Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Michael Oldfield – “Heaven’s Open”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Michael Oldfield
Heaven’s Open

LP, MC e CD, Virgin, distri. Edisom

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Mike Oldfield andou a ler “Dr. Jeckyll and Mr. Hyde”. Nunca o deveria ter feito. Desde muito novo dado a problemas psicológicos à beira da patologia clínica, vê-se agora confrontado com uma terrível e dolorosa divisão na personalidade – uma confusão que lhe mói a cabeça e lhe corrói a alma ao ponto de o fazer mudar de nome e passar a tocar somente guitarra e teclados, em vez das habituais dezenas de instrumentos.
Assim, no primeiro lado, encontramo-nos frente a frente com o temível Mr. Michael, a nova personalidade psicótica, já anteriormente assumida em “Crises” ou “Discovery” e que aqui irrompe triunfalmente, apostada em destruir toda a obra anterior do músico, a golpes de um execrável comercialismo pop, fruto inconfundível de uma mente perturbada.
Do outro lado, a calma reencontrada, o esplendor instrumental caro a Dr. Mike de antanho, nos quase vinte minutos de “Music from the balcony”, abrilhantados pelo saxofone de Courtney Pine. Mesmo a capa mostra o estado transtornado do ex-menino de ouro da Virgin, com o recurso tornado piroso das imagens fractais. Um caso clínico a seguir atentamente. Em relação às estrelas, feita a média dos dois lados, dá…) **



John Wesley Harding – “The Name Above The Title”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

John Wesley Harding
The Name Above the Title

LP e CD, Sire, distri. Warner Bros.

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Ironizando – Bob Dylan decerto se referia a John Wesley Harding quando escolheu o nome para título de um dos seus álbuns. Se compararmos, porém, as capacidades de Robert Zimmerman às de John Wesley Harding, verifica-se que as deste último ficam um pouco a perder. John, ao contrário de Bob, não possui uma voz inconfundível, antes pelo contrário – poderá haver quem a confunda com a de Elvis Costello. Tem de comum com Bob e Elvis o facto de escrever baladas, por exemplo “The people’s drug” ou “Driving in the rain”. Mas mesmo estas esquecem-se mais depressa. Em “Anonymous 1916”, “If you have ghosts” ou o psicadélico “Crystal blue persuasion” (tema antigo de Tommy James & The Shondells), as guitarras (imaculadas à maneira dos R. E. M. ou saturadas de efeitos de “fuzz” e “wah wah”) brilham. Nada de especialmente exaltante nem causador de lesões cerebrais irreparáveis. “The name above the title” fica-se pela média – terrível sentença aplicável às obras daqueles a quem os deuses não contemplaram com as graças do génio. As notas da capa mostram que ao rapaz não falta, pelo menos, o sentido de humor. As notas musicais perdem portanto no confronto com as outras – agradáveis e dispensáveis. **



F. M. Einheit – “Stein”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

CORAÇÃO DE PEDRA

F. M. EINHEIT
Stein

LP e CD, Some Bizarre, import. Contraverso/Bimotor

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“Vamos acabar com isto de vez”, era até há bem pouco tempo o lema dos niilistas berlinenses Einstuerzende Neubauten. “Isto” significa o mundo e a sociedade em geral, e a música em particular, que a banda de Blixa Bargeld parecia especialmente empenhada em destruir, à custa de golpes de serra eléctrica e martelo-pilão. A música resistiu estoicamente aos ataques destes assassinos em potência que, pelo meio, gravaram discos excelentes, como recente “Haus der Luege” faz questão de provar. Menos radical que Blixa parece ser F. M. Einheit, um dos pilares da banda germânica, decidido a experimentar novos caminhos e sonoridades menos próximos do apocalipse sónico característico do colectivo.
Não que Einheit se mostre interessado em investir no campo oposto, em suavidades ou tentações melódicas, aqui de todo ausentes. Pelo contrário, é ainda e sempre a violência que faz valer os seus direitos, apoiada no ritmo, por vezes avassalador, ou nas potencialidades tímbricas do ruído, às vezes mesmo na exploração do espectro sonoro, como as frequências de “Hafen”, vibrando nos limites do audível.
Onde “Stein” (pedra) se afasta da estética Neubauten é na recusa da carnificina, do caos, da pistola encostada à testa, tão ao gosto de Blixa, o perverso, optando em vez disso por registos mais controlados mas não menos perturbantes. A própria panóplia percussiva geralmente utilizada pela banda (bidões, peças de metal, objectos vários) desvaloriza-se em detrimento das programações rítmicas do computador – maquinismos automáticos implacáveis que alguém se esqueceu de desligar.
“Stein” começa por surpreender: “Educação” (cantado em português sem sotaque abrasileirado, por uma tal Katharina Franck que ou nos enganamos muito, ou terá uma costela lusitana) pretende ser um exercício de funk com botas marciais a que as palavras estrangeiras acrescentam um toque de exotismo. Para nós, “portugas”, soa mais a Adelaide Ferreira numa “soirée” ao lado dos DAF. No capítulo das (escassas) participações vocais, registam-se ainda as presenças da fantasma da ópera Diamanda Galas, em “Hymne (Witch burn)” e de Blixa Bargeld, em “Homeless”.
O resto de “Stein” desenvolve-se em sombrias incursões por universos rítmicos computorizados onde as únicas vozes que se fazem ouvir são as dos samplers, sejam as de multidões fanáticas urrando ao apelo hitleriano (“Das Ende einer Diskussion”), ou de uma criança balbuciando que “Batman brät Fische”.
Caspar Brӧtzmann (filho do expoente do free jazz Peter Brӧtzmann) e Alexander Hacke (dos Neubauten), ambos na guitarra, Ulrike Haage (acordeão) e Jan Schade (violoncelo) acrescentam um pouco de calor a uma música por essência e vocação pouco preocupada com a vil condição humana. O disco inclui uma espécie de homenagem, “Tribute to Cheb Mani”, dentro da mesma estética de aço inoxidável e do já citado “Das Ende Einer Diskussion”, “suite” que até ao fim se ocupa em exorcizar mais meia dúzia de fantasmas herdados do nazismo. F. M. Einheit tem um coração de pedra. À semelhança de “Wild at heart” – de novo o horror que nos fascina. ****

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