Arquivo da Categoria: Críticas 2000

Sérgio Godinho – “Lupa”

Y 15|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


SÉRGIO GODINHO
Lupa
Ed. e distri. EMI – VC
8|10


sg

Os arranjos de Nuno Rafael (Despe & Siga) e Hélder Gonçalves (Clã) explicam em grande parte a modernidade que continua a transparecer da obra de Sérgio Godinho, uma dos clássicos da moderna música portuguesa, mas não explicam tudo. “Lupa”, como o anterior “Domingos no Mundo”, revela uma música e um sentido poético aberto aos novos tempos onde a atualidade crítica de temas como “Benvindo sr. Presidente”, “Maçã com bicho (acho eu da praxe)” e “Na prisão” se harmoniza com a intemporalidade de “Dancemos no mundo”, “Visita guiada” e “A última sessão”, e as estratégias de sampling desafiam o jogo de palavras cruzadas dos poemas. Feitas as contas e interiorizada cada uma destas canções que continuam, como sempre, a falar de cada um de nós e do seu autor como atores de uma tragicomédia universal, destapemos sem receio a Caixa de Pandora que é também a “caixa negra dos amores” de “A última sessão” onde Sérgio se confirma como encenador das músicas cantadas pela emoção.



Rodrigo Leão – “Alma Mater”

Y 29|DEZEMBRO|2000
discos|escolhas


RODRIGO LEÃO
Alma Mater
Ed. e distri. Sony Música
7|10


rl

Está mais leve, a música de Rodrigo Leão. Ainda que as máscaras de tristeza do seu “Theatrum” não tenham sido integralmente arrancadas, nota-se que no novo “Alma Mater” o teclista da Sétima Legião arejou a sua música e abriu as janelas para deixar entrar o sol. Além da solenidade habitual dos corais dos Vox Ensemble, “Alma Mater” recebeu duas verdadeiras canções nas vozes de Adriana Calcanhotto e Lula Pena, ao mesmo tempo que as habituais divagações instrumentais perderam um pouco a vertente Nymaniana para se aconchegarem ao piano, romântico e aéreo, tão impregnado de luz e vibrações positivas que não admiraria se este “Alma Mater” fosse parar direitinho à estante da “new age”. Não ficaria mal ao lado de Roger Eno. Mais fogosas são as volutas de tango que Rodrigo Leão também resolveu entregar aos cuidados da alma mãe.



Pluramon – “Bit Sand Riders” (conj.)

08.12.2000

Pluramon
Bit Sand Riders
Mille Plateaux, distri. Ananana
8/10

The Tied + Ticked Trio
EA1 EA2 RMX
Morr Music, distri. Ananana
8/10

O Gabinete do Dr. Frankenstein

LINK (“The Monstrous Surplus” – 2007)

Bem vindos ao salão de espelhos das remisturas. Depois do produtor e do dj, é a vez do remisturador se assumir como o novo demiurgo, qual dr. Frankenstein capaz de insuflar vida a mostros, com a diferença de que, neste caso, não se trata de corpos mortos mas de criaturas bem vivas (exceptuando Jim O’Rourke que em “Rien” ressuscitou o cadáver dos Faust…). Há quem se oponha, como J. Swinscoe, dos Cinematic Orchestra, e quem ferre com brasão próprio a carne alheia, como Autechre, Atom Heart, Photek ou Kruder & Dorfmeister. Mas quando ao laboratório do remisturador chegam entidades complexas como os Pluramon, a tarefa do mago revela-se tanto mais estimulante quanto complicada.
O objecto em questão chama-se “Bit Sand Rider” e reúne remisturas de temas dos álbuns “Render Bandits” e “Pickup Canyon” da banda de Marcus Schmickler, com a lista de remisturadores a apresentar os Sensorama, Mogwai, Florian Hecker, Atom Heart, The High Llamas, Lee Ranaldo, Matmos, SND, FX Randomiz, Merxbow e os próprios Pluramon. Entre os reactores fractais dos Sensorama e as guitarras ambientais pós-rock dos Mogwai, o paisagismo digital de Hecker e as pulsações surpreendentemente rock de Atom Heart, a recusa do easy-listening dos High Llamas e o tom Faustiano com dub de cristal de Lee Ranaldo, o drum ‘n’ bass da central eléctrica dos Matmos e o swing torococoiano dos SND, a electrónica residual de FX Randomiz e o noise industrial dos Merzbow, “Bit Sand Riders” prolonga a sensibilidade pós-pós-rock dos Pluramon através dos meandros de um experimentalismo marcado por uma abordagem orgânica plenamente interiorizada da parte de todos os intervenientes.
O caso dos Tied + Ticked Trio é diferente. Não se trata aqui de remisturas mas de versões de temas do álbum do ano passado desta banda alemã, “EA1 EA2”, cujo Jazz electrónico se estende até às margens mais insuspeitas. Se as paráfrases dos Opiate se mostram inofensivas, já o desempenho de Christof Kurzman – com uma recuperação do “sinfonismo” saxofonístico dos Urban Sax transposto para o jazz galáctico dos Orchester 33 1/3 – se revela absolutamente estimulante. Max Ernst (leia-se Thomas Brinkmann,…), o único com participação dupla no disco, opta num dos temas pelo “dub” e no outro por uma tecno a duas velocidades, em ambos os casos, como sempre, atirando-as de encontrão para a pista de dança. Pós-house introvertida, com vibrafones a ecoar secretamente é a proposta dos Console, o groove electrónico em contraste com o jazz livre de Weschel Garland (o homem por detrás dos Winder) onde as vozes, o saxofone e de novo o vibrafone discorrem suspensos no espaço. Kandis (de Jens Messel, dos Fumble) remete sem surpresas para a electrónica lúdica que actualmente prolifera na Alemanha para finalmente Gustavo Lamas, da escola electrónica argentina (consultar a colectânea “Elektronische Musik aus Buenos Aires”) fazer as vezes de Thomas Brinkmann, embora sem o golpe de asa do mestre.
Dois álbuns com matéria fértil para reflexão que acima de tudo constituem uma imensa fonte de prazer.