Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Johnny Cash – “The Mistery Of Life”

Pop Rock

17 ABRIL 1991

Johnny Cash
The Mystery of Life

LP/MC e CD, Mercury, distri. Polygram

cash

Ao fim de 36 anos de carreira ininterrupta, Johnny Cash, rei da “country music”, mantém intactas uma frescura e uma originalidade de escrita surpreendentes. Produzido por Jack Clemente, o mesmo dos discos gravados para a editora “Sun” (onde durante anos pontificou um outro rei – Elvis Presley) da década de 50, “The Mystery of Live” confirma o seu autor como um dos pilares a música tradicional americana. Desde o balanço contagiante da “cowboy song” de abertura, “The Greatest Cowboy of Them all”, a baladas como “I’ll Go somewhere and Sing my Songs again” (co-composta por Tom T. Hall), o original de Dylan “Wanted Man” ou a nova versão de uma das suas primeiras canções, “Hey Porter”, Johnny Cash continua a cantar, com o empenho e a mestria de sempre, as histórias e História do outro lado da América. “Goin’ my Book” demonstra até que ponto Stan Ridgway, o moderno “cowboy” americano, aprendeu com as lições do mestre. Indispensável para os amantes do género. ****

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Vários – “Ish”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Vários
Ish

LP e CD, Some Bizarre, import. Contraverso/Bimotor

ish

Stevo, mentor e anjo negro da Some Bizarre, é o equivalente sombrio de Daniel Miller, da Mute. Ambos partilham o gosto pelo risco e por sonoridades pouco recomendáveis a almas sensíveis ou menores de idade. Se Daniel Miller traz para a Mute Diamanda Galas, Steve responde à letra e assina com os Einstuerzende Neubauten. A Mute consegue os Laibach? A Some Bizarre atira-lhe à cara com Foetus. E assim por diante, sem que se saiba muito bem quem abre as hostilidades. Motivo para os músicos de regozijarem, não fora o pormenor dos casos citados pouco tempo terem para festejos, de tão ocupados andarem com tarefas bem mais importantes, como a destruição do mundo, a corrupção das mentes jovens e a aniquilação de si próprios.
Assim passe-se delicadamente à frente e repare-se na colectânea em causa onde, ao lado dos “maus” (Neubauten, F. M. Einheit e Foetus), se deu espaço aos simplesmente decadentes (Marc Almond, brilhante em “Toreador in the Rain”), os discretamente estranhos (uma senhora de música e voz bizarras, Lucia Dehli, que nos Vicious Circle canta as virtudes da “Underground ecstasy”), ou os estranhíssimos Mother the Wardrobe Is full of Infantrymen, que, no tema do mesmo nome, contam à mãe a história de exércitos escondidos no guarda-fato.
Anotem-se ainda as prestações de Agnes Bernelle (próxima de Marianne Faithfull) em “Song about Mary”, num registo mais suave do que o habitual cabaré brechtiano, e o funk industrial de Zeke Manyika, produzido por Keith Le Blanc. Os Stex, Tim Hutton e Kandise King limitam-se a assinar o ponto através de banalidades dançáveis, esta última chegada a territórios próximos dos de Whitney Houston e da MTV. Para tornar a coisa mais confusa, refira-se que pelo menos quatro faixas fazem alusão directa a temas bíblicos ou à religião em geral. Com cerca de 37 mn. de duração, “Ish” é uma amostra que, embora significativa de algumas das obsessões da casa, peca por escassa e inconsequente. ***

Legendary Pink Dots – “The Maria Dimension”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Legendary Pink Dots
The Maria Dimension

LP e CD, Play It Again Sam, distri. Contraverso

lpds

Herdeiros legítimos da música progressiva dos anos 70, os Legendary Pink Dots representam uma das vertentes mais heterodoxas e estimulantes da cena alternativa actual. “Island of Jewels”, “Any Day now”, “The golden Age”, “Crushed Velvet Apocalypse”, e sobretudo a obra-prima “Asylum”, duplo que retrata os esplendores e dores da loucura, criaram-lhes uma aura de bizarria e qualidade que, de álbum para álbum, se tem vindo a reforçar.
Edward Ka’ Spel (profeta e vocalista da banda) é uma personagem estranha, misto de Syd Barrett e Peter Hammill, mergulhada numa alucinação contínua e colorida, povoada de fantasmagorias autobiográficas. Das suas obsessões constam o Apocalipse, a cor roxa e uma tal senhora sem nome de mil rostos, entre o celestial e o sinistro. Desta vez a Senhora é nossa e merecedora de todo o respeito. A capa retrata-A num pisa-papéis, daqueles transparentes que se voltam ao contrário para ver cair a neve e que abundam em Fátima. De resto, “The Maria Dimension” contém diversas alusões aos segredos e à iconografia ligados ao santuário.
A “dimensão de Maria” estende-se ao longo de hora e meia (o CD tem mais onze temas que o álbum, incluindo um CD single de bónus) por sonoridades luxuriantes e poemas labirínticos, com incursões na música barroca, no experimentalismo electrónico ou nas ragas indianas. Edward Ka’ Spel grita, sussurra, declama palavras (por vezes trituradas por computadores carnívoros) que se interligam como as peças de um “puzzle”. A paleta instrumental inclui cordas e sopros variados, electrónica, percussão e um número razoável de instrumentos exóticos. Enquanto o fim do mundo não chega, os Legendary Pink Dots vão desenterrando os seus tesouros. ****

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