Arquivo mensal: Março 2022

John Lurie – “Mystery Train”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 28 MARÇO 1990 >> Videodiscos >> Pop


JOHN LURIE
Mystery Train
LP e CD Milan, Distribuição Dargil


Depois de “Stranger than Paradise” e “Down by Law”, uma vez mais o saxofonista e líder dos Lounge Lizards acedeu a compor para uma fita de Jim Jarmusch. “Mystery Train”, a banda sonora, só em parte se pode considerar um disco de Lurie, sendo o primeiro lado ocupado por clássicos da soul music e dos rhythm’n’blues de nomes importantes como Otis Redding, Rufus Thomas, Bar-Kays e Roy Orbison, além de Elvis Presley, único com direito a “bisar”.
No segundo lado, Lurie recria a temática e ambiências clássicas dos blues que lhe são tão caros. Mas, ao contrário das estratégias saxofonísticas de decomposição do género levadas a cabo nos Lizards, em “Mystery Train” é tentada uma aproximação mais clássica e depurada, com Lurie tocando guitarra e, nalguns temas, harmónica. Acompanham-no Marc Ribot (guitarra e banjo), Tony Garnier (baixo) e Douglas Browne (bateria), seus companheiros nos Lizards. O resultado é uma sequência instrumental de dez esboços bluesy, brancos, ambientais e descarnados, decerto funcionais como complemento das imagens, mas inconclusivos como sons autónomos. Para os noviços recomenda-se começarem pelos discos dos Lounge Lizards.

Elba Ramalho – “Elba incendeia o Porto – O Coliseu a seus pés” (concertos)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 23 MARÇO 1990 >> Cultura


Elba incendeia o Porto

O Coliseu a seus pés


Elba “pernas” Ramalho deu “show”, quarta-feira à noite, no Coliseu do Porto. Um som péssimo e a fraca afluência de público não chegaram para arrefecer o entusiasmo dos presentes. No final a festa generalizou-se, com toda a gente a dançar e a pedir mais. Sexta-feira e sábado é a vez do Coliseu de Lisboa.



O elevado preço dos bilhetes e uma fase mais apagada na carreira da cantora nordestina terão sido os principais motivos para o escasso número de pessoas presentes. O atual “show” de Elba Ramalho, apresentado (parece que com grande êxito) em S. Paulo e no “canecão” do Rio de Janeiro, é sem dúvida profissional, mas à maneira brasileira. Pretendendo parecer “à americana”, do género produções “Brodway”, falhou (pelo menos no Porto) num aspeto essencial: o som, péssimo do princípio ao fim do concerto. Uma massa empastelada e indistinta e, pior ainda, um constante e irritante ruído do microfone da cantora, por vezes quase abafando a própria voz, teriam bastado para arruinar o espetáculo não fora o alto profissionalismo revelado pela artista brasileira.
De resto, os milhares de “watts” anunciados, 200 mil de luz e 15 mil de som, cumpriram o que se propunham: encher o olho de cores e o ouvido de ruído, tido por excitante pelo frequentador habitual deste tipo de espetáculo.

Pernas dançarinas

Espetáculo que se pode dividir em três partes distintas: uma em que a cantora mostrou as pernas, outra em que mostrou muito as pernas e finalmente aquela em que mostrou totalmente as pernas. Mostrou ainda o rabo umas quantas vezes. Do ponto de vista anatómico o concerto saldou-se pois por um sucesso. Do ponto de vista musical as coisas também não correram mal de todo. Num palco montado “à Hollywood”, com espelhos e luzes de camarim a condizerem, Elba surgiu em cena “vestida” de cetim roxo, atacando em força com música do recente álbum “Popular Brasileira”. Viria a trocar de trapos mais três vezes, sempre com a preocupação de deixar a perninha bem solta e à vista de todos, para melhor dançar e pular.
Um dos momentos fortes do espetáculo aconteceu quando a intérprete de “Do Jeito que a Gente Gosta” cantou e dançou “à maneira” um tango com um dos seus bailarinos. Depois foi “Sister”, cantada em inglês que, como se sabe, é das línguas mais faladas no sertão nordestino. Seguiu-se a balada “A Violeira”, de Chico Buarque, completamente arruinada pelo ruído de microfone já aludido e um longo tema ecologista dedicado à Amazónia, com Elba vestida de ave multicor, luzes sugerindo a selva e “samples” de passarada criando um dos poucos momentos verdadeiramente mágicos de toda a atuação. Retorno a uma sequência de canto e dança, com a cantora contracenando com os quatro bailarinos de serviço, os irmãos Tânia, Nadia, Tony Nardini e Carlinhos de Jesus.
A temperatura da sala foi subindo, atingindo o ponto de rebuçado quando a “Lambada” explodiu. Elba desafiou os assistentes perguntando-lhes se queriam deboche. O terrível urro masculino de resposta deve tê-la assustado ao ponto de não ousar demasiado nos passos de dança. Oportunista ou não (Elba afirma que a dança é típica do Nordeste, embora com outras designações), o facto é que o tiro acertou em cheio, como seria de esperar.
Elba salta para o meio da sala e baila com um espontâneo já entradote, que deve ter tido os três segundos mais excitantes da sua vida. Sempre num virote, aproveita para fazer publicidade a um disco “ao vivo” a publicar brevemente – que a vida não está só para brincadeiras – e declara já estar “mais cansada que a Nova República brasileira”. Ficou demonstrada a sua costela de política.

Pernas intimistas

Quando uma criancinha lhe oferece uma flor (por coincidência branca como o vestido), a assistência comove-se, a artista também. Sacode a imensa cabeleira e, com um olhar muito meigo, afirma que “para o artista tudo começa e acaba no público”. Nem Serafim Saudade teria dito melhor. O jornal agradece a publicidade gratuita… Estava dado o mote para a fase romântica e intimista, com a verdadeira artista sentada à beira do palco, as pernas cruzadas frente ao olhar guloso da primeira fila, concedendo democraticamente aos presentes o privilégio de escolha das canções. Um grande momento de “music-hall” como diria o mesmo Serafim Saudade. Passada a fase em que foi dado a entender que afinal a vida não é só “forró”, Elba ligou novamente à corrente não voltando a desligar até ao fim.

Pernas para que vos quero

A composição sobre o “Nordeste Independente”, proibida no Brasil na altura em que foi composta, acendeu de novo os ânimos. O espetáculo avançava a galope para a apoteose final: uma canção versando a temática do circo foi acompanhada por uma encenação que incluía uma trapezista, um mágico, uma bailarina, um equilibrista e um palhaço, criando sobre o palco uma atmosfera muito especial.
Tempo ainda para outra frase lapidar: “O artista é transparente”. Francamente não se notava e valha a verdade que uma Elba menos artista mas apetitosamente opaca é muito preferível. Meditava-se no sentido de tal transparência quando, de repente e sem que nada o fizesse prever, parte da assistência enlouqueceu, desatando a dançar e a cantar em coro com a brasileira. Supõe-se que por estar a gostar verdadeiramente. O público tem por vezes destas reações.
Feitas a apresentação dos músicos (que devem ser bons mas o som não deu para perceber) e as despedidas, ninguém arredou pé. Todos queriam mais. Elba regressou por duas vezes, despachando à pressa os “encores” da praxe, alegando que ainda faltava o concerto de Lisboa. Mas, bem feitas as contas, foram perto de duas horas de quase sempre boas canções, servidas por uma voz excelente, muita energia e uma magnífica presença sobre o palco. Quanto às pernas, a sua dona garante que só as mostra para se sentir mais à vontade. Connosco, Elba, já sabes, estás sempre à vontade.

UHF – “A Discoteca” (dossier / artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 14 MARÇO 1990 >> Videodiscos >> Pop


A DISCOTECA

UHF


Os UHF são um caso à parte no rock português. Numa já longa carreira iniciada há dez anos a reboque do movimento despoletado por Rui Veloso, o grupo soube sempre manter-se na linha da frente, fiel a um estilo e a uma imagem, cuidadosamente cultivados pelo seu líder incontestado e carismático, António Manuel Ribeiro. Dez anos foi o tempo que levou a construir o mito.



1979 é o ano da estreia discográfica com o álbum “Jorge Morreu”, destilando raiva e suor. Integravam a banda, além de António Manuel Ribeiro, Renato Júnior (guitarra), Américo Manuel (bateria) e Zé Carvalho (baixo). No ano seguinte, os UHF assinam contrato com a Valentim de Carvalho, que edita o single “Cavalos de Corrida”, primeiro hino da banda e enorme sucesso de vendas.
Em 1981, mais um estouro com o single “Rua do Carmo”. “Modelo Fotográfico”, um tema mais lento, passa mais discretamente. Ainda uma canção inédita, “Quem irá beber comigo esta noite?”, oferecida juntamente com os primeiros dez mil exemplares do novo álbum “À Flor da Pele”. O mini-álbum “Estou de Passagem” assinala a mudança para nova editora, a Rádio Triunfo, a par de mais um single, “Um Mau Rapaz”, e o longa-duração “Persona Non Grata”. Por esta altura, António Manuel Ribeiro assume o papel de mártir incompreendido, de herói lutando contra as injustiças do mundo, envergando a máscara de um Jim Morrison à portuguesa.
Toda a iconografia típica da mitologia rock serve para criar a imagem pretendida: o álcool e a droga, a dureza da estrada, os amores errantes, a violência, e uma cidade e um país demasiado pequenos para as grandes tragédias do espetáculo contribuem para engrandecer a figura do homem-só-coerente-até-ao-fim que é António Manuel Ribeiro. Mas o mais interessante é que o homem até é sincero.
O rock, do verdadeiro, do duro, foi desde sempre o veículo privilegiado para suportar musicalmente os discursos na primeira pessoa do singular do líder da banda da outra margem. O que ele desde sempre nos conta é, no fundo, a história da sua vida, feita de vivências quase sempre amargas e dolorosas – que as outras, as boas e alegres não têm grande interesse. António sabe disso, que é como quem diz, sabe-a toda e faz o que lhe pedem. A culpa não é dele, no fundo até é um otimista, mas já se sabe como estas coisas funcionam na cabeça das pessoas.
1983 é ano de novas mexidas na formação, com a entrada de Francis como segundo guitarrista e de Zé Matos, no baixo, substituindo Carlos Peres, que entrara entretanto para a banda – não se sabe exatamente quando porque a folha de promoção é omissa e, confesso, eu próprio não me lembro bem. Ao certo sabe-se que é deste ano o mini-álbum “Ares e Bares de Fronteira”. O ano seguinte é negro na carreira do grupo. O baterista Zé Carvalho sofre um acidente de automóvel e tem de ser substituído por Luís Espírito Santo. Zé Carvalho acaba mesmo por abandonar definitivamente. O novo homem dos batuques passa a ser Hipo. No baixo, Zé Matos troca com Fernando Delaère. Não querendo fazer humor negro, pode dizer-se que a fatalidade contribuiu ainda mais para “fazer” o nome dos UHF. Mas pronto, o pior já passara e os UHF voltam-se para procedimentos mais suaves. Um single intitulado “De Carrocel” e uma participação no álbum infantil “Abbacacadabra” são sintomáticos desta nova atitude. Por outro lado, o álbum deste ano chama-se “Puseste o Diabo em mim”, o que contradiz um pouco o acima enunciado.
Parece que o lugar de baterista nos UHF é o mais disputado de todos. Mais um Zé, desta vez Cadela, e Rui Velez procuram aquecer o lugar, vamos a ver se o conseguem. No álbum, “Ao Vivo em Almada – No Jogo da Noite”. Em 1986, que é o ano que vem a seguir, há mais mudanças, mas começo a ficar um pouco farto e confuso no meio de tantos nomes. Afinal, os UHF não são uma outra designação para AMR (António Manuel Ribeiro)? É neste ano que os AMR gravam um vídeo para o programa “1,2,3”, contendo o tema “Até às Tantas”. Já em 1987, o álbum de estreia a solo de António Samuel Caeiro, com título “É Hoje, Agora”, ao mesmo tempo que os XYZ passam a quinteto com a entrada para o baixo de Xana Sin e de Gil (sem apelido) para as teclas. O Luís Espírito Santo toma definitivamente (até ver) conta da bateria.
Contrato com a Edisom e mais dois singles “Na Tua Cama”, ainda por cima “Em Violência” e sobretudo indecentemente “Em Lugares Incertos”, como refere o título do mini-LP do mesmo nome. Tudo isto em “Noites Negras de Azul”, até agora o álbum mais recente. Mais alterações e confusões no entra-e-sai (salvo seja) da banda. No ano passado, saiu o maxi com três temas; “Hesitar”, “Esta Mentira à Solta” e “(Fogo) Tanto me Atrais”. É a fase (inevitável, na via sacra do estrelato) da introspeção e autoculpabilização. “Onde é que terei errado?”, “Terá valido a pena?” e outras angústias do estilo quando o dinheiro começa a “entrar” e a consciência a pesar. Que fazer? Desistir em nome da pureza de intenções, ou sacrificar o nome e a integridade conseguidos à custa de muito suor e sofrimento, em troca do infame e vil metal? A melhor solução é escrever novas canções relatando a grande infelicidade que é ter dinheiro e sucesso.