Arquivo mensal: Janeiro 2017

Rachel’s – “The Sea and the Bells”

Pop Rock

15 Janeiro 1997
pop rock

Rachel’s
The Sea and the Bells
QUARTERSTICK, DISTRI. MÚSICA ALTERNATIVA


rachels

A embalagem, o título e o “lettering” antecipam o classicismo e a tristeza dos sons. “The Sea and the Bells” é o terceiro álbum desta formação alargada (17 elementos) de instrumentistas, alguns de formação clássica, depois de “Handwriting” e “Music for Egon Schiele”. Curiosa, se bem que pouco ou nada inovadora, esta aproximação acústica do minimalismo à música de câmara, que não faz esquecer o pioneirismo e a originalidade de formações como os Julverne e, sobretudo, os Regular Music. Os 13 temas evocam paisagens desoladas, céus nublados e corações destroçados. Violinos choram, violoncelos gemem, pianos autocontemplam-se, tudo em nome da construção de uma imagem de solidez arquitectónica e emocionalmente apelativa, jogando na manipulação dos clichés do romantismo pós-moderno, de compositores como Michael Nyman, Mikel Rouse ou Wim Mertens. Saúdam-se o ambientalismo soturno de “With more air than words”, o medo marítimo de “Night at sea” e o clamor industrial de “To rest near to you”, onde algo acontece fora das pautas e da pose sisuda. Os únicos temas a conseguirem quebrar o gelo de uma agradável sensaboria. (5)



Philip Glass – “The Secret Agent”

Pop Rock

15 Janeiro 1997
pop rock

Philip Glass
The Secret Agent
ELEKTRA NONESUCH, DISTRI. POLYGRAM


pg

Não são só óperas, também é preciso ganhar a vidinha. E Philip Glass safa-se bem. Bandas sonoras, chama-lhes um figo. Não custa nada. É só seguir a tendência do momento e esta foi definida por Michael Nyman, em “O Piano”. O ex-minimalista rendeu-se à evidência e compôs o seu próprio teclado romântico para a fita de Christopher Hampton (que, diga-se a propósito, recrutara Michael Nyman para a banda sonora de “Carrington”), sobre um romance de Joseph Conrad, com Bob Hoskins, Patricia Arquette e Gérard Depardieu a darem o corpo ao manifesto no capítulo da representação. A partitura original teve a condução do velho compincha de Glass, Michael Riesman, os instrumentos estão nas mãos da English Chamber Orchestra, incluindo quatro solistas, em harpa, violoncelo, trompa e oboé, e flauta e “piccolo”, e a direcção musical foi entregue a Harry Rabinowitz. A música aguenta-se, navegando nos primeiros temas nas memórias subtilmente subvertidas do malfadado “Piano”, compondo imagens que decerto farão o deleite sonora de muita gente. Depois a coisa escurece, arrancando suspensões próprias de um “thriller” e movimentações ambientais, entre o clássico e o pronto-a-vestir.
Um Glass diferente? Digamos que um Glass, como sempre, pronto para satisfazer as encomendas… (5)



Steve Roach, Stephen Kent, Kenneth Newby – “Halcyon Days”

Pop Rock

8 Janeiro 1997
poprock

Steve Roach, Stephen Kent, Kenneth Newby
Halcyon Days
FATHOM, DISTRI. STRAUSS


hd

Steve Roach desempenha hoje, no universo da música electrónica conotada com a chamada escola da Califórnia, um papel equivalente ao de Klaus Schulze, nos anos 70, relativamente à Escola de Berlim, ou a Brian Eno, na década seguinte, na área do ambientalismo. À semelhança destes dois músicos, Roach possui a mesma capacidade, quer de aglutinador e catalisador de sons e tendências estéticas alheias, quer de inovador em campos personalizados de composição, que acabam por se instituir como correntes autónomas. Foi Roach que na Hearts of Space, em álbuns como “Western Spaces”, ou “Desert Solitaire”, dignificou um género, a “new age”, conferindo-lhe a profundidade e autenticidade de uma música que unia a espiritualidade, a inovação tecnológica e a essência das músicas étnicas imaginárias do quarto mundo, como as delineara Jon Hassell. Foi ainda Roach, que em plena autofagia dos géneros conotados com a música de dança, reinventou o silêncio para além da “ambient techno”. Primeiro na solidão absoluta dos confins da galáxia, num álbum como “The Magnificent Void”, do qual derivaria a estética “Ambient Noir”, o próprio som da escuridão, amplificado nas cavernas do insconsciente. O lado mais étnico e telúrico da sua música artilhou-o este compositor americano como Suso Saiz e Jorge Reyes, no projecto Suspended Memories, do qual estes “Halcyon Days” são como que a sua continuação, numa área por vezes mais próxima de Hassell, Lights in a Fat City ou Mo Boma, que do naturalismo sónico da sua obra gravada para a Hearts of Space/Fathom. Os seus actuais parceiros são Stephen Kent, mago do didgeridu dos Lights in a Fat City, e Kenneth Newby, autor de uma equação de paranóia musical intitulada “Ecology of Souls”. Com base nos mitos da Grécia antiga, “Halcyon Days” é mais um tratado de hipnose e alucinação auditiva, respiração húmida da terra e das criaturas do subsolo, tanto como o adejar das asas dos insectos e dos anjos. Banda sonora de uma revelação interior ou cova de perdições, território de sonhos sem princípio nem fim. (8)