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Magma – “A Música Do Fogo” (valores selados | dossier | artigo de opinião | blitz)

BLITZ 10 OUTUBRO 1989 >> Valores Selados


MAGMA
A MÚSICA DO FOGO


A história da música popular contemporânea está repleta de mitos. Uns para sempre irradiando glória do alto dos seus pedestais, erigidos pelas multidões. É o panteão oficial dos consagrados. Depois há os outros, tão ou mais importantes do que aqueles; os malditos, sempre incompreendidos, sempre mais à frente dos restantes. As massas passam ao seu lado sem os verem, excetuando uma minoria mais atenta que sabe distinguir a marca dos eleitos. Dos deuses, não dos humanos.
Os Magma pertencem a esta categoria. São obscuros e grandiosos. Christian Vander, o seu líder e mentor espiritual de sempre, é das figuras mais importantes e enigmáticas que têm atravessado o universo musical do nosso século. Génio para uns, louco para outros, é talvez ambas as coisas. A sua obra ergue-se num monumento definitivo – Construção musical e ideológica perfeitamente homogénea e coerente. A música de Vander é UNA e UMA. História intemporal com vários capítulos correspondentes a outros tantos discos. História da Luz e das Trevas. Da guerra e da serenidade. De todas as lutas e contradições. Se há uma música que reflete na perfeição esta dialética entre pares de opostos temáticos, estéticos e ideológicos, ela é a dos Magma. E a prova de que a Utopia é possível.


DOS DEUSES E DOS HOMENS

Mas comecemos pelo princípio. Christian Vander é francês e Kabaiano. Confusos? Eu explico. Para Vander as linguagens convencionais não chegam. A sua única linguagem é a da desmesura, do heroísmo exacerbado, da demanda do Absoluto. Assim, inventou um mundo, um universo, com a sua língua própria, a sua história, os seus ódios e amores. O mundo de Kobaia, em cuja língua (inventada por Vander) são cantados todos os discos dos Magma. Vander chegou mesmo a pensar escrever um dicionário Francês-Kobaiano. Não sei se o chegou a fazer.
E os discos, estarão à altura da personagem? Absolutamente. Poderemos compreendê-los melhor se conhecermos os seus heróis. São eles Nietzsche, Wagner, Hammill e Coltrane. Aos dois primeiros deve as concepções totalitárias e o paganismo presentes em toda a sua obra. De Nietzsche em particular as suas teorias sobre o super-homem. De Wagner retém as suas noções operáticas. De Hammill e Coltrane o lirismo apaixonante e a dimensão visionária. Tudo isto junto valeu-lhe o apelido de fascista. O símbolo que escolheu para os Magma e sobretudo para a capa do seu primeiro álbum, também não ajudaram. O símbolo representava uma espécie de garra, a mesma que na capa esmaga uma multidão em pânico. No interior, um desenho dos membros do grupo fazendo estranhas saudações a um sol negro.

O UNIVERSO DE KOBAIA

«Magma» de 1970 é também o título deste 1.º álbum, um duplo magistral, obra ímpar da década que então se iniciava. Sons operáticos, jazz-rock sem concessões e ritmos militaristas aliam-se a uma energia inesgotável. Num dos temas, Vander discursa à maneira de Hitler, num dia de maior histeria. A temática do álbum refere-se à odisseia do povo de Kobaia, o planeta da Beleza, Bondade e Sabedoria, ameaçado por mil perigos. «Thaud Zaia», «Aurae» ou «Sckxyss» são nomes belos e estranhos para uma música ainda mais bela e totalmente fora do vulgar. Acompanham Vander, nesta aventura, alguns excelentes músicos, com destaque para o pianista François Cahen, o saxofonista Teddy Lasry, o baixista Francis Moze e o vocalista Klaus Blasquiz. Em 1971 é editado o álbum seguinte, «1001.º centigrades» – temperatura a que o magma vulcânico sai do interior da Terra. Vulcânico é também «Riah Sahiltaahk», tema que ocupa todo o lado A, réplica de Vander ao fabuloso «A Plague of Lighthouse Keepers», composto por Peter Hammill para a obra-prima «Pawn Hearts», dos Van Der Graaf Generator, editada nesse mesmo ano. Onde nos Van Der Graaf a energia é inerente e subjugada pela palavra poética de Hammill, nos Magma é o vulcão em plena atividade. Juntaram-se ao coletivo mais um saxofonista, Jeff Seffer e um trompetista. Os metais sempre foram, de resto, fundamentais na estrutura sonora do grupo, constituindo-se como um dos principais destacamentos do exército comandado por Vander.

OS COMANDOS DA DESTRUIÇÃO


Em 73 é editado «Mekanik Destruktiw Kommandoh», o álbum mais conhecido do grupo, primeiro editado em Inglaterra, com o selo A&M. É o 3.º movimento da trilogia «Theusz Hamtaahk» – o julgamento da humanidade, culpada dos crimes de crueldade, desonestidade, inutilidade e falta de humanidade, segundo a palavra do profeta Nebehr Gudahtt, inspirado pelo espírito do Universo. Vem-nos à lembrança «Dune», obra aliás cuja versão cinematográfica realizada por David Lynch esteve para ser musicada por Vander. O álbum assinala a entrada no grupo da sua mulher Stella, com a sua voz soprano de diva alucinada. Stella é a estrela deste disco. Sozinha ou acompanhada, em longas invocações culminando numa histeria coletiva. Imaginem Diamanda Galás integrada num coro, invocando estranhos deuses. É mais ou menos isso. A grande falha do disco está num defeito das gravações originais, problema que Vander, na altura, se viu impossibilitado de solucionar. A secção rítmica formada pelo baixo e bateria é, em algumas partes, praticamente inaudível. Convém aqui esclarecer que Christian Vander, além de grande compositor é um fenomenal baterista, aliando uma técnica perfeita a uma energia quase desumana.


MUNDOS VULCÂNICOS

«Kohntarkosz» de 1974 é a continuação, mais instrumental, de «Mekanik». É também o titulo da composição-chave, meia-hora orgiástica, com todos os instrumentos contribuindo para a criação de um clima grandioso e angustiante. A música e intensidade opressiva ergue-se a alturas talvez só atingidas novamente por Hammill em «In Camera», na sequência «Gog/Magog». Jannick Top entrara entretanto para os Magma e seria o único a aguentar até ao fim a pedalada de Vander. As sonoridades convulsivas do seu baixo e violoncelo e a entusiástica adesão às ideias do mestre tornaram de imediato Top numa peça fundamental para a música do grupo. Por esta altura Top e Vander formavam a Uniweria Zekt, associação global, aglutinadora de todos os pressupostos estéticos e ideológicos do universo construído pelo músico francês. O álbum incluía ainda «Ork Alarm», da autoria de Top, descrevendo o combate entre os povos de Kobaia e Ork, o planeta cujos habitantes estavam para as máquinas como estas estão para os humanos. O tema é literalmente arrasador. O álbum termina com «Coltrane Sundia», pungente homenagem de Vander a um dos seus mestres espirituais.
É editado entretanto o duplo ao vivo «Magma Live», demonstração exemplar da energia libertada pelo grupo nas suas prestações em palco, em atuações que chegavam a durar perto de oito horas.
1976 vê surgir «Udu Wudu». O 1.º lado é totalmente ocupado pela suite «De Futura» com os Magma reduzidos ao trio Vander/Top/Blasquiz. É um tour de force rítmico, em contínuo crescendo. 18 minutos de lava sonora a transbordar culminando num êxtase absolutamente indescritível. Neste disco eram utilizados pela 1.ª vez os sintetizadores. A eletrónica predominava já no álbum seguinte «Attahk» que nada adiantava em relação a obras anteriores.

O CREPÚSCULO DO HERÓI

A partir daqui Vander perde-se em misticismos insondáveis. «Merci» e «Offering» apontam decididamente para direções mais jazzísticas e contemplativas. Vander trocava progressivamente a bateria pelo piano, dando especial ênfase ao trabalho de orquestração. Gravou ainda três álbuns a solo: «Tristan et Iseult», ainda no tempo áureo dos Magma, «Fiesta in Drums» e o recente «To Love», autêntica anedota, com o antigo baterista cantando esganiçadamente baladas de uma espiritualidade balofa, acompanhadas ao piano. O resultado é, no mínimo, confrangedor.
Ficam um passado glorioso e as fundações de uma escola que não tem parado de formar novos discípulos, dos quais os mais brilhantes são hoje os franceses Art Zoyd e os belgas Univers Zero.
Para a semana ficaremos na Alemanha, com os Faust.

Can – “Canibalismo – 2ª Parte” (dossier | artigo de opinião)

BLITZ 3 OUTUBRO 1989 >> Valores Selados


CANIBALISMO
2ª PARTE


Depois de uma série de obras magistrais, «Saw Delight» marca o início da decadência. Holger Czukay, peça essencial no xadrez Can, abandona o grupo. Para o seu lugar entra Rosko Gee acompanhado do percussionista Rebop Kwaku Baah, ambos vindos dos Traffic. Com a saída de Czukay perdia-se para sempre o lado genial e excêntrico, ao mesmo tempo que se desfazia uma das melhores secções rítmicas de sempre da música popular contemporânea. A posterior obra a solo de Czukay viria a confirmá-lo. Este senhor de bigode e já entradote em anos era e continua a ser o experimentador e inovador por excelência. O génio incompreendido que transporta às costas o pesado fardo de fazer avançar a música do nosso século. «Saw Delight» é a antiapoteose; «Animal Waves» é o requiem final de despedida nostálgica da antiga magia, quinze minutos de derradeiro transe africano. Anos mais tarde o continente negro voltaria a reclamar em força os seus direitos. O grupo gravou ainda «Out of Reach», título premonitório das exéquias finais. Os Can foram dados oficialmente como extintos. A sua música continua porém a ser fonte inesgotável de inspiração para os músicos e grupos das novas gerações.


Lisboa decadente

Ainda vieram a Lisboa tocar no célebre concerto do Pavilhão dos Desportos, aquele que, para a história da música ao vivo em Portugal, ficou para sempre conhecido como o dia de glória dos portuenses Arte e Ofício. O público aplaudira a banda de Sérgio Castro e vaiara os germânicos que nem tiveram tempo de aquecer. Histórias para esquecer.
Os quatro músicos da formação essencial seguiram cada um o seu caminho. Com maior ou menor sucesso, nenhum deles deixou ficar mal o grupo-pai.

Guitarras, romantismo e batucadas

O teclista Irmin Schmidt foi o mais discreto. Gravou uma série de álbuns com música de filmes, todos intitulados «Filmmuzik», divididos em vários volumes. O melhor é o duplo que inclui os volumes 3 e 4. Dois temas vocalizados ao nível dos melhores de sempre dos Can: «She Makes me Nervous» e «Mary in a Coma», com a participação do fabuloso percussionista Trilok Gurtu. O resto é música instrumental, ultra-romântica, descritiva, essencialmente à base de piano. Schmidt é uma espécie de Wim Mertens mais robusto e rebuscado. Fez ainda parte do projeto Toy Planet, com o saxofonista Bruno Spoerri. O único álbum gravado oscila entre a eletrónica ambiental e alguns ritmos mais dançáveis. O guitarrista Michael Karoli gravou um excelente álbum «Deluge», de parceria com Polly Eltes, uma menina de voz sensual, entre Annette Peacock e Laurie Anderson. A guitarra de Karoli permanece mais metálica e incisiva do que nunca.
Quanto ao percussionista Jaki Liebezeit, o seu caso é surpreendente. Formou os Phantom Band, já com meia dúzia de álbuns no ativo. São os continuadores encartados do som típico dos Can. Mais eletrónicos e bem-humorados que o original. Também mais experimentalistas. Ritmos acústicos e sintéticos, vozes hilariantes, temas superinspirados, fazem de «Nowhere», quinto disco de série, um disco essencial, indispensável não só para os incondicionais da família canibal. Registe-se ainda a participação de Liebezeit na obra-prima «Before and after Science» de Brian Eno.

Um excêntrico de génio

E eis-nos chegados a Holger Czukay, o maior entre os maiores. Czukay foi o pioneiro de muita coisa. Muito antes do aparecimento dos milagrosos samplers já ele se dedicava a entrecruzar sons das mais diversas origens. Com meios artesanais e enormes doses de paciência e de talento. «Canaxis», gravado em 68 e originalmente editado no ano seguinte, é o seu primeiro disco a solo, gravado unicamente com o baixo e cassetes pré-gravadas. Em «Boat Woman Song», a voz de um cantor vietnamita sobressai de um fundo de baixo e música medieval. Brilhante.
«Movies», de 1979, é o extraordinário antecessor de «My life in the Bush of Ghosts» da dupla Eno/Byrne. «Oh Lord Give us More Money» ou «Persian Love» são verdadeiros tratados na arte da colagem sonora.
«On the Way to the Peak of Normal», terceiro a solo, é o único disco que nunca consegui ouvir. Quem o conhece afirma estar a nível dos restantes. Acredito plenamente. O seguinte, «Der Osten ist Rot» («O Oeste é Vermelho») de 84, é o disco mais heterogéneo da sua discografia. Canções pop, Rap, música concreta, interlúdios ambientais e uma delirante paródia ao hino nacional chinês, fazem deste disco uma espécie de cartilha de todas as direções musicais exploradas pelo músico. «Rome Remains Rome» de 87, último até à data, é formalmente o seu disco mais tradicional. Os Blues e o reggae filtrados pela excentricidade do mestre. E uma ironia e humor constantes. Como em «Perfect World» ou «Blessed Easter» em que Czukay põe o pop star Wojtyla a cantar uma homilia em ritmo de blues, acompanhado por um grupo de freiras swingantes. O Vaticano não voltará a ser o mesmo.
Holger Czukay tem colaborado um pouco com toda a gente importante da música inteligente atual. Jah Wobble, Brian Eno, o duo alemão Cluster e David Sylvian são alguns dos músicos que com ele tiveram o privilégio de trabalhar. «Flux + Mutability», segundo da sua colaboração com Sylvian, foi recentemente editado e já se encontra entre nós, via importação. Já o ouvi e é excelente. Sobretudo o primeiro lado, uma continuação mais sofisticada das premissas estéticas enunciadas em «Canaxis».
Dos Can e dos seus quatro principais membros se poderá dizer que fizeram e ainda fazem História. O futuro da música continua a passar pela sua inspiração. Infelizmente hoje os canibais são outros, bem diferentes e sobretudo mais perigosos. Para a semana, Christian Vander e os Magma.

Can – “Can ibalismo 1ª Parte” (valores selados | dossier | artigo de opinião)

BLITZ 26 SETEMBRO 1989 >> Valores Selados

Os Can foram, sem dúvida, um dos grupos mais marcantes de toda a década de setenta. Surgidos do caldeirão da cena underground berlinense do final dos «sixties», cedo se demarcaram da orientação estética predominante neste movimento.


CAN
IBALISMO
1ª PARTE


A Kosmische Musik, por muitos erradamente apelidada de rock alemão, entrava então em cena, logrando implantar-se, anos mais tarde pelo resto da Europa. Um nunca mais acabar de grupos ensopados no psicadelismo da época, projetava todo um misticismo para o cosmos infinito. Era a resposta germânica ao Flower-Power dos jovens hippies americanos. A filtragem eletrónica das experiências alucinatórias ou de auto-iluminação, num contexto inovador. Quilómetros e quilómetros de cabos de ligação entre os sintetizadores e os neurónios. A maioria não resistiu à passagem do tempo e das modas e ficou pelo caminho. Para a História ficaram, no entanto, alguns nomes importantes como Popol Vuh, Ash Ra Tempel, Cluster, Guru Guru, Wallenstein ou Neu, para não falar dos hoje superfamosos Tangerine Dream ou do papa da música planante, Klaus Schulze.


FILMES DE MONSTROS

Os Can não foram em cantigas. Sintetizadores, nem vê-los. A única concessão à eletrónica era um estranho aparelho utilizado pelo teclista Irmin Schmidt, com o nome ainda mais estranho de Alpha 77. Procuravam o transe mas por outras vias.
Ao contrário dos seus companheiros de armas, alucinados pelos canos e botões dos seus Moogs, A.R.P. e VCS3, era nas percussões hipnóticas e no desregramento da voz que procuravam a libertação. Onde todos os outros se voltavam para o Oriente em busca do novo Katmandou cósmico, os Can mergulhavam nas raízes negras africanas. Onde todos os outros pronunciavam devotamente o OM universal, o vocalista japonês Kenjo «Damo» Suzuki berrava histericamente onomatopeias sem sentido aparente, quando não apenas sons guturais ou gritos lancinantes, nem espécie de regressão às origens da voz humana.
A formação que deu melhor conta de si foi o clássico quinteto constituído pelo já citado «Damo» Suzuki, até então cantor de rua, o teclista Irmin Schmidt e o genial baixista Holger Czukay, ambos ex-discípulos de Stockhausen, o baterista e percussionista Jaki Liebezeit e o guitarrista Michael Karoli.
«Monster Movie» de 1969 foi a primeira grande obra, evidenciando uma sonoridade ainda não totalmente liberta das influências da West-Coast americana, com longas improvisações à boa maneira das jam-sessions de grupos como os Grateful Dead ou Jefferson Airplane. Mas já lá estava a batida hipnótica e metronómica característica de toda a sua obra.


GRITOS E SUSPIROS

«Tago Mago» é a primeira obra-prima, um duplo álbum literalmente avassalador. Os ritmos tornam-se mais complexos. A guitarra de Karoli cortando a direito como uma lâmina de aço.
Schmidt produzindo com o seu Alpha 77 sons de insetos mutantes e, claro, a voz e o canto crescentemente alucinados de Suzuki. A par de longas sequências de instrumentais de quase 20 minutos, canções como o clássico «Mushroom» ou a resposta ao misticismo então vigente: «Aumgn», paródia ameaçadora e distorcida à sílaba sagrada OM ou AUM, invertendo a polaridade às sonoridades eletrónico-planantes. Imensa e terrífica catedral demoníaca, povoada de ecos cavernosos e repetições angustiantes, num jogo infinito de espelhos. Mas também o humor e o encantamento de Alice no País das Maravilhas de «Bring me Coffee or Tea». «Tago Mago» marca decisivamente o início da década, confirmando os Can como um dos seus grupos mais vanguardistas.
Segue-se «Ege Bamyasi», de 72, levando todas as premissas musicais do grupo aos limites do absurdo e do delírio. «Damo» Suzuki ora gritando até ao paroxismo, revirando-nos as tripas, ora sussurrando ladainhas incongruentes ou de oculto sentido. É o disco da paranoia mais ou menos controlada. Depois dele tiveram mesmo de descansar, gravando «Soundtracks», como o nome indica, uma recolha de temas utilizados em diversas bandas sonoras.

DIAS FUTUROS

1973 vê aparecer «Future Days», para muitos o melhor álbum do grupo, opinião que partilho. É a obra da maturidade. A força e o telurismo até então dificilmente contidos são aqui magistralmente manipulados. A sucessão de clímaxes é substituída por um processo de sublimação, tornando a música infinitamente mais serena. «Bel Air», que ocupa a totalidade do segundo lado, é o apogeu, o ponto culminante de uma música que aqui atinge a perfeição. Afinal os Can também alcançaram o seu Nirvana.
«Limited Edition» é um apanhado de temas originais gravados entre 68 e 74. Esboços de um humor surrealizante («Blue Bag», «Mother Upduff») e a introdução das séries E.F.S. (Ethnological Forgery Series), pequenas peças de aproximação à música étnica (a mais antiga datada de 68!). Entretanto o vocalista japonês abandonava o grupo para se juntar às Testemunhas de Jeová (!). Era de prever a sua loucura definitiva… As vocalizações passaram a estar a cargo de Michael Karoli que tem a parte de leão no álbum seguinte, «Soon Over Babaluma». Álbum essencialmente instrumental em que Karoli dá lições na arte de bem tocar guitarra e se desembaraça razoavelmente no violino. O álbum inclui «Como Sta La Luna», uma inspirada maluquice cantada em espanhol, lembrando um dos descarrilamentos típicos de Kevin Ayers.
«Landed» de 75 e «Flow Motion» do ano seguinte, são os derradeiros trabalhos à altura dos anteriores pergaminhos e os últimos gravados com o então quarteto constituído por Karoli, Schmidt, Czukay e Liebezeit. Ostentam o som habitual do grupo, por esta altura já consagrado em toda a Europa.
«Saw Delight» assinala o início da decadência. Mas esta e outras histórias ficarão por contar até à próxima semana. Assim, no próximo número, não perca: «O célebre concerto no Pavilhão dos Desportos», «Aventuras e desventuras a solo de cada um dos Canibais». Tudo isto e muito mais.