Arquivo mensal: Janeiro 2017

Hans-Joachim Roedelius – “Sinfonia Contempora No.1” + “Pink, Blue And Amber”

Pop Rock

22 Janeiro 1997
poprock

Patriarca do pós-(kraut)rock

HANS-JOACHIM ROEDELIUS
Sinfonia Contempora No.1 (9)
Pink, Blue and Amber (6)
Prudence, distri. Strauss


roed

Roedelius formou, ainda na década de 60, com Dieter Moebius, os Cluster (então, Kluster), banda alemã pioneira da música industrial e da utilização do ruído, numa época em que planavam sobre os céus de Berlim os sintetizadores da escola cósmica de Klaus Schulze, Ash Ra Tempel e toda a comunidade afogada em LSD que gravitava em torno do produtor e manipulador Rolf-Ulrich Kaiser, no selo Ohr, mais tarde Cosmic Music/Cosmic Courriers. Os Cluster, juntamente com um dos seus membros fundadores, Conrad Schnitzler (integrou posteriormente a primeira formação dos Tangerine Dream, antes de seguir uma carreira a solo na área da electrónica experimental), e os Kraftwerk dos dois primeiros álbuns (aos quais poderemos acrescentar os vagidos prematuros do grupo que lhes deu origem, os Organisation) formaram o núcleo duro de uma música áspera e ruidosa que aliava a prática da música concreta, do minimalismo e da electro-acústica à mais recente tecnologia dos sintetizadores, na criação de um ambientalismo pesado e ferrugento, saído dos pesadelos da bacia industrial do Ruhr.
Hoje, os Cluster – ainda em actividade e com estatuto de banda marginal – fazem parte do grupo de nomes do “krautrock” recuperados pelos representantes do pós-rock norte-americano, como os Tortoise ou Trans AM. São, de igual modo, objecto de veneração de Julian Cope, que, além de músico iluminado, se assume como fanático admirador do “krautrock”, sobre o qual escreveu no seu já mítico livro “Krautrock Sampler”.
Roedelius sempre foi considerado o pólo romântico do grupo, atribuindo-se a Moebius o papel de experimentalista. Aos 62 anos de idade, o patriarca do industrialismo germânico demonstra, com “Sinfonia Contempora No.1”, subintitulada “Von Zeit zu Zeit”, a relatividade desta teoria. É um trabalho de fôlego, estruturado em diversos movimentos, que percorre diversas facetas da obra extensíssima deste compositor, oscilando entre o ambientalismo mais depurado (Eno, com quem os Cluster colaboraram em dois álbuns, “Cluster & Eno” e “After the Heat”, marcou decisivamente uma mudança de estilo no grupo) e os traços de piano impressionista, pulsações sintéticas e radiações “sombient”, passando pela samplagem de sons naturais ou da música gravada do mexicano Jorge Reyes.
Entre os músicos convidados (em violino, baixo, guitarra e saxofone), conta-se Asmus Tietchens – um industrialista “negro” de obra igualmente extensa e, por vezes, impenetrável –, que contribui com “fragmentos electro-acústicos” para o 3º movimento, “Klangbild #3”, da sinfonia. Participação curiosa, tendo em conta o pendor “new age” inócua que caracteriza o catálogo da editora.
“Pink, Blue and Amber” é outra coisa. Recolhendo composições gravadas ao longo dos últimos anos, ilustra a outra faceta de Roedelius, presente em álbuns como “Jardin Fou” ou “Momenti Felicci”, mais contemplativa e declaradamente “new age”, bastante menos interessante, mas, ainda assim, a milhas de distância, para melhor, dos purgantes sonoros que infestam o género. Contando igualmente com diversos convidados, em pinceladas que acentuam o carácter exótico e vagamente oriental desta obra, “Pink, Blue and Amber” situa-se num território de localização incerta, algures entre os Cluster da fase melódica (o tema inicial, “Poetry”, por exemplo) e texturas abstractas e sem propósito, na linha das colaborações de Holger Czukay com David Sylvian, “Plight and Premonition” e “Flux + Mutability”. Roedelius lançou já, entretanto, a continuação de “Sinfonia Contempora”, num novo compacto intitulado “La Nordica”, sobre o qual a revista “Wire” tece maravilhas. Aguarda-se importação nacional.



Diamanda Galás – “Schrei X”

Pop Rock

22 Janeiro 1997
pop rock

Diamanda Galás
Schrei X
MUTE, DISTRI. BMG


dg

Aranhas, esqueletos, monstros, coisas informes e ameaçadoras, a artista encharcada em sangue. Brrr!… Só a imagens da capa metem medo. Diamanda Galás faz gala em assustar-nos. O texto interior informa que “Schrei X” “foi feito em completa escuridão” ao mesmo tempo que aconselha a “tocar o disco apenas com o volume no máximo”, esclarecendo que “não se trata de música ambiente”. Ficamos esclarecidos e preparados para as piores torturas auditivas e psicológicas. A diva personificadora da sida que recentemente actuou entre nós, no CCB, em Lisboa, faz-nos a vontade. “Schrei X” é o disco mais radical e, eventualmente, de audição mais insuportável, da sua discografia. Diamanda grita e arranha e grunhe do princípio ao fim de 24 curtos segmentos (metade deles registados ao vivo) de horror sobre a alienação, a claustrofobia e a dor, temas da sua especial predilecção, sobre os quais lança o anátema da sua voz de feiticeira enlouquecida. De um ponto de vista conceptual, faz sentido ver nesta obliteração total das formas musicais convencionais, uma vontade de ruptura que não se esgota na mera provocação, mas antes procura expurgar toda a superficialidade do acto de criação artística. Quanto ao prazer auditivo que se poderá retirar deste mesmo acto, estamos conversados. “Schrei X” poderá soar como “new age” a ouvidos masoquistas. Para os outros, sobreviver incólume a este ritual de uma voz infectada pela raiva, já será um feito. O vírus alastrou à alma da música. (6)



Vários – “In the Land of Mantra”

Pop Rock

15 Janeiro 1997
pop rock

Vários
In the Land of Mantra
MANTRA, DISTRI. MEGAMÚSICA


various

Em tempos de plena ascensão do Progressivo, dos nomes da primeira geração aos que na actualidade reivindicam idêntica atitude, a Mantra surge como uma das principais editoras apostadas na reedição em compacto de alguns dos nomes mais representativos da música Progressiva nos anos 70. O interesse maior da presente colectânea, subintitulada “Le Meilleur de la Progressive a Prix Sympa”, reside em que uma fatia larga dos artistas nela incluídos saem, não da escola inglesa, responsável pela maior parte dos estereótipos do género, mas do Continente ou mesmo das fileiras no minimalismo norte-americano, aqui representado por dois dos seus “gurus”, Terry Riley e Steve Reich, este último com um excerto de uma das suas obras mais herméticas, “Four Organs/Phase Patterns”. Assim, encontramos neste curioso repositório de bizarrias os alemães Amon Düül II, com o título-tema de “Wolf City”, ao lado dos franceses Dashiell Hedayat (esperemos que a Megamúsica nos traga o interessante “Obsolete” que este poeta relacionado com os americanos da “beat generation” gravou com os Gong), Clearlight, com o quinto movimento da sua sinfonia inspirada (ou composta?) sob os efeitos do ácido com o mesmo nome, e Catherine Ribeiro, a voz interventiva, de ascendência lusa, que ainda hoje se faz acompanhar pelo grupo Alpes, com “Aria populaire n9”, do álbum “Fenêtres Ardentes”.
Os Gong participam com o título-tema de “Flying Teapot”, primeiro álbum da sua trilogia “Radio Gnome Invisible”, encontrando-se ainda o seu sintetista Tim Blake, com “Song for the new age” (retirado de um dos seus piores álbuns, “New Jerusalem” – teria sido preferível recorrer ao bem mais conseguido “Crystal Machine”), e o seu saxofonista e flautista zarolho Didier Malherbe, com “Berger des nuages”. Dos ingleses, foram escolhidos Hugh Hopper, ex-baixista dos Soft Machine e Soft Heap, presente em quase tudo o que de importante surgiu com o carimbo de Canterbury, como “Minipax 1”, extraído da obra-prima “1984”; Phil Miller, guitarrista também ligado a diversos grupos de Canterbury, como os Hatfield and the North e Matching Mole, com “Above and below” e os Spooky Tooth, com um bocado da sua horrenda colaboração com o compositor francês de música electrónica contemporânea Pierre Henry.
Um outro passado a descobrir, sim, mas por quem? (7)