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Elektra – “Elektra Na Maioridade” (editora | artigo de opinião | história)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock


ELEKTRA NA MAIORIDADE

A editora americana Elektra faz 40 anos. Os seus responsáveis tiveram uma ideia brilhante: reatualizar temas antigos, gravados por artistas da casa, através de interpretações dos atuais signatários. Revolvidos os arquivos da história, encontrou-se a palavra ideal para simbolizar o projeto – “Rubáiyat”



O termo designa uma estrofe poética, formada por dois versos facilmente memorizáveis, inventada pelo poeta persa Omar Khayyam no século XII e que o povo cantarolava, como se de refrões de música pop se tratasse. Posteriormente, em 1859, o modo “Rubáiyat” foi reatualizado por Edmund Fitzgerald, que escreveu vários “rubay” com que entretinha os seus compatriotas vitorianos. Durante cerca de 30 anos, dedicou-se a interpretar e a reinterpretar os seus próprios versos, atualizando-os constantemente. São dele os imortais versos “But still the vine her ancient ruby yelds / And still a garden by the water blows”. O “staff” da Elektra asseguram que têm tudo a ver com o aniversário da editora. Quem somos nós para duvidar? “Manhã” – escreveu o astrónomo e matemático Omar –, “deixa-nos entornar o vinho vermelho.” Então não tem tudo a ver? É o ato de emborcar, de celebrar, enfim, de arranjar à força um pretexto.

A Magia do Rubi

“Rubaiyat” é também rubi, vermelho, da cor do sangue – pedra preciosa que celebra aniversários assinalados pelo número 40. Vermelho, tal qual o logotipo da editora. As conotações são evidentes. Mas as significações do termo mergulham mais fundo, penetrando nos arcanos do universo e da magia. Rubi é pedra de telepatia, talismã que afasta os pesadelos quando guardado debaixo da almofada. Estranho: se for tocado nos quatro cantos de uma casa, protege os seus habitantes da trovoada. Além disso, irradia energia, segundo uma refração dupla que vibra na nota musical “mi” (em inglês “E”). Elektra começa por “E”. Elektra, uma das sete plêiades, filha de Oceanus, mãe das harpias, musa inspiradora da arte musical. Ena! Isto dos discos tem muito que se lhe diga. Não tem nada a ver com comércio nem negociatas. Nada disso. É tudo gente altruísta, preocupada com os mais altos desígnios humanos, envolta numa aura de santidade e mistério, lidando com forças transcendentes que mal compreendemos. Se não, como explicar que participem neste projeto nomes desde sempre ligados ao esoterismo e às difíceis artes do ocultismo, como Gipsy Kings, Howard Jones ou os Metallica?
Convidaram-se estes e outros artistas para interpretar temas antigos à sua escolha. Critério único dessa escolha – a ligação afetiva às canções do passado. A mistura de nomes e canções impressiona pela heterogeneidade. Não confundir com confusão. São contemplados todos os géneros e estilos musicais, desde os já citados Gipsy Kings e Happy Mondays a John Zorn e Kronos Quartet, passando por luminárias como Jevetta Steele, The Havalinas, Lynch Mob e o magistral Danny Gatton. “Rubáiyat” será lançado no mercado em três formatos: CD e LP duplos com discos em vermelho, mais cassete dupla, tudo acompanhado de livrete contendo informação detalhada relativa ao projeto.
Nada foi deixado ao acaso. Desde a apresentação até às táticas promocionais, a Elektra fez questão de ser original e diferente. Assim, o desenho das capas e o restante trabalho gráfico foram entregues aos gémeos Doug e Mike Starn, celebrizados na cena artística nova-iorquina pelas suas fotos-colagens. “Rubáiyat” constitui o primeiro dos seus trabalhos que autorizaram a ser usado para fins comerciais. No capítulo da promoção, foram escolhidos 6 CD-“singles”, cada qual com um tema destinado a uma área de divulgação radiofónica específica: Teddy Pendergrass, para o género “contemporâneo, adulto e urbano” (?), os Metallica para as listas de “heavy metal”, Faster Pussycat para o AOR (“adult orientated rock”), Gipsy Kings para o mundo latino e Michael Feinstein para a rádio em geral. Vinte e cinco por cento dos lucros obtidos revertem a favor das organizações “Greenpeace”, “United Negro College Fund” e “Save the Children”. Afinal ainda há almas caridosas neste mundo tantas vezes cão. É a força do rubi a exercer as suas influências cósmicas e benéficas.

A Editora



É bastante antiga. Começou por ser um passatempo e um caso de amor. Foi a 10 de outubro de 1950 que o seu primeiro diretor, Jac Holzman, então um estudante apaixonado pelas técnicas de engenharia aplicada à música, deu início às atividades. O primeiro disco, um doze polegadas, era uma “Lied” assinada pelo compositor John Gruen e a cantora Georgiana Bannister. Teve o número 101 e direito a quase o mesmo número de cópias. Dinheiro era coisa que não havia. Tanto assim que a letra “E” do logotipo, em caracteres mais ou menos gregos, de acordo com a ideia pretendida, teve de ser feita utilizando um “M” deitado… A seguir vieram baladas montanhesas “Appalache”, cantadas por Jean Ritchie – Jac Holzman era apaixonado pela música “folk”, se bem que às vezes o termo lhe causasse alguma confusão.
A Elektra, sediada a princípio nas traseiras de uma loja de discos em Greenwich Village, passou rapidamente para a rua Bleecker, número 361, local onde Jac foi aos poucos aprendendo os truques do ofício, que é como quem diz, de como fazer dinheiro à custa da música. Mas nessa altura era mais uma questão de sobrevivência e não havia lugar para luxos. A distribuição era feita em mão, e os discos transportados numa Vespa.
Ainda a designação “world music” não tinha sido inventada, já a Elektra gravava recolhas folclóricas, oriundas de Itália, Rússia, Turquia, Espanha, França, Escócia, Inglaterra, Israel, México e outras regiões que constassem no mapa. Jac Holzman afirma que a sua paixão pela “folk” se deve ao interesse que sempre nutrira pelos instrumentos antigos e que o cravo era o culpado de tudo. “Os cravos – afirma – deram origem aos alaúdes, estes às guitarras, as guitarras à “folk”, e a “folk” à Elektra. Quer ele dizer que, não fora aquele instrumento de teclas, a editora nunca teria existido. Alguém de lembra de Cynthia Gooding, Ed McCurdy ou Shep Ginandes? Ninguém? Nem do Ginandes? Pois eram os “folk singers” da altura e parece que até não se vendiam mal – só à conta de Ed McCurdy e das suas séries de baladas isabelinas de genérico “When Dalliance as in Flower (and Maidens Lost their Heads)” a editora faturou na ordem dos 900.000 dólares.

Ecletismo

Com a entrada nos anos 60, o recém-chegado Paul Rothchild operou a primeira mudança de agulhas. Era a vez dos baladeiros de intervenção entrarem em cena, ao mesmo tempo que o movimento das flores dava os últimos retoques nas pétalas. A Phil Ochs, Tom Rush, Tom Paxton e Judy Collins foi dada oportunidade de recitarem os seus manifestos. Paralelamente, na sucursal Bounty Records, entretanto fundada, despontavam os Beefeaters, nada mais nada menos do que os futuros Byrds. Buffalo Springfield, Lovin’ Spoonful e os Love, de Arthur Lee, eram os mais ilustres representantes do batalhão pop. Mas a força imparável deste último não obstava a que músicos como o guitarrista de flamenco Juan Serrano ou o “jazzman” Art Blakey tivessem um cantinho da casa reservado para si. Do mesmo modo que a música folclórica búlgara, décadas antes de as suas vozes se tornarem misteriosas ou de falarem com Deus.
Alargava-se o leque de formas musicais – em 1964, a Nonesuch passava a albergar os representantes da “clássica”. Estrearam-na uma seleção de temas para trompete barroco, de Albinoni, e uma antologia de autores franceses da corte de Luís XIV. Hoje, a Nonesuch constitui a ala mais interessante da Elektra, integrando alguns dos expoentes da música contemporânea como John Adams, John Zorn, Kronos Quartet ou Wayne Horvitz. Por seu lado, as séries Explorer dedicavam-se a editar coleções de discos que continham efeitos sonoros ou instruções em código morse.
No selo mãe, o pacifismo reinante no seio da “beat generation” era minado pela violência niilista dos MC5 e dos Stooges de Iggy Pop. O niilismo romântico de Nico era outra história, ainda hoje por contar. Místicos e de tendências pró-celta, os Incredible String Band, personificavam, de forma inteligente e original, o estilo “hippy”, através dos poemas étnico-psicadélicos dos multi-instrumentistas Robin Williamson e Mike Heron.
Terminados os anos da paz, e Elektra é vendida por Jac Holzman à Kinney National Services Corporation, por dez milhões de dólares, retendo embora a autonomia artística. Três anos mais tarde, é a fusão com as poderosas Warner Bros. e Atlantic. Harry Chapin, Bread e Carly Simon ajudam a compreender que o tempo e o espírito eram outros. Jac já não conhecia todos os cantos da casa, que entretanto crescera desmesuradamente desde os tempos nas traseiras da rua Dez. Sentia que se estava a repetir a si próprio. A repetição mata o amor. Jac retira-se para o Havai, para regressar na condição de perito da Warner na área de investigação tecnológica aplicada aos audio-visuais.

Negócio e Moral

David Geffen pega nas rédeas do poder e a Elektra é de imediato submetida a nova operação cirúrgica. O membro implantado é desta vez a Asylum. Novos recrutas: Jackson Browne, Eagles, Linda Ronstadt, Joni Mitchell, Tom Waits. “Hotel California”, dos Eagles, faz engordar muita gente. Os anéis começavam a não entrar nos dedos. A imagem da editora, já nas mãos do novo “boss” Joe Smith, era a de uma instituição tradicionalista que apostava em valores seguros e consagrados. Na passagem para a década de 80 vingava o gigantismo dos megaconcertos. Os Cars e Motley Crue chegavam para as encomendas. Também a “new wave” não ficara esquecida, com a assinatura dos Television e Dictators. Mais o “country & western” (Hank Williams Jr., Stella Parton) e os “rhythm & blues” (Donald Byrd, Grover Washington Jr.).
O testemunho é finalmente passado a Bob Krasnow, que pretende dar um estatuto “ético” à editora. Bob é um moralista. Por volta de 1983, enuncia a célebre máxima: “Todo o artista desta editora tem como única missão fazer música. (…) Quem vem apenas pelo dinheiro não pertence ao negócio da música, pertence ao negócio do dinheiro.” Donde se conclui que dinheiro e negócio não andam necessariamente juntos. Mas é na difícil arte da dialética que Bob se revela mestre, pois, logo de seguida, acrescenta ao ramalhete filosófico: “Também é verdade que ninguém se refere a uma ‘show art’, mas sim ao ‘show business’.” Completa o raciocínio com tirada mais profunda e por isso mesmo mais obscura: “Uma editora de discos tem de ter sucesso se quiser atrair artistas e público e, visto que o custo de construção de uma experiência estética tecnologicamente complexa se torna uma equação auto-suficiente, não é de espantar que os caminhos de atuação se tenham tornado circuitos fechados, oferecendo passagem fácil apenas à oferta mais diluída.” Ora, nem mais. Moral da história: a companhia mudou-se com armas e bagagens para Nova Iorque, cidade que como se sabe é das mais castas em termos de insensibilidade ao vil metal. Perto da catedral de St. Patrick e do centro Rockefeller, como que simbolizando a eterna luta entre o espírito desapegado e o mundo diabólico das finanças. E se, às vezes, o pobre capitalista sucumbe à tentação é porque, nisto das músicas, “à medida que alguém vai crescendo, torna-se vítima do seu próprio sucesso”. Pois é, coitados, são umas vítimas. Mas, no fundo, que importância tem tudo isso? Tudo se revela claro e inocente. E tem razão quem afirma que “é só música, uma canção que se canta e se vende”.

O Disco

É uma salganhada. Ainda por cima, tivemos direito apenas a uma cassete amostra que inclui um resumo aleatório, mal amanhado e ainda mais mal gravado, da totalidade da obra, deixando de fora nomes e ideias importantes e incluindo outros perfeitamente medíocres e de todo despropositados.
Dos que foram incluídos à laia de engodo, destaque para os Pixies e a versão paranoica e saturada de eletricidade, produzida por Steve Albini, de “Born in Chicago”, um original de 1965 dos Butterfield Blues Band; os Ambitious Lovers e o “funky” esquelético com que traduziram “A Little Bit of Rain” de Fred Neil; Wayne Horvitz e um Bill Frisell alucinado, a suportar Robin Holcomb, menina de voz tremida e poderosa como a da índia Buffy Saint Marie, de “Soldier Blue”, cantando “Going Going Gone”, do Bob Dylan de 1974; e os They Might Be Giants numa interpretação weilliana do original de Phil Ochs “One More Parade”. John Zorn e os seus companheiros Robert Quine e Bill Frisell foram cortados a meio mal tinham aquecido na histérica e coerente leitura que faziam de “T.V. Eye” dos Stooges. A fita não chegava…
O resto é Billy Bragg, mais frenético do que nas habituais tiradas políticas, em “Steven & Steven is” dos Love, os “rhythm & blues” dos Black Velvet Band para um original de Warren Zevon, o açúcar “pop Sugarcubes” sugado aos Sailcat, o “reggae” de Shinehead para um tema de Josh White, uma paródia à Pogues, em “Bottle of Wine”, de Tom Paxton, com acordeão e bandolim avacalhados, por parte dos Havalinas, os Happy Mondays armados em Stones no “Tokoloshe Man” de John Kongos, 10.000 Maniacs divertidíssimos e todos “seventies” a cantar “These Days” de Jackson Browne, como se fosse ontem, e, finalmente, os Beautiful South e mais uma voz feminina e inofensiva tentando imitar Kate Bush, com solos de sax pelo meio, em “Love Wars” da dupla Womack & Womack. Ah, sim, o anúncio abre com os Cure a assassinar “Hello I Love you” dos Doors. Os mesmos Cure que, parecendo ser os atuais meninos bonitos da editora, abrem e fecham o rubi, com a sua versão e direito a ver um tema seu, “In Between Days”, interpretado por John Eddie. Bem feito. Cá se fazem, cá se pagam.



Tudo ao Molho

De fora ficaram, por exemplo, a rendição de “Marquee Moon” dos Television, pelo Kronos Quartet, os Metallica de que seria divertido ouvir a maneira como trataram “Stone Cold Crazy” dos Queen ou Tracy Chapman e Linda Ronstadt interpretando respetivamente os tradicionais “Rising Sun” e “The Blacksmith”.
Jevetta Steele, Gipsy Kings, Faster Pussycat, Phoebe Snow, Ernie Isley, Howard Jones, The Big F, Georgia Satellites, Sara Hickman, Teddy Pendergrass, Jackson Browne, Shaking Family, Howard Hewett, Shirley Murdock, Leadres of the New School, Michael Feinstein, Lynch Mob, Anita Baker e Danny Gatton completam a lista dos “atuais” ignorados. Pensando melhor, depois de a ler, talvez haja razão para agradecer o facto de termos sido poupados à audição da totalidade de “Rubáiyat”. Da lista dos antigos constam, entre outros, os New Seekers, Eagles, Carly Simon, Delaney & Bonnie, Cars, MC5, John Fogerty, Bread, Incredible String Band e Judy Collins.
“Rubaiyat”, a julgar pela amostra, parte de uma ideia interessante para se perder numa megalomania pouco significativa em termos exclusivamente musicais. É caso para se dizer “muita parra pouca uva” ou que “a montanha pariu um rato”. Ou que “nem tudo o que luz é ouro”. Neste caso, rubi.

Vários (Wes Montgomery, Terje Rypdal, John Abercombie, Pat Metheny) – “Lugares Distantes” (Dossier | ECM | Discoteca | artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 15 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A DISCOTECA

LUGARES DISTANTES

São três guitarristas e gravam normalmente para a ECM. Por muito que os seus caminhos por ali se tenham cruzado, cada qual parte para novas aventuras – para chegar a outras músicas, outras paragens, em que o jazz é apenas um pretexto.



Norueguês, 42 anos, admirador do lendário Wes Montgomery, um imenso e insuspeito currículo feito de incursões por territórios afastados e aparentemente inconciliáveis: o jazz, a música contemporânea, o classicismo romântico, mesmo o rock de tonalidades “hard”. Na ECM encontra-se grande parte destes trabalhos. O duplo “Odyssey” deu-lhe fama de contemplativo, propenso à introspeção e a um esteticismo marcado pelas imensidões geladas do país dos fiordes. “After the Rain” parecia dar razão àqueles que persistiam em ver nele apenas o guitarrista de sonoridade “String ensemble”, por vezes mesmo comparada à de Mike Oldfield, compositor de harmonias e melodias sustentadas por um lirismo pouco dado a fraturas rítmicas e temáticas. Álbuns como “Wave” (com o trompete de Palle Mikkelborg) e aqueles que recentemente gravou com o grupo The Chasers obrigaram à reformulação destes conceitos.

O fogo do espírito

“Undisonus/Ineo” (ECM, distri. Dargil) insere-se na vertente clássica do músico, que aqui não participa como intérprete. Nada de guitarra, portanto. Duas composições, como o genérico refere. “Undisonus” (op.23), em três andamentos, para violino e orquestra, composta entre 1979 e 1981. Terje Tønnsen, o instrumentista solista, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Londres, dirigida por Christian Egsen. “Ineo” (op.29), dividida em quatro andamentos: “Ineo”, “Lux”, “Memini” e “Adeo”, para as vozes corais do Grex Vocalis e a orquestra de câmara The Rainbow Orchestra, dirigida pelo mesmo maestro.
Terje Rypdal é um compositor prolífico. Só em “opus” já vai em 48, o último dos quais intitulado “The Big Bang”. O disco agora em análise confirma as suas capacidades neste campo, através da criação de uma música aberta aos grandes espaços e possuidora de uma intensidade dramática por vezes próxima da pungência mahleriana. Aparentemente serena na forma, avança em crescendo de tensão, através do emprego específico das cordas (nomeadamente os violoncelos e o baixo) e dos sopros, como massas sonoras poderosas, correspondentes ao telurismo da natureza. Pairando sobre o turbilhão elemental, o violino angustia-se, foge, investe, sussurra e grita, voz humana questionando o infinito. Música do fogo (o violino), da água (nos reflexos e cintilações da harpa fluindo como um rio) e da terra. Música do homem e do mundo primordial.
Do outro lado, “Ineo”, a ascese, o fogo transformado em espírito, elevando-se para as alturas libertadoras, até chegar ao céu. Sublimação das pulsões do corpo na voz coletiva da humanidade inteira. Maior contenção no volume, um júbilo subtil. Demanda de Deus. Na grande arte inventa-se o destino, deposto aos pés da eternidade.
“Undisonus/Ineo” transporta o misticismo de anteriores obras até às dimensões da religiosidade pura, que, na mesma editora, só encontra paralelo no total despojamento da trilogia “Tabula Rasa/Arbos/Passio” de Arvø Part. Ambos perseguem o sublime.

Academismo

John Abercrombie mantém-se fiel a uma sonoridade que fez escola na ECM. Em “Animato” apresenta na companhia de Vince Mendoza (nos sintetizadores e compositor da maior parte dos temas) e de Jon Christensen (na bateria e percussões). Reconhece-se a técnica irrepreensível, o bom gosto dos arranjos, mas não se confunda o belo com o bonito. Beleza, encontramo-la no disco de Rypdal, cores e sons agradáveis ao ouvido, no de Abercrombie. Falta-lhe o génio que torna irrelevantes todos os academismos. “Animato” é um disco académico, quando opta pela segurança de um estilo mantido a níveis qualitativos aceitáveis mas incapaz de reservar já qualquer surpresa ou transgressão. O que se torna irrelevante para os indefectíveis da editora.

As virtudes do trio

“Question and Answer” (Recycle, distri. WEA) é uma grata surpresa. Pat Metheny parece ter recuperado bem das inenarráveis concessões feitas ao comercialismo mais baixo, com que se distinguiu no ano passado no execrável “Open Letter”. Neste novo disco, chamou dois músicos fabulosos: o baixista Dave Holland e o baterista Ray Haynes. A gravação processou-se como se de uma “jam session” se tratasse – oito horas no estúdio, sem ideias preconcebidas, apenas o prazer de tocar, de ouvir e responder. E o deleite de quem assiste e frui a imensa riqueza de pormenores, de soluções tímbricas e harmónicas que o trio desenvolve ao longo de nove temas, em que o jogo de grupo prevalece sobre as ações individuais. Pat Metheny revela aqui até que ponto soube assimilar as influências que se lhe reconhecem – Wes Montgomery, sempre, Jim Hall, Gary Burton, Ornette Coleman, Miles Davis, dando-lhes um cunho pessoal inconfundível. Inesquecível a abordagem do tema de Miles que abre o disco, “Solar”, bem como de “Law Years”, de Ornette. Só escutando se torna possível distinguir a gama infinita de soluções rítmicas de Haynes que, sem nunca repetir uma frase, uma acentuação, mantém, contudo, a solidez necessária ao desenvolvimento harmonioso do todo. Quanto a Dave Holland, basta referir que a sua prestação é um contínuo solo, inesgotável no duplo papel de suporte e estimulador dos outros instrumentos, fluxo assombroso de ideias que se interligam e constantemente se renovam. Aqui se reitera a opinião de que Pat Metheny, sendo embora um compositor apenas competente, se transfigura quando integrado em formações instrumentais, ou em contextos formais suscetíveis de o colocarem em situações de interação musical deslocadas do seu “approach” habitual. Seja nas peças de Reich, ou na companhia de Sonny Rollins e Ornette, é sempre em situações de diálogo e confronto que as suas capacidades se revelam ao mais alto grau.
“Question and Answer” vem repor as velhas questões sobre o papel determinante da interpretação sobre a composição. Sendo esta, em última análise, sempre improvisação. Criatividade solta no instante, com Metheny, sempre partilhada.

Vários – “Música Da Terra” (folk | dossier)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 8 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Folk

A DISCOTECA


MÚSICA DA TERRA

Rock, pop, o estardalhaço, a rádio sempre aos guinchos, as banalidades semanais, acabam por cansar. Saturam-se os ouvidos, esgota-se a paciência e procura-se avidamente o refrigério. Vasculham-se os arquivos e de repente, coberto de poeira, encontramos o rótulo já esquecido: “Folk”.



Sorrimos e recordamos, nostálgicos, os anos passados. Era na passagem de uma década para a seguinte. Há vinte anos, mais ou menos. Vivia-se a época da música progressiva. Considerava-se progressiva toda a música que incluísse flautas, cítaras, Mellotron e o obrigatório “Moog synthesizer”. O rock atravessava um momento de descrédito. Na Inglaterra, um grupo de jovens a quem os ritmos urbanos não diziam grande coisa, resolveu olhar para o passado e reviver a tradição da sua terra. De fora, chamaram ao movimento “folk revival”. Fairport Convention, Steeleye Span, Trees, Tudor Lodge hesitavam entre o folclore e o rock, logo, praticavam “folk rock”. Foram aceites como mais um bando de malucos, que outro nome se podia dar a quem se preocupava com os costumes dos “velhotes”, coisas antigas, névoas e lendas ancestrais? O movimento foi moda e, como todas as modas, passou. Esgotado o tempo a que tinha direito, a corrente fluiu, subterrânea. Na nova década em que entrámos, de novo a cíclica explosão. Por cá chegam constantemente novos discos e aumenta a legião dos “maluquinhos da folk”. A Nébula foi pioneira, no capítulo das importações. Seguiram-se-lhe a VGM, a Mundo da Canção, do Porto, a cooperativa Etnia, de Caminha, e agora também a Contraverso entra na corrida, dispondo já em stock de preciosidades do catálogo “Topic”, dos mais antigos e prestigiados das Ilhas Britânicas.

Sons rurais

Martin Carthy, conhecem-no os mais sabedores destas antiguidades musicais, dos Steeleye Span, onde cantava e tocava guitarra. Mas talvez se desconheça que gravou inúmeros álbuns a solo ou acompanhado pelo violinista, ex-líbris dos Fairport Convention, Dave Swarbrick. “Second Album”, “But Two Came by” e “Prince Heathen”, estes com a participação do homem do arco que consegue tocar em quinta velocidade com o cigarro aceso ao canto da boca, sem se atrapalhar, e “Byker Hill”, “Crown of Horn”, “Out of the Cut” e “Right of Passage”, de Carthy a solo, os dois últimos anteriormente já importados pela Nébula. A voz de entoações ligeiramente nasaladas como convém neste tipo de música e a mestria guitarrística do ex-Steeleye Span encontram na versatilidade e virtuosismo de Swarbrick o contraponto ideal na interpretação de um reportório constituído principalmente por baladas do cancioneiro rural inglês ou (em menor escala) da tradição medieval palaciana. Recente e abordando a matéria de forma original, o quinteto Brass Monkey, de que faz parte e que integra também John Kirkpatrick, utiliza instrumentos de sopro no desenvolvimento das jigas e “reels” tradicionais. Se soubessem, os colegas do jazz corariam, pela heresia do gesto, pela profanação do saxofone sagrado, nascido com o destino traçado – espelhar e cantar a alma negra através de uma música que, por direito e origem, lhe pertence.
Kirkpatrick, especialista da anglo-concertina e do acordeão de botões, fez parte dos Albion Band e colabora desde longa data com a cantora Sue Harris, que também toca oboé e saltério. Imprescindíveis são os álbuns “Facing the Music” (só de instrumentais), “Shreds & Patches” e “Stolen Ground”, outras tantas corridas por montes e vales no tempo que medeia entre a magia do meio-dia e o piar do mocho no campanário da igreja, prenunciando a meia-noite.

Nos lagos

Robin Dransfield, outrora metade do duo formado com o seu irmão Barry, é outro vocalista de inegáveis talentos, acrescidos aos de arranjador e intérprete. Provam-no as canções de “Tidewave”, antigas, sentidas, vibrantes nas cordas da guitarra esquecida do presente, no poder evocativo de uma sanfona trazida do reino da França. Peça indispensável na coleção de um apreciador que se preze.
Mais ocidental, a Irlanda assombra pelo mistério de castelos perdidos no meio de escuras florestas, das rochas com histórias para contar, do mar infinito de cujo fundo emergem lendas de sereias e pescadores unidos por inconfessáveis laços. E de muitos lagos, sem “Nessies”, mas encantados por elfos, duendes e fadas, seres que a imaginação tece e por isso são reais. Os Boys of the Lough, ao lado dos Chieftains, afirmam-se como um dos mais antigos e conceituados mestres do “irish folk” e o violinista Aly Bain, um dos seus nomes lendários. “In the Tradition” e “Open Road” são a um tempo conservadores e inovadores no modo como interpretam o folclore irlandês, recorrendo exclusivamente à instrumentação tradicional e à clássica combinação violino/”tin whistle”/flauta, para criar sequências respeitadoras dos cânones, na alternância entre as danças e as baladas vocalizadas. Mais tarde entraria em cena a gaita-de-foles de Christy O’Leary, enriquecendo ainda mais o som dos Boys.

Tradição presente

Os House Band não serão tão ortodoxos, mas talvez até por isso a sua música revela-se ainda mais excitante. Os álbuns “Pacific” e “Word of Mouth” divergem na apreciação das temáticas originais, no primeiro caso vogando na serenidade dos “airs” interpretados pelo tin whistle e pela flauta, no segundo soltando-se em extroversões instrumentais e vocais em que a gaita-de-foles e a bombarda fazem a festa. Refira-se por último “Fire in the Glen”, do trio composto por Andy Stewart, Phil Cunningham (dos Silly Wizard) e Manus Lunny, semelhante aos Planxty nas vocalizações do primeiro, despreconceituado na utilização do sintetizador e dos teclados eletrónicos apostados em construir uma música que, embora mais sofisticada, não perde de vista as origens que lhe estão na base.
A audição de qualquer destes discos constitui uma oportunidade única para todos aqueles interessados em conhecer as diferentes vias e ramificações de um género que constantemente se renova e enriquece, apostado, pelo espírito, o sal e a pedra, na edificação do templo dos celtas, de paredes sólidas, totalmente transparentes. Como um prisma de cristal refractando a luz branca nas sete cores do arco-íris.