Arquivo da Categoria: Noise

Fred Frith Guitar Quartet – “Upbeat”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Fred Frith Guitar Quartet
Upbeat (7)
Ambiances Magnétiques, distri. AudEO


ff

Um pouco como fez Robert Fripp com a sua League of Gentlemen, também Fred Frith reuniu o seu próprio “ensemble” de guitarras, com a diferença de que, enquanto o guitarrista dos King Crimson distribuiu tarefas por alguns dos seus alunos, o antigo guitarrista dos Henry Cow chamou para seu lado três instrumentistas de créditos firmados: René Lussier (ex-Conventum), Nick Didkovsky (Doctor Nerve) e Mark Stewart. “Upbeat” é uma demonstração feliz do que pode ser feito com uma guitarra eléctrica, a solo – cada um dos músicos teve uma faixa à disposição – ou em trabalho colectivo. Experiências com “drones”, fragmentações harmónicas e tímbricas, desmultiplicações rítmicas, exploração de sonoridades e técnicas de execução pouco ortodoxas, ao estilo da série “Guitar Solos” organizada há anos pelo próprio Frith, criam momentos de interesse e intensidade variada, no que constitui um objecto prioritariamente dirigido aos adeptos da guitarra. Para Fred Frith, pólo aglutinado deste “ensemble” de virtuosos nada académicos, “Upbeat” serve ainda como pretexto para o humor que sempre o caracterizou (dos Henry Cow a álbuns deliciosos como “Cheap at Half the Price” ou “Live, Love, Larf and Loaf”), mas que tem andado algo arredado da sua discografia “de câmara” mais recente. Rock ‘n’ roll, ragtime e outros anacronismos contrastam com momentos mais duros numa arrumação por títulos na prateleira dos advérbios: “stinky”, “spitty”, “squinty”, “speedy”, “feety”, “slinky”, “skinny”, “sinky”…



Stars Of The Lid – “The Ballasted Orchestra”

Pop Rock

28 Maio 1997
poprock

Stars of the Lid
The Ballasted Orchestra
KRANKY, IMPORT. TORPEDO


sl

Os Stars of the Lid são uma das bandas mais radicais do pós-rock. A sua música move-se na periferia do rock, deslocando-se imperceptivelmente no vazio, fora deste mundo e da luz. “The Ballasted Orchestra”, estreia deste grupo de Chicago (mais um…) consiste na sobreposição contínua de “drones” carregadíssimas, elaboradas em guitarras eléctricas processadas até à completa liquefacção. Não há o mínimo traço de ritmos ou melodias mas apenas a acção da gravidade, sem a presença de corpos ou acontecimentos à escala humana. Como a imagem da capa sugere, é como se os Stars of the Lid tivessem sido empurrados para fora da esfera do real, condenados a tocar eternamente num poço de anti-matéria. O efeito geral é de desolação, com ondas puras de electricidade a sofrerem a interferência de ocasionais estampidos de estática ou de vozes provenientes do além-túmulo, numa longa queda em direcção ao nada. São 70 minutos de som, por vezes a raiar o “som branco” ou o “som rosa” puros, que estão nos antípodas da evasão e provocam no auditor uma sensação de terrível solidão e desamparo.
Referência “krautrock” obrigatória: Klaus Schulze, de “Irrlicht”, mas com a polaridade invertida. Outras referências: “Evening Star” de Fripp & Eno; “On Land”, de Brian Eno; Glenn Branca, sob anestesia. Música para eclipses. (6)



Meira Asher – “Dissected”

Pop Rock

12 Fevereiro 1997

O corpo dissecado

MEIRA ASHER
Dissected (8)
Crammed, distri. Megamúsica


ma

Utilizar os textos bíblicos do Velho Testamento, domínio de um Deus castigador, para fazer passar o escândalo tem sido a estratégia seguida de há muito por Diamanda Galas. Agora surgiu em cena, no mesmo terreno, uma competidora à altura, a israelita Meira Asher. “Dissected” é um manifesto do excesso, à semelhança dos álbuns da cantora da trilogia “Masque of the Red Death”, mas a forma como cada uma delas nos atira à cara aquilo que gostamos menos de ver difere em múltiplos aspectos. Os pontos em comum entre ambas resumem-se a três: a relação ambígua entre sida e religião, que a israelita aborda de forma violentíssima (e – provocação máxima – dançável!) no tema de abertura, “Sida”; o recurso aos textos da Bíblia; a ênfase emocional posta na interpretação, a beijar o grito e a declamação, com recurso às possibilidades do “multitracking”.
A partir daqui, Meira Asher segue o seu próprio caminho, enveredando por uma falsa “world music” que incorpora técnicas vocais “Dharab” indianas, “grooves” de “drum ‘n’ bass”, percussões africanas e orientais (com a presença de Yuval Gabay, dos Soul Coughing), electrónica industrial e todo o tipo de batidas rituais que acentuam a sensação de ruptura que se desprende da maioria das canções.
Além de “Sida”, libelo sarcástico contra a praga do século, analisada sob a mesma perspectiva de “punição divina” com que Diamanda Galas envenenou um dos capítulos da sua trilogia sobre a sida, há ainda para dar cabo do juízo “Dissect me”, análise obsessiva sobre a tortura, a mutilação e a autocastração, numa alusão à Intifada que se propaga por outro tipo de leituras, “Daddy came”, monólogo desesperado sobre o terror do incesto, e “Maligora, the sand child”, onde Meira declama um poema de Tahar Bem Jelloun, com música inspirada em Ustad Ali Akbar Khan. Uma proclamação do auto-erotismo feminino, encarado como corrente mágica de transfiguração da realidade, cuja linguagem poética atinge uma crueza e claridade que roçam a obscenidade do espelho: “Durante muito tempo toquei nos seios e na vagina. Fiquei dominada pela emoção. Senti-me envergonhada. A descoberta do meu corpo passava por esse encontro das minhas mãos com a vagina.”
“Dissected” é “world music” no fundo do poço, habitado por polifonias simuladas em estúdio, réplica mutante das Zap Mama, polirritmias nas quais o étnico se mistura à pulsação do metal, sobrevoadas pelos demónios pessoais da cantora. O combustível das palavras, sempre acutilantes, alimenta as labaredas. Quer nas conotações simbólicas que lhe conferem os textos sagrados, quer pela intencionalidade que Meira Asher coloca em cada entoação. Uma granada prestes a rebentar.