Arquivo da Categoria: Portugueses

Pedro Caldeira Cabral – “Guitarra Universal No S. Luiz” (crítica de concerto)

cultura >> segunda-feira, 19.06.1995


Guitarra Universal No S. Luiz

LIÇÃO DE história no Teatro S. Luiz, em Lisboa. Mais concretamente uma lição da história da guitarra portuguesa, de genérico “Memórias da guitarra”, desde a Idade Média aos nossos dias. Aconteceu na noite de sábado, com Pedro Caldeira Cabral a leccionar e a ajuda de oito assistentes, nos restantes instrumentos. Um “vídeo-wall” disposto ao lado do palco permitia observar os pormenores e ler nas entrelinhas.
A guitarra portuguesa não surgiu do nada. Tem antepassados. O seu parente mais antigo é a cítola, que os trovadores da Idade Média utilizaram para encantar as suas damas, mas também os jograis e menestréis, ao longo dos séculos XIII e XIV. Foi nesta época que Caldeira Cabral começou, com um “saltarelo” e uma “Cantiga de amor” da autoria do rei D. Dinis. A cítola deu origem à cítara e a lição prosseguiu neste instrumento pelos séculos XV, XVI e XVII, passando pelas composições de Diego Ortiz, Paolo Virchi (“Se si vedesse fuore”, com uma das várias belíssimas interpretações vocais do barítono Fernando Marques Gomes) e Anthony Holborne, entre outros autores.
Finalmente a guitarra portuguesa faz-se ouvir já no período do Barroco, através de peças escritas para outros instrumentos que Pedro Caldeira Cabral transpôs para a guitarra. Peças de Carlos Seixas, Domenico Scarlatti e Bach. Em qualquer destes três instrumentos Pedro Caldeira Cabral mostrou uma notável segurança, apenas possível pelo grau de virtuosismo que o caracteriza, fruto de uma longa prática e convívio com os instrumentos de corda dedilhada, aos quais se vem dedicando desde há muitos anos.
Cumprida a primeira parte do concerto, dedicada à música antiga, onde, além da guitarra se escutou a sonoridade palaciana de instrumentos como a viola medieval, a viola da gamba, a lira de arco e o alaúde, Pedro Caldeira Cabral regressou com a guitarra “inglesa”, numa passagem breve pelos séculos XVIII e XIX, onde de novo se destacou a voz do barítono, em “Cruel saudade”. Depois, até ao final, o programa foi preenchido por composições suas. Em solo absoluto, em diálogo com a guitarra de Francisco Perez ou integrado no “ensemble”, Pedro Caldeira Cabral revisitou os acordes e ambiências do fado e da música tradicional, para se entregar progressivamente a linguagens mais contemporâneas onde a dissonância, a desmultiplicação de ritmos e a exploração dos timbres conferiu um tom diferente ao concerto. Sobressaíram nesta altura o contrabaixo de Mário Franco, o violoncelo de Kenneth Frazer e a viola da gamba de Susana Diniz Moody. No último tema, “Jogo de cordas”, assistiu-se a uma conversa de pergunta/resposta entre a guitarra e o piano de João Paulo Esteves da Silva.
Dois “encores” premiaram esta viagem pela memória de guitarra que conseguiu o ponto de equilíbrio entre o concerto “erudito”, o didactismo e, ao longo de toda a segunda parte, um tom mais popular. Se a música de Carlos Paredes representa a alma de Portugal, a de Pedro Caldeira Cabral representa o mar universal onde essa alma navega.

Ensemble J.E.R. – “Concerto Dos Ensemble J.E.R. Nos ‘Mistérios De Lisboa’ – Strauss Era Um Boneco De Plástico”

cultura >> quinta-feira, 15.06.1995


Concerto Dos Ensemble J.E.R. Nos “Mistérios De Lisboa”
Strauss Era Um Boneco De Plástico



NA ERA do plástico, música de plástico. Da teoria à prática ainda vai um passo. Os Ensemble J.E.R. não recearam dá-lo. Deram o passo e deram uma lição. De humor, de colorido, de seriedade, de música. Os Ensemble J.E.R. (José Eduardo Rocha, mentor do projecto) tocam instrumentos de plástico. Cornetas, apitos, tambores, sirenes, até um violino. De todas as cores e feitios. Os “Mistérios de Lisboa” abriram na terça-feira à noite um sorriso largo e a sala de cima do Monumental quase encheu para ouvir música como se fosse a primeira vez.
“O mapa cor-de-rosa” abriu o programa. Um “pot-pourri” de temas clássicos para “Orquestra Nacional de Plástico”. Para mostrar que as cornetas de brincar também podem ser sisudas. O público riu. Aqui era para rir, embora, se pensarmos bem, a coisa seja séria. Música erudita a qual os J.E.R. retiraram o objectivo. Só a apresentação dos músicos é um achado. Camisolas às riscas azuis e verdes, depois brancas com bolas pretas, capacetes romanos – de plástico – na cabeça. No tema seguinte, “Futebol”, entraram em trote no palco, armados de escudos e lanças, imitando uma situação dos Monty Python na “A Vida de Brian”. “Futebol”, tocado pela primeira vez ao vivo, é uma composição do próprio grupo, dividida em nove andamentos: “No campo”, “Parodos”, “Jogo”, “Livre”, “Canto”, “Stázima”, “Falta”, “Grande penalidade” e “Exodus”. Criatividade e originalidade totais. Sobre uma declamação de textos de Virgílio, para um microfone de plástico, claro, pelo convidado Rui Pisco, e o suporte tímbrico de um sintetizador Korg, a loucura de pequenos megafones e sereias com ruídos de multidão, polifonias vocais entre os Residents e Frank Zappa. Excelente.
Seguiu-se uma peça curta, “Madrigal Nº 2”, com solo de José Eduardo Rocha na clarina “Hohner” ao qual se veio acrescentar o “coro ornitológico” feito com apitos pelos restantes elementos. Aqui tornaram-se inevitáveis as comparações com Pascal Comelade, outro indefectível das músicas feitas com instrumentos de brinquedo. O último tema da noite, “Mezcal”, “um episódio lírico”, também da autoria do grupo, é excepcional. Após uma explicação introdutória – delirante – dada por um dos músicos, seguiu-se uma orgia de sonhos plastificados. Se o termo “música surreal” faz algum sentido, ele aplica-se na perfeição a “Mezcal”. De novo com um convidado, neste caso Paula Rocha, vestida a preceito com o capacete e a roupa às bolinhas, no sintetizador, as notas dispararam para universos paralelos, derrubando preconceitos e inventando novos ouvidos, culminando num “rap” do planeta de Mr. Mxzptlk. Para os anais da música como saudável exercício de humor e desconstrução, ficará a introdução de “Mezcal”, a abertura tonitruante do “Assim Falava Zaratustra” de Richard Strauss, onde, com toda a convicção, os J.E.R. trocaram os trovões orquestrais que todos conhecem do início de “2001 Odisseia no Espaço”, pelos “puehs” e “puohs” das cornetas de plástico.
Dois “encores” recompensaram a actuação do grupo, a repetição do “Zaratustra” e “Cantigas do Maio”, de José Afonso, precedido pela “afinação” do instrumento solista, um violino minúsculo de plástico. Nos planos do Ensemble J.E.R. está a adaptação sinfónica para instrumentos de plástico de uma ópera completa de Wagner.

Jorge Quintela + Pedro Duarte + Armindo Neves + Luís Filipe – “Os Músicos Que Toda A Gente Ouve Mas Ninguém Vê” (dossier | músicos de sessão)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


OS MÚSICOS QUE TODA A GENTE OUVE MAS NINGUÉM VÊ
(Fernando Magalhães e Marta Duarte)

JORGE QUINTELA
Director Musical da C.C.A. e pianista do programa “Zona +” (Canal 1)
“Antes os bastidores do que dar a cara”



Desempenha as funções de director musical dos programas da CCA, Carlos Cruz Audiovisual. Organiza os genéricos e dirige as bandas. A sua intervenção no Zona Mais, o “talk-show” de Carlos Cruz, limita-se a ser a de teclista do grupo. Para Jorge Quintela, esta acumulação de responsabilidades não o impede de, no actual programa, ter inteira liberdade para “escolher os temas que mais prazer lhe dão tocar”. Isto, nos chamados “temas de exibição”, porque no que respeita ao acompanhamento dos artistas convidados obviamente que o “arranjo deverá ter minimamente a ver com eles”.
Antes do Zona Mais, Jorge Quintela trabalhou dez anos como demonstrador da Valentim de Carvalho, período durante o quela “começou a entrar na produção discográfica” e a “fazer arranjos para discos”, de Carlos Paião a Lara Li. Entretanto, conheceu Carlos do Cruz, com quem colabora há já bastante tempo. O tempo, na actividade a que se dedica, é vital. “Ter três dias para preparar quatro temas” nãoé fácil, embora no caso de Zona Mais essa dificuldade recaia nos ombros de Pedro Moreira, responsável pelos arranjos da banda. “Na parte da composição, torna-se mais complicado, tem que se imaginar o programa, a imagem que ele vai ter, qual a música que deverá corresponder ao genérico, tudo muitas vezes feito em cima da hora. Com um certo “forcing”, comigo tem funcionado. Há menos tempo para termos dúvidas.” Jorge Quintela, “por uma questão de feitio”, prefere trabalhar nos bastidores a “estar à frente de uma situação e dar a cara”. Por esta razão nunca participou em “grandes formações musicais” porque sempre sentiu mais prazer em “trabalhar em estúdio”. O que não o impede de se sentir “realizado”: “Dou uma parte de mim, em termos da linguagem musical que estou a põr nos programas.”
Admite que aquilo que faz “é compensatório”, em termos materiais, essencialmente “porque dá uma certa estabilidade económica de saber que pelo menos durante ‘x’ semanas o trabalho está garantido”. Também nunca teve vontade de liderar o seu próprio grupo, embora um dos seus objectivos seja a gravação de um disco, “um projecto de música instrumental, de fusão, que ainda não foi editado porque infelizmente neste país é considerada música de elevador”. Mas como considera gratificante a sua função no Zona Mais, onde “o Carlos Cruz tem feito questão de promover bastante a música e os músicos da banda”, o adiamento do disco também não constitui grande problema. É ate´”perfeitamente admissível” que o grupo, na exibição a solo que lhe compete, “se sobreponha ao artista principal”. Quando se trata de acompanhamento, a história muda e as fronteiras apertam-se. Deu-lhe particular gozo tocar com o Rui Veloso mas também com um grupo de concertinas tradicionais. Uma das suas maiores ambições é compor música para filmes, o que em Portugal considera ser bastante difícil devido “aos orçamentos, tão baixos, que não dão para fazer nada de especial”. Se pudesse, Jorge Quintela adoraria trabalhar com Steven Spielberg.
(Fernando Magalhães)

PEDRO DUARTE
Director Musical e pianista do programa “Parabéns” (Canal 1)
“Se não houver adrenalina isto não serve de nada!”



Aos 29 anos e com o sexto ano do Conservatório, Pedro Duarte tem prazer no que faz. É director musical do concurso de Herman José, “Parabéns”, faz os arranjos e é pianista do grupo. Não se considera um “artista”, no sentido de “alguém que tem que criar uma determinada imagem, como acontece nos grupos de rock”, mas sim “uma pessoa de fundo, que trabalha segundo princípios”, em que acredita e sobre os quais teoriza: “Têm a ver com a democratização das artes. Acredito que todas as pessoas, na posse das suas faculdades normais, podem compor. Toda a gente é capaz de pintar, de fazer teatro, de dançar”. “A questão”, diz, “é que a nossa cultura e a nossa sociedade tem frustrado grandes talentos logo à partida. Acredito numa sociedade em que as pessoas têm o seu trabalho e em paralelo, como ‘hobby’, a criação de qualquer coisa”. Pedro Duarte afirma ter mesmo um projecto para fazer funcionar as coisas nesse sentido, e “pôr as pessoas a mexer”, baseado na aprendizagem através do computador.
Antes dos “Parabéns”, Pedro Duarte já tinha trabalhado em programas como “Regresso ao Passado”, de Júlio Isidro, “Joaquim Letria Apresenta” e “Os Olhos da Lua”, de Raul Solnado, num grupo de cuja formação fazia então parte um contrabaixista chamado Pedro Abrunhosa. Considera que o seu papel no actual grupo consiste em “fazer música altamente funcional”, contando para tal com eventuais sugestões do próprio Herman José. O músico distingue o trabalho de acompanhamento dos artistas convidados do programa, dos chamados separadores, “aquels pequenos temas de 10, 12 segundos”, e dos “tapetes”, como chama à música de fundo. “Gostaria um dia de juntar uma série deles e fazer um álbum. Postos em voz alta são capazes de mostrar muito mais do que parecem ter”. Pedro Duarte não considera frustrante o facto de a música estar em segundo plano e cita a propósito John Williams quando diz que “a melhor música para cinema será aquela em que as pessoas nem sequer notam que existe”. No fundo, tudo “depende da ideia que se tem da música”, explica, “é como que o sangue do programa”. Nem tudo tem que estar em primeiro plano para ser importante”. Vai mais longe quando afirma que “aquilo que normalmente não aparece é mais importante doq eu aquilo que aparece”. Pormenoriza: “Se eu tenho um tema que está a servir de ‘tapete’, que gera um determinado ritmo e ambiente, carregado de energia, isso, mesmo inconscientemente, ajuda o presentador e a envolver as pessoas emocionalmente”. Pedro Duarte compara estes “tapetes” de som com “os ambientes mágicos religiosos, carregados de música com um sentido muito profundo, como o som de um órgão de catedral, em que as pessoas por vezes nem percebem nada do que se está a passar, mas onde há uma profundidade espiritual muito grande”. Música de transporte? “Eu gosto de lhe chamar o sangue deste corpo inteiro que é o programa”. Uma linguagem litúrgica que, em termos mais prosaicos, no “Parabéns”, atinge um máximo de intensidade no “Boião da Cultura” e durante a entrevista. “Temos uim bocado a tendência de pensar a arte pela arte, como algo abstracto. Eu sou um bocado romano a pensar. Prefiro pensar nas funções. Nos filmes, por exemplo, temos os chamados efeitos sonoros, que são tão ou mais importantes que a própria música”. A pressão do tempo não assusta este admirador de Henry Mancini, Jerry Goldsmith e John Williams,a ntes pelo contrário. “Assim é que tem piada”, diz, “se não houver adrenalina isto não serve para nada. Podem entregar-me as coisas três meses antes que eu não pego nelas. Quando chegar ao limite, aí assim agarro-me e começo a escrever. Sou mais espontâneo desta maneira”.
(Fernando Magalhães)

ARMINDO NEVES
Guitarrista e maestro do programa “Não Se Esqueça da Escova de Dentes” (SIC)
“Por que é que não vão ganhar o dinheironho para outro lado?”



“Um dos pontos que estão errados no profissionalismo musical em Portugal é a ideia de que tocar na televisão é apenas mais uma forma de ganhar dinheiro.” Armindo Neves, guitarrista e responsável pela banda de Não Se Esqueça Da Escova De Dentes, considera que por trás da atitude interesseira se esconde uma certa cobardia. “Há os que dizem que se recusam a tocar na televisão e essa recusa serve para esconder certas deficiências técnicas… A mediocridadezinha impera no meio musical.” Armindo Neves vê no trabalho musical para televisão a dignidade que todas as profissões devem ter. “Em programas como o Parabéns e o Zona Mais, encontram-se excelentes músicos, bons leitores (de pautas, entenda-se), bem disciplinados, com bom som. Eles tocam a sério.” Para Armindo Neves, que entre outras coisas tocou e produziu discos como “Coisas do Arco da Velha”, da Banda Do Casaco, perante a música não pode ter-se a atitude de “vir aqui ganhar uns dinheiros”. É mais honesto assumir que não se gosta de televisão, ou de um determinado programa, e recusar-se a ir lá tocar. Afinal, ele próprio admite que trabalhou em muitos programas que lhe deram pouco prazer. Sem mais desculpas esfarrapadas. Não gosta é de quem se arma em “chico-esperto”, desprezando por completo o trabalho da música em televisão, apesar de, em situações de aperto, ser a ele que recorrem. “Por que é que não vão fazer o dinheirinho para outro lado?” Provavelmente, porque tocar na televisão é, muitas vezes, a única saída profissional, e de sobrevivência, para músicos vindos das mais diferentes áreas e formações sonoras. “Na vida não é tudo uma questão de ganhar mais. Há que contar com o gozo”, corta Armindo Neves. E é o gozo que retirou de trabalhar em programas como o polémico Fisga, o Festival da Canção e o último de Joaquim Letria que o faz estar em Não Se Esqueça da Escova de Dentes. Esse gozo é visível no entusiasmo com que descreve as suas funções no programa da SIC: “Neste momento estou com duas noites sem dormir para conseguir transcrever dois arranjos do Frank Sinatra com a Orquestra do Count Basie para serem tocados hoje aqui, a acompanhar o Carlos do Carmo. E já cá tive o Janita Salomé, a Lena d’Água, o Luís Represas. São desafios musicais. Nós somos forçados a ser extremamente flexíveis para ter uma atitude perante a música de compreensão do reportório do artista. Tem que haver responsabilidade da parte dos músicos, para aproximar a sua sonoridade, para conhecer o artista.” Se fosse tudo uma questão de preferências, é óbvio que lhe seria mais gratificante tocar, compor e fazer arranjos para um programa estritamente musical. “A guerra das televisões e o controlo sobre a escolha que se pode fazer da programação levaram as direcções dos vários canais a concluir que os programas musicais não intyeressam muito. A televisão vive das telenovelas, do futebol e dos concursos.” Portanto, é só nos concursos que pode haver espaço para a música. Há é que saber aproveitar a oportunidade. Das audiências, sobretudo, que estão sempre à espera de coisas cada vez mais fantásticas. “E isto é do caneco. Acima de tudo temos que aproveitar o meio audiovisual para fazer passar a música. Este programa, e eu já fiz muitos, é de longe o que me dá mais gozo.”
Armindo Neves não teme que a voracidade da televisão, que precisa de músicos, bons e maus, conforme os orçamentos, acabe por aniquilar talentos e carreiras. Não acredita na exclusividade. “Qualquer um de nós é livre para ter o seu projecto lá fora. Os músicos que aqui estão, à excepção dos metais, que mudam consoante as emissões, trabalham todos comigo no grupo do Luís Represas. E não é por causa disso que o grupo e o Luís ficam para segundo plano.”
(Marta Duarte)

LUÍS FILIPE
Director musical do programa “Eu Tenho Dois Amores” (Canal 1)
“Um problema de dor de corno”



Luís Filipa já fez vários programas para a RTP, mas a maior parte do seu historial na música expande-se pela produção discográfica da chamada música ligeira. Ao contratá-lo, frisa Luís Filipe, a RTP deixou ao seu critério a escolha de elementos para a banda e de artistas convidados, de que resultam três momentos musicais distintos: as canções de Marco Paulo, para as quais faz os arranjos; as dos convidados, igualmente com produção do director artístico, e a prestação de Maria Rueff, “um momento especial, meio cómico”, em que lhe “dá um prazer especial avacalhar um bocado, com letras muito mordazes e bem feitas da Rosa Lobato Faria”.
Ao contrário do que se passa nos outros programas visitados, em Eu Tenho Dois Amores, a música é preproduzida. Ou, trocando por miúdos, os membros da banda e os convidados actuam com “palyback”. “O som que se consegue fazer em estúdio [de som] é impossível de reproduzir num estúdio de televisão, a não ser que se grave o programa a partir de um estúdio de som”, justifica Luís Filipe, argumentando que o que interessa é dar qualidade sonora ao telespectador. Assim, nem todos os membros da banda que vemos no ecrã a tocar o estão a fazer. Alguns são os que em estúdio gravaram os temas, mas os outros limitam-se a ser figurantes. No entanto, segundo Luís Filipe, “mais vale estar a gravar um ou dois programas de televisão por semana do que a tocar uma noite inteira num bar, onde se ganha miseravelmente: os donos dos bares exploram os músicos”. Se em termos financeiros é compensador, em termos de experiência, tocar na televisão é também um passo importante. Através dos programas para que gravam, os músicos vão sabendo adaptar-se a diversos estilos e sonoridades, ficando aptos para tocar em qualquer ocasião. “A televisão é o meio de comunicação do século XX e XXI, é natural que os músicos também a ele acedam. Acho que dizer que é desprestigiante actuar na televisão é um problema do crónico atraso de Portugal”, diz Luís Filipe quando interrogado sobre a dignidade de um trabalho feito para o televisor. “Sei que os músicos na maioria, nem sequer ficam conhecidos – o nome passa no genérico, mas ninguém o lê. As pessoas apenas os conhecem visualmente, e isso fá-los serem identificados com outros projectos exteriores ao programa.”
Mas esse anonimato que a televisão impõe também concorre para a recusa de muitos profissionais de actuarem nos seus programas, ou não será? Luís Filipe considera que não, e é categórico na resposta: “Estou-me marimbando para os músicos que acham mal tocar na televisão. Penso que é um problema de como dessas pessoas, que se calhar nem sabem tocar como deve ser. Provavelmente são músicos específicos de uma determinada área, têm três meses de aulas no Hot Clube e julgam que já são músicos de jazz e não são nada.
(Marta Duarte).