Arquivo mensal: Setembro 2015

Portugal Está Nu E Recomenda-se – artigo de opinião

Pop Rock

19 de Outubro de 1994

PORTUGAL ESTÁ NU E RECOMENDA-SE


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U-Nu. Unidade. Nudez. Pode querer dizer isto ou outra coisa qualquer. U-Nu é um novo grupo português, originário do Porto, cuja estreia na editora Numérica, “A Nova Portugalidade”, é uma autêntica pedrada no charco. Originalidade, inteligência, cuidado máximo na produção e na apresentação, num disco onde pela primeira vez músicos portugueses ousaram filiar-se na chamada “estética Recommended”.

A primeira conclusão que se extrai da audição de “A Nova Portugalidade” é de que estamos perante um grupo que recusa toda e qualquer norma ditada pelas leis de mercado. Fernando Noronha (baixo), José João Cochofel (percussão), Manuela Costa (piano), Ricardo Pereira (sintetizador), Viriato Moraes (sopros) e Vitorino Almeida Ventura (voz e textos) fazem a música de que gostam e nesse caminho deixam semeadas múltiplas pistas para posterior desenvolvimento. As ideias explodem em múltiplas direcções. Muitas músicas estão contidas na música dos U-Nu.
Do título aos textos e à utilização de “instrumentos paródicos”, como cornetas e peixinhos de plástico, passando pela própria construção dos temas, sente-se que a ironia e a sátira ocupam um lugar importante na estética do grupo. No meio de ferroadas várias, que inclusive atingem a crítica musical (num tema com o elucidativo título “Narciso ou o crítico musical leva-nos ao paraíso”), a chave talvez possa ser encontrada numa das várias leituras possíveis da designação “U-Nu” aplicada à “nova portugalidade”. Como sugere José João Cochofel, pode ser que – os U-Nu preferem deixar vagos os lugares destinados à imaginação dos ouvintes… – “o rei vá nu” ou “o país vá nu”.
Percebe-se, além disso, que todos ouviram e assimilaram muita música. Boa música. Música afastada dos parâmetros comerciais. As bandas da Recommended são uma referência – dos No Secrets in the Family aos Il Gran Teatro Amaro e Fred Frith, só para nomear alguns citados pelos próprios U-Nu –, mas não esgotam a proposta destes portuenses, cuja música é praticamente impossível de catalogar. Visível é a existência de uma teatralização presente nos arranjos e na manipulação, semântica e fonética das palavras, acompanhada por um tratamento quase milimétrico dos sons. “A nossa música passa para além da música. Vejo-a mais como uma peça”, diz José João Cochofel, que acrescenta tratar-se de “um trabalho feito em grande parte a pensar nos espectáculos”.
Se é música portuguesa ou não, eis um assunto sujeito a discussão. O mesmo tipo de discussão que tenta descobrir qual o sexo dos anjos – ainda que o vocalista e declamador dos U-Nu fale em “andar numa procissão”, em símbolos como “o sino ou um corno celta”, ou até em “algumas alusões aos Zés-Pereiras”. No fundo, como diz Vitorino Almeida Ventura, talvez não seja mais que “um acto de amor entre duas culturas, uma portuguesa e tradicional e outra clássica”.
Uma coisa é certa: o projecto musical dos U-Nu, traduzido para já em “A Nova Portugalidade”, vai agitar os hábitos auditivos de muito boa gente e abrir um precedente para outras bandas isoladas em “guetos”, por causa de uma alegada falta de potencialidades comerciais da sua música, romperem o bloqueio. Para já, os U-Nu partem com uma certeza – a “existência de um público maior do que se poderia pensar”. Quanto ao número de vendas do compacto, não estão minimamente preocupados: “Se ganharmos o discos de presunto, já é porreiro, acompanhamos com umas cervejas!”

Tradicional Sim, Mas Ligeiro – artigo

Pop Rock

25 de Maio de 1994

TRADICIONAL SIM, MAS LIGEIRO


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Vítor Reino é um homem com responsabilidades na música portuguesa de raiz tradicional. Fez parte dos Almanaque, passou pela Ronda dos Quatro Caminhos, onde deixou a sua marca nos dois melhores álbuns gravados até à data pela banda, “Ronda dos Quatro Caminhos” e “Cantigas do Sete Estrelo”, e integra desde há uns anos os Maio Moço. Além disso, conta ainda no seu currículo com trabalho feito no campo da investigação e recolha de material tradicional, tendo colaborado com o especialista de etnologia musical José Alberto Sardinha.
Por todos estes motivos espanta que este Vítor Reino seja o mesmo que nos dois últimos trabalhos dos Maio Moço, “Histórias de Portugal” e o recente “Amores Perfeitos”, se tenha deixado apanhar nas malhas do popularucho e de uma “folclorite” tomada no pior sentido do termo. Até porque estes mesmos Maio Moço gravaram em início de carreira dois bons álbuns, “Inda Canto, Inda Danço” e “Cantos de Marear”, à altura dos pergaminhos do passado.
Vítor Reino cansou-se: “Comecei a chegar à conclusão de que a música popular tinha um estatuto francamente baixo em Portugal. Ao contrário, por exemplo do que se passa na Irlanda, onde há revistas, livros, onde a sua música é assumida pelo povo, em Portugal não. A rádio não dava importância nenhuma. Isso determinou em mim um ideal que era criar uma espécie de música ligeira com base nas nossas raízes.” “Afinal algo semelhante ao que se passa no Brasil”, acrescenta Ana Rita Reino, desde há muitos anos mulher e acompanhante musical de Vítor Reino, na Ronda e nos Maio Moço.
Um dos aspectos curiosos, tanto de “Amores Perfeitos” como do anterior “Histórias de Portugal”, é o aspecto didáctico presente nas respectivas temáticas. No primeiro caso, como o título sugere, um resumo dos nossos feitos históricos ao longo dos oito séculos; no segundo, um breviário de alguns dos nossos escritores e poetas mais populares, tudo num tom da “Cartilha Maternal” de João de Deus, com os olhos postos nas camadas de público menos cultas e informadas. “Isso basicamente é por uma razão”, explica Vítor Reino. “Neste momento, existem em Portugal centenas de grupos de música popular e 90 por cento deles não sabem o que estão a fazer. Não têm preocupação nenhuma, não sabem tocar, sendo a música popular um excelente campo para se esconder a mediocridade de muita gente.” Os Maio Moço apenas quiseram fazer “de maneira diferente de todos esses grupos”.
Mas, e grupos como os Vai de Roda ou Toque de Caixa, para referir apenas dois que o próprio Reino aprecia, que não desistem de prosseguir num caminho pejado de escolhos, em nome da sua integridade artística? A resposta não podia ser mais clara: “São grupos que têm um papel cultural. Se houvesse em Portugal, a nível oficial, alguém que percebesse a sua importância, seriam grupos para ser subsidiados, porque não têm hipóteses de vender. Passam totalmente ao lado, porque o gosto das pessoas está, de facto, afastado desse tipo de sons.” Grupos que, “se calhar, encaram a música como um ‘hobby’”.
E Vítor Reino? “Para mim é mais do que um ‘hobby’, talvez seja isso.” Fica a promessa de mudança já no próximo álbum. “Um regresso às origens”, como garante Ana Rita Reino.



Guardar Castidade Nas Palavras E Nas Obras – artigo

Pop Rock

11 de Maio de 1994

GUARDAR CASTIDADE NAS PALAVRAS E NAS OBRAS


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Quem pensa que Quim Barreiros é o rei incontestado da ordinarice desengane-se. Ele é tão simplesmente o vértice de uma pirâmide cuja base parece não ter fundo. O “bacalhau”, o “bater por letra” e “Chupa Teresa” são gongorismos poéticos comparados com o pantanal de palavrões que se estende daí para baixo até ao infinito. Convidamos o leitor a descer connosco ao submundo da rasquice mais imunda, à piada mais rasteira, ao verso mais indigno. Sintam connosco o frémito da repugnância. Tenham nojo, tenham muito nojo! O espectáculo de horror vai começar.
A leitura do artigo que se segue é desaconselhável a menores de 18 anos. De resto, o mesmo aviso que aparece colado nas “Anedotas Malandrecas” de Canty, o “Cantiflas português”. Um exemplo, logo na entrada: “Num bailarico, uma tipa dançava com um tipo durante várias semanas. Ele notou que ela andava sempre de luvas. Um dia diz-lhe ele: Oiça lá menina Henriqueta, por que é que usa sempre as luvas? Diz ela: Ah, ah, ai o senhor já reparou? Sabe, eu uso luvas para manter as minhas mãos sempre branquinhas. Diz ele: Oh que merda esta, atão eu uso calças há tantos anos e tenho os colhões tão pretos?!” [Ruído de gargalhadas.]
Carregámos na tecla de “stop”. Continuam a seguir-nos neste túnel de horrores? Paremos um bocadinho para descansar e reflectir. Em nome de quê existem coisas destas à venda? Quem compra, quem ouve e quem se diverte a ouvir as anedotas de Canty ou as “canções” de Artur Gonçalves ou do duo Ele e Ela? Muitos milhares de pessoas por esse país fora, sem dúvida.
Canty não quer chocar com a sua linguagem grosseira, mas sim dar voz às pulsões reprimidas ou às frustrações de vidas sem sentido. O trágico é que há quem se divirta. Portugal, país de sonhadores e poetas, esconde trevas hediondas onde o comum dos mortais com um mínimo de sensibilidade perde a razão. Ainda têm coragem de prosseguir? Não digam que não vos avisámos! A história é pródiga em casos de homens e mulheres de bem que se perderam no lodo da corrupção.
Ele e Ela, José Crispim e Lena Silva, são um duo da ordinarice apadrinhado pela crueldade humorística de Herman José. Uma das suas cassetes intitula-se “A Cabra e o Bode” e tem narração de Vítor de Sousa. Aqui, a ordinarice tem “música” de acompanhamento e uma introdução algo desconexa em espanhol. “Niñas, niños, señoras, señores, para ustedes una mui preciosa historia de humor, que se pasa com los artistas Ele e Ela. Ele tiene un bode, ela tiene una cabra. Asi estes animales hacen parte de un espectáculo de humor.” De imediato seguida pela entrada triunfante da primeira canção, sobre ritmo disco: “Vamos a ela, à cabra da minha mulher! Um, dois, três, ela já não os tem” e “O bode do meu marido é que nunca mais cá vem”. Escolhemos ao acaso uma faixa pelo título: “Meu gato não me come a rata”. Até é suave: “Ai que rata tão bela! Mas o meu Zé gato quando a vê ao lado perde o aparato e não fica assanhado.”
Nel Mix e os seus “Sucessos” de “Música p’ra pular” de genérico “A revolta dos maridos” deram o mote para outras duas duplas cujo denominador comum é Tony Moreira. Uma delas com Deolinda Maria, intitulada “Desgarradas – Batota nas Bordas”, e outra com Rosa Oliveira, moçoila corada com trajes de minhota que aparece na capa a fazer uns cornos porque o disco se chama “Os Cornos do Diabo”.
A ordinarice junta-se aqui ao satanismo numa aliança duplamente perigosa. Sentimos curiosidade. Estariam aqui os percursores do “world metal” português? Era preciso ouvir, com muitas cautelas e amuletos, para ter a certeza. Sobre um fundo de folclore empastado de acordeões, chulas do princípio ao fim, tão ao gosto do bom povo português. Não encontrámos palavrões. Afinal é gente educada. Para além dos “cornos” ditos e reditos na descrição de um “affaire” marital desenrolado intra e além-fronteiras, nada de especialmente chocante há a assinalar. Aliás, talvez devido a um trauma qualquer, Tony Moreira tem uma fixação naqueles apêndices ósseos. A segunda das suas cassetes com Rosa Oliveira chama-se “Um Par de Cornos” e afina pelo mesmo diapasão de matreirice camuflada, enquanto com Deolinda Maria há, por sua vez, um tema chamado “Os cornos do caracol”. Será que a infidelidade grassa por essa província fora e que o Portugal real reage a este tipo de estímulos? Tratar-se-á da pornografia dos pobres?
Um dos temas de “Batota nas Bordas” é mais “hard” e tem por título “Fressura na panela”. Nele há o seguinte diálogo: “Olá menina do talho, tens a fressura molhada, se eu te apanho essa carne, hei-de comê-la à manada.” Responde ela: “A minha carne não comes, ela custa bom dinheiro, e tu a fazeres panelas é um fraco paneleiro.” Riposta ele (ofendido): “Faço panelas e pratas, sou um artista de primeira, se eu te apanho a fressura, ferro-lhe o dente à maneira.” Ela insiste nas ofensas à sua virilidade: “Só vendo isso no talho, nota bem ó comilão, falas tanto na fressura, mas só comes salpicão!” e “Só vendo carne de talho, toda a gente sabe disso, mete na tua panela um paio ou um chouriço.” Ele defende-se, ela ataca, deixamos à imaginação do leitor o crescendo de ignomínias conducentes a um desenlace que se adivinha trágico.
Não nos atrevemos a voltar a Canty e à boçalidade das suas pilhérias. Não é “Só malandrice” comos e diz noutra das suas cassetes, mas qualquer coisa de verdadeiramente obsceno muito além do simples teor escatológico ou sexual de palavras que agridem em primeiro lugar a inteligência. É possível que este e outros “artistas” da mesma igualha que milhares de cidadãos anónimos consomem de forma mais ou menos ingénua retratem no fundo as pulsões sem tino nem destino de portugueses perdidos dentro de si mesmos, abandonados num país entregue às mãos de uma estupidez mais profunda e mais perigosa do que qualquer rima pornográfica. Uma estupidez sem consciência, incrustada na alma inexistente de gente ainda mais feia do que o “Cantiflas português”. Uma estupidez perversa oculta sob máscaras, gravatas e pastas de executivo que, às escondidas, se rebola de riso alarve com as anedotas “muito picantes” de Canty. Vícios privados, públicas virtudes de quem não guarda castidade nem nas palavras nem nas obras.