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Marc Ribot – “Guitarrista Da Cena “Downtown” Actua Hoje Em Lisboa – Sons Da Cidade De Néon”

cultura >> quarta-feira, 03.02.1993


Guitarrista Da Cena “Downtown” Actua Hoje Em Lisboa
Sons Da Cidade De Néon


Da “soul” e do “rock ‘n’ rol” até à “downtown” nova-iorquina, passando pela poesia de Ginsberg, o percurso musical de Marc Ribot tem sido um elo de ligação entre estilos e gerações diversificados. Wilson Pickett, Chuck Berry, Tom Waits, John Lurie e John Zorn contam-se entre os seus companheiros de viagem. Toda uma tradição que a sua guitarra reduz a estilhaços.



É este guitarrista e compositor conotado com a corrente “downtown” nova-iorquina, que hoje actua acompanhado pelo grupo Shrek, em Lisboa, no teatro S. Luiz, pelas 22h, num espectáculo organizado pela Simbiosis.
Marc Ribot nasceu em New Jersey, em 1954. Começou por estudar música com o compositor e guitarrista clássico Frantz Casseus. Os ensinamentos e a leitura da pauta foram-lhe de extrema utilidade para a fase seguinte da carreira, vivida entre o excesso de decibéis das várias “garage bands” onde tocou. Dicotomia entre classicismo e transgressão que constitui, em última análise, o núcleo central do trabalho que Marc Ribot viria a encetar no futuro com os Lounge Lizards e os Jazz Passengers, e que em “Rootless Cosmopolitans”, o seu álbum mais recente, atinge o ponto máximo de depuração.
Mas antes disso o guitarrista teve de fazer pela vida. Já em Nova Iorque e no final da década de 70, foi acompanhante do organista de jazz Jack McDiff e dos cantores “soul” Wilson Pickett, Rufus Thomas e Carla Thomas. Depois seria a vez do rock ‘n’ rol e de sessões com Chuck Berry em período de decadência.

Entrada Na “Catedral”

John Lurie, saxofonista, actor e personagem carismática da “downtown” (inesquecível o papel de saxofonista assassino que desempenhou nesse filme paradigma da paranoia urbana que é “Os Viajantes da Noite”, de Amos Poe) recrutou-o para os Lounge Lizards. É o ponto de viragem na carreira do guitarrista que a partir desse momento não parou de ser visto na “Knitting Factory”, catedral de todas as vanguardas “downtown”, e solicitado para projectos de autores ligados a outras áreas musicais. Tom Waits convidou-o para participar nos álbuns “Rain Dogs”, “Frank’s Wild Years” e “Big Time”. Elvis Costello fez questão de o ter presente em “Spike”.
Empenhado na exploração de novas linguagens para a guitarra eléctrica ou electrificada – em paralelo com Fred Frith, Derek Bailey, Christy Doran, Elliott Sharp, Rhys Catham, Robert Musso, Arto Lindsay, Robert Quine, Caspar Brotzmann ou Bill Frisell – de modo a levar tão longe quanto possível as possibilidades desse instrumento, Marc Ribot integra desde 1987 os Jazz Messengers, de Roy Nathanson e Curtis Fowlkes, extensão bem-humorada dos Lounge Lizards.
Entre as actividades do guitarrista contam-se igualmente a composição da banda sonora para “No Sense of Crime”, documentário com realização de Julie Jacobs, e três canções de parceria com Roy Nathanson sobre poemas de Allen Ginsberg – “To aunt Rosie”, “The shrouded stranger” e “The end”, incluídas na produção de Hal Wilner, “The Lion for Real”, dedicada aquele que foi um dos profetas da geração “hippie” norte americana.
Marc Ribot participa ainda numa lista extensa de álbuns, com destaque para “Pieces for Bandoneon” e “Il Piccolo Diavolo”, ambos de Evan Lurie, irmão de John Lurie, o segundo banda sonora do filme com o mesmo título realizado por Roberto Benigni, “Cynical Hysterical Hour”, de John Zorn, “Surprise”, de Syd Straw (Golden Palominos), “Mystery Train” de John Lurie e “Lust”, dos Ambitious Lovers, além próximo disco de Marianne Faithfull, ainda sem data de edição.
Acompanham Marc Ribot, na sua vinda a Portugal, os três músicos que formam o grupo Shrek: Jim Pugliese (composição nas áreas da música microtonal e do jazz; colaborações com John Zorn, Anthony Coleman e Bobby Previte, Solista da London Sinfonietta), em percussão, Roger Kleier (gravações e concertos com Zeena Parkins, David Moss e Stan Ridgway), segundo guitarrista, e Sebastian Steinberg (tocou com Syd Straw, Zeena Parkins, John Zorn e Elliott Sharp), no baixo. Sons da cidade de néon. Esta noite, em Lisboa. A não perder.

Robin Holcomb – “Rockabye”

pop rock >> quarta-feira, 13.01.1993


Robin Holcomb
Rockabye
CD Elektra, import. Contraverso



Poucos repararam nela quando saiu o seu primeiro álbum homónimo. É tempo de remediar a distracção. Robin Holcomb faz já parte da primeira divisão das grandes vocalistas da América do Norte. E das grandes compositoras, acrescente-se. Tem uma vantagem sobre a concorrência: é diferente. Diferença que se inclina para o lado da estranheza, o que em parte explicará o facto de não ter sido até agora divulgada a uma escala alargada. Ao contrário, por exemplo, de Suzanne Veja, cujas canções do novo “99,9ºF” se deixam apreender e seduzem logo à primeira audição, a música desta autora, casada com Wayne Horviz (expoente da electrónica “downtown” nova-iorquina), exige atenção e audições repetidas até revelar os seus segredos mais íntimos. Música de inflexões vocais subtis, de oscilações subliminais, de arranjos que jamais se acomodam à facilidade. Tão ou mais estranho que a voz de Holcomb é o modo como a intérprete faz cantar o piano, em círculos de cristal em tom menor que conduzem as palavras até regiões inexploradas. “Singer songwriter” é um termo que em Robin Holcomb (algures entre a criança e Buffy St. Marie) significa busca incessante de novos horizontes e acentuações musicais. Que vão do esboço em arabesco de “big band” etilizada de “Dixie” à incursão na “country” de “The goodnight-loving train”, extremos discordantes num álbum já de si apontado em múltiplas direcções.
Atenção aos músicos participantes: Stew Cutler, Doug Weiselman, Mino Cenelu, Guy Klucevsek, Bill Frissell, além do próprio Wayne Horvitz, com excepção de Minelu (Gong, Weather Report), nomes sonantes da citada “downtown”. (7)

King Crimson – “The Essential King Crimson Frame By Frame”

Pop-Rock Quarta-Feira, 27.11.1991


GÉNIOS ENCAIXOTADOS


…???

Pop-Rock Quarta-Feira, 27.11.1991


CORTES FINAIS DE UM REINADO CARMESIM
KING CRIMSON
The Essential King Crimson Frame By Frame
CD, E.G. / Virgin, distri. Edisom


“The Essential King Crimson” constitui um testemunho textual / musical de envergadura e um objecto de estudo indispensável para a compreensão da música de uma das bandas mais importantes das duas últimas décadas.



O objecto em questão começa por impressionar pelo lado da aparência: Uma caixa, à …ala de um disco LP, que inclui 4 CD, um livro de 64 páginas, profusamente ilustrado, que relata em pormenor cada passo dos King Crimson ao longo de uma existência atribulada, e uma folha com a árvore genealógica completa das várias formações lideradas por Robert Fripp.
Os três primeiros compactos correspondem, cada um, a fases específicas da banda; o último ficou reservado para os registos ao vivo. Refira-se a óptima qualidade das prensagens, conseguida através de … “re-masterings” e da utilização de novas técnicas de conversão digital.
A primeira fase corresponde ao período compreendido entre 1969 e 1971, durante o qual os King Crimson gravaram “In The Court of the Crimson King” (69), “In The Wake of Poseidon” (70), “Lizard” (70) e “Islands” (71). Fase “sinfónica”, apoiada nos contos de Peter Sienfield, contraponto poético ao demonismo desde sempre evidenciado pelo guitarrista. O som era então dominado pelas vagas orquestrais do “mellotron” sobre as quais a guitarra de Fripp flamejava.
De “In the Court of the Crimson King” reuniram-se a paranoia urbana de “21st century schizoid man”, os “sinfónicos” “Epitaph” e “In the court of the crimson king” e as baladas “I Talk to the wind” e “Moonchild”. Quanto ao álbum seguinte, “In the Wake of Poseidon”, há a lamentar a exclusão de três dos seus momentos fulcrais: “Pictures of a city”, que prolonga de forma mais elaborada a loucura de “s1st century…”, a solenidade majestosa do título-tema e a sequência instrumental “The devil’s triangle”, ilustrativo do tipo de energias que sempre alimentaram o guitarrista.
A opção, duvidosa (pese embora, a compilação ter sido organizada pelos principais interessados…), recaiu na introdução declamada “Peace – a theme”, em “Cat food”, que vale pelo solo de piano eléctrico de Keith Tippett e “Cadence & cascade”, remisturada já este ano, em que a voz de Adrian Belew substitui a de Gordon Haskell, no original. “Groon” é referida como pertencente a este álbum, o que é falso, pois o tema apareceu pela primeira vez no álbum ao vivo de 1973, “Earthbound”.



“Lizard”, para muitos o melhor álbum da banda, sem dúvida o ponto culminante da sua etapa inicial, apenas teve direito a umm excerto remisturado de “Bolero”, extraído da longa “suite” que ocupa todo o segundo lado do álbum. De fora ficaram os excelentes “Cirkus” e “Indoor games”.
Polémica é a inclusão de “Ladies of the road”, do disco seguinte, “Islands”, uma das brincadeiras muito do agrado dos King Crimson, com lugar reservado em cada disco e a agravante de ser mal vocalizada (por Boz. De resto, depois de Greg Lake, os King Crimson não voltaram a encontrar um vocalista à altura). Bizarria por bizarria, antes “Formentera lady”, longo crescendo instrumental apaziguado nos solfejos da soprano Paulina Lucas. Indiscutível, o fabuloso desempenho de Fripp na guitarra, em “Sailor’s tale”, embora o tema apareça cortado em cerca de metade do tempo.
O volume 2 da colectânea, correspondente aos anos de 1972 a 1974, é dominado pelo núcleo formado por Fripp, Bill Bruford (percussões), John Wetton (baixo) e David Cross (violino). “Larks’ Tongues in Aspic”, “Starless and Bible Black” e “Red” são os álbuns gravados pelos King Crimson durante este período. Nada a apontar em relação aos temas selecionados do primeiro, já que não faltam sequer os 18 minutos de folia do título-tema. O mesmo em relação a “Starless”, com “Night watch”, “The great deceiver” e “Fracture” presentes, o último amputado de alguns minutos. “Red” tem a honra de apenas ver preterido um tema, “Providence”. Sem dúvida o álbum culminante e mais duro DESTA FASE. Guitarra, baixo e bateria num dilúvio de electricidade e violência.
Após um período de interregno de oito anos – aproveitado por Fripp para desenvolver as suas “frippertronics” e gravar as colaborações com Brian Eno, “No Pussyfootin” e “Evening Star”, e, a solo, a trilogia “Exposure”, “God Save the Queen / Under Heavy Manners”, “Let the Power Fall” -, os King Crimson regressam para a sua (até hoje) derradeira fase, de 1982 a 1984.
“Discipline”, aqui recuperado quase na íntegra (“Indiscipline”, o tema que falta, aparece em versão ao vivo no 4º compacto), “Beat” e “Three of a Perfect Pair” dão a ouvir uma banda bem “integrada” no seu tempo, que não dispensa as cadências “funky” e a batida das caixas de ritmo. Adrian Belew dialoga com Fripp, na guitarra. A música perde em intensidade e dramatismo o que ganha em acessibilidade e concisão. Passada a era dos grandes épicos, as canções normalizam-se o que torna lícita qualquer selecção de temas. O inédito que figura no final deste 3º compacto tem tanto de divertido como de inesperado…
Para o fim, os registos ao vivo, outra faceta de que os King Crimson sempre tiveram razões de queixa, porque nunca se conseguiram libertar do estigma da má qualidade sonora. Mesmo em formato digital, esse problema não desaparece, nos excertos de espectáculos gravados em Inglaterra (1969, dois inéditos de estúdio: “Get the Bearings” e “Travel Weary capricorn”), Amsterdão (1973), Frejus (1982), Montreal (1984) e em “Ashbury Park” (de “U.S.A., 1975), “The Talking Drum” vem mencionado com a duração de 29 min. 04 seg. em vez dos 8 min. 30 seg. reais.



Tendo em conta a inevitável subjectividade que envolve qualquer tipo de escolha, a etiqueta “essencial” torna-se no mínimo problemática. Anunciada como sendoa colectânea definitiva dos King Crimson, “Frame by Frame” proporciona acima de tudo o prazer de reutar, em novo contexto e melhores condições, a música de uma banda que fez História e a oportunidade de perspectivar, de forma sistemática e fundamentada, a totalidade do seu percurso. (9)