesmo a fazer uma primeira parte de um espectáculo do popular acordeonista. “Eu, pessoalmente, não gostava dele”, diz Sandra. “Mas depois de conviver com ele, vê-se que há nele uma alegria que contagia. Fala com as pessoas de uma maneira cómica. E as músicas têm imensa piada.”