Arquivo mensal: Setembro 2015

Brindes Ao Passado – artigo de opinião

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994

Balanço Português 94

BRINDES AO PASSADO


fm

lagrimas


Com algum tempo de atraso, como é vulgar e de bom tom acontecer neste cantinho lusitano, a moda das homenagens chegou a Portugal. É verdade que por cá não abundam nomes de peso, vivos ou não, que justifiquem tais iniciativas, nem o necessário conhecimento de causa da parte de muitos dos celebrantes. Era preciso procurar mitos, artistas que povoassem o imaginário musical português, capazes de reunir o consenso e atrair tanto os jovens leões como os veteranos. Mas não foi preciso procurar muito. Assim, a jeito e com a estatura mínima pretendida, dois nomes se destacavam à partida, um deles já falecido, o outro ainda vivo e alvo de adoração do povo português: José Afonso e Amália Rodrigues.
O primeiro teve honras de grande acontecimento, através da edição do duplo contendo versões de canções suas, pelos Filhos da Madrugada, designação genérica que englobou praticamente todos os grupos mais conhecidos da pop nacional, mas deixou de fora pessoas que conviveram de perto e tocaram com o autor de “Coro dos Tribunais”. Amália foi, para já, objecto de homenagem mais modesta, por parte de Dulce Pontes, que lhe repescou uma série de fados e adoptou o título de um deles para o seu próprio álbum, “Lágrimas”. Por sinal, também José Afonso foi arrastado na corrente, aproveitando Dulce Pontes para homenagear de uma penada dois artistas cuja obra, ideologia e personalidade não poderiam ser mais opostos.
Enquanto isso, no Seixal, por ocasião das festas de Corroios, alguém se lembrou de editar um “Especial José Afonso”, disco que, curiosamente, não teve o mesmo sucesso de vendas que o dos Filhos da Madrugada. É que não se percebe muito bem o que têm grupos como os Oboé, Nível de Vida, Dixit, Últimos Suspeitos, Quatro+1, Tropa de Choque, Irmãos de Sangue e O Incesto a menos que os GNR, UHF, Sétima Legião, Resistência, Delfins, Madredeus, Peste & Sida, Mão Morta ou Sitiados!
O terceiro homenageado do ano foi outro falecido, António Variações, personagem controversa, ao contrário das outras duas, e, em vida, incómoda para muitos. Foi logo nos primeiros meses de 1994 que os nomes do costume decidiram juntar-se para umas “Variações” em torna deste artista, que adorava Amália, afirmava estar “entre o Minho e Nova Iorque” e misturava nas suas canções preocupações existenciais com uma vertente sonora electropop que, até hoje, permanece como uma das propostas m ais originais da música popular feita em Portugal. Assim, aos especialistas nas homenagens, Delfins (Miguel Ângelo foi dos primeiros a compreender e a “apropriar-se” da música do cantor-barbeiro), Ritual Tejo, Madredeus, Resistência, Sitiados e Mão Morta, juntaram-se Sérgio Godinho, Isabel Silvestre, Santos e Pecadores (bela designação para uma hipotética banda do homenageado…) e Três Tristes Tigres, num álbum que recupera temas dos álbuns “Anjo da Guarda” (1983) e “Dar e Receber” (1984), os únicos que Variações editou em vida.
Foi pois no fundo do baú que muita gente andou a remexer nas raízes perdidas. Num tempo de vacas gordas em termos de vendas (para o qual contribuiu em grande parte a aposta – ganha – na exportação, por algumas multinacionais) para a música portuguesa, a que correspondeu um tempo de crise, em termos de aparecimento de novos valores (exceptuando a saudável investida nas editoras independentes que apresentaram propostas de grande valor como as dos Bizarra Locomotiva, U-Nu ou Tina & The Top Tem, entre outras), investiu-se na bolsa dos valores seguros e na celebração de um classicismo que, inspirado nos tempos áureos da MPP ao longo das décadas de 60 e 70, ganhou novo eco na facção pop. Nesta corrida ao passado encontrou muita gente o fôlego providencial para o relançamento de carreiras em risco de estagnação. Para outros, terá sido verdadeiramente uma sentida homenagem. Para outros ainda, o mero oportunismo e o embarque à última da hora no comboio da jogada comercial. Fossem quais fossem as intenções de cada um, ninguém pode negar, porém, a este fenómeno, das homenagens, uma virtude: a de trazer a música dos mestres para o convívio das gerações mais novas, provocando nelas, como já aconteceu nalguns casos (Paulo Bragança ou a própria Dulce Pontes, por exemplo) o desejo de retomar e actualizar a tradição.

aqui
aqui



Essa Treta De Sermos Todos Amigos – artigo

Pop Rock

21 de Dezembro de 1994

ESSA TRETA DE SERMOS TODOS AMIGOS

Natal, tempo de tradição. De rituais que se repetem. Mas para Filipa Pais e Júlio Pereira, dois músicos que de perto convivem com a música tradicional e que o PÚBLICO juntou num almoço em Lisboa, esta época diz pouco, no que diz respeito aos seus aspectos mais convencionais. Concordam ambos que a reunião da família é o mais importante. A cantora de “L’ Amar” ainda sente prazer em dar e receber prendas. Quanto ao instrumentista e autor de “Acústico”, o dia de Natal limita-se a ser um período de férias forçadas, amizade ao cronómetro, demagogia e mais trânsito nas horas normais.


Julio_Pereira_Acustico_FT

jp2

fp

fp2

Escolheu-se para local de repasto o restaurante O Fumeiro, especializado na cozinha tradicional das Beiras. Mãozinhas de vitela para Júlio Pereira, um cozido à Beirão portentoso para Filipa Pais, antecedidos pelo petiscar de morcelas, linguiça em vinha de alhos, farinheira, salpicão, queijo da serra e requeijão. Comida forte, amenizada por um Quinta do Cotto de 91, de veludo, óptimo para confortar o espírito mas também para dissolver resistências interiores e desatar a língua.
Satisfeito o paladar, o natal passou a tema de conversa. Relembraram-se festejos passados em família. O Natal de hoje, esse, parece já não dizer nada tanto a Filipa Pais como a Júlio Pereira. Afinal, um dia de Inverno como outro qualquer. Ou quase… “Nunca sei quando é que é sexta, ou sábado, ou… só sei quando é domingo porque é o dia em que não encontro ninguém para jantar. Dias de festa, não sei o que é isso!” – diz Júlio Pereira, o mais desencantado dos dois – “A minha relação com o Natal é uma coisa muito estranha. De repente começo a aperceber-me que há muito trânsito às horas normais. Ligo a televisão e é só anúncios. E depois há aquela coisa dos telefonemas dos amigos e da família e só aí é que tenho consciência que é natal. Aliás, o natal resume-se para mim simplesmente a ir almoçar a casa dos meus pais.” Júlio Pereira passou sempre o Natal na cidade. “Só as férias grandes, em miúdo, é que eram passadas na Beira baixa.” Nos últimos anos, porém, essa rotina foi quebrada, com o dia de Natal passado em Braga “na casa de uma família de amigos”. Júlio Pereira não vive de facto o espírito de Natal. “De facto não tenho prática”, diz, “o Natal para mim é uma espécie de férias inevitáveis”.
“Estou chocada!”, foi o comentário proferido em tom de brincadeira por Filipa Pais, embora reconhecendo que para si o Natal “já não tem nada a ver” com o que era “quando tinha sete anos”. Nessa altura, embora o pai da cantora não fosse religioso nem ela própria seja baptizada, “o que acontecia era sempre uma grande festa familiar”, normalmente na casa da mãe, no Campo Pequeno, em Lisboa. “Eu tinha já nessa altura a preocupação de oferecer prendas a outras pessoas, a mesma preocupação que me persegue agora. Nunca acreditei no Pai Natal mas o meu pai faia sempre aquela coisa de estarmos todos na sala e ele a fingir de Pai Natal, aquele número que já toda a gente sabia. Íamos todos à chaminé buscar as prendas todas.”
Júlio Pereira também nunca se deixou “enganar”: “Lembro-me de estar à espera no outro dia, acordar cedo e ir a correr para a chaminé. Mas tive azar porque faço anos a 22 de Dezembro. A prenda era sempre uma só.” “Horrível!”, exclama Filipa Pais. “Não gosto da demagogia em torno do Natal”, continua o homem do cavaquinho, da braguesa e do bandolim, “essa história de sermos todos irmãos nesta data sempre me meteu muita aflição. O pretexto de uma amizade pontual situada num dia tal do ano em que temos todos que ser amigos e darmos coisas uns aos outros é uma coisa ridícula”. Filipa Pais concorda. Para ela, todo esse lado do Natal “é uma treta!”. O que não a impede de viver um pouco o espírito natalício, já que vai participar no Natal dos Hospitais, que este ano se realiza no Hospital Júlio de Matos. “Antes no Júlio de Matos do que no Júlio Pereira!”, acrescentou de imediato o instrumentista. “Mas quando recebes postais de Natal dos teus amigos, não gostas?”, pergunta a cantora. “Não, de tal maneira que nem sequer os mando. Mas atenção tens que perceber que como faço anos a 22, até 25 é uma zona de festa mas muito ligada ao meu nascimento e não ao do Cristo.”
Filipa Pais dá e recebe prendas no Natal. Júlio Pereira, só ao filho e aos pais. “Gosto ainda mais de receber prendas quando não estou à espera”, diz a cantora, que as oferece apenas quando lhe “apetece”, não só no dia de Natal nem no dia de anos. Para ela, este Natal vai ser igual ao dos últimos anos, passados com a família em Lisboa. Júlio Pereira tenciona passar a véspera na casa da família de José Afonso e o almoço do dia de Natal com os pais. “Depois já sei que vai ser uma seca ao jantar, não sei se vou ter alguém com quem jantar. Está tudo fora.”
Seguiram-se os brindes de Natal. Júlio Pereira foi directo à questão: “Desejo que a minha própria editora se lembre, nesta data festiva, de informar as pessoas, o país, que saiu um disco meu.” Filipa Pais, mais evasiva, deseja que não haja “mal-entendidos” entre ela, as pessoas com quem trabalha e os seus amigos. E garante que, “egoisticamente”, a prenda que mais gostaria de receber era “uma casa boa, em Lisboa, mesmo no centro, com uma boa vista e jardim”. E a seguir outra casa “fora de Lisboa”. “Tinha que ser um pai Natal muito rico!” E, já agora, que o seu disco “venda bem”. Em tom menos materialista, Filipa Pais gostaria ainda que este Natal lhe trouxesse a possibilidade de “estar sempre muito bem e ter a capacidade para resolver todas as questões que poderão existir no próximo ano”. “Paz, paz, paz para o mundo inteiro” são ainda os votos da cantora, de imediato contrariados por Júlio Pereira. “Não acredito na paz nem um bocadinho! Se houvesse paz, a vida não tinha piada nenhuma. Claro que estou a falar da tal paz, sinónimo de pasmaceira, de sermos todos irmãozinhos a vivermos democraticamente as mesmas coisas.”
Prendas, Júlio Pereira contenta-se com uma: “Fui informado que o Naná Vasconcelos quer tocar comigo.” “A gente espera sempre o melhor”, continua, “sou músico, sempre fui e acho que vou ser, por isso o que espero é continuar a ter imaginação e saúde”. “Saúde! Saúde, sim!”, corrobora Filipa Pais, “saúde física e mental”. “Não acho que os discursos de Natal sejam eficazes”, acrescenta Júlio Pereira, “da mesma maneira que não faz sentido um fulano qualquer que nesse dia vai entregar umas roupas velhas a um mendigo na rua. Não acredito nesse gesto. Que esse gesto modifique a atitude do próprio mendigo. Além disso, os sistemas políticos reviraram toda a simbologia do Natal, que se transformou na época de maior consumo em qualquer país industrializado.” Para Júlio Pereira, o mais importante passa “pelo encontro de pessoas que gostam de estar umas com as outras, várias vezes ao longo do ano e não, como faz muita gente, resumir tudo num momentinho, no Natal”.
O almoço prosseguiu, e com ele o desfiar do rosário de algumas das misérias que minam a música portuguesa. Mas essas são histórias de todo o ano e não será o Pai Natal que as vai resolver. E Filipa Pais acabou a cantar o “Feliz Natal”…

EMENTA

Vinho tinto, Quinta do Cotto, colheita de 1991
Entradas: (farinheira, moira, morcela, linguiças em
vinha d’alhos, presunto, salpicão, queijo da serra,
requeijão).
Júlio Pereira: Mãozinhas de vitela
Filipa Pais: Cozido à beirão
Leite creme
Café
Whisky

Júlio Pereira – Acústico
Filipa Pais – a partir daqui…



Do Osso Para A Utopia – artigo

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994

DO OSSO PARA A UTOPIA


bd1

bd2

Bernardo Devlin pertenceu aos Osso Exótico, uma banda estranha. A certa altura, resolveu sair – “por razões pessoais e estéticas”. Resolveu seguir carreira a solo e vai começar com um disco, “World Freehold”, que sairá com o selo Ananana, à semelhança do que já acontecera com trabalhos dos Telectu, “Off/Belzebu”, e de Carlos Zíngaro, “Musiques de Scène”, e acontecerá nos tempos mais próximos com Rafael Toral e “Sound Mind Sound Body”.
“World Freehold” tem quatro faixas longas: “World Freehold”, “The mystery od mirrors”, “World rearviewed” (improvisação instrumental) e “Season”, e nele participam, além de Bernardo Devlin, no canto, percussões, órgão, sintetizador e, num tema, violoncelo, o saxofonista Olivier Vogt, que também toca clarinete e percussões e já antes colaborara no segundo álbum dos Osso Exótico.
Diferente dos Osso Exótico? Bernardo Devlin diz que sim. Embora também diga que se “limita a prosseguir” algo que já começara na banda – um “elo” com ideias “que já tinha antes”. Ideias que passam pela “justaposição entre um ideal próprio, naturalmente indizível, e a estrutura de canção, embora não de formato tradicional”.
Os Osso Exótico pertenciam, pelo menos no primeiro álbum, à família dos que faziam a chamada música ritual-industrial. Bernardo Devlin acompanha a música de grupos como Current 93, Coil ou Einstuerzende Neubauten. Mas diz que “a única relação que possa haver” entre a música destes nomes e a sua é o facto de todos eles terem evoluído de um experimentalismo radical para o tal formato de canção. “Nunca me identifiquei com nada disso”, diz, “embora perceba perfeitamente que as pessoas fizessem a ligação com a chamada música industrial, em relação ao primeiro disco do grupo”.
“World Freehold” é um título bastante enigmático. Bernardo Devlin concorda, embora ressalvando que é “enigmático mas não no aspecto Crowliano [Aleister Crowley, célebre mago negro] em que estão os Current 93, os Coil e companhia”. Tem mais a ver com uma utopia”, explica, “o inglês tem palavras fantásticas. ‘Freehold’ é uma das que não existe em português, embora exista a tradução ‘propriedade livre e alodial’, sem encargos. Tem, sem dúvida, que ver com a utopia”.
Para Bernardo Devlin, “o espaço para alguma música que aconteça que não seja ‘mainstream’, música patética, existe”. Prova-o a simples existência dos Osso Exótico e o facto de já estar a trabalhar no seu próximo trabalho em disco, além de pretender levar as suas canções ao palco, incluindo as de “World Freehold”, “rearranjadas de forma a ser possível tocá-las ao vivo”.

ouvir aqui