Arquivo mensal: Março 2015

The Waterboys – “The Best Of The Waterboys, ’81-’90”

Pop Rock

1 MAIO 1991

THE WATERBOYS
The Best of the Waterboys, ’81-’90

LP/MC e CD, Ensign, ed. EMI-VC

waterboys

“Desde que viajámos para Oeste, até Galway, que nos ligámos à música tradicional. Em 1989 tocávamos country/folk. Um ano depois era de novo o rock’n’roll” – palavras de Mike Scott, líder, guitarrista e vocalista dos escoceses Waterboys, que exprimem bem a indefinição estética desde sempre evidenciada pela banda. Este “Best of” recolhe material dos seus cinco álbuns de originais, “The Waterboys”, “A Pagan Place”, “This Is the Sea” (com a parte de leão, o que não admira já que foi aquele que mais vendeu…), “Fisherman’s Blues” e “Room to Roam”.
Rivais dos irlandeses U2, os Waterboys procuram ainda um lugar confortável na primeira divisão das bandas de guitarras, “preocupadas com as raízes tradicionais”, cuja ambição máxima é encher estádios e os bolsos. Só que ainda não descobriram a melhor maneira de o conseguir. “Room to Roam” apostava no filão tradicional, com resultados satisfatórios. Da próxima vez, como será? Para já, a presente colectânea inflecte nos domínios mais seguros do rock “mainstream”, apoiado nas vocalizações e guitarradas de Scott e no pulmão do saxofonista Anthony Thistlewhaite. “O melhor” dos Waterboys não aquece nem arrefece. É melhor esperar pelo próximo. *

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Holger Czukay – “Radio Wave Surfer”

Pop Rock

1 MAIO 1991

HOLGER CZUKAY
Radio Wave Surfer

LP/MC e CD, Virgin, distri. Edisom

hc

Distantes vão os tempos de obras mestras como “Movies”, “On the Way to the Peak of Normal”, “Der Orsten ist rot” ou “Rome Remains Rome”. Mais ainda, a época áurea dos Can, de “Monster Movie”, “Tago Mago”, “Future Days”, “Ege Bamyasi” e “Soon Over Babaluma”. Holger Czukay, veterano com ar de avôzinho louco, é danado para a brincadeira. Entre outras proezas, pôs o Papa a cantar blues. “Radio Wave Surfer” prossegue a via de “Rome Remains Rome” para desembocar num beco sem saída. Aquilo que nesse álbum surpreendia (o humor, o inusitado das colagens – culminando no tal blues papal, o swing instrumental) e lhe conferia uma aura de inspirada excentricidade apagou-se numa sombra pálida e desfocada. Restam os truques, aqui circunscritos à habitual pilhagem radiofónica das já banais “vozes búlgaras” ou à monotonia declamatória do vocalista Sheldon Ancel, e os tiques de Jaki Liebezeit e Michael Karoli (dois ex-Can), reduzidos à vulgaridade. Parece mentira, mas “Radio Wave Surfer” tem tanta energia e desperta tanto interesse como uma velhota a fazer “tricot”. O avô Czukay está cansado ou é mais uma partida? **



Rain Tree Crow – “Rain Tree Crow”

Pop Rock

17 ABRIL 1991

O MUNDO ONÍRICO

RAIN TREE CROW
Rain Tree Crow

LP e CD, Virgin, distri. Edisom

rtc

Fantasmagóricos e amaneirados, os Japan, e em particular o seu vocalista de rosto angelical David Sylvian, não chegaram a espantar o mundo mas fascinaram muita gente, hipnotizada pela voz clara e sinuosa e pelas cores de um orientalismo indolente assumido na sua vertente mais decadentista. Os Japan eram como que o contraponto estético e intelectualizado dos Roxy Music, dirigidos pela visão renascentista de Sylvian, um apaixonado pelas artes em geral, nomeadamente o cinema, a pintura e a fotografia. “Gentlemen Take Polaroids” – como dizia, no título do primeiro álbum gravado pela banda para a Virgin. “Ghosts”, um dos grandes temas que assinou com os Japan, define claramente os contornos de uma música que viria a explodir num misto de intemporalidade e exotismo, em toda a sua obra posterior a solo, nomeadamente “Brilliant Trees”, o duplo “Gone to Earth” e “Secrets of the Beehive”, exemplos brilhantes de uma música lenta e sensual que aos poucos se insinua, como sonhos fotográficos, nos recantos mais obscuros da memória. “Plight and Premonition” e “Flux & Mutability”, em colaboração com Holger Czukay, que já havia aliás participado em “Brilliant Trees”, estende ainda mais o tapete temporal, por longas peças ambientais recortadas à eternidade em dias de luz sobrenatural, assombrados por vozes e ruídos longínquos, emergindo esporadicamente de mundos eléctricos e subterrâneos.
Os quatro ex-Japan regressam agora sob a designação Rain Tree Crow e com um disco do mesmo nome, composto a partir de improvisações colectivas em estúdio, que alia a estética de canções do grupo anterior às divagações étnico-ambientais dos já citados trabalhos de Sylvian a solo, Mick Karn (“Titles”, “Dreams of Reason Produce Monsters”) ou de um disco obscuro e experimental gravado pela dupla Jansen/Barbieri (“Worlds in a Small Room”).
Ajudados por Michael Brook (o homem da guitarra infinita) e Bill Nelson (ex Be-Bop de Luxe e Red Noise, presente em “Gone to Earth”, David Sylvian, Mick Karn, Steve Jansen e Richard Barbieri desmultiplicam-se agora por uma panóplia de instrumentos, que inclui percussões étnicas (tambores marroquinos, tablas, marimba, etc.), sintetizadores, rádio-transístor sintonizado em onda curta, “slide guitar”, banjo, piano preparado, órgão de foles, saxofone e clarinete baixo, na pintura impressionista de paisagens estranhas que encontram nas deambulações vocais de Sylvian o seu ponto focal.
“Red Earth (as summertime ends)”, “New moon at red deer wallow” (harmonia perfeita entre as divagaçoes free-jazzísticas do clarinete baixo de Karn e as percussões aquáticas de Jansen), “A reassuring dull Sunday” e “Scratching on the bible belt” (um banjo de lata que se diverte a brincar com o discurso solene de um órgão de pedais) dispensam contudo a voz para se alargarem por mundos cujas portas Brian Eno soube abrir. “Big wheels in shanty town” (cantado por Dianka Diabate e Djene Doumbouya) soa como uma colagem de “My Life In the Bush of Ghosts” rodando a 16 r.p.m. Clássicos, à maneira dos Japan, “Every colour you are” ou “Blackwater” evocam cenas de filmes antigos, de “glamour” e estrelas (de)cadentes, antes interpretados com mestria por Bryan Ferry e os Roxy Music.
“Blackcrow hits shoe shine city” abandona por minutos o universo contemplativo para despertar atordoado ao ritmo do rock’n’roll, antes do regresso ao sonho, hipnótico e insinuante. David Sylvian e restantes Rain Tree Crow habitam um mundo imponderável (magistralmente retratado na capa pela objectiva de Shinya Fujiwara e o “design” de Russell Mills), paralelo ao universo convulsivo da música pop, em que a noção de tempo deixa de fazer sentido e as melodias voam como aves ou folhas impelidas pelo vento. ****

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