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Anúncios Desclassificados: Negativland – “Escape From Noise” + Residents – “Commercial Album” + Yasuaki Shimizu – “Music For Commercials”

Pop Rock

20 MARÇO 1991

ANÚNCIOS DESCLASSIFICADOS

Publicidade é manipulação. Lavagem ao cérebro com o detergente psíquico da moda. Os publicitários são como os glutões do anúncio – gostam de ver o mundo muito branco para poder redesenhá-lo segundo as exigências do mercado. Fazer publicidade é “dar música”. A maioria dos músicos não se faz rogada e aproveita: um “slogan”, um boneco colorido, um patrocínio dourado, sabem a mel quando a vida está difícil e o produto não vende. Mas há sempre os desmancha-prazeres, psicopatas disfarçados de artistas, que rasgam os cartazes, fazem estalar o verniz, cospem na sopa e batem na avó. Os Negativland e os Residents fazem gala de pertencer a este grupo vergonhoso.

Gravam discos que as massas ignoram e que ainda por cima destabilizam. Pauzinhos na engrenagem, sem marca registada, nem campanha de “marketing”, nem código de barras. Dedicam-se à sabotagem sistemática das regras do jogo, mas fingem que não.
Os Residents editaram, em 1980, um álbum com 40 temas, cada um com a duração exacta de um minuto, para servir de “jungles” publicitários. Um single com mais dois temas-minuto serve de bónus promocional. Chamaram ao disco “Commercial Album”. Por seu lado, os Negativland incluem na sua música fragmentos de anúncios, subvertendo-lhes o sentido, reduzindo a mensagem publicitária a pó que nem sequer serve para matar baratas. “Há alguma maneira de fugir ao ruído?” – perguntam, enquanto fazem explodir automóveis e enunciam em voz monocórdica a lista de vacuidades poluidoras dos tops americanos – Michael Jackson, Fleetwood mac, Hue Lewis and the News, Heart, Madonna e demais produtos de consumo imediato. Yasuaki Shimizu, mais clássico, não engana ninguém – música de qualidade para produtos de prestígio.

NEGATIVLAND
Escape From Noise
Rec Rec

negativland

Os Negativland são os maiores inimigos da Coca-Cola, da Levi’s e dos mísseis Patriot. Só pelo nome se vê que são do contra. Vêm da contracosta americana. Voltam tudo de pernas para o ar. Até a fotografia da capa. Reduzem o mundo conceptual a um amontoado de significantes despojados da sua original função comunicativa. Música, marcas comerciais, política, televisão, a sociedade industrializada inteira, não passam de imagens (aparentemente) desconexas de um filme sem realizador nem enredo. Documentário apocalíptico que em 20 minutos pulveriza 20 séculos de cultura (da história da América tratam em questão de segundos). Tudo se concentra na vertigem do instante – paranóias, signos, sons das mais desvairadas proveniências, anunciam a ultrapassagem da “aldeia global” de que falava McLuhan. O mundo é uma anedota, um desenho animado cruel em que Jerry abocanha Tom e o Coiote arranca meticulosamente as penas de Bip-Bip. O conceito de publicidade torna-se sinónimo de totalitarismo, de agarra o Ocidente e espremê-lo com força até o despedaçar, fazer uma papa com os restos e chamar ao sucedâneo “BogbrotherBush”, em embalagem de sopa de letras instantânea, pronta a consumir.
Os Negativland são cínicos, como não poderia deixar de ser. Logo na abertura inventam um “spot” radiofónico, anunciando que o disco foi elaborado cientificamente em laboratório, seguindo à risca os requisitos necessários à fabricação de um “hit”, destinado a ser passado no éter. Curioso foi observar as reacções dos “media” a esse disco e ao seguinte, “Helter Stupid”, no qual levam ainda mais longe a manipulação dos canais de informação, inventando uma história de assassínio provocado pela audição da sua música – um adolescente escuta “Christianity is Stupid”, faixa do anterior “Escape From Noise” e, zás!, num acesso de loucura, mata a família toda à facada, rivalizando com o velho Jason nos seus delírios de “Friday, the 13th, night fever”. Sugere-se que a citada faixa contém mensagens satânicas que induziriam o auditor ao assassínio, não se sabe se como um das belas-artes. A (falsa) notícia explodiu como uma bomba. Os jornais e a rádio americanos caíram no logro e falaram sobre o caso, analisando-o em detalhe e acrescentando-lhe novos e sórdidos pormenores, de acordo com o célebre fenómeno conhecido por “bola de neve”. Mil vozes bradaram contra a música rock – mãe de todos os vícios e perversões. Que se prendesse a pandilha toda, condenando os Negativland à vergonha e humilhação no pelourinho da indignidade pública.
Depois, quando a verdade se soube, que se tratara apenas de uma “inocente” brincadeira, os rostos coraram, tossicou-se um pouco e voltaram-se os holofotes para o outro lado. Os Negativland conseguiam, por obra e graça de um simples disco, a proeza de desmontar, de forma extremamente inteligente, todo o universo mediático, servindo-se da publicidade para apontar o vazio que se instalou no interior da própria “verdade dos factos”.
“Escape From Noise” e “Helter Stupid” acertam em cheio no alvo. A indústria jamais lhes perdoará. Os retalhistas também não. Os “advertising men” muito menos. Em nenhum concurso Carlos Cruz atribuirá cabazes cheios de discos dos Negativland como prémio de consolação. O próximo álbum da tristemente célebre banda da contracosta americana e da “terra negativa” chamar-se-á, segundo tudo indica, “U2”. Nada escapa a estes brincalhões.

RESIDENTS
Commercial Album
Ralph Rec

residents

Um minuto para publicitar a disformidade. Sessenta segundos de bizarria – o tempo exacto que cada uma das estranhas “canções” da banda mais esquisita do universo leva para dizer, alto e bom som, que “loucura é felicidade”, a “juventude é muito louca” e “compre já antes que esgote”. As regras são outras. A lógica seguida parece-se mais com aquela desses outros residentes, ali para os lados da Avenida do Brasil – fragmentada, imprevisível, por vezes perturbante e assustadora. São “jingles” publicitários – garantem os Residents –, mas como é que se pode acreditar nas palavras de alguém que gosta de se disfarçar de camarão, como é caso destes facínoras? Que crédito se pode dar a indivíduos que gravaram um disco com temas dos Beatles e dos Rolling Stones e lhe chamaram “The Third Reich’n’roll”? Será possível levar a sério um grupelho de pataratas com pretensões a intelectuais, que afirmam querer editar até ao final deste século uma série de álbuns com interpretações demenciais da música dos grandes compositores americanos deste século? Não, meus amigos, não se pode dar corda nem ouvidos a energúmenos desta laia, sob pena de ruírem de vez os alicerces culturais que sustentam a nossa civilização.
Do início da década de 70, altura em que irromperam na cena um de toda a cena musical, até hoje, continua desconhecida a verdadeira identidade dos membros da banda. É o mistério mais bem guardado de toda a história da música rock. Qual publicidade? As massas querem é rostos sorridentes, corpos de fazer sonhar, frases bombásticas, remédios contra a caspa, sapatos voadores, de preferência tudo junto. Algumas das canções-minuto deste disco têm títulos que são autênticas marcas comerciais: “Love is…”, “Secrets” ou “Moisture”, por exemplo, poderiam perfeitamente passar por nomes de perfumes. Outros, como “Perfect love”, “Loss of innocence”, “Possessions”, “Handful of desire” ou o magnífico “Act of being polite”, são ideais para preservativos. Já “Give it to someone else” ou “Ups and downs” soariam como menos próprios para idênticos fins. O pior são os medonhos “The nameless souls”, “Die in terror”, “Tragic bells” ou “The coming of the crow” – insecticidas, talvez… Chris Cutler, Fred Frith e Snakefinger são alguns dos anunciantes deste disco.

YASUAKI SHIMIZU
Music for Commercials
Made to Measure

yasuaki

O japonês Yasuaki Shimizu, como todos os japoneses, prefere a subtileza e a discrição – compôs música computorizada para anúncios televisivos da Knorr, Seiko, Sharp, Suntory, Honda, Bridgestone, etc., deu-lhes uma embalagem de luxo e apresentou a lista de supermercado como “produto artístico de qualidade” – táctica eminentemente nipónica, de reconversão, polimento tecnológico e deslocação do conteúdo ideológico original, para posterior exportação. Aqui a diferença está no fino sentido de humor e na asserção de que a Arte pode (e deve) ser conivente com a publicidade. Ao contrário dos Negativland e dos Residents, Shizimu fala a sério, ou pelo menos parece. Interessante a possibilidade de ouvir, sentado confortavelmente numa poltrona e a fumar cachimbo, o som de anúncios, sem imagens, num sofisticado leitor de compactos. Não menos interessante seria observar o fenómeno equivalente, em termos visuais – por exemplo, um “spot” das baterias Tudor, realizado por Manuel de Oliveira, ou as senhoras da Planta a dizer de sua justiça diante da câmara de Greenaway. Oshima e Almodôvar não poderiam, como é óbvio, filmar nada.

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yasuaki shimizu – music for commercials – aqui



Guerra Ao Vírus – Uma Gala De Artistas Portugueses Contra A Sida

Pop Rock

 

30 JANEIRO 1991

 

GUERRA AO VÍRUS Uma Gala de artistas portugueses contra a Sida

 

MARIA JOÃO

 

Cantora de jazz. Evoluiu do jazz tradicional para a improvisação e liberdade aprendidas com Bobby McFerrin. Trabalho mais no estrangeiro do que cá, onde quem devia apoiá-la, não apoia. Gravou com a pianista japonesa Aki Takasi um álbum que a crítica especializada internacional elegeu como dos melhores do ano. Em Outubro do ano passado reincidiu, em registo ao vivo, agora também acompanhada por Niels-Henning-Ørsted Pederson. Em Abril volta aos estúdios para gravar com uma banda portuguesa. Tenciona continuar a gravar por esse mundo fora. Um dia destes com Naná Vasconcelos ou um coro infantil. Quando canta, a expressão do rosto lembra a de Billie Holiday.

Maria João, como Billie, também canta com a alma. Aceitou o convite para participar na Gala por solidariedade e porque aproveita todas as ocasiões em que lhe pedem para cantar. No Coliseu, acompanham-na Carlos Bica e Bernardo Sassetti.

“Participo, primeiro por uma questão de solidariedade com as vítimas de uma doença que mata milhares de seres humanos, em todo o mundo. Depois, porque penso que este espectáculo vai ser importante para chamar a atenção das pessoas para esse facto, porque nós por cá somos muito distraídos em relação a essa doença. Pensamos que não nos atinge, que não é nada connosco. Precauções, nem pensar! Depois, porque gosto imenso de cantar, de maneiro que aproveito todas as oportunidades que surgem para o fazer, desde que haja uma sala boa, boas condições e boas pessoas a assistir.”

 

 

PAULO DE CARVALHO

 

Tem uma boa voz e uma certa propensão para o jazz, quando se concede certas liberdades vocais. Mas parece não querer arriscar, preferindo investir em terrenos mais seguros, capazes de lhe proporcionar êxitos populares como os “Meninos do Huambo”. Entrou em Festivais da Canção, mas já deve estar arrependido. Revelou-se surpreendentemente à vontade num disco inteiro a cantar fado.

“Tenho muito a ver com isto, embora não com esta organização, especificamente. Tinha planos para participar com outros amigos num outro espectáculo de solidariedade deste tipo que acabou por não se realizar. Em relação a este acabei por ser um bocado ultrapassado pelos acontecimentos. Não cheguei propriamente a ser convidado, mas sim a estar presente. Penso que desta vez não irei tocar ou cantar, mas apenas fazer apresentações. Se houver alguma participação, em termos de cantigas, certamente que será ao lado dos Trovante.”

 

 

AMÁLIA RODRIGUES

 

Com as quatro primeiras letras do seu nome se escreve a palavra alma. Alma portuguesa, perdida na eternidade do fado, da fatalidade tornada quase confortável. Amália é a voz da saudade que canta. Da nobreza e da tradição resistentes aos ventos gelados da modernidade. Voz correndo como um rio que nasce muito longe, cá dentro, desde antigamente.

Mulher vestida de negro com uma rosa rubra no coração. Lua que ilumina a noite lusitana. Viúva de Portugal. Ela diz ser apenas uma mulher normal. Quem somos nós para a contradizer.

“Fui convidada, mas não para cantar. Quero esclarecer isto, porque senão depois as pessoas pedem-me para o fazer… A primeira razão que me levou a participar nesta iniciativa é porque sou uma pessoa normal e por isso preocupo-me com as coisas horríveis que há no mundo. Acho que essa doença é uma doença horrível, feia, em muitos sentidos. Já fui cantar a Paris, convidada pela Line Renaud, numa gala que aí se realizou, também contra a sida, e agora volto a participar, não com prazer, pois não é por prazer que se participa numa causa destas, mas com muito boa vontade. Acho que as pessoas deviam realmente pensar nisto e comparecerem em massa também.”

 

 

HERMAN JOSÉ

 

O seu nome dispensa grandes apresentações. É o homem que em Portugal melhor sabe fazer rir. Alia a inteligência irónica e a sátira feroz a um apurado sentido do absurdo. Destrói e constrói os mecanismos e vícios dos nossos cérebros mal habituados.

Só o facto de gostar e, mais do que isso, compreender o sentido profundo do humor delirante dos Monty Python bastaria para fazermos dele um herói.

Na rádio é sempre brilhante. A televisão não sabe se há-de amá-lo ou odiá-lo. Tony Silva, Serafim Saudade, Estebes ou Maximiana é que são os portugueses reais. Os outros, os sérios, são caricaturas.

Sobre a Gala dos Artistas afirma que vai ter uma participação séria e discreta. Ou seja, não é para rir. O bom actor deve saber interpretar todos os papéis. Mesmo quando, como é o caso, não se trate de teatro.

“Os motivos que me levam a participar são por demais óbvios: porque é importantíssimo não adormecermos em relação a essa nova peste negra do nosso século. Dá-me a sensação que em Portugal vivemos todos num excessivo optimismo. Sinto isso pelas pessoas que me rodeiam. Sinto isso por uma certa contenção, pudor e medo com que muitas vezes os próprios órgãos de comunicação social se debruçam sobre o tema. É uma coisa que nos toca a todos de tão perto que é importante os artistas assumirem em Portugal o mesmo papel que têm assumido nos outros países – o de chamarem a tenção para um problema que está longe de ser resolvido e que nos pode afectar a todos. A minha participação no espectáculo, apenas como apresentador, vai ser discreta e portanto não vou (e se calhar porque também não me apetece) contar muitas anedotas nem ter muita piada, porque o tema não é propriamente aliciante, apesar de o espectáculo não pretender ser uma coisa triste, pesada e lamuriosa. Pelo contrário, é suposto ter optimismo, a começar pelo próprio cartaz, um desenho do Pomar que não é nem fatal nem fatídico, mas antes uma alusão ao próprio acto amoroso em si.”

 

 

RUI REININHO

 

Os rapazes dos GNR brincam com as palavras e com os sons. São homens temporariamente sós à procura da infância perdida. Tocam uma música colorida de palavras cruzadas, que fazem sentido doutra maneira. Parecem estar sempre a brincar, mas há quem os leve muito a sério e lhes condene as brincadeiras. A televisão, por exemplo, não deixou passar o vídeo da Maria, embora eles jurem a pés juntos tratar-se apenas de uma amiga. Alguns julgaram ver em “Dunas” alusões a práticas menos inocentes. Enfim, mesmo sem querer, os GNR esbarram constantemente nos temas proibidos. Ultimamente estão mais calmos (embora um antigo companheiro de armas esteja sempre a arranjar-lhes problemas) e Rui Reininho parece mesmo querer rivalizar com Bryan Ferry no papel de “crooner” cínico e bem falante. São dos melhores grupos de novo rock portugueses. Declaram que não se sentem responsabilizados pela existência do vírus.

“Porque é que a gente entra numa coisa dessas? Porque sei que nos dão mais atenção do que àquelas caras do costume, os políticos, etc… Não é que nos sintamos responsabilizados pela existência do vírus, mas se conseguirmos impedir que ele se propague… Há muita hipocrisia e mais uma vez, no caso das medidas ‘portugas’, acho que houve muitos erros, culpados pela propagação dessas histórias. Não há informação. O português acha que essas coisas acontecem sempre aos outros… por exemplo, nas farmácias, aqui há uns anos recusavam vender seringas e, ainda na semana passada, falávamos de um amigo meu que fazia quilómetros por noite, nomeadamente aqui no Porto, para as arranjar. As pessoas tinham atitudes morais desse género. Inibiam-se as pessoas na compra de preservativos, essa história toda… Acho que, nesse aspecto, podemos ‘dar um toque’, podemos falar nisso mais à vontade do que a dra. Maria Barroso, por exemplo, sem moralizar, como dizia o outro. Torna-se doloroso ver pessoas morrer por estupidez… É um pouco como aquela história de as vitaminas não serem comparticipadas… Toda a gente fala em prevenção, mas prevenção é coisa que não há, a única que há é a rodoviária e mesmo assim as pessoas morrem como tordos… A partir de aí é fácil ver o que acontece nas outras áreas… Vamos tocar talvez três canções, numa participação de dez ou quinze minutos. Uma delas será forçosamente ‘Morte ao Sol’.”

 

 

SÉRGIO GODINHO

 

Escritor de canções. Sobrevivente das histórias do nosso (des)contentamento. Vem de muitas lutas e algumas amizades construídas no caminho. Zeca Afonso, Brel, tropicalismo ou o rock anglo-saxónico são algumas das referências presentes na sua obra, mas que não chegam para a catalogar. Ainda bem. Não gostamos que chamem nomes a uma música que nos habituámos a fazer nossa.

Sérgio Godinho é dos que em Portugal melhor sabem contar e cantar uma vida e os seus sonhos, nos três minutos que dura uma canção. Minutos que são a própria vida. Quanto tempo dura a vida? O resto da nossa vida?

Recentemente esteve durante muitos dias, todos os dias, num auditório pequeno, para melhor nos contar as suas histórias, despojadas de tudo o que nos pudesse distrair. Depois gravou o disco. Escreve canções. Na Gala dos Artistas vai estar sozinho em palco, com a sua voz e uma guitarra acústica.

“Participo porque é um assunto importante que mexe mesmo connosco. Pediram-me que inventasse uma frase alusiva ao tema. Escolhi esta: ‘viver é a grande vingança do corpo’. O corpo vinga-se contra tudo o que lhe querem fazer sofrer. No espectáculo vou cantar duas canções, ainda não decidi quais, acompanhada só pela guitarra. Possivelmente tocarei ainda mais uma, integrado nos Trovante.”

 

 

LENA D’ÁGUA

 

Tem uma maneira engraçada de cantar e de se movimentar em palco. As pernas são bonitas, a cara também, as canções não ofendem. O pai foi um futebolista famoso. O irmão é um futebolista famoso. Ela é só famosa. Começou por ser “hippie”, nos tempos psicadélicos dos Beatnicks. Inesquecível um concerto, há muitos anos, em Sintra. Nos Salada de Frutas pediu para se olhar o “robot”. Muita gente olhou. Foi ficando cada vez mais doce e hoje, “sempre que o amor a quiser”, está pronta a acariciar com a voz. Voz que, em algumas canções (nunca ninguém reparou?) lembra a de uma rapariga inglesa chamada Sonja Kristina, vocalista de uns tais Curved Air.

As canções de Lena d’Água são tal qual o líquido vital: não ardem como bebidas fortes, mas refrescam e matam a sede.

“Aceitei o convite para participar como teria aceitado se se tratasse de uma gala para angariar fundos para as crianças deficientes mentais, para os estropiados da guerra, ou para quem quer que precisasse de ajuda e a pedisse. Da minha parte, sou sempre solidária.

Na minha actuação vou cantar, acompanhada pelo Pedro Osório, ao piano, ‘Não é Fácil o Amor’, do Janita Salomé. Quanto à outra canção ainda não ficou decidido qual será, talvez ‘Chanson Triste’, de um compositor do princípio do século.”



Nova Huta e a Voz do Tio Robô

04.02.2005
Nova Huta e a Voz do Tio Robô

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Günter Reznicek é um músico sediado em Hamburgo com raízes na música concreta e na electrónica contemporânea que um dia decidiu criar um projecto pop, com electrónica a cobrir as canções como creme de gelado, os Nova Huta. Ele e um tio imaginário, Bambji Robot, com quem partilhou os discos “At Bambji Robot’s Nonstop Datscha” e o novo “Here Come My Seltsam Voice”. Reznicek participa ainda no projecto Groenland Orchester e colaborou com Felix Kubin nos Klankrieg, além de assinar em nome próprio álbuns bem mais experimentais. Os Nova Huta fazem-se à estrada (portuguesa), a partir de hoje. Passagens asseguradas pelo Porto, Leiria e Lisboa. Mandámos um “mail” a Reznicek e ele respondeu.

FM – Como define esse tio imaginário?

Günter Reznicek – Só pelo facto de ser imaginário, á alguém que transporta a ideia de raízes para a música, numa relação privada mas também como elo de uma tradição musical mais comum. É o grande desconhecido por detrás de mim.

FM – Os Nova Huta são o seu lado “poppy”. Enquanto Reznicek gravou álbuns mais sérios e experimentais. Há algo a ligar as duas partes?

Günter Reznicek – Não creio que Nova Huta seja menos sério. Mesmo que a minha música em nome próprio seja obviamente mais experimental, começar a trabalhar como Nova Huta foi uma experiência mais vasta e arriscada, de um ponto de vista artístico. O mesmo se passa com os Groenland Orchester e Klankrieg, onde apenas sou um convidado: têm muito humor e é realmente de loucos a maneira como a música é feita, mas nenhum deles é um “projecto de diversão”. Têm sensibilidade/melancolia e curiosidade/humor como principais motores, o equilíbrio pode mudar de projecto para projecto mas nunca se trata de pensar muito sobre as intenções.

FM – Que significa “Datschadelic music”, como absurdamente define o estilo dos Nova Huta?

Günter Reznicek – Trata-se apenas de uma tentativa de dar à música um nome, uma marca a ferros, porque sempre achei que não era electrónica vulgar, pop ou outra música qualquer.

FM – Há alguma explicação para o título “Here Comes My Seltsam Voice”?

Günter Reznicek – “Seltsam” é uma palavra alemã para “bizarro”, com uma aura especial, difícil de transmitir. E é divertido tentar explicar o termo a um não-alemão. Escolhi o título por ser o primeiro álbum em que canto.

FM – A ironia desempenha um papel neste disco?

Günter Reznicek – Não um papel muito grande mas é evidente que há uma distância entre mim e os papéis, as personagens que os músicos pop e rock normalmente desempenham. Adoro isso e odeio isso!

FM – O termo “funny electronics” diz-lhe alguma coisa?

Günter Reznicek – Não me identifico muito, soa a música com piadas. Gosto de humor, mas tenho problemas com piadas.

FM – Porque inclui uma versão de “Killing an arab”, dos Cure, com o título “Killing an Error”?

Günter Reznicek – Queria mudar alguma coisa na minha versão e foi por isso que alterei o título.

FM – E a canção em português, “Guarde suas lágrimas para outra pessoa”?

Günter Reznicek – Foi só uma prenda a Portugal (e ao Brasil), porque a editora existe e tenho bons amigos lá, além de que a voz da cantora [a brasileira Nina de Faria] é bastante sensual.

FM – Moog, Sampler ou Casio. Qual é o seu brinquedo favorito?

Günter Reznicek – A minha cabeça e o meu corpo, mas é difícil gravá-los… Usei um Moog em “Killing an error”, são maravilhosas todas estas máquinas analógicas, os sintetizadores e órgãos antigos fazem-me chorar. Os “samplers” são uma verdadeira maravilha mas não os uso muito, não me pergunte porquê. E o Casio é uma coisa de plástico barata que tem dentro os ossos de toda a história da música, mas necessita de amor para descobrir a sua alma.

FM – Qual é o seu principal objectivo como músico?

Günter Reznicek – Tornar-me uma lenda, depois de morto.

Nova Huta
Porto | Faculdade de Belas Artes, Universidade do Porto
Hoje, a partir das 23h30
Bilhetes a €5
Leiria | Abadia
Dom., dia 6, às 23h
Consumo mínimo: €4
Lisboa | Galeria Zé dos Bois
R. Da Barroca, 59 Tel. 21 3430205
2ª, dia 7, a partir das 23h
Bilhetes: €7.5