Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

Martin Rev – “Marvel”

Sons

23 de Abril 1999
REEDIÇÕES


Martin Rev
Marvel (8)
Daft, distri. Ananana


mr

Martin Rev, teclista dos Suicide, editou em 1980 o seu primeiro álbum a solo, intitulado simplesmente “Martin Rev”, numa edição cremos que exclusiva para o mercado norte-americano. “Marvel” é, no fundo, a reedição desse disco, ao qual foram acrescentados dois temas, “Cool train” e “Marvel” (o mais extenso, com os seus 12m50, a justificarem, talvez, a sua escolha para título) e uma nova capa de fazer fugir, embora a gravura original esteja reproduzida do outro lado. “Martin Rev” soa como se imagina que deve soar: os Suicide sem a voz de Alan Vega. Sons nevróticos e repetitivos onde Rev põe à prova os nervos dos ouvintes, fazendo fritar os sintetizadores e os neurónios em ragas industriais com a mesma acutilância e poder de dilaceração da broca de um dentista. Mas “Martin Rev” possui um fascínio muito especial, no modo como os oito temas que compõem a edição original conseguem transformar a monotonia rítmica e a neurose do metal e da electricidade em peças com um estranho poder hipnótico. Ao contrário, porém, da música industrial, como ficou tipificada na época, segundo a fórmula caos electrónico mais ruídos de fábrica mais cirurgia de amputação de tudo o que pudesse ser agradável ao ouvido, “Martin Rev” ostenta uma disciplina férrea, um sentido harmónico e uma noção de sentido único que fazem deste trabalho a banda sonora ideal para uma viagem rodoviária. Não da mesma maneira que “Autobahn” dos Kraftwerk, não sobre o cimento da auto-estrada, mas antes como uma “trip” através dos postes de alta tensão, a sobrevoar as corridas contra a morte dos personagens de “Crash”.



Cassiber – “Live in Tokyo”

Sons

19 de Fevereiro 1999
DISCOS – POP ROCK


Cassiber
Live in Tokyo (7)
2xCD Recommended, distri. Ananana


cassiber

Os Cassiber, um dos múltiplos projectos do músico/teórico Chris Cutler – aqui um trio com Christoph Andres e Heiner Goebbels, mais o saxofonista convidado Shinoda Masami –, gravaram o presente registo numa das suas derradeiras apresentações ao vivo, em dois concertos consecutivos em Outubro de 1992, em Tóquio, os únicos realizados pela banda no Japão. Depois, disso, os Cassiber deram por extinta a sua actividade em Dezembro desse ano, na Gulbenkian, em Lisboa. O primeiro álbum contém, além de originais, temas de álbuns comprometidos estética e ideologicamente, como “Perfect Worlds” e “A Face We all Know”, demonstrativos do manifesto musical da banda, uma síntese de mensagem política, tendência de esquerda hermética, samplers enfurecidos e um anarco-jazz com raízes no movimento “RIO” (“Rock in Opposition”). As versões tanto podem ser bastante fiéis aos originais como afastar-se completamente deles, como é o caso de “Todo o dia”, um dos muitos temas com base em samples de “Perfect Worlds”. Mais interessante acaba por ser o segundo disco, composto por remisturas, samplagens e colagens das gravações dos dois espectáculos dos Cassiber em Tóquio pelo grupo japonês Ground Zero, com Otomo Yoshihide. Também neste caso se tratou do último trabalho desta banda e de uma homenagem ao saxofonista Shinoda Masami, que viria a falecer pouco depois destas gravações, aos 34 anos.



Jim O’Rourke – “Eureka”

Sons

26 de Março 1999
DISCOS – POP ROCK


Ideia luminosa

Jim O’Rourke
Eureka (8)
Domino, distri. Música Alternativa


jor

Em Chicago recicla-se até ao infinito a espiral das últimas quatro décadas de música pop. Nos comandos desta linha de montagem encontra-se Jim O’Rourke, patriarca do pós-rock, erudito de reconhecidos méritos (acertou em todos os nomes com que a revista “The Wire” o desafiou numa das suas últimas Invisible Jukebox), divulgador de novos talentos (entre os quais Nuno Canavarro, que Jim descobriu através de “Plux Quba”, gravada pelo músico português em 1988, editando o disco na sua própria editora Moikai) e amigo (por vezes até demais) dos seus amigos.
Depois da reconversão dos Gastr del Sol de discípulos heterodoxos dos Faust (com um álbum novo disponível em Portugal em finais do próximo mês) em neuróticos da pop, no álbum do ano passado, “Camoufleur”, também na sua obra a solo o conceptualista de Chicago se vem emaranhando cada vez mais nas malhas de um passado tão diversificado quanto sedutor nas margens do mainstream. E se, neste particular, o seu anterior trabalho, “Bad Timing”, cultivava ainda o gosto por um certo desequilíbrio estrutural e por heranças estéticas politicamente incorrectas – como as dos Faust ou de um dos seus heróis, John Fahey –, neste novo “Eureka” a ideia luminosa passa pela rendição à luxúria dos meios técnicos facultados pelo estúdio e às doçuras da pop encarada como arquitectura orquestral, numa profusão de sopros, cordas, piano classicizante, subtilezas pontilhísticas e toda a espécie de ornamentações electrónicas que não deixam de evocar a obra de Van Dyke Parks.
“Eureka” flutua num limbo de lembranças e sonoridades embelezadas pela “patine” do anacronismo, remetendo canções como “Prelude to 110 ou 120/Women of the world” e “Movie on the way down” para o trabalho de trovadores dos anos 70 como Roy Harper e Neil Young (o mais doce, de “After the Gold Rush”, “Harvest” ou da recente revisitação a este último disco, “Harvest Moon”), respectivamente, enquanto “Through the night slowly” transporta reminiscências de Robert Wyatt em “Ruth is Stranger than Richard” somadas ao easy listening de luxo dos High Llamas e Stereolab. “Eureka”, o título-tema, desliza, por sua vez, pelas alamedas povoadas de répteis sombrios que Brian Eno destapou em “Another Green World” (aparentemente uma das redescobertas mais recentes dos pós-rockers). O easy listening (e as referências, tornadas já um pouco fastidiosas à bossa-nova) instala-se, de resto, na versão de um tema de Burt Bacharach, “Something big”, ao mesmo tempo uma demonstração da fixação do músico de Chicago no legado deixado pelos grupos ingleses de Canterbury, também eles fascinados pelas melodias e nostalgia da bossa-nova.
“Eureka”, pese embora a diversidade de influências em jogo, inevitáveis em alguém com a cultura musical de Jim O’Rourke, consegue, todavia, provocar o efeito de verosimilhança, indispensável em qualquer boa obra de ficção. Porque, se, para o compositor, a causa se encontra nos livros de História, o objectivo, esse aponta para o futuro. Mesmo quando o futuro passa por adquirir a forma, ou a quintessência, de uma visão perdida algures nas catacumbas da alma, como um anjo decaído que procurasse acima das nuvens o elo perdido da sua identidade celeste.