Arquivo mensal: Julho 2021

Donovan – “Donovan O Homem Da Atlântida” (concertos)

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


DONOVAN o homem da Atlântida



“Atlantis” moeu o juízo a muita gente, da mesma forma que contribuiu para a união de muitos casalinhos nas festas e convívios que ajudaram a ultrapassar os estertores finais dos anos 60. Uma balada meio declamada, meio sussurrada, que foi um dos maiores êxitos de Donovan Leitch, o cantor escocês que começou por ser uma imitação de Bob Dylan e acabou por se tornar no rosto angélico do “flower power” e do psicadelismo.
Era a época das altas ondas do ácido e Donovan embarcou na viagem até à descoberta das “Cosmic Wheels” que fazem girar o universo – um bom álbum precedido de outros, sobretudo o duplo “A Gift from a Flower toa a Garden”, que não ofenderam ninguém e conseguiram mesmo funcionar como massagem aos neurónios, excitados até ao massacre pelas investidas de Hendrix, Joplin, Morrison, Velvet Underground e outros adeptos da “bad trip” com fins criativos.
Canções como “Colours”, “Season of the witch”, “Sunshine superman”, “Mellow Yellow” (onde fazia a apologia das drogas leves, tais como a casca de banana frita), “Jennifer Juniper” e “Hurdy gurdy man”, pelo contrário, navegavam pelos oceanos sem “speed” do submarino amarelo, onde, aliás, Donovan embarcou, na companhia dos Beatles, até à Índia.
O melhor de Donovan – que poucos conhecem e ninguém refere na sua discografia oficial – encontra-se, porém, no duplo “HMS Donovan”, (apareceu incluído numa antologia em caixa de quatro álbuns, juntamente com “Cosmic Wheels” e um registo com a banda Open Road), uma fantasia centrada nas personagens de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.
Quando nada o faria prever, os anos 90 têm-se mostrado favoráveis ao regresso do trovador. Os Happy Mondays gravaram uma versão de “Hurdy Gurgy Man” e incluíram o tema “Donovan”, em sua homenagem, no álbum “Pills ‘n’ Thrills and Bellyaches”. Será que o mundo já está preparado para o ressurgimento do continente da Atlântida? Ou, pura e simplesmente, enlouqueceu?
DIA 16, TEATRO S. LUIZ, 22H00

Jimi Hendrix – “Jimi Hendrix recordado – De Novo A Revolução”

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


Jimi Hendrix recordado
DE NOVO A REVOLUÇÃO


Jimi Hendrix e a sua música continuam a ser objecto inesgotável de inspiração. A “nova música” presta-lhe homenagem, através do quarteto de Christy Doran, em concerto que se prevê fértil em surpresas.
Estreado a 23 de Abril último na Suiça, o espectáculo “Hendrix Tribute” chega a Portugal para nos relembrar a importância que continua a ter a estética revolucionária do guitarrista negro que chocou a América na década de 60. Outro guitarrista, o irlandês Chrusty Doran, traduziu e recuperou as experiências do mestre para o contexto do seu próprio trabalho experimental, num projecto que conta ainda com a colaboração e presença em palco de Phil Minton, voz e trompete, Amin Ali, baixo, e Freddy Studer, bateria.
Christy Doran, devem conhecê-lo alguns melómanos do álbum que gravou para a ECM com outro dos músicos que vai estar presente em Portugal, Freddy Studer, além de Stephen Wittwer: “Red Twist and Tuned Arrow”. Outros, mais embrenhados na floresta das novas músicas europeias, já terão travado conhecimento com ele nas obras que editou na editora austríaca Hat Hut: a solo em “What a Band” – onde explora uma panóplia de efeitos como o “digital delay”, os “loops” e sobreposições múltiplas, numa aproximação tecnológica ao universo de Hendrix -, com Ray Anderson, Martin Ehrilch e Urs Leimgruber em “Phoenix”.
Membro fundador, nos anos 70, da banda de jazz de fusão OM, Christy Doran tem vindo a explorar novas linguagens para a guitarra eléctrica, complementares das de Fred Frith, Sonny Sharrock, Henry Kaiser, James Blood Ulmer ou Arto Lindsay, entre outros.
Freddy Studer, baterista suíço que já havia trabalhado com Doran no grupo OM, além de no citado álbum da ECM, é outro explorador nato cujo estilo abarca áreas tão díspares como o rock psicadélico, o jazz rock, os rhythm ‘n’ blues, o be-bop, o free jazz e as músicas étnicas. Fezx parte dos Hand in Hand, ao lado de Pierre Favre, Paul Motian e Nana Vasconcelos. Entre os vários músicos com quem tocou, contam-se John Zorn, Chick Corea, Joe Henderson, Dave Holland, Billy Cobham, Evan Parker, Arte Lande, Andrew Cyrille, Kenny Wheeler, Albert Mangelsdorff, Joachim Kühn, Enrico Rava e John Abercrombie. Partilha presentemente o projecto Drum Orchestra com Pierre Favre.
Embora pouco conhecido entre nós, Phil Minton já actuou em Portugal num importante ciclo de música improvisada inglesa realizado há alguns anos no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (onde também estiveram presentes – quem se lembra? – Steve Beresford, Lol Coxhil, Max Eastley, British Summertime Ends…). Tocou e cantou na grande banda de Mike Westbrook, com Julie Tippetts e Maggie Nichols nos Voice e, mais recentemente, com Lindsay Cooper, nos Oh Moscow.
Phil Minton merecem que o ouçam e, alguns, porventura se escandalizem, em álbuns que fazem do “mainstream” pouco mais que lixo: “Welfare State” (com Lol Coxhill), “A Doughnut in both Hands” (solo), álbum homónimo com Fred Frith e Bob Ostertag, “Land of Stone” (com os Talisker de Ken Hyder(, “Full House” (com David Moss), “AMMO” (com Roger Turner, que actuou a seu lado em Portugal), “Ways” (com Veryan Weston), “Rags” (com Lindsay Cooper), bem como dois outros projectos de fôlego: “Songs from a Prison Diary”, para 22 vozes, e “Spirits Rejoice”, pela Dedication Orchestra.
Em não menos prestigiosas companhias tem andado o baixista norte-americano Amin Ali: George Adams, David Murray, Ronald Shannon Jackson e James Blood Ulmer, este um dos guitarristas que melhor conseguiu personificar a estética de ruptura herdada de Jimi Hendrix.
“Hey Joe”, “Foxy Lady” e “Electric Ladyland” são alguns dos temas de Hendrix que o quarteto vai interpretar e que o seu autor decerto aprovaria.
AULA MAGNA DA REITORIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA,
27 DE MAIO, 22H00

Clannad – “Banba”

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


Clannad
Banba
CD RCA, distri. BMG



Brennan & Brennan, Máire e Ciarán, conseguiram finalmente apagar todos os vestígios de música tradicional de uma banda que chegou a gravar, há muitos, muitos anos, um belíssimo disco chamado “Dúlaman”. Agora devem vender que se fartam. Que lhes faça bom proveito. A música, essa, reduziu-se a um pote de mel e a névoas de produção, nas quais o mínimo sobressalto de energia ameaça escaqueirar a estrutura de porcelana irlandesa. A voz de Máire não podia ser mais frágil e etérea, os teclados mais avanescentes. As melodias, desenhadas a lápis número quatro, são fininhas, fininhas, tanto que mal se distinguem. Numa delas julgamos vislumbrar, ao longe, as belezas do passado: “Ca dé sin do’n té sin.” Deve ser do título em gaélico. A flauta e o “tin whistle” são soprados com ordens de nunca ultrapassar o risco, por Frankie Kennedy, dos Altan. Quem não o conhecesse, jamais adivinharia. E é assim: um título apropriado para uma banda na corda bamba que, quase de certeza, já deveria concorrer ao Festival da Eurovisão do próximo ano. (2)