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Benjamin Lew – “Made To Measure 17: Nebka”

IBÉRICO INVERNO 1988 >> Discos


BENJAMIN LEW
Made To Measure 17: Nebka LP
CRAMMED DISCS-88


Este é o volume 17 da série MADE TO MEASURE, da Crammed Discs Belga. Já tardava uma nova edição e este “Nebka” de Benjamin Lew, se em parte satisfaz, por outro lado ilude um pouco as expetativas e sabe a pouco. Porquê esta dupla sensação? O colecionador incondicional desta série (e é o meu caso), habituou-se a encontrar em cada um dos álbuns que a constitui, a par de uma qualidade musical intrínseca a cada disco, uma originalidade e diversidade de propostas que fazia de cada disco desta coleção, uma peça exemplar única. Ora, se neste volume 17, a qualidade continua a existir, já quanto à originalidade deixa algo a desejar. Fica-se com a sensação de que este é “apenas” mais um nº para acrescentar à série. Em parte esta sensação talvez resulte da própria escolha ter recaído em Ben Lew, que já participara, aliás, no volume 1 de apresentação deste selo, ou seja, a escolha parece ser demasiado óbvia e o músico demasiado “típico”. Ora, precisamente uma das características dos diversos discos editados, era esta recusa de uma música da qual se pudesse dizer: “Este é o género ou som da MADE TO MEASURE!”, como acontecia em relação ao som inicial da 4AD; sob a designação aparentemente unificadora de “musique de circonstance” (a circunstância é sempre única…) revelavam-se-nos propostas musicais radicalmente distintas e em que o fator surpresa era uma constante. Nunca se sabia que disco, que músico(s) ou que música constituiriam o próximo volume da coleção! Era (ou é) também nesta diferença que reside toda a coerência de todo este projeto editorial, no qual aliás o título MADE TO MEASURE é afinal bastante esclarecedor: um disco – uma peça musical única – uma música irrepetível.
Chegados a este ponto cabe esclarecer que os volumes imediatamente anteriores (nº15 e 16) são as reedições de dois discos de 1983 e 1985 do mesmo Benjamin Lew com Steven Brown, os álbuns “Douzième Journée: le verbe, la parure, l’amour” e “A propos D’un Paysage”, são sem dúvida superiores ao seu sucessor nesta série, “Nebka”, e com a vantagem de serem realmente peças musicais exemplares. Fica-se pois, após a audição de “Nebka”, com a dúvida de se teria sido necessária a edição deste disco, NESTA série, que nada acrescenta aos já citados LP’s. Talvez apenas a necessidade do lançamento de um disco mais recente por parte da editora.
Mas é então este um mau disco? – perguntarão os leitores – que não justifica uma audição ou mesmo a sua aquisição? É óbvio que não; considerado individualmente, este é um disco de qualidade muito acima da média: uma música que consegue ser ao mesmo tempo experimental e acessível, de uma beleza serena, às vezes possuidora de um lirismo próximo de um Wim Mertens. Melodias extremamente cativantes, alternando com sequências aparentemente mais dissonantes.
Acompanham Benjamin Lew, neste disco, nomes também eles familiares: Steven Brown, Marc Hollander e Blaine Reininger, seus companheiros de sempre.
Em suma, um disco extremamente belo, a merecer cuidada audição, tentando esquecer o facto de que é o mais recente volume da MADE TO MEASURE e sobretudo procurando fazer qualquer comparação com os restantes volumes desta série. O que eu fiz, afinal, nesta crítica…

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #84 – “Peter Blegvad (FM)”

#84 – “Peter Blegvad (FM)”

Fernando Magalhães
04.03.2002 140232
Antes de me “lançar” na “polémica” que parece estar a esboçar-se, sobre a relevância de grande parte de concertos da nova eletrónica…

…não posso deixar de recomendar a audição de “The Naked Shakespeare”, de Peter Blegvad (1983, ed. Virgin), que voltei a ouvir hoje de manhã.

Um álbum POP clássico que comprova a importância de P. Blegvad, como compositor e letrista.
A produção é de Andy Partridge, dos XTC, que também participa em várias faixas do disco (Familycat, suspeito que deverás gostar bastante, partindo do princípio que ainda não o ouviste…).

Entre uma pop excêntrica e momentos de puro surrealismo freudiano (“Irma”), o destaque vai para uma das grandes canções dos anos 80: “Powers in the air”, um falso-blues eletrónico com uma das linhas de sintetizador mais discretas mas eficazes que alguma vez ouvi.

Volto a aconselhar a audição urgente de “Jodoji Brightness”, do saxofonista Peter Apfelbaum com os Hieroglyphics Ensemble. O swing do tema “The hand that signed the paper” é assombroso. Para quem gosta de Lounge Lizards, Jazz Passengers, Ken Vandermark, etc, é imperdível!

FM
de partida para o almoço

Vários – “Pacote De Natal” (artigo de opinião | críticas | sugestões)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 1990 >> Fim De Semana >> Na Capa


PACOTE DE NATAL

DISCOS
POP ROCK
FM assina os seguintes textos




JEAN-MICHEL JARRE
Waiting for Cousteau
Dreyfus


O tema é a água, as profundidades oceânicas, o exotismo de paraísos distantes, beijados pelas ondas e onde apetece sonhar até ao fim dos dias.
Aventuras pelo reino marítimo, inspiradas nas viagens do velho mestre do Graal subaquático. Primeiro, as vertigens rítmicas do calipso, desaguando na “new age” (ou será melhor dizer “new wave”…?) do fim do século. Depois, na versão aumentada do CD, 46 minutos em que Jarre ensina a contemplação dos grandes arcanos submarinos.
O silêncio e a escuridão do fundo. A fauna e flora dos domínios de Neptuno, perturbados por estilhaços de vozes refratados de longe. Brian Eno não faria melhor.

MIKE OLDFIELD
Amarok
Virgin/Edisom


O ex-menino-prodígio da Virgin desistiu de armar em moderno e regressa em grande forma aos bons velhos tempos de “Hergest Ridge”, “Ommadawn” e “Incantatious”.
Um longo tema instrumental a ocupar a totalidade do álbum, a lista de artefactos musicais a não caber na folha (citam-se “tubos pendurados de metal, compridos e esteitos” para avivar a memória de forma delicada) e as inevitáveis participações da gaita-de-foles de Paddy Moloney, dos tambores africanos e dos coros femininos de Clodagh Simonds e Bridget St John, remetem de imediato para as glórias de antanho. Quem dava já o velho Mike como morto e enterrado vai ter ainda de esperar.

LAURIE ANDERSON
Strange Angels
Warner Bros./WEA


Ideal para quem pretende passar por vanguardista sem grandes afrontamentos estéticos nem dolorosos exercícios de ginástica intelectual.
Laurie Anderson apresenta aqui a papinha toda feita, que é como quem diz, sabendo adaptar anteriores virulências conceptuais a uma acessibilidade que faz torcer o nariz aos viciados na dificuldade e gemer de prazer os amantes do erotismo gramatical da senhora. A estranheza flutua, desta vez, em canções de formato pop, às quais o visionarismo fragmentado da autora acrescenta um toque de inquietude.

BOBBY McFERRIN
Medicine Music
Emi/Valentim de Carvalho


Nada como uma boa voz para aquecer a ceia natalícia e, mais ainda, o Ano Novo. A de Bobby McFerrin cumpre na perfeição tal desígnio. Ainda por cima parece que a música deste disco cura, tornando-se assim ideal para curar as eventuais bebedeiras e ressacas do dia seguinte.
Os blues, o gospel, os ritmos africanos, tudo serve a “The Voice” McFerrin para fazer a voz brilhar, envergonhando todos aqueles miseráveis músicos que ainda necessitam de outros instrumentos para se acompanharem. Decididamente, o homem é da corda… vocal.