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Osso Exótico – “Osso Exótico V”

Pop Rock

11 de Dezembro de 1996
portugueses

Osso Exótico
Osso Exótico V
ED. ANANANA


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Bzgdbzbblblmnmpqdzzzzz… Silêncio. Cric. Silêncio. Bruuooomm. Música experimental. Chiu. O quinto volume do Osso, ou o quinto osso do esqueleto, é sombras e silêncios. A sombra da música. A anulação e o niilismo conceptuais. Começa com “9 esteiras para um acorde de piano” compostos por David Maranha, nove segmentos com apenas alguns segundos de duração cada, onde um acorde de piano é deixado a reverberar – exercício de “delay” suportado por barulhos sortidos. Seguem-se dois “Ciclos”, de treze e seis minutos, de Patrícia Machão. Piano tocado com arcos. Soa a uma serra elétrica a dormir, metal a desfazer-se, música para ouvir na cave. O 2º ciclo é completamente diferente: uma serra elétrica a desfazer-se, metal a dormir, música para ouvir na subcave. “Fuga doméstica”, de David Maranha, dura mais de 27 minutos. Piano percutido, plink, plonk, ruídos de água processados, cordas transtornadas. É a peça mais interessante do Osso, algures entre os Miso Ensemble, PGR e Jocelyn Robert (de “Folie/Culture” e “La Théorie des Nerfs Creux”) e seria ainda mais interessante se fosse cortada para um décimo da duração que tem. Finalmente, desossa-se com quatro peças intituladas “Corrimão/Comunidade das Mãos”, da autoria de André Maranha. No primeiro não se ouve nada. Silêncio subliminar. Excelente. No segundo, idem. No terceiro é possível ouvir espectros a arrastarem-se num lamaçal de escuridão. O terceiro mete umas restolhadas de metal e ruído de fábrica “à la” Asmus Tietchens. A embalagem reúne imagens engraçadas das partituras e uma frase escrita para se ler ao espelho. O experimentalismo dispensa o ouvinte? A vanguarda deve ser inacessível até perder de vista? Este é, então, um ótimo trabalho para ser apreciado pelos três elementos que compõem o Osso Exótico. (4)



Alan Vega, Alex Chilton, Ben Vaughn – “Cubist Blues”

Pop Rock

6 de Novembro de 1996
poprock

Carne crua

ALAN VEGA, ALEX CHILTON, BEN VAUGHN
Cubist Blues (8)
Last Call, distri. Megamúsica


cb

Morrer de morte lenta parecia ser até há bem pouco tempo o destino artístico marcado para o antigo vocalista dos Suicide, desde a separação do seu comparsa Martin Rev. Longe vão os tempos em que, sobre uma serração rítmica de martírio, Alan Vega atirava cadeiras para o meio da assistência ou queimava os mais agitados com pontas de cigarros acesos. A Vega restava seguir o caminho da decadência, vestindo até às últimas consequências a pele de um Elvis Presley desamparado num casino virtual. “Cubist Blues” surge não tanto como a ressurreição, mas antes como a sua redenção, de um género, o “rockabilly” industrial, que Alan Vega procurou retomar, sem sucesso, a solo, depois da dissolução dos Suicide, embora o grupo tenha regressado nos últimos anos à actividade, gravando em 1989 o álbum “A Way of Life”.
A gravação teve lugar em duas noites, num segundo andar dos estúdios Dessau, na zona baixa de Nova Iorque, recorrendo deliberadamente a escassos meios de produção (um dos temas, “Lover of love”, aproveita, inclusive, um erro de gravação…). Desta opção resultou um som directo e destituído de truques, que extrapola o minimalismo electrónico dos Suicide para fatias de carne crua cortadas a sangue frio pelas guitarras, o baixo, o piano e o sintetizador de metal de Alex Chilton, um ex-Big Star, e a batida obsessiva de Bem Vaughn, antigo colaborador de Kim Fowley, o maior e mais prolífico lunático de toda a história do rock.
Se o som dos Suicide é reproduzido praticamente na íntegra de cada vez que Chilton se agarra ao sintetizador, como é o caso gritante de “Freedom”, derivação em ritmo de massacre de “Cheree”, na maioria dos temas, porém, é a alma dorida dos “blues” que vem à tona, travestida nas intermitências vocais de um “robot” em curto-circuito. Os Velvet Underground já tinham sintonizado antes na mesma frequência, domando o caos a golpes de heroína, para soltar a poesia da desumanidade e da mecanização, mas foram os Suicide que afiaram a faca da crueldade e a cravaram no peito dos anos 80. Alan Vega corporiza o grito e os suspiros dessa dor e “Cubist Blues” a sua deslocação para a arena do rock ‘n’ roll. Entre a memória dos Doors, em “Fat city”, a devoção anedótica de “Come on Lord”, as descargas de electricidade e cimento de “Promised Land” e os “blues” em mármore frio de “Sister”. A cerimónia termina com “Dream baby revisited”, num cabaré vicioso, palco privilegiado em que os sonhos de Vega o transformaram em “the king”.



Artigo de Opinião – Nuno Rebelo – “‘M2’ Como Uma G3”

POP ROCK
25 de Setembro de 1996

Nuno Rebelo lança compacto com música para coreografias

“M2”, COMO UMA G3


nr

m2

Nuno Rebelo tem finalmente um novo álbum. Chama-se “M2” e é o segundo em toda a sua carreira, depois de a edição, em 1989, de “Sagração do Mês de Maio” sofrer um sem-número de aventuras e desventuras, passando ao lado de um êxito que, de todo, merecia. Mas, se este antigo elemento dos Street Kids, Mler Ife Dada e, mais recentemente, dos Polpoplot Pot não tem recebido os favores da indústria discográfica, o mesmo não se pode dizer da sua actividade no campo das “performances” musicais ao vivo, de que são exemplo a composição e interpretação “in loco” de bandas sonoras feitas “a posteriori” para obras do cinema mudo, como o “Nosferatu”, de Murnau, ou “Douro, Faina Fluvial”, de Manoel de Oliveira, com a Poliploc Orkeshtra/Ensemble.
“M2” inclui duas peças. A primeira tem por título “Sábado 2”, sendo composta para uma coreografia de Paulo Ribeiro estreada em Junho do ano passado. Música gravada e tocada em tempo real, com Nuno Rebelo na guitarra eléctrica, baixo, percussões acústicas e electrónicas e “alguns teclados, poucos” e Paulo Curado no saxofone. A segunda, “Minimal show”, foi composta para uma peça de teatro encenada por José Wallenstein e apresentada pela primeira vez no âmbito do Lisboa-94 no Teatro da Cornucópia. Ao contrário de “Sábado 2”, é, explica o autor, “música sequenciada” onde a electrónica se divide pelas programações de computador e a inclusão de “samples” de instrumentos gravados previamente por Rebelo, como trombone, violino ou clarinete, e de outros “roubados aqui e ali”.
A apresentação oficial de “M2” terá lugar hoje, a partir das 21h30, na Galeria Zé dos Bois, na Rua de São Paulo, 62, em Lisboa. “Primeiro pensava que era só para se beber uns copos e conversar com as pessoas.” Afinal vai ser algo mais. Pediram-lhe para tocar, na ocasião, ao vivo. Nuno Rebelo acedeu, concordando em “tocar um bocadinho”, que é como quem diz, fazer “improvisação total”, em conjunto com Paulo Curado, uma vez que as duas peças de “M2” “são impossíveis de tocar sozinho em palco”. O compacto tem o selo Ananana e está, para já, a “acertar nos sítios certos”. “O Paulo [Paulo Somsen, da Ananana] telefonou-me há dias a dizer que tinha recebido um fax do Chris Cutler a elogiar imenso o disco.” Para Nuno Rebelo, artista na acepção mais pura do termo, foi “um tiro no alvo”.