Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

Gorky’s Zygotic Mynci – “Spanish Dance Troupe”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Gorky’s Zygotic Mynci
Spanish Dance Troupe (7)
Mantra, distri. MVM


gor

Depois do decepcionante “Gorky 5” (incursão falhada no country-pop), os Gorky’s Zygotic Mynci retomam em “Spanish Dance Troupe” a aprendizagem e assimilação de algumas das estéticas “arty” dos anos 70 mas também dos 80 (Teardrop Explodes, XTC) que tinham encetado com “Barafundle”. De caminho tornaram-se uma estante fascinante da pop dos anos 90, capaz de colorir uma melodia com as cores de velhos retratos restaurados. “Hallway” entra em suavidade na “Saint-Tropez” dos Floyd, com os mesmos ecos, a mesma espacialidade e as mesmas vocalizações valium de Roger Waters. Ziggy Stardust arranha as guitarras dos Faust em “Poodle rockin’”, enquanto vai raspando em “Flying doesn’t help” de Anthony Moore. O gosto pela cena de Canterbury permanece intacto nos GZM, a julgar por temas como “She lives on a mountain” (influência dos Caravan) ou “Over & out”, este último praticamente decalcado de Kevin Ayers (já citado, aliás, em “Barafundle” na versão de um dos primeiros temas dos Soft Machine) entre interlúdios de guitarra acústica no meio de bucólicos prados. “Don’t you worry” é um curto postal ilustrado de saudades aos Incredible String Band, com uma voz émula de Licorice e o violino agatanhado de Robin Williamson. Um dos temas mais interessantes de “Spanish Dance Troupe”, “Hair like monkey teeth like dog”, microbestiário doméstico com o toque dos Faust, contrasta com o classicismo e os arranjos de cordas de veludo de “Freekles”, num álbum que, infelizmente, ficaria bem melhor sem o derradeiro “The humming song”, em que as ideias parecem ter-se escoado de súbito pelo ralo.



Edward Ka-Spel – “The Blue Room”

Sons

3 de Dezembro 1999
POP ROCK

Edward Ka-Spel
The Blue Room (8)
Soleilmoon, distri. Ananana


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“Canta enquanto podes” é a divisa que há anos ilustra cada disco dos Legendary Pink Dors. A sigla apocalíptica transitou para o mais recente álbum do seu líder, o vocalista Edward Ka-Spel, uma das poucas “cabeças de ácido” dos anos 90, ao lado de Julian Cope e um dos legítimos herdeiros da “trip” interminável desencadeada por Syd Barrett. “The Blue Room” é, segundo o seu autor, a primeira parte de uma trilogia versando o tema da demanda da alma. Viagem pelos planos astrais da consciência, “The Blue Room” convida-nos a entrar no quarto azul, o quarto secreto do feiticeiro Ka-Spel, palco de intraduzíveis cerimónias, tão alucinatório como o cubículo de terror carmesim congeminado por David Lynch em “Twin Peaks”. É uma caixa de música de electrónica barroca, em progressão lenta em direcção aos abismos da mente, conduzida com cinismo pela voz de veludo e falsamente inocente de Ka-Spel, que aqui assume o comando de todos os sons e efeitos, musicais e psicológicos. O mundo de Ka-Spel, como dos Legendary Pink Dots, é um quadro de roxos e dourados emoldurado por um céu polvilhado de estrelas doentes. Uma música que atrai, que se insinua, estranha como um carnaval de espectros. Vozes de deuses moribundos, batuques de joalharia, danças de arlequins, computadores embriagados com licores, corredores com braços e espelhos em cada esquina, relógios deformados a marcarem o tempo que falta para o fim. Edward Ka-Spel, uma vez mais, mina os alicerces da normalidade. E da religião, como em “Supper at J’s”, a última ceia de um falso Messias acessível através da Internet. Um álbum do outro mundo. A ouvir enquanto é tempo.



Peter Hammill – “The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt” + Roger Eno & Peter Hammill – “The Appointed Hour”

10 de Dezembro 1999
DISCOS – POP ROCK

Ópera de empreitada


Peter Hammill
The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt (7)
Roger Eno & Peter Hammill
The Appointed Hour (5)
Fie, distri. Megamúsica


ph

Há uma maldição a pairar sobre esta ópera baseada num conto de Edgar Allan Poe que Peter Hammill demorou cerca de 20 anos a concretizar e que finalmente viu a luz do dia em 1991, como amaldiçoada era a mansão saída da imaginação do escritor inglês. O tema da decadência e da hiper-sensibilidade da personagem principal, Roderick Usher, desempenhado pelo próprio Hammill, assentam como uma luva no universo poético do antigo líder dos Van Der Graaf Generator mas a verdade é que a conjugação do libretto, escrito por Chris-Judge-Smith, com as partes vocais das restantes personagens, entregues a Lene Lovich, Sarah-Jane Morris, Andy Bell e Herbert Gronemeyer, não conseguiram evitar que “The Fall of the House of Usher” tivesse um tom de ópera-rock que, nalguns momentos, rondava perigosamente a grandiloquência balofa de um Meat Loaf.
Oito anos volvidos, Hammill terá chegado à mesma conclusão. Na impossibilidade de trocar os intérpretes, o cantor reescreveu a totalidade dos arranjos, modificando as vocalizações que a si diziam respeito, retirando as partes da bateria e acrescentados naipes corais de guitarras eléctricas. Também todo o trabalho de produção sofreu modificações já que Peter Hammill remodelou todo o conceito sonoro do álbum no seu estúdio particular. “The Fall of the House of Usher” soa agora mais cheio e electrónico com a contrapartida das novas vocalizações mostrarem um Hammill mais velho e menos disponível para os excessos histriónicos que caracterizavam a anterior versão. Mas por mais que Roderick Usher/Peter Hammill continuem a chorar a morte de Madeline a velha mansão jamais se erguerá das ruínas. Apesar disso, esta reconstrução, “demolida e reconstruída” de “The Fall of the House of Usher” é uma obra-prima, comparada com “The Appointed Hour”, uma colaboração de Hammill com o teclista Roger Eno. Os dois combinaram uma hora, fecharam-se cada um no seu estúdio a improvisar e depois encontraram-se para colar os respectivos desempenhos. Apesar de, segundo dizem, não ter havido qualquer tratamento ou ajustamento dos trabalhos individuais, não se notam fracturas nem costuras pela simples razão de que quase nada acontece ao longo de uma hora pachorrenta preenchida por pianadas e tapetes de sintetizador que têm mais a ver com o neo-romantismo de Eno do que com a ebulição criativa de Hammill. Sem correrem riscos para além do inusitado da ideia, Hammill e Eno limitaram-se a fazer “muzak” tão agradável quanto inconsequente, nada acrescentando de relevante às respectivas discografias.