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Artigo de Opinião – Nuno Rebelo – “‘M2’ Como Uma G3”

POP ROCK
25 de Setembro de 1996

Nuno Rebelo lança compacto com música para coreografias

“M2”, COMO UMA G3


nr

m2

Nuno Rebelo tem finalmente um novo álbum. Chama-se “M2” e é o segundo em toda a sua carreira, depois de a edição, em 1989, de “Sagração do Mês de Maio” sofrer um sem-número de aventuras e desventuras, passando ao lado de um êxito que, de todo, merecia. Mas, se este antigo elemento dos Street Kids, Mler Ife Dada e, mais recentemente, dos Polpoplot Pot não tem recebido os favores da indústria discográfica, o mesmo não se pode dizer da sua actividade no campo das “performances” musicais ao vivo, de que são exemplo a composição e interpretação “in loco” de bandas sonoras feitas “a posteriori” para obras do cinema mudo, como o “Nosferatu”, de Murnau, ou “Douro, Faina Fluvial”, de Manoel de Oliveira, com a Poliploc Orkeshtra/Ensemble.
“M2” inclui duas peças. A primeira tem por título “Sábado 2”, sendo composta para uma coreografia de Paulo Ribeiro estreada em Junho do ano passado. Música gravada e tocada em tempo real, com Nuno Rebelo na guitarra eléctrica, baixo, percussões acústicas e electrónicas e “alguns teclados, poucos” e Paulo Curado no saxofone. A segunda, “Minimal show”, foi composta para uma peça de teatro encenada por José Wallenstein e apresentada pela primeira vez no âmbito do Lisboa-94 no Teatro da Cornucópia. Ao contrário de “Sábado 2”, é, explica o autor, “música sequenciada” onde a electrónica se divide pelas programações de computador e a inclusão de “samples” de instrumentos gravados previamente por Rebelo, como trombone, violino ou clarinete, e de outros “roubados aqui e ali”.
A apresentação oficial de “M2” terá lugar hoje, a partir das 21h30, na Galeria Zé dos Bois, na Rua de São Paulo, 62, em Lisboa. “Primeiro pensava que era só para se beber uns copos e conversar com as pessoas.” Afinal vai ser algo mais. Pediram-lhe para tocar, na ocasião, ao vivo. Nuno Rebelo acedeu, concordando em “tocar um bocadinho”, que é como quem diz, fazer “improvisação total”, em conjunto com Paulo Curado, uma vez que as duas peças de “M2” “são impossíveis de tocar sozinho em palco”. O compacto tem o selo Ananana e está, para já, a “acertar nos sítios certos”. “O Paulo [Paulo Somsen, da Ananana] telefonou-me há dias a dizer que tinha recebido um fax do Chris Cutler a elogiar imenso o disco.” Para Nuno Rebelo, artista na acepção mais pura do termo, foi “um tiro no alvo”.



“Heréticos Aos Gritos” – Artigo de Opinião sobre concertos de John Zorn em Portugal

Pop Rock

8 de Março de 1995

HERÉTICOS AOS GRITOS


jz

O grande subversor está de regresso. Desta feita, ao contrário do que aconteceu nos quatro anteriores concertos no nosso país, em que tocou acompanhado pelos Naked City, da última vez, pelos Pain Killer, John Zorn terá apenas por companhia e cantor e “performer” japonês Yamatsuka Eye. Uma fórmula inusitada e decerto económica, da qual há a esperar uma sessão, em princípio sem grandes pausas, de contorcionismos vocais e do saxofone exibidos a grande velocidade. No ar está a hipótese, lançada pelo próprio Zorn, da participação de músicos portugueses, com vários nomes aventados a aguardar confirmação.
Saxofonista de grandes recursos, imbuído da ânsia de liberdade do “free” e ao mesmo tempo leitor atento, ainda que pouco convencional, da cultura musical, dos Estados Unidos mas também europeia, nas últimas décadas – “Radio”, um dos seus últimos trabalhos com os Naked City é uma espécie de enciclopédia reciclada das várias influências e épocas que atravessam a obra do saxofonista –, John Zorn fechou-se à chave, nos últimos tempos, nas câmaras de tortura da mente humana. Como ele próprio confessou em entrevista ao PÚBLICO, quando da sua primeira apresentação em Portugal, em 1991, o limite da sua música é a morte. Uma aproximação à fronteira final já detectável na aceleração progressiva que enforma sobretudo a primeira fase dos Naked City – devoradora de todos os géneros musicais mas também com características autofágicas – e que acabou por encontrar filiações nos grupos de “hard core” e “trash metal”, americanos e japoneses, mas também da música industrial dos anos 80 (os SPK são reconhecidos como fonte de inspiração na longa lista de nomes de “Radio”…).
Álbuns como “Heretic” ou “Absinthe” afastam-se de qualquer discurso jazzístico. O primeiro envereda pelos túneis do sado-masoquismo e outros desvios da sexualidade, enquanto “Absinthe” mergulha num ambientalismo sombrio, de alucinações, montado sobre a organização de desperdícios sonoros. A esta imersão na zona escura do inconsciente – “Ao longo da História os artistas sempre estiveram obcecados com os tabus e fobias da humanidade. O nosso fascínio pelo medo, o terror e o diabo, como a própria morte, não conhece fronteiras raciais, culturais ou religiosas. Ele está no nosso inconsciente colectivo, atando-nos com cordas das quais nos tentamos libertar, o que, em última análise, não conseguimos”, diz ele nas notas que acompanham “Grand Guignol” (outro repositório de imagens e sons do horror) – justapôs Zorn, com coerência, as imagens simbólicas de dois surrealistas, Man Ray, em “Heretic”, e Hans Bellmer, em “Absinthe”.
Para trás ficaram as grandes síncreses de “The Big Gundown”, “Spillane” ou do longo tema dedicado a Godard no álbum de homenagem a este cineasta, “Godard, ça vous chante”, a anarquia “free” de “Cobra”, o mimetismo Ornettiano de “Spy vs. Spy” e a obra-prima “Deadly Weapons”, onde o saxofonista surge liberto de quaisquer pressões conceptuais, em sintonia com a memória do “bebop” e cúmplice da excentricidade, esta muito “british”, de Steve Beresford.
Nos últimos meses, a obsessão pela velocidade dá indícios de ter voltado, mas agra orientada para o ritmo de edições. Nada menos do que três álbuns num intervalo de quatro meses, pelo novo projecto Masada, quarteto formado, além de Zorn, pelo trompetista David Douglas, o baixista Greg Cohen e o baterista Joey Baron, único sobrevivente dos Naked City. Dos álbuns “Masada” (Dezembro de 94), “Masada 2” (Janeiro de 95) e “Masada 3” (lançamento para este mês), apenas sabemos que as faixas têm os títulos em hebraico, de acordo com uma temática que Zorn já abordara em “Kristallnacht”, ainda uma visão do horror, aqui centrada no genocídio dos judeus na II Guerra Mundial.

JOHN ZORN
São Luiz (Lisboa) – Março – Quinta – 9 – 22h
C. do Terço (Porto) – Março – Sexta – 10 – 22h



No Noise Reduction – “The Complete No Noise Reduction” + Vítor Rua E Os Ressoadores – “Scratch”

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock

AVARIAS

NO NOISE REDUCTION
The Complete No Noise Reduction (8)
Moneyland, distri. Música Alternativa


nnr

VITOR RUA E OS RESSOADORES
Scratch (7)
Ed. e distri. Ananana


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Dois conceitos alternativos para a música portuguesa. Os No Noise Reduction, de Rafael Toral e Paulo Feliciano, partem da compreensão do ruído, qualquer ruído, como célula ou tecido musical, transformado em música através de processo que podem passar pela simples recontextualização das fontes sonoras, como um leitor de CD ou vinilo riscado (ex: o som de um aspirador deixa de ser simplesmente o som de um aspirador se for colocado numa situação conceptual deslocada da sua esfera natural), ou por formas de tratamento sonoro efectuadas “a posteriori” (filtragens electrónicas, samplagens, “cut-up”). Deste tipo de operações resultaram 46 segmentos sónicos que podem ser encarados como uma espécie de “ready-mades” (objectos reinventados ou despojados das suas funções originais, apresentados como obras de arte) musicais que tanto podem incluir o processamento de fontes musicais simples, como a voz ou uma guitarra eléctrica, como agruparem-se em construções/montagens complexas e de sintaxe mais elaborada, em peças como “Stewart mix”. “Everyone else’s universe” ou “The Incredible Marvin”, que poderemos designar de canções, numa estética bastante próxima dos Negativland. Um acto de risco que começou por ser assumido há alguns anos, com a participação na colectânea “Em Tempo Real” (cujas canções estão aqui todas incluídas), e agora se desenrola na sua máxima extensão. De forma coerente e – algo que vai faltando ao meio – criativa.
O risco está de igual modo presente no compacto de Vítor Rua com os Ressoadores. Neste caso sobrelevam os conceitos de manipulação e aleatoriedade. O instrumentista dos Telectu preparou previamente instrumentos e situações musicais que depois colocou na mão dos seus “discípulos”, criando deste modo acções de interactividade entre uma base pré-programada e a “execução” – de níveis técnicos bastante díspares – em tempo real dos vários participantes, tornados extensões de Rua, ao mesmo tempo manipuláveis mas apesar de tudo com uma margem de liberdade descoberta no próprio instante do contacto. Sequências repetitivas, pequenas gravuras ambientais, cacofonias sem lógica perceptível e explorações tímbricas várias, sobretudo da guitarra, alinham-se num discurso cuja unidade advém dessa espécie de caos organizado que o anima.