Arquivo da Categoria: Folk-Rock

Lindisfarne – “Buried Treasures, vol. 1 & 2”

pop rock >> quarta-feira >> 02.06.1993


Lindisfarne
Buried Treasures, vol. 1 & 2
CD Virgin, distri. Edisom



Ao contrário do que se vai tornando norma, os Lindisfarne não pretendem com esta colectânea celebrar qualquer aniversário, embora também eles já existam há mais de duas décadas. A recolha destes tesouros enterrados prende-se antes com a descoberta de material das mais diversas origens que os músicos desencantaram nos arquivos da editora, estações de rádio e no baú das velharias. Abrangendo um período que vai de 1971 até à fase actual da banda, “Buried Treasures” inclui sessões para a Radio One, cassetes, um vídeo de uma digressão com Bob Dylan, “demos” variadas, versões alternativas, excertos declamados e todo o género de bugigangas musicais em que os seus autores garantem ter encontrado a verdadeira ess~encia da sua arte. Uma vontade de tudo querer mostrar que não adianta nem atrasa em relação ao que a banda produziu de melhor: os dois primeiros álbuns, “Nicely out of Tune” e “Fog on the Tyne”, nos quais figuaravam deliciosas melodias entre a folk e as histórias de embalar, como “Lady Eleanor” e “Meet me on the corner”. (5)

Donovan – “Donovan O Homem Da Atlântida” (concerto | antevisão)

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


DONOVAN o homem da Atlântida



“Atlantis” moeu o juízo a muita gente, da mesma forma que contribuiu para a união de muitos casalinhos nas festas e convívios que ajudaram a ultrapassar os estertores finais dos anos 60. Uma balada meio declamada, meio sussurrada, que foi um dos maiores êxitos de Donovan Leitch, o cantor escocês que começou por ser uma imitação de Bob Dylan e acabou por se tornar no rosto angélico do “flower power” e do psicadelismo.
Era a época das altas ondas do ácido e Donovan embarcou na viagem até à descoberta das “Cosmic Wheels” que fazem girar o universo – um bom álbum precedido de outros, sobretudo o duplo “A Gift from a Flower toa a Garden”, que não ofenderam ninguém e conseguiram mesmo funcionar como massagem aos neurónios, excitados até ao massacre pelas investidas de Hendrix, Joplin, Morrison, Velvet Underground e outros adeptos da “bad trip” com fins criativos.
Canções como “Colours”, “Season of the witch”, “Sunshine superman”, “Mellow Yellow” (onde fazia a apologia das drogas leves, tais como a casca de banana frita), “Jennifer Juniper” e “Hurdy gurdy man”, pelo contrário, navegavam pelos oceanos sem “speed” do submarino amarelo, onde, aliás, Donovan embarcou, na companhia dos Beatles, até à Índia.
O melhor de Donovan – que poucos conhecem e ninguém refere na sua discografia oficial – encontra-se, porém, no duplo “HMS Donovan”, (apareceu incluído numa antologia em caixa de quatro álbuns, juntamente com “Cosmic Wheels” e um registo com a banda Open Road), uma fantasia centrada nas personagens de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.
Quando nada o faria prever, os anos 90 têm-se mostrado favoráveis ao regresso do trovador. Os Happy Mondays gravaram uma versão de “Hurdy Gurgy Man” e incluíram o tema “Donovan”, em sua homenagem, no álbum “Pills ‘n’ Thrills and Bellyaches”. Será que o mundo já está preparado para o ressurgimento do continente da Atlântida? Ou, pura e simplesmente, enlouqueceu?
DIA 16, TEATRO S. LUIZ, 22H00

Chieftains (The) – “The Celtic Harp” + Boys Of The Lough – “The Fair Hills Of Ireland”

pop rock >> quarta-feira >> 12.05.1993
WORLD


A HARPA NO ALTO DO MONTE

THE CHIEFTAINS
The Celtic Harp (8)
CD RCA Victor, import. Bimotor e VGM
BOYS OF THE LOUGH
The Fair Hills Of Ireland (7)
CD Lough, import. Etnia



Na Irlanda é altura de aniversários. Chieftains e Boys of the Lough, dois dos mais prestigiados grupos de música tradicional deste país, abrem garrafas de champanhe – melhor dizendo, de um Jameson velhinho – e brindam à saúde. “Here’s to the company!”
A banda de Paddy Moloney, que há pouco mais de um mês deu “show” no Festival Intercéltico do Porto, faz a festa por interposta pessoa, na homenagem a Edward Bunting, que, em 1972, convocou durante um festival organizado pela Berlfast Harpers Society, os dez melhores harpistas da Irlanda e compilou posteriormente sucessivos manuscritos com partituras de harpa.
A 12 de Maio do ano passado, faz hoje precisamente um ano, os Chieftains tocaram num espectáculo de gala realizado no Ulster Hall, na companhia da Belfast Harper Orchestra e, mais tarde, no Barbican Hall, em Londres.
Desses dois concertos, foram gravados quatro temas ao vivo para inclusão neste 2The Celtic Harp”, com as restantes faixas registadas no lendário Threadmill Lane Studio, em Dublin, e nos estúdios de Frank Zappa (amigo dos Chieftains), em Los Angeles.
Quanto aos Boys of the Lough limitaram-se (!) a festejar 25 anos de carreira, com a modéstica dos grandes, através de “mais uma colecção de música tradicional”, como eles próprios dizem.
Dos Chieftains já tudo ou quase tudo se disse. Actualmente, passeiam a sua classe pelo mundo, contactando com as suas diversas culturas, que trazem para o convívio da Irlanda. Desta feita, contudo, aproveitaram a homenagem a Bunting para põr em destaque a harpa, o antigo instrumento tocado pelos bardos guerreiros da Irlanda antiga. Álbum sereno, de respiração ampla, navegando nas tonalidades aquáticas da harpa, guardou espaço para os traços mais nostálgicos da tradição irlandesa. Quatro temas constituem outros tantos solos de Matt Molloy, em flauta, Derek Bell, na harpa, Paddt Moloney, nas “uillean pipes”, e Kevin Conneff, numa vocalização “a capella”.
Quanto aos “rapazes do lago”, cumprem com merecimento a modéstia da sua proposta, em “The Fair Hills of Ireland”, enésima revisitação dos “reels”, “jigs”, “airs”, polcas e outros modos tradicionais que já entraram na rotina dos nossos hábitos de audição. Com inevitável competência e alguns momentos de maior brilhantismo – aqui a belíssima balada “Ban chnoic Erin O”, num diálogo de excepção entre a voz, o violino (Aly Bain é o elemento dos Boys com maior índice de virtuosismo) e o piano -, ou de exotismo, como é o caso da tradução ao vivo, em “The hunt”, de uma caçada à raposa, na qual o violino de Aly Bain perde completamente as estribeiras. Registe-se ainda a voz “a capella” de Cathal McConnell (excelente flautista, exemplar a sua execução em “The midsummer’s night”), em “The wind that shakes the barley”, modalidade pouco habitual na música deste grupo. E chega de Irlanda, durante uns tempos. Um último brinde, vindo da Escandináveia: chegou finalmente aos escaparates o álbum “Kaksi!” dos Hedningarna.
Hip, hip, hurra!