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Vários – “Pacote De Natal” (artigo de opinião | críticas | sugestões)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 1990 >> Fim De Semana >> Na Capa


PACOTE DE NATAL

DISCOS
POP ROCK
FM assina os seguintes textos




JEAN-MICHEL JARRE
Waiting for Cousteau
Dreyfus


O tema é a água, as profundidades oceânicas, o exotismo de paraísos distantes, beijados pelas ondas e onde apetece sonhar até ao fim dos dias.
Aventuras pelo reino marítimo, inspiradas nas viagens do velho mestre do Graal subaquático. Primeiro, as vertigens rítmicas do calipso, desaguando na “new age” (ou será melhor dizer “new wave”…?) do fim do século. Depois, na versão aumentada do CD, 46 minutos em que Jarre ensina a contemplação dos grandes arcanos submarinos.
O silêncio e a escuridão do fundo. A fauna e flora dos domínios de Neptuno, perturbados por estilhaços de vozes refratados de longe. Brian Eno não faria melhor.

MIKE OLDFIELD
Amarok
Virgin/Edisom


O ex-menino-prodígio da Virgin desistiu de armar em moderno e regressa em grande forma aos bons velhos tempos de “Hergest Ridge”, “Ommadawn” e “Incantatious”.
Um longo tema instrumental a ocupar a totalidade do álbum, a lista de artefactos musicais a não caber na folha (citam-se “tubos pendurados de metal, compridos e esteitos” para avivar a memória de forma delicada) e as inevitáveis participações da gaita-de-foles de Paddy Moloney, dos tambores africanos e dos coros femininos de Clodagh Simonds e Bridget St John, remetem de imediato para as glórias de antanho. Quem dava já o velho Mike como morto e enterrado vai ter ainda de esperar.

LAURIE ANDERSON
Strange Angels
Warner Bros./WEA


Ideal para quem pretende passar por vanguardista sem grandes afrontamentos estéticos nem dolorosos exercícios de ginástica intelectual.
Laurie Anderson apresenta aqui a papinha toda feita, que é como quem diz, sabendo adaptar anteriores virulências conceptuais a uma acessibilidade que faz torcer o nariz aos viciados na dificuldade e gemer de prazer os amantes do erotismo gramatical da senhora. A estranheza flutua, desta vez, em canções de formato pop, às quais o visionarismo fragmentado da autora acrescenta um toque de inquietude.

BOBBY McFERRIN
Medicine Music
Emi/Valentim de Carvalho


Nada como uma boa voz para aquecer a ceia natalícia e, mais ainda, o Ano Novo. A de Bobby McFerrin cumpre na perfeição tal desígnio. Ainda por cima parece que a música deste disco cura, tornando-se assim ideal para curar as eventuais bebedeiras e ressacas do dia seguinte.
Os blues, o gospel, os ritmos africanos, tudo serve a “The Voice” McFerrin para fazer a voz brilhar, envergonhando todos aqueles miseráveis músicos que ainda necessitam de outros instrumentos para se acompanharem. Decididamente, o homem é da corda… vocal.

Bobby McFerrin – “Medicine Music”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 7 NOVEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


A VOZ QUE CURA

BOBBY McFERRIN
Medicine Music
LP, MC e CD, EMI, distri. EMI – Valentim de Carvalho


Para quê guitarras, teclas e bateria? Qual a utilidade de uma orquestra? Deitem-se fora os sintetizadores e a tralha instrumental toda. Uma voz basta. A de Bobby McFerrin, entenda-se. “Medicine Music” é não só um festival de proezas técnicas vocálicas de cortar a respiração, mas também uma esplendorosa demonstração de como utilizar o instrumento primordial que é a voz humana, para dar corpo a um imenso estendal de emoções capaz de fazer vibrar as cordas todas da harpa que é a nossa alma. Além de sair, em estúdio, mais barato. E já que se falou em orquestra, soa como tal a voz de McFerrin, desmultiplicada em várias graças com a sobreposição dos seus diferentes registos, gravados em pistas separadas. Registos que abarcam, com a naturalidade só ao alcance dos predestinados, a totalidade do espectro compreendido entre o grave profundo e o “falsetto” estridente, sempre perfeitamente controlado e modulado até ao mais ínfimo pormenor.
Se “The Voice” era o milagre, gravado ao vivo, da comunicação com o público e da capacidade de o transportar para o interior de um circo emocional, em que o experimentalismo representava a fera domada com que cada um podia brincar sem o perigo de ser devorado, este “Medicine Music” apresenta a segurança e a serenidade o mestre que de há muito sabe como dominar as linguagens e discursos que a voz humana consegue canalizar. Partindo de técnicas tornadas entretanto habituais (como o balanço e projeção rítmicos provocados pelo batimento da mão esquerda no peito, ou a reprodução de efeitos sonoros variados a partir de assobios ou estalidos da língua), o cantor prolonga as experiências de “The Voice” (passando ao lado das canções “mainstream” levadas a cabo na companhia dos Manhattan Transfer”) num espetáculo de swing firmemente ancorado nos blues, no gospel e no recurso à técnica jazzística do scat.
Polifonia vocal, negra, ritual e urbana, irresistível e sinuosa, nunca se deixando ultrapassar pela tentação do virtuosismo destituído da centelha interior. Dispensam-se os instrumentos. Não foram para aqui (quase) chamados, por não se tornarem necessários, incidindo deste modo o foco unicamente sobre a voz. Exceção feita a “Common Threads”, auxiliado pelos sintetizadores aéreos de Lyle Mays e “The Train”, propulsionado pelas percussões de Pete e Juan Escovedo (para os mais curiosos, pai e irmão de Sheila E., respetivamente). Em “Discipline” e “Sweet in the Mornin’”, o grupo vocal Voicestra (designação significativa), criado especialmente para o efeito por McFerrin, estende ainda mais o leque vocal, com o pai daquele, Robert McFerrin senior, solando num tenor operático exaltações gospel. A voz mágica de McFerrin faz o resto: o acompanhamento rítmico, com os graves imitando o fraseado do contrabaixo (solando em “He Ran”), ou as ressonâncias guturais do “didjeridoo” (instrumento de sopro dos aborígenas australianos) e, sabe-se lá por que artes de que só a sua voz detém o segredo, a percussão, como o restolhar da vassoura na tarola em “Yer You” ou as maracás de “He Ran”. Em “Baby”, o subtil deslocamento de uma frase melódica provoca um efeito de reverberação. “Sweet in the Mornin’” é acompanhado por soluços e pelo ritmo profundo da respiração. Africano e tradicional (em “He Ran”), urbano e jazzístico (no tema “Angry”, num registo rouco próximo do dos bluesmen de New Orleans), tropical carnavalesco (as polirritmias feéricas de “Train”) ou simplesmente terno (no hino religioso final “23 Psalm”, dedicado à mãe), Bobby McFerrin consegue em qualquer dos casos uma riqueza e unidade estilísticas ímpares na música vocal contemporânea. “Medicine Music”, discurso serenamente apaixonado do coração aberto à luz do canto, revela-nos todo o manacial de riquezas capaz de brotar da fonte donde nasce a música: a voz, segundo o verbo sagrado de Bobby McFerrin. ****

Bobby McFerrin – Circlesongs

07.05.1997
Bobby McFerrin
Circlesongs
SONY CLASSICAL, DISTRI. SONY MUSIC

bobbymcferrin_circlesongs

LINK

“Circlesongs” completa um ciclo de evolução na carreira de Bobby Mcferrin. A “voz total”, extensão do corpo, que animava a musicalidade primordial dessa obra-prima do canto, em solo absoluto e ao vivo, que é “The Voice”, evolui a partir desse marco para uma progressiva sofisticação e adaptação às normas da polifonia. recorrendo ao “overdubbing” ou a verdadeiros grupos de cantores, Bobby McFerrin chegou a tocar perigosamente no “mainstream”, nessa aproximação a formas mais tradicionais (sem dúvida bastante menos viscerais…) do canto, sem, no entanto, se perderem os seus notáveis dotes de melodista e harmonicista, que caracterizam um álbum como “medecine Music”.
“Circlesongs” dá mais um passo em frente, no sentido do aprofundamento da via polifónica, aqui com recurso a uma formação de 12 cantores (provenientes de diversas áreas musicais), na qual avultam os nomes de Sussan Deihim e de um dos notáveis da música vocal erudita, Paul Hillier. Tomando como ponto de partida o canto étnico das tradições sufi, zulu, caraíba ou persa, Bobby McFerrin desenrola labirintos e tapeçarias vocais de incrível complexidade, que afectam profundamente o auditor, numa multiplicidade de ritmos e harmonias que, todavia, almejam a unidade espiritual. Infinitas vozes numa voz.
mais ainda do que “Medecine Music”, esta é, verdadeiramente, uma música que cura. (8)