Arquivo mensal: Março 2015

Milton Nascimento – “Txai”

Pop Rock

17 ABRIL 1991

NASCIMENTO DOS ÍNDIOS

MILTON NASCIMENTO Txai
LP e CD, Columbia, distri. Sony Music

milton

Disco verde. Música ecológica. Ironia e cinismo à parte, ainda bem. “Txai” faz parte da campanha “Aliança dos povos da floresta”, coordenada pela UNI – União das Nações Indígenas. Ainda e sempre a questão da Amazónia e dos perigos que a ameaçam. O termo “txai” significa no idioma dos índios kaxinawa, habitantes do estado de Acre, “companheiro”, “aquele que é aliado da floresta” ou “a minha outra metade”. O encontro de Milton com os índios processou-se gradualmente, a partir de uma viagem descendente pelo rio Araguaia e do encontro com o Avá-canoeiro e do consequente interesse e audição de gravações com registos da música de diversas tribos índias, até à fundação, em 1989, da UNI. “Txai” sumariza e culmina este percurso.
Intercalados entre as canções de Milton, há excertos de música e cânticos da tribo, gravados ao vivo no interior da floresta – “Baümetóro”, “Hoeiepereiga”, “Curi curi” e “Baridjumokô”. Das canções do próprio Milton, melhores e mais inspiradas as do segundo lado do que as do primeiro, sobretudo “A terceira margem do rio”, “Benke” (com coro infantil) e “Sertão das águas”, pontuado pelo reflexo das percussões de madeira nas águas prateadas de um rio. Verifica-se nestes temas uma maior aproximação ao espírito da terra, nos registos vocais e instrumentais sincopados, formalmente experimentais e sobretudo possuídos por uma energia que está de todo ausente do primeiro lado, mais comercial e voltado para o mercado americano, onde, de resto, Milton Nascimento se sente particularmente à vontade. Anote-se o facto de todas as letras virem traduzidas em inglês.
Podendo considerar-se um típico produto de “música de fusão”, “Txai” mostra-se todavia ambíguo nos métodos utilizados. Se, por um lado, não são postas em causa a pureza de intenções subjacentes à sua feitura, por outro, os resultados, em termos exclusivamente musicais, deixam a desejar. Mas talvez algumas concessões à facilidade, nomeadamente os arranjos “americanos” do primeiro lado, sejam o preço justo a pagar pela difusão e acessibilidade da mensagem ecológica que se pretende alargada à escala planetária.
Uma multidão de músicos brasileiros e as orquestrações de Wagner Tiso conferem à obra a riqueza instrumental adequada à transposição sonora da profusão luxuriante da floresta tropical. “Txai” situa-se assim na confluência da cultura tecnológica da urbe ocidental com a matriz étnica tradicional dos grandes espaços amazónicos, sem que desse encontro (ao contrário da alquimia operada por Jon Hassell) resulte a criação de uma qualquer música do “quarto mundo”. ***

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Johnny Cash – “The Mistery Of Life”

Pop Rock

17 ABRIL 1991

Johnny Cash
The Mystery of Life

LP/MC e CD, Mercury, distri. Polygram

cash

Ao fim de 36 anos de carreira ininterrupta, Johnny Cash, rei da “country music”, mantém intactas uma frescura e uma originalidade de escrita surpreendentes. Produzido por Jack Clemente, o mesmo dos discos gravados para a editora “Sun” (onde durante anos pontificou um outro rei – Elvis Presley) da década de 50, “The Mystery of Live” confirma o seu autor como um dos pilares a música tradicional americana. Desde o balanço contagiante da “cowboy song” de abertura, “The Greatest Cowboy of Them all”, a baladas como “I’ll Go somewhere and Sing my Songs again” (co-composta por Tom T. Hall), o original de Dylan “Wanted Man” ou a nova versão de uma das suas primeiras canções, “Hey Porter”, Johnny Cash continua a cantar, com o empenho e a mestria de sempre, as histórias e História do outro lado da América. “Goin’ my Book” demonstra até que ponto Stan Ridgway, o moderno “cowboy” americano, aprendeu com as lições do mestre. Indispensável para os amantes do género. ****

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Vários – “Ish”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Vários
Ish

LP e CD, Some Bizarre, import. Contraverso/Bimotor

ish

Stevo, mentor e anjo negro da Some Bizarre, é o equivalente sombrio de Daniel Miller, da Mute. Ambos partilham o gosto pelo risco e por sonoridades pouco recomendáveis a almas sensíveis ou menores de idade. Se Daniel Miller traz para a Mute Diamanda Galas, Steve responde à letra e assina com os Einstuerzende Neubauten. A Mute consegue os Laibach? A Some Bizarre atira-lhe à cara com Foetus. E assim por diante, sem que se saiba muito bem quem abre as hostilidades. Motivo para os músicos de regozijarem, não fora o pormenor dos casos citados pouco tempo terem para festejos, de tão ocupados andarem com tarefas bem mais importantes, como a destruição do mundo, a corrupção das mentes jovens e a aniquilação de si próprios.
Assim passe-se delicadamente à frente e repare-se na colectânea em causa onde, ao lado dos “maus” (Neubauten, F. M. Einheit e Foetus), se deu espaço aos simplesmente decadentes (Marc Almond, brilhante em “Toreador in the Rain”), os discretamente estranhos (uma senhora de música e voz bizarras, Lucia Dehli, que nos Vicious Circle canta as virtudes da “Underground ecstasy”), ou os estranhíssimos Mother the Wardrobe Is full of Infantrymen, que, no tema do mesmo nome, contam à mãe a história de exércitos escondidos no guarda-fato.
Anotem-se ainda as prestações de Agnes Bernelle (próxima de Marianne Faithfull) em “Song about Mary”, num registo mais suave do que o habitual cabaré brechtiano, e o funk industrial de Zeke Manyika, produzido por Keith Le Blanc. Os Stex, Tim Hutton e Kandise King limitam-se a assinar o ponto através de banalidades dançáveis, esta última chegada a territórios próximos dos de Whitney Houston e da MTV. Para tornar a coisa mais confusa, refira-se que pelo menos quatro faixas fazem alusão directa a temas bíblicos ou à religião em geral. Com cerca de 37 mn. de duração, “Ish” é uma amostra que, embora significativa de algumas das obsessões da casa, peca por escassa e inconsequente. ***