Arquivo mensal: Março 2015

Legendary Pink Dots – “The Maria Dimension”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Legendary Pink Dots
The Maria Dimension

LP e CD, Play It Again Sam, distri. Contraverso

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Herdeiros legítimos da música progressiva dos anos 70, os Legendary Pink Dots representam uma das vertentes mais heterodoxas e estimulantes da cena alternativa actual. “Island of Jewels”, “Any Day now”, “The golden Age”, “Crushed Velvet Apocalypse”, e sobretudo a obra-prima “Asylum”, duplo que retrata os esplendores e dores da loucura, criaram-lhes uma aura de bizarria e qualidade que, de álbum para álbum, se tem vindo a reforçar.
Edward Ka’ Spel (profeta e vocalista da banda) é uma personagem estranha, misto de Syd Barrett e Peter Hammill, mergulhada numa alucinação contínua e colorida, povoada de fantasmagorias autobiográficas. Das suas obsessões constam o Apocalipse, a cor roxa e uma tal senhora sem nome de mil rostos, entre o celestial e o sinistro. Desta vez a Senhora é nossa e merecedora de todo o respeito. A capa retrata-A num pisa-papéis, daqueles transparentes que se voltam ao contrário para ver cair a neve e que abundam em Fátima. De resto, “The Maria Dimension” contém diversas alusões aos segredos e à iconografia ligados ao santuário.
A “dimensão de Maria” estende-se ao longo de hora e meia (o CD tem mais onze temas que o álbum, incluindo um CD single de bónus) por sonoridades luxuriantes e poemas labirínticos, com incursões na música barroca, no experimentalismo electrónico ou nas ragas indianas. Edward Ka’ Spel grita, sussurra, declama palavras (por vezes trituradas por computadores carnívoros) que se interligam como as peças de um “puzzle”. A paleta instrumental inclui cordas e sopros variados, electrónica, percussão e um número razoável de instrumentos exóticos. Enquanto o fim do mundo não chega, os Legendary Pink Dots vão desenterrando os seus tesouros. ****

aqui



Michael Oldfield – “Heaven’s Open”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Michael Oldfield
Heaven’s Open

LP, MC e CD, Virgin, distri. Edisom

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Mike Oldfield andou a ler “Dr. Jeckyll and Mr. Hyde”. Nunca o deveria ter feito. Desde muito novo dado a problemas psicológicos à beira da patologia clínica, vê-se agora confrontado com uma terrível e dolorosa divisão na personalidade – uma confusão que lhe mói a cabeça e lhe corrói a alma ao ponto de o fazer mudar de nome e passar a tocar somente guitarra e teclados, em vez das habituais dezenas de instrumentos.
Assim, no primeiro lado, encontramo-nos frente a frente com o temível Mr. Michael, a nova personalidade psicótica, já anteriormente assumida em “Crises” ou “Discovery” e que aqui irrompe triunfalmente, apostada em destruir toda a obra anterior do músico, a golpes de um execrável comercialismo pop, fruto inconfundível de uma mente perturbada.
Do outro lado, a calma reencontrada, o esplendor instrumental caro a Dr. Mike de antanho, nos quase vinte minutos de “Music from the balcony”, abrilhantados pelo saxofone de Courtney Pine. Mesmo a capa mostra o estado transtornado do ex-menino de ouro da Virgin, com o recurso tornado piroso das imagens fractais. Um caso clínico a seguir atentamente. Em relação às estrelas, feita a média dos dois lados, dá…) **



John Wesley Harding – “The Name Above The Title”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

John Wesley Harding
The Name Above the Title

LP e CD, Sire, distri. Warner Bros.

jwh

Ironizando – Bob Dylan decerto se referia a John Wesley Harding quando escolheu o nome para título de um dos seus álbuns. Se compararmos, porém, as capacidades de Robert Zimmerman às de John Wesley Harding, verifica-se que as deste último ficam um pouco a perder. John, ao contrário de Bob, não possui uma voz inconfundível, antes pelo contrário – poderá haver quem a confunda com a de Elvis Costello. Tem de comum com Bob e Elvis o facto de escrever baladas, por exemplo “The people’s drug” ou “Driving in the rain”. Mas mesmo estas esquecem-se mais depressa. Em “Anonymous 1916”, “If you have ghosts” ou o psicadélico “Crystal blue persuasion” (tema antigo de Tommy James & The Shondells), as guitarras (imaculadas à maneira dos R. E. M. ou saturadas de efeitos de “fuzz” e “wah wah”) brilham. Nada de especialmente exaltante nem causador de lesões cerebrais irreparáveis. “The name above the title” fica-se pela média – terrível sentença aplicável às obras daqueles a quem os deuses não contemplaram com as graças do génio. As notas da capa mostram que ao rapaz não falta, pelo menos, o sentido de humor. As notas musicais perdem portanto no confronto com as outras – agradáveis e dispensáveis. **